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O que explica o comportamento do preço do leite no Brasil

postado em 05/10/2017

4 comentários
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*Por Duarte Vilela, João César Resende e José Bellini Leite, pesquisadores da Embrapa Gado de Leite.

A modernização tecnológica permite que as fazendas se tornem mais eficientes e produtivas, produzindo mais leite com utilização de menos fatores de produção. Consequentemente, a redução geral dos custos de produção permite aos produtores aumentarem a produção mesmo recebendo preços mais baixos, fato comprovado pela evolução da produção, da produtividade animal e dos preços, comparando-os entre si ao longo das décadas, conforme se pode observar no gráfico abaixo.

O argumento mais forte sobre a evolução significativa da pecuária leiteira nacional vem do mercado: de 1974 a 2016, enquanto o preço real do leite recebido pelo produtor caiu 53,5% (de R$ 2,94 para R$ 1,57), a produção de leite aumentou 473,6% (de 7,1 para 34 milhões de toneladas). Como explicar essa aparente contradição, se não recorrendo ao aumento da produtividade que no mesmo período cresceu 236% (de 655 kg/vaca/ano para 1.546 kg/vaca/ano).

Gráfico 1. Evolução do preço real do leite ao produtor, produção e produtividade animal de 1974 a 2015 (1974=100). Fonte: IBGE (2016), elaborado pelos autores.

 comportamento do preço do leite no Brasil

Desde 2010 o preço do leite ao produtor apresenta certa regularidade, com crescimento de apenas 2,8% em sete anos. Em longo prazo, observa-se ascensão da produção e preço estável, reflexo do menor custo de produção, o que demonstra o potencial da atividade. Neste período, enquanto a produção cresceu 9,9%, o rebanho decresceu 1% e a produtividade cresceu 15,4%. Pode-se concluir que o setor produtivo se modernizou tecnologicamente e está mais eficiente, com os preços para o consumidor também acompanhando a tendência de queda. Se não houvesse essa modernização, o consumidor estaria pagando hoje preços semelhantes ou superiores aos de 1978 (R$3,84/litro).

Num prazo mais longo, o aumento da produção pode ocorrer por meio de ganhos de produtividade por animal ou por área. No caso da produção de leite, investimentos em genética e manejo, por exemplo, exigem um prazo mais longo para refletir na produção. Como o número de produtores que comercializam leite supera 800 mil e os investimentos de cada um são feitos em tempos diferentes e desconectados, os contínuos aumentos na produção no País são causados por ações diretas e, na maioria das vezes, de curto prazo.

Para uma análise mais detalhada do comportamento dos preços é importante ir além da porteira da fazenda, compreender outras variáveis que podem explicar melhor a sua evolução ao longo dos anos, como: (i) a relação entre oferta e demanda; (ii) a relação entre indústria e produtor; (iii) as alterações no mercado de leite e; (iv) as interferências do governo.

Relação entre oferta e demanda

O primeiro ponto ao analisar a evolução dos preços de um produto é considerar a relação entre oferta e demanda. Quando há um aumento no preço, cada produtor procura ajustar a produção da melhor maneira possível em seu sistema. A sazonalidade da produção no Brasil é um exemplo, quando o alimento do rebanho torna-se mais escasso e caro, entressafra, período em que há menor oferta de leite e o preço tende a subir. Isto tem estimulado uma expressiva parcela de produtores a se ajustarem e produzirem cada vez mais na entressafra a ponto de que hoje a diferença entre o leite produzido na safra e entressafra ser a menor de toda a história. No curto prazo, a alternativa mais utilizada e de resposta rápida é a disponibilidade de alimento às vacas em lactação, seja em quantidade e/ou qualidade.

Tem-se anualmente 21,7 milhões de vacas ordenhadas, o que resulta num potencial incremento na produção em curto espaço de tempo. A falta de ação coordenada entre os segmentos do setor, notadamente entre produtor e indústria, pode resultar num aumento desproporcional da produção que excede a capacidade de consumo do mercado naquele determinado momento. Quando isto ocorre os preços naturalmente caem, primeiro o preço recebido pelo produtor, e bem mais tarde o preço pago pelo consumidor, se o aumento da produção persistir. Se o mercado é de concorrência imperfeita, como muitas vezes ocorre nos segmentos da indústria e do varejo, esta queda dos preços para o consumidor pode não ocorrer ou ocorrer mais lentamente e de forma menos intensa do que a esperada, comparativamente a queda do preço ao produtor.

Outro fator complicador na definição dos preços ao produtor são as duas características marcantes que diferenciam a pecuária de leite nacional: a primeira é a grande diversidade dos sistemas de produção e, a segunda, a produção pulverizada em praticamente todos os estados da Federação. Estima-se que a produção de leite esteja presente em 554 das 558 microrregiões consideradas pelo IBGE. Com o setor heterogêneo e disperso, enquanto em determinadas regiões há excesso de leite, em outras há falta, impactando nos preços ao produtor. Outro fato é o custo de transação para organização da categoria, o que nestas circunstâncias dificulta em muito a defesa dos interesses classistas, o que não se observa nos laticínios. Mesmo em momentos de baixa oferta não fazem frente para obter melhores preços. Em menor número e melhor organizados, as indústrias podem estruturar e obter preços compensadores a montante e se posicionar a jusante, frente aos grandes varejistas, que possuem comando final sobre as cadeias produtivas, incluindo a do leite.

Relação entre indústria e produtor

É inquestionável o papel que a indústria vem assumindo ao longo dos anos em liderar cada vez mais a busca de leite com qualidade e confiabilidade, mas pode fazer mais. A indústria começa a compreender que, muito além das questões de infraestrutura, nutrição e genética, é fundamental a melhoria da gestão nas propriedades leiteiras, sem a qual nenhuma prosperará no longo prazo - capacitar os produtores para que eles vejam e ajam como empresários.

Alguns laticínios exigem padrões mínimos de qualidade para adquirir o leite do produtor, pagando prêmio por qualidade e principalmente por volume. Assim, uma maneira de diferenciar o leite pelo melhor preço é, além da escala de produção, aprimorar sua qualidade.

Porém, a relação indústria-produtor ainda se tem mostrada competitiva e oportunista, apesar do progresso registrado na última década. No momento da alta de preços, os produtores praticamente transformam-se em vendedores de leite, esquecendo-se de qualquer programa de fidelização e cooperação. Por sua vez a indústria tem mais força e condições de mudar a relação comercial existente por ser quem reúne diariamente o leite dos produtores e detém a leitura diária do mercado.

Duas características agravam esta relação: a primeira é a baixa capacidade da grande maioria dos produtores diferenciarem e agregarem valor ao leite que produzem e, a segunda, é a perecibilidade do produto que comercializam, impondo o transporte quase diário do produto por indústrias que estejam normalmente próximas. Por questão logística, as compras normalmente são locais e em muitos casos há poucos laticínios em uma região e às vezes, um laticínio pode ser o único comprador naquela região. Por outro lado, há muitos estabelecimentos pecuários que vendem leite e o volume ofertado por eles representam, em geral, uma pequena parcela do volume total demandado pelo laticínio. Nessas condições, as indústrias têm a capacidade de afetar o preço pago pelo leite em função da demanda e os produtores, por outro lado, historicamente são tomadores de preço, como mencionado anteriormente.

Há trabalhos que buscam evidências empíricas da relação entre quantidade de laticínios em determinada região e preço do leite ao produtor. Há evidências de que um menor preço do leite recebido pelos produtores locais está associado a um número menor de laticínios atuando em um determinado município. A falta de concorrência amplia o poder de mercado dos laticínios, implicando em redução do preço do leite recebido pelos produtores. Uma forma clássica de fazer frente a esse poder de mercado seria a organização dos produtores em cooperativas ou associações, para aumentar o volume comercializado e o poder de barganha. Esta prática é hoje pouco adotada no Brasil, pois menos de 40% do leite nacional é cooperativado.

Alterações no mercado de leite

Os anos 90 foram marcados por profundas alterações no mercado, cujos principais momentos ocorreram a partir de 1992 impactando os preços do leite ao produtor. São exemplos destas alterações: (i) o fim do tabelamento do leite pasteurizado; (ii) a abertura da economia à concorrência externa pela redução de barreiras tarifárias e não tarifárias; (iii) mudanças no perfil social e econômico do consumidor devido à forte urbanização; (iv) início do crescimento acelerado das vendas de leite longa vida e; (v) entrada das grandes redes varejistas (supermercados) na distribuição de lácteos, notadamente do leite longa vida.

Embora necessário e reivindicado pelos agentes do mercado, o fim do controle dos preços do leite pelo governo, quando ocorreu, pegou o segmento da produção desprevenido. Habituado há mais de quatro décadas a esse sistema de remuneração, os produtores não se articularam como deveriam para a chegada desse dia. Até hoje o setor leiteiro nacional, notadamente os produtores, não se recuperou totalmente dos traumas do descongelamento, haja vista que sistematicamente ainda reclamam do preço recebido pelo leite. Hoje, estes são determinados pelo mercado, no qual o varejo dita o valor máximo a ser pago e os produtores não mais definem os preços de acordo com seus custos, diretamente fixados pelos laticínios em consequência da imposição do mercado. A renda obtida pelo produtor oscilava de acordo com a sazonalidade da produção, mas estava de alguma maneira protegida pelo regime de fixação de preços. A abertura comercial e a estabilidade de preços formaram um novo cenário, em que o preço do leite passou a ser definido pela interação entre oferta e demanda.

Com a estabilização da moeda, os laticínios também passaram a viver num cenário até então pouco conhecido. Muitas alterações estruturais ocorreram: (i) redução das margens de lucro; (ii) fim dos grandes ganhos financeiros, principalmente aqueles obtidos pelas empresas de leite pasteurizado que o vendiam praticamente à vista e pagavam ao produtor com prazos estendidos; (iii) necessidade de redução substancial de custos; (iv) necessidade de buscar a rentabilidade através da maior rotatividade dos ativos; (v) elevada competição com agentes sem fábrica que realizavam elevadas importações e reidratações (mais de 75% do total importado), principalmente por empresas privadas fora do setor de laticínios; e (vi) forte movimento de concentração por meio de aquisições das pequenas e médias empresas e cooperativas por grandes grupos nacionais e internacionais.

Enquanto a venda de leite pasteurizado declinava 25% de 1990 a 1993, as vendas de leite longas vidas cresciam 415% de 1991 a 1995. Além dos problemas causados pelo mau desempenho econômico do País no início daquela década, os consumidores de leite pasteurizado estavam descontentes com o produto devido: (i) ao prazo de validade de apenas um dia, exigindo a compra diária; (ii) a má qualidade microbiológica, ocasionada pelas condições inadequadas de higiene da ordenha, transporte e refrigeração; (iv) a má qualidade da embalagem plástica flexível. Os mercados regionalmente delimitados favoreciam preços mais elevados por acordos entre os vendedores locais (cartel) e falta de diversificação – o único tipo de leite pasteurizado disponível era o leite fluido desnatado e integral.

Além da recuperação e estabilização econômica a partir de 1994, promovidas com o Plano Real, muitas mudanças levaram ao crescimento das vendas de leite longa vida. Apesar de encontrar uma forte corrente contra até os dias atuais, o leite longa vida deu uma significativa contribuição na ampliação do mercado de leite de consumo do Brasil, pela praticidade no transporte e estocagem sem necessidade de refrigeração, diversidade, disponibilidade no mercado de diferentes marcas e preço competitivo. A sua evolução foi meteórica, em 1994 detinha 20% de participação do mercado de leite fluido, em 1996 atingia 39% e 52% em 2000. Em 2014, segundo a Associação Brasileira de Leite Longa Vida (ABLV), a participação chegou a 61,5% do mercado de 6,7 bilhões de litros produzidos formalmente. Se considerar o leite fluido total produzido hoje, se estima participação de 85% do mercado nacional. Segundo a ABLV, o faturamento do segmento deve alcançar R$ 16 bilhões em 2015. Em 2016, o consumo no Brasil alcançou 6,8 bilhões de litros e a expectativa da entidade é de aumento de 2% em 2017.

Transformações também ocorreram no comportamento de compra do consumidor, passando a dar maior importância à praticidade, a preocupação com a nutrição e a saúde. O envelhecimento da população, o aumento da expectativa de vida, a maior urbanização e a renda também contribuíram para as mudanças no perfil do consumidor, como já mencionando.

Finalmente, aflorou a importância dos supermercados na distribuição de lácteos, favorecidos pelo aumento substancial das vendas de leite longa vida. A vantagem atingia a todos, para o varejo possibilitava maior margem de lucro, para os laticínios parceria com canais de distribuição de grande envergadura, melhorava a logística de entrega e previsão de compras, para o consumidor, evitava a compra diária nas padarias e, para o produtor?

Interferência do governo na pecuária

Nas últimas décadas o principal objetivo das autoridades econômicas brasileiras foi reduzir a inflação, para tanto o País passou por vários planos econômicos que não tiveram sucesso, como o Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor I e II, com características de congelamento de preços e aumento na taxa de juros visando o controle da inflação. Isso ocorreu de 1986 a partir do Plano Cruzado até julho de 1994, quando se deu o Plano Real que surgia com os mesmos objetivos dos planos anteriores. Porém, com características diferentes dos demais, o não congelamento de preços, que de certa forma elevava o seu nível pelas expectativas dos agentes econômicos. Por outro lado, impactou negativamente ao produtor de leite uma vez que para cobrir os déficits e pressionar a queda dos preços dos lácteos recorria-se a massivas importações.

A moeda só se estabilizou plenamente a partir de 1996. A taxa de inflação medida pelo IPCA caiu de 66% para 15,8% de 1995 para 1996, registrando índices ainda menores nos anos subsequentes, culminando em 3,2% em 1998. O êxito do Plano Real com o controle efetivo da inflação teve reflexos positivos no consumo de lácteos e também no preço do leite ao produtor.

Uma longa tendência de queda real dos preços do leite ao produtor, iniciada em 1978 foi interrompida em 2005. A tendência de aumento dos preços do leite ao produtor foi vigorosa até 2014, perdendo, contudo, ímpeto a partir deste ano, mas reagindo em 2016. A expectativa dos produtores para os próximos anos é de otimismo.
 

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Comentários

Paulo Biasotto

Erechim - Rio Grande do Sul - Produtor rural LEITE,Rep Comercial
postado em 06/10/2017

Essa questão de leite se parece com a ave QUERO QUERO(canta longe do ninho).Nós produtores temos que ficar atentos.Como explicar,Buenos Aires existe uma pizzaria para 2400 habitantes e consumo de mussarela de quase três kg por habitante ano.São Paulo,capital,segue no mesmo rumo.  Nas demais cidades e diferente! Donde vem essa matéria-prima Para fabricar toda essa mussarela!

Paulo Fernando Machado

Piracicaba - São Paulo - Pesquisa/ensino
postado em 06/10/2017

Parabéns Duarte, Resende e Bellini.
O artigo é uma análise precisa dos fatores que influenciam a economia da cadeia do leite no Brasil.
Como consequência, se me permitem, entendo que é urgente se fazer uma política de relacionamento das transações entre indústria e produtor, a exemplo do que é feito nos EUA, Canadá e países Europeus. Não é uma questão de se definir preços mínimos mas, sim, de regramento de formas de pagamento, previsão de compras para no mínimo seis meses, limites de compras com valores determinados (cotas), dentre outras, para que a indústria tenha mais previsibilidade para suas operações e os produtores mais informações para planejar sua produção e adequação dos processos produtivos. Para que isto funcione, no entanto, há necessidade de maior paridade entre as partes e um "juíz" devidamente reconhecido por ambos. Uma alternativa já existente são os Conseleites regionais que precisariam ter seu escopo ampliado, do cálculo do preço sugerido para o mercado, para os demais serviços que mencionei acima.
Espero que minhas considerações ajudem na melhoria da cadeia.

Volnei João Meller

Criciúma - Santa Catarina - Produção de leite
postado em 11/10/2017

A análise estaria mais completa se abordasse também a questão do poder aquisitivo da população como componente de formação de preços e determinante de volume de consumo.

Sergio Ocampos

Brasília - Distrito Federal - Produção de leite
postado em 15/10/2017

Parabéns aos três pesquisadores. No entanto, entendo que faltou uma análise mais abrangente e aprofundada dos fatores que influenciaram os preços do leite pago aos produtores no período de 2014 a 2017, haja vista que neste interregno surgiu a crise econômica que estamos vivenciando, aumento do desemprego, queda do poder aquisitivo da população e aumento da inflação, fatores que influenciaram decisivamente no consumo de leite. É verdade que, não obstante isso, até setembro de 2016, o valor pago pelo leite aos produtores foi positivo, vindo, porém, a partir daí em queda livre, não se tendo perspectiva de melhora a curto prazo. O que será dos produtores menores, se essa realidade se perpetuar?            

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