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Monitoramento de doenças metabólicas no periparto - Parte II: Cetose subclínica

Por Davi Brito de Araujo, M.V., M.S., M.A.B.
postado em 17/10/2016

1 comentário
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No último artigo foi discutida a importância do monitoramento de distúrbios metabólicos na fazenda leiteira, com foco na cetose subclínica. Também foram revisados métodos e indicadores para avaliação da condição energética do rebanho associados às concentrações de beta-hidroxi-butirato (BHBA) no sangue. Nesse segundo e último artigo serão descritos os benefícios do manejo nutricional adequado e o uso de tecnologias estratégicas na prevenção e tratamento da cetose em vacas de leite durante o período de transição.

A cetose

A cetose e fígado gorduroso são transtornos metabólicos oriundos de alterações no metabolismo de lipídios e carboidratos em vacas de leite, principalmente durante o período de transição. Em bovinos, a cetose clínica é definida por elevada concentração sanguínea de corpos cetônicos (β-hidroxi-butirato ou BHBA > 27 mg/dL), associado com hipoglicemia (glicose < 45 mg/dL) e sinais clínicos da doença como: falta de apetite, anorexia, atonia ruminal, fezes secas, queda na produção de leite e sinais neurológicos como letargia, agressividade e excesso de movimentação de cabeça e língua.

Já a cetose subclínica define-se por excesso de corpos cetônicos no sangue (BHBA > 12 mg/dL), porém sem apresentação dos sinais clínicos descritos anteriormente. Por não apresentar sinais clínicos, a cetose subclínica pode trazer dificuldades para o diagnóstico, mas, é importante lembrar que a incidência da doença em rebanhos leiteiros varia entre 30 – 60%, resultando em grandes prejuízos de ordem econômica, uma vez que, vários outros transtornos e doenças do rebanho têm raiz nesse transtorno metabólico.

Incidência e prevalência

É preciso salientar que incidência e prevalência são dois termos distintos. Nesse caso a prevalência de cetose subclínica refere-se ao número de animais diagnosticados com cetose subclínica num determinado momento. Já a incidência refere-se ao número de animais que desenvolve a doença ao longo de tempo, por exemplo, a lactação. Dessa forma pode-se dizer que a prevalência da cetose subclínica durante as duas primeiras semanas pós-parto e a incidência durante a lactação são bastante elevadas, sendo que de acordo com dados internacionais, nos EUA e no Canadá, a cetose subclínica ultrapassou a hipocalcemia ou febre do leite desde o final dos anos 90 - como doença de maior importância econômica para rebanhos leiteiros.

De acordo com alguns levantamentos realizados por importantes pesquisadores da área de saúde e nutrição de bovinos em Wisconsin, EUA., de maneira conservadora deve-se considerar a relação proporcional entre incidência e prevalência de 2:1 e 2,5:1. Em outras palavras, em um rebanho que no 10º dia pós-parto identifica-se 10% das vacas com cetose subclínica, significa que a incidência da doença nesse rebanho ao longo da lactação gira em torno de 20-25%.

A maior incidência ocorre em animais de maior produção de leite, ou seja, vacas de alta produção entre a 3ª e 5ª lactação têm grandes chances de desenvolver cetose subclínica pós-parto. No Brasil existe um agravante que é a alta temperatura e umidade ao longo ano, principalmente no verão nos estados de maior produção leiteira, entre eles MG, RS, PR, GO, SP e SC. Animais com estresse térmico e falta de conforto têm mais chances de apresentarem cetose e qualquer outro tipo de doença infeciosa e metabólica durante o peri-parto. Isso, quando comparados aos rebanhos encontrados em ambiente com temperatura, umidade e conforto adequados.

Em estudo realizado recentemente em MG e PR em mais de 1.500 animais, a prevalência de cetose subclínica durante a 2ª semana pós-parto em vacas leiteiras, sob diversos tipos de manejo, entre os meses de abril e julho, gira em torno de 26%, considerando primíparas e multíparas. Assim, espera-se que no Brasil, em média, 60% de um rebanho sofra com a cetose subclínica e seus prejuízos ao longo da lactação.

Outro dado relevante é que em rebanhos de gado cruzado, principalmente Girolando, em sistema de pastejo com suplementação de concentrado diário, a cetose subclínica causa prejuízos, inclusive naqueles com média de produção diária de 12-15 kg de leite. E muitas vezes devido à menor velocidade desses animais em produzir leite, comparado com outras raças de grande mérito leiteiro, a doença pode aparecer não só durante os primeiros 10 dias pós-parto, mas adiante até a 3ª e 4ª semana de lactação, já que o balanço energético negativo pode acabar acontecendo, mais pronunciadamente próximo ao suposto pico de lactação.

Sintamos e tratamento

Como descrito anteriormente, diferente da cetose clínica, a cetose subclínica não apresenta sintomas. Dessa forma o monitoramento por meio de tecnologias disponíveis no mercado é o melhor “remédio”, ou seja, a melhor forma de prevenção para reduzir a incidência da doença em propriedades leiteiras.

Formas de prevenção

Estratégias de manejo e alimentação adequados são fundamentais para a prevenção da cetose subclínica em rebanhos leiteiros. Entre elas:

Manejo da condição corporal durante o final da gestação: Animais obesos, ou seja, com escore de condição corporal maiores de 3,5 (escala de 1 – 5) são mais propensos a desenvolver fígado gorduroso e cetose. Geralmente a ocorrência de vacas obesas em rebanhos leiteiros é consequência de lactação prolongada, e lactação prolongada é resultado de baixa eficiência reprodutiva. Vacas com períodos extensos de lactação tendem a ganhar mais peso e chegar ao período seco com excesso de reserva corpórea. Dessa forma é relativamente normal encontrar em rebanhos de baixa eficiência reprodutiva maior ocorrência de cetose clínica e subclínica.

Balanço adequado de nutrientes: Tanto dietas com alta e com baixa densidade energética no final da gestação podem comprometer a saúde do animal, por acentuar o balanço negativo nessa fase e levar ao desenvolvimento de cetose. Por isso, mais importante que a densidade energética do alimento são as mudanças no consumo durante esse período. Dietas que permitem menores mudanças abruptas na ingestão são mais favoráveis. É recomendável oferecer dietas com nível mediano de FDN (35 – 40%) para assegurar uma densidade energética adequada, e que a fonte dessa FDN seja, principalmente, de forragens com tamanho longo de partículas (5 – 8 cm de comprimento) para estimular o enchimento e as contrações ruminais - evitando alterações abruptas no consumo.

Uso de aditivos na dieta: Existem inúmeros aditivos disponíveis no mercado com a finalidade de reduzir a ocorrência da cetose subclínica. Deve-se priorizar o uso de aditivos que aumentem o aporte energético ou que melhorem o metabolismo de lipídeos no fígado desses animais.

a) Aditivos melhoradores de desempenho ionóforos e não-ionóforos: Estes aditivos produzidos pelas mais variadas espécies de bactérias do gênero Streptomyces sp. são capazes de selecionar inúmeras bactérias específicas no rúmen e favorecer a produção de ácidos graxos importantes, aumentando o aporte de energia ao animal. As moléculas dessa categoria mais conhecidas são a monensina sódica e virginiamicina. Vários estudos demonstram a eficiência da monensina sódica em reduzir a produção de AGNE e BHBA em resposta ao maior aporte energético devido à maior produção de ácido propiônico no rúmen. A virginiamicina tem se mostrado muito eficaz no controle da produção de lactato no rúmen, reduzindo a acidose lática e prevalecendo o consumo de alimentos de forma mais segura e regular. A associação das duas moléculas tem se mostrado promissora para o ótimo desempenho do rebanho. Recomenda-se 300-340 mg de virginiamicina/animal/dia e 200-300 mg de monensina/animal/dia.

b) Precursores glicogênicos:
Entre eles propionato de cálcio, propileno glicol e glicerol. Todos esses produtos oferecem precursores para a síntese de glicose no fígado. O interessante da molécula de propionato de cálcio, é que além fornecer o propionato, ela ainda fornece cálcio, mineral de extrema importância nesse período. Infelizmente esses ingredientes - quando incorporados -  à dieta inibem o consumo de matéria seca, e acabam tendo consumo esporádico pelo animal. Para que o uso seja efetivo, deve-se fornecer via oral, por exemplo, através do uso de sonda esofagiana, também conhecida no campo como “Drench”.  A quantidade sugerida varia entre 400-500 gramas em uma única dosagem - restrita às últimas duas semanas de gestação e aos primeiros 10-15 dias pós-parto.

c) Amino ácidos e vitaminas do complexo B:
São elementos fundamentais em muitos processos metabólicos que afetam o metabolismo de carboidratos e lipídeos. Nessa categoria os mais expressivos em respostas à prevenção de cetose e fígado gorduroso são: Colina, Niacina e Metionina. Além de reduzir as concentrações de AGNE no sangue a aumentar a exportação de VLDL hepática, a suplementação correta deles durante o período de transição pode aumentar a produção e teor de gordura no leite, além de reduzir inúmeras outras doenças de fundo energético. Para uso em ruminantes, é importante que essas moléculas sejam oferecidas com algum revestimento e proteção à ação ruminal. Dessa forma preserva-se a substância para que seja absorvida diretamente no intestino e não seja perdida pelos micro-organismos do rúmen do animal. Dosagens:

- Colina: De 10-15 gramas/animal/dia durante pré-parto, e de 15-20 gramas/animal/dia durante o pós-parto;
- Niacina: De 12-15 gramas/animal/dia durante peri-parto;
- Metionina: De 5-10 gramas/animal/dia na finalidade de atingir níveis adequados ao balanço Lisina e Metionina metabolizável numa relação de 3,1:1 ou seja; 7,2% e 2,6% respectivamente.


d) Propionato de cromo:
Entre todas as moléculas de cromo, o proprionato de cromo é o único aprovado pelo FDA (Food and Drug Administration), órgão nos EUA similar à ANVISA no Brasil para o uso em bovinos e seres humanos. Inúmeros estudos já foram realizados com cromo dentro e fora do Brasil, mas só recentemente pesquisadores da UNESP de Botucatu demostraram a magnitude da resistência insulínica em vacas de leite e como o propionato de cromo pode atenuar esses efeitos. Uma vez que a resistência insulínica diminui a entrada de glicose das células do organismo por deixá-las menos sensíveis à insulina, a suplementação de propionato de cromo favorece essa captação de glicose nos tecidos, dessa forma menos reservas são mobilizadas e menores são as chances do animal desenvolver cetose subclínica. Recomenda-se entre 10-12 mg de propionato de cromo por animal/dia durante o ano todo - inclusive no período seco.

Impacto e prejuízo da doença no rebanho

Vários estudos epidemiológicos somando mais de 450.000 animais demostraram que em média a cetose subclínica está associada com redução de 5% na produção de leite em toda a lactação. O impacto econômico direto de uma fazenda de 3.000 litros de leite/dia é de menos 150 litros de leite, ou seja, esse produtor deixa de produzir, praticamente, 55.000 litros de leite ao longo do ano.

Porém os grandes prejuízos estão relacionados ao aparecimento de outras doenças de raiz energética. A prevalência da cetose subclínica está associada ao aumento de cetose clínica, deslocamento de abomaso, retenção de placenta, metrite/endometrite, mastite e hipocalcemia em propriedades leiteiras. Dessa forma, os prejuízos causados por tratamentos, descarte dos animais, descarte de leite, mão de obra, além de baixa produção e eficiência reprodutiva são, muitas vezes, irreversíveis durante a lactação.

A melhor maneira de reduzir as doenças descritas acima é melhorando o status energético do rebanho - reduzindo a cetose subclínica por meio de um ótimo monitoramento diário e pensando em estratégias de alimentação e manejo aplicáveis à propriedade.

Atualmente, sem sombra de dúvidas, a cetose subclínica acomete entre 50-60% dos animais de todos os rebanhos de média/grande produção do nosso país - de Norte a Sul.

Confira a parte I deste artigo clicando aqui. 
 

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Comentários

Oscar Urdangaray

OUTRA - OUTRO - Argentina - Instituições governamentais
postado em 23/10/2016

---Buena síntesis.
--- Interesente las diferencias en la presentación
temporal a causa del mérito genético.
---Saludos.

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