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Parâmetros produtivos e reprodutivos associados ao comportamento de estro - Parte 3

Por Ricarda Maria dos Santos e José Luiz Moraes Vasconcelos
postado em 08/07/2016

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Este texto é a parte da palestra apresentada pelo Dr. Ronaldo Cerri da University of British Columbia, do Canadá, no XX Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, realizado em Uberlândia de 17 e 18 de março de 2016.

Parâmetros de produção e expressão do estro

A detecção do estro em vacas leiteiras confinadas passou a ser um desafio à medida que a produção de leite aumentou. Estudos anteriores que somente consideraram comportamento de monta como medida da intensidade e duração do estro relataram uma queda consistente neste comportamento com o aumento da produção de leite (Lopez et al., 2004; Rivera et al., 2010).

Uma importante questão ainda sem resposta é se o comportamento de monta pode ser usado como padrão ouro para a expressão do estro (intensidade e duração), considerando os desafios enfrentados por vacas leiteiras em free-stalls e pisos de concreto para expressar a monta, atividade que causa significativo estresse sobre cascos e pernas. Um recente levantamento revelou que a taxa de detecção de estro (Denis-Robichaud et al., 2015) está abaixo de 50%, mas a proporção de vacas inseminadas mediante detecção de estro ainda se confunde com o uso de IATF. A falha na inseminação artificial (IA) tem importante impacto sobre a taxa de prenhez dos rebanhos canadenses e revela uma grande oportunidade de melhorar a fertilidade.

Ordem de partos, produção de leite e condição corporal

Um extenso estudo de campo (Lopez-Gatius et al., 2005) concluiu que os dois principais fatores que afetam o aumento da atividade estral foram ordem de lactação e produção de leite, enquanto o grau de aumento de atividade foi positivamente correlacionado com a fertilidade pós-IA. Esta correlação não foi claramente expressa pelo autor, mas foi posteriormente corroborada por estudos recentes (Madureira et al., 2015a). Produção de leite, por exemplo, parece afetar a sensibilidade geral dos pedômetros ou monitores de atividade em detectar reais eventos de comportamento estral (Holman et al., 2011). Entretanto, nenhum dos estudos acima avaliou eventos fisiológicos reprodutivos mais detalhados associados ao comportamento estral natural e o nível de atividade de sistemas MAA (detectores eletrônicos de monta e monitores automáticos de atividade) associados a estes eventos. Além disso, recentemente foram publicados estudos mais robustos usando um número adequado de observações de estro e de vacas, permitindo obter conclusões mais confiáveis.

Um estudo recente de nosso grupo identificou uma série de fatores de risco associados à intensidade da expressão do estro. Em nosso estudo, vacas multíparas expressaram menor pico e duração de atividade e episódios comparadas às vacas primíparas (Madureira et al., 2015a). López-Gatius et al. (2005) observaram que, para cada ordem adicional de parto, a atividade no estro foi reduzida em 21,4%. Walker et al. (1996), por outro lado, descreveram que a duração do estro era quase 50% mais curta em vacas leiteiras em lactação primíparas que em multíparas. Nosso estudo não suporta achados de recentes estudos que relataram não haver associação entre ordem de partos e atividade física durante o estro (Arney et al., 1994; Løvendahl e Chagunda 2010; VeerKamp et al., 2000).

Diferenças metodológicas podem explicar essa variação entre diferentes estudos sobre a associação entre ordem de partos e atividade física, tais como frequência de transmissão de dados dos sensores ao software, ou diferentes raças de vacas. Além disso, informações mais detalhadas sobre a correlação das leituras de diferentes sistemas MAA serão fundamentais para o uso adequado de dados eletrônicos de avaliação comportamental e correlação com parâmetros fisiológicos. Em uma simples análise, nosso grupo comparou um colar e um pedômetro: a correlação entre a intensidade do pico de episódios de estro foi aceitável para os dois sistemas, mas não a um ponto que permita uso indistinto dos dados de um ou outro sistema (Madureira et al., 2015; Silper et al., 2015c). Diferentes sistemas MAA capturam diferentes movimentos e diferentes algoritmos e softwares filtram os dados, fornecendo medidas variáveis de atividade basal e aumento relativo de atividade durante o estro.

Maior produção de leite foi negativamente correlacionada com aceitação de monta no estro (Lopez et al., 2004; Rivera et al., 2010). A redução das concentrações de estradiol, possivelmente decorrente do maior fluxo sanguíneo hepático e clearance de esteroides (Sangsritavong et al., 2002; Vasconcelos et al., 2003), é uma possível explicação para menor expressão de comportamentos de estro, especialmente aceitação da monta. Madureira et al. (2015a) observaram maior intensidade e duração do pico das vacas no quartil inferior de produção de leite, mas não em outras categorias de produção de leite. Podemos supor que os dados concordam parcialmente com estudos anteriores (Lopez et al., 2004; Rivera et al., 2010), mas parece que a aceitação da monta é mais afetada que a atividade física geral medida por sistemas MAA. Recentes estudos de nosso grupo (Silper et al., 2015a; Madureira et al., 2015a) observaram que novilhas e vacas com menor nível de atividade basal tendem a apresentar maior aumento relativo de atividade, mas não necessariamente maior aumento absoluto em número de passos durante o estro. Apesar dos resultados acima discutidos, intensidade do pico de atividade durante o estro foi fracamente associada à produção de leite, enfatizando a influência de fatores como ECC e ordem de partos e provavelmente outros fatores como tamanho do grupo, estado sanitário e claudicação (Van Vliet e Van Eerdenburg, 1996; López-Gatius et al., 2005; Morris et al., 2009).

Alguns autores observaram efeitos negativos da produção de leite sobre as taxas de concepção (López-Gatius et al., 2005; Valenza et al., 2012), enquanto outros concluíram que não houve efeito (López-Gatius et al., 2006; Madureira et al., 2015a). A capacidade individual das vacas de lidar com alta produção de leite e atuais práticas de manejo são importantes para determinar a probabilidade de ocorrência do efeito negativo da lactação sobre a fertilidade. Fica difícil estabelecer esta correlação, pois vacas com baixa produção de leite podem estar com doenças que afetam também o trato reprodutivo, enquanto vacas de alta produção estão geralmente entre as mais saudáveis do rebanho (Santos et al., 2009). Como Bello et al. (2012) descreveram, produção de leite e reprodução não estão ligadas por uma “relação universal homogênea”.

O escore de condição corporal foi o principal fator associado à atividade física ao estro e P/IA (Madureira et al., 2015a). Este estudo suporta as conclusões de Løvendahl e Chagunda (2010), que observaram que nos primeiros 5 meses pós-parto, baixo ECC no pós-parto imediato teve correlação negativa com atividade estral. Aungier et al. (2012) também relataram que um aumento de 0,25 no ECC foi significativamente correlacionado com maior aumento de atividade física antes da ovulação. Vacas que perderam menos de 100 kg de PC entre 2 semanas pré-parto a 5 semanas pós-parto apresentaram maior intensidade dos dois primeiros estros pós-parto (Burnett et al., 2015). O mecanismo específico pelo qual um estado temporário de balanço negativo de energia reduz o comportamento estral estrógeno-dependente ainda não está claro.

Dinâmica folicular

A ovulação de grandes folículos por vacas em lactação poderia ser resultado de dominância folicular ou pró-estro prolongados, decorrente de baixas concentrações de progesterona, de estradiol e intervalo mais longo para a indução de picos de GnRH e LH. Diâmetro do folículo e concentração plasmática de estradiol estão negativamente correlacionados em vacas (Saumande e Humblot, 2005), ou não se correlacionam em novilhas e vacas (Aungier et al., 2015; Madureira et al., 2015a; Silper et al., 2015c). Folículos maiores levam mais tempo ou falham em ovular e os oócitos tem menor probabilidade de serem fertilizados. A maior incidência de distúrbios reprodutivos (falha de ovulação, ovulações múltiplas, cistos ovarianos) em vacas em lactação pode ser decorrente de níveis mais baixos de estradiol circulante no período pré-ovulatório (Sartori et al., 2004).

A correlação entre o diâmetro do folículo pré-ovulatório e estradiol plasmático é fraca (Silper et al., 2015c; r = 0.17) e está de acordo com valores relatados (Glencross et al., 1981; Cook et al., 1986; Sartori et al., 2004; Walker et al., 2008). Embora alguns autores tenham relatado que folículos maiores estão associados a concentrações mais elevadas de estradiol plasmático (Cerri et al., 2004), fica claro a partir do atual experimento que ordem de partos, ECC e produção de leite são os fatores de maior impacto sobre as concentrações circulantes de estradiol. Vacas classificadas como demonstrando alto nível de atividade tinham diâmetro semelhante do folículo pré-ovulatório, mas concentração de estradiol plasmático ligeiramente mais elevada que vacas classificadas com de baixa atividade (Madureira et al., 2015a). Apesar das diferenças nas concentrações de estradiol observadas quando as vacas foram divididas em grupos por atividade estral, a intensidade do pico medido por diferentes sistemas MAA só apresentou fraca correlação com a concentração plasmática de estradiol, demonstrando variação maior que a esperada. Um recente estudo de Aungier et al. (2015) não observou correlação entre picos de atividade medidos por MAA e perfis de FSH, LH e estradiol. Entretanto, um maior pico de concentração plasmática de estradiol foi associado aos comportamentos de estro como aceitação da monta.

A ovulação de folículos pré-ovulatórios de diâmetro semelhante sugere pouca variação nas concentrações de progesterona depois da IA. Dados de Madureira et al. (2015) sugerem que as concentrações de progesterona 10 dias pós-IA foram mais elevadas em vacas que manifestaram maior intensidade de estro na IA. A elevação mais rápida da progesterona no início do ciclo poderia resultar em maior desenvolvimento embrionário inicial (Mann e Lamming, 2001; Bisinotto et al., 2010), possivelmente por alteração do perfil de receptores no endométrio (Lonergan, 2011). Esta poderia ser a possível explicação para maiores taxas de prenhez por IA observadas em vacas com maior pico de atividade no estro.

Confira a parte I e II do artigo:

Parâmetros produtivos e reprodutivos associados ao comportamento de estro - Parte 1

Parâmetros produtivos e reprodutivos associados ao comportamento de estro - Parte 2


 

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