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A mamada cruzada após o desaleitamento parece não afetar negativamente a saúde do úbere ou produção de leite

Por Carla Maris Machado Bittar e Fernanda Lavínia Moura Silva
postado em 30/08/2016

2 comentários
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A mamada cruzada pode ocorrer quando bezerros leiteiros são alojados de forma coletiva. Embora a maioria dos bezerros cessem este comportamento quando são desaleitados, alguns podem mantê-lo, o que tem sido associado com deformação do úbere, mastite e reduções na produção de leite. Como resultado, a mamada cruzada pode contribuir para a relutância de alguns produtores em adotar alojamento em grupo de bezerros em aleitamento.

Evidências indicam que a mamada cruzada antes e durante o desaleitamento pode ser reflexo de inadequada ingestão de leite ou de energia e pode ainda ser afetada pelo método de desaleitamento. No entanto, este comportamento também é observado em bezerros que recebem leite ad libitum via bico, mas com menor intensidade.

mamada cruzada

Alguns estudos citam a mamada cruzada entre bezerros desaleitados como um fator de risco para danificar o úbere ou para o desenvolvimento de mastite na primeira lactação destes animais. Tem sido sugerido que a mamada cruzada pode abrir o canal do teto, permitindo a entrada de bactérias, ou pode transferir bactérias de tetos infectados para bezerras não infectadas. Contudo, até o momento, nenhum estudo foi conduzido para testar a ligação entre a mamada cruzada e incidência de mastite e danos no úbere.

Apesar do fato da mamada cruzada ser de maior preocupação em animais mais velhos, prévios estudos têm focado em mamada cruzada ocorrendo em bezerros antes e logo após o desaleitamento. A ligação entre a mamada cruzada em bezerros em aleitamento e aquela em animais mais velhos é suportada ambos por estudos epidemiológicos e em menor escala por estudos experimentais. Porque este comportamento se desenvolve e persiste em alguns indivíduos mas não em outros é uma questão que permanece sem resposta. No entanto, algumas evidências sugerem que o papel do receptor da mamada pode ser importante para a persistência deste comportamento.

Um trabalho conduzido por um grupo de pesquisa canadense teve como objetivo entender os fatores que levam alguns bezerros a persistirem com a mamada cruzada muito após o desaleitamento (Vaughan et al., 2016). Foram examinados os papeis de reciprocidade da mamada cruzada, a qual tem sido sugerido como fator de contribuição para a permanência de comportamento nos animais. Os animais foram acompanhados até sua primeira lactação, para examinar se a mamada cruzada tem efeito sobre a saúde do úbere ou a produção de leite.

Para a pesquisa, foram utilizadas 56 bezerras Holandesas. Os animais foram colostrados dentro das primeiras 6 horas após o nascimento e transferidos para baias individuais. Dentro das primeiras 24 horas de vida, as bezerras foram pesadas e identificadas por meio de brincos. Entre os dias 1 e 5 após o nascimento, as bezerras receberam até 12 L/d de leite pasteurizado (i.e., ad libitum) em duas refeições via bico. Seis dias após o nascimento (± 1 d), as bezerras foram movidas para uma baia em grupo até completar 8 animais por baia. Após completar uma baia se iniciava nova formação de grupo por baia.

A área de alimentação continha um aleitador e um alimentador de grãos automático, um alimentador de feno e um bebedouro. Para o estudo, foi utilizado leite descarte pasteurizado. O consumo de leite, concentrado, feno e água foi diariamente contabilizado. Os alimentadores de grãos e de leite registraram o tempo, o número e a duração das visitas. As bezerras foram desaleitadas de acordo com o consumo de concentrado, sendo alocadas em 4 tratamentos de desaleitamento (baixo-baixo, baixo-alto, alto-baixo, alto-alto), com o desaleitamento começando quando as bezerras estivessem consumindo 200 g/d (baixo) ou 400 g/d (alto) de concentrado e sendo completado quando as bezerras estivessem consumindo 800 g/d (baixo) ou 1600 g/d (alto) por 3 dias consecutivos.

Uma vez que os animais consumiam por 3 dias consecutivos a quantidade determinada, o fornecimento de leite reduzia de 12 L para 9 L. Ao atingirem a quantidade de concentrado final, os animais foram desaleitados. O computador foi programado para que os bezerros que não atingissem o consumo esperado fossem desaleitados aos 74 dias de vida, automaticamente. Após o desaleitamento, uma vez que a bezerra mais jovem de um grupo alcançasse 87 dias de idade, o grupo era movido para outra propriedade, onde permaneciam até alcançar a idade reprodutiva (aproximadamente 18 meses).

Três câmeras de vídeo foram colocadas em cada baia, tanto na propriedade onde se encontravam as bezerras, como na propriedade onde ficavam as novilhas. A mamada cruzada foi definida quando uma bezerra (autora) mamava o umbigo ou a barriga de outra bezerra (receptora). Para cada evento de mamada cruzada com 10 segundos ou mais, o tempo de início e de término, localização e identificação do autor e do receptor foi registrado.

As bezerras foram observadas continuamente por 15 h (das 8:00 as 23:00 h) em cada dia gravado. Foram observados 2 dias de vídeo em 5 diferentes períodos de idade (Tabela 1), com um total de 10 dias por bezerra. Diariamente, a ingestão de feno e de grão e a energia digestível estimada foram registradas. Os animais foram monitorados até o final de sua primeira lactação, e todos os incidentes de úbere danificado e mastite clínica pós parto foram anotados. A contagem de células somáticas (CCS) do primeiro teste do leite e a produção de leite corrigida para 305 dias de lactação foram registrados.

Tabela 1. Período experimental; 2 dias selecionados para cada período.

mamada cruzada

Como resultados, foi observado que a duração da mamada cruzada foi baixa, com poucos bezerros sendo observados manifestando este comportamento nos diferentes períodos (Figura 1). No entanto, a distribuição da mamada cruzada entre as bezerras teve uma resposta enviesada. Apesar da maioria das bezerras (82,7%) realizarem a mamada cruzada pelo menos uma vez, bezerras com as maiores durações de mamadas foram responsáveis pela maior parte dos eventos observados. Assim, as bezerras que mais manifestam este comportamento, são aquelas que mama por mais tempo.

Nenhuma diferença foi encontrada entre os períodos de observação nas durações diárias da mamada cruzada. No entanto, foi observada tendência (p=0,08) de aumento na mamada cruzada uma semana após o desaleitamento (51-89 d de idade) e uma semana após serem transferidas para o galpão de novilhas (92-120 d de idade), e um significante aumento (P=0,03) entre a 1° semana após o desaleitamento (51-89 d de idade) e após aproximadamente 1 mês no galpão (120-155 d de idade). Uma maior proporção de novilhas as quais foram observadas realizando mamada cruzada nos meses 4 ao 5 de idade, foram também observadas realizando esta ação antes do desaleitamento, mostrando persistência no comportamento; dos 26 indivíduos que realizaram a mamada cruzada no galpão de novilhas, 19 foram observados realizando esta ação antes do desaleitamento (73,1%). No entanto, dos 22 bezerros que não foram observados realizando mamada cruzada antes do desaleitamento, 7 indivíduos foram observados realizando esta ação entre 4 a 5 meses de idade (31,8%).

Figura 1. (a) Duração da mamada cruzada (min/15h); (b) tempo sendo mamada (min/15h). Cada ponto vazio representa uma bezerra, e o ponto preenchido a mediana.
mamada cruzada

Não foi encontrada nenhuma correlação significativa entre a duração diária da mamada cruzada entre 4 e 5 meses de idade com a ingestão de grãos, de feno, ou o consumo de energia digestível. Além disso, nenhuma correlação foi encontrada entre a mamada cruzada e a idade ou duração do processo de desaleitamento. As bezerras não foram igualmente alvo da mamada cruzada; dentro de cada período poucas bezerras foram observadas sendo mamadas por mais de 5 minutos.

Uma semana após o desaleitamento, bezerras que realizaram mais vezes a mamada cruzada também foram mamadas mais vezes, e essa relação se manteve após os grupos serem transferidos para o galpão de novilhas. As bezerras não realizam a mamada cruzada indiscriminadamente; das bezerras que realizavam a mamada cruzada, 58,1% tinham uma parceira preferencial. Embora a maioria dos animais (82,7%) foi alvo de mamada cruzada em pelo menos um período, as receptoras preferenciais (n = 17; 32,7% das bezerras) representam 77,4% de todos os eventos de mamada cruzada.

Com a exceção de um par, pares recíprocos de mamada cruzada não foram observados antes do desaleitamento. Em contraste, indivíduos que realizaram mamada cruzada no último período no galpão de novilhas parecem formar pares. Embora as bezerras tenham apresentado mamada cruzada sobre 1 ou 2 indivíduos em cada período observado, pares fixos de parceiros preferenciais só apareceram no final do período na fazenda de novilhas.

Em bovinos de vida livre, o desaleitamento ocorre tardiamente, podendo explicar porque este comportamento continua em animais mais velhos, desde que o bezerro seja capaz de encontrar um receptor que não vai resistir em ser mamado. Os bezerros podem aceitar mais facilmente serem mamados se eles próprios realizarem esse comportamento e a formação de pares pode explicar o porquê de esse comportamento persistir em determinados animais. Assim, separar estes animais pode oferecer uma abordagem prática para interromper este comportamento.

Os indivíduos que sofreram mamadas no período final do estudo (120-155 d de idade) não foram significativamente mais propensos a ter mastite durante a sua primeira lactação ou maior CCS no primeiro teste, quando comparados com aqueles que não sofreram mamadas (Tabela 2). Não foram observados úberes danificados ou quartos não funcionais em nenhuma das novilhas. Adicionalmente, nenhuma diferença significativa foi encontrada na produção de leite estimada para 305 d entre as bezerras que sofreram mamadas pós desaleitamento e aqueles que não sofreram.

Tabela 2. Medidas de saúde e produção de vacas receptoras ou não e subconjunto de vacas que formaram pares nos 4 e 5 meses de idade1.

mamada cruzada

Os resultados mostram que a mamada cruzada pode persistir em animais já desaleitados e mais velhos, como um resultado da formação de pares recíprocos ou preferenciais, os quais surgem ao longo do tempo. De maneira geral, a mamada cruzada entre bezerras de 4 e 5 meses de idade foi baixa e realizada em poucos indivíduos. Esta ação, observada entre as novilhas, não pareceu ser prejudicial para a saúde do úbere. Nos últimos 3 períodos de observação após o desaleitamento, os animais que mais realizavam mamada cruzada tenderam a ser aqueles que mais recebiam esta ação. No entanto, esta relação não foi encontrada antes ou imediatamente após o desaleitamento. Com a exceção de 2 bezerras, pares de parceiros preferenciais não foram evidentes antes do desaleitamento, mas entre 4 a 5 meses de idade foram observados pares de bezerros autores e receptores que foram responsáveis pela maioria da ação.

Para os autores foi importante observar a possibilidade de predizer se o indivíduo poderia realizar a mamada cruzada em idades mais avançadas, uma vez que este comportamento é sempre associado por técnicos e produtores como mais prejudicial neste período da vida, sendo fator de risco para danos no úbere e mastite. Os autores observaram que existe uma correlação significativa entre a duração da mamada cruzada pelas bezerras, 2 meses após o desaleitamento, com a manifestação deste comportamento antes e imediatamente após o desaleitamento. Entretanto, um terço das bezerras as quais não foram observadas realizando esta ação antes do desaleitamento, foram observadas realizando a mamada cruzada no final do período na fazenda de novilhas. Assim, a mamada cruzada no início da vida dos animais, não é um forte preditor da quantidade de vezes que esta ação será realizada meses após o desaleitamento.

Tanto o desaleitamento precoce como o abrupto são conhecidos por aumentar a mamada cruzada uma vez que o rúmen desses bezerros se encontra provavelmente menos desenvolvido, podendo ter dificuldades para se ajustar a mudanças na dieta. Neste estudo, no entanto, não foi encontrada relação significativa entre a mamada cruzada ao final das observações e a idade ao desaleitamento ou duração do mesmo. Para os autores, desaleitar de acordo com a ingestão de concentrado pode atender as necessidades nutricionais dos animais por meio de alimentos sólidos permitindo que sejam desaleitados mais cedo, fato que ocorreu neste estudo.

A mamada cruzada pode ser considerada um comportamento estereotipado, que é definido como ação repetitiva, fixa na forma e orientação e não apresenta nenhuma função óbvia. Foi proposto que, em indivíduos que continuam a mamada cruzada após o desaleitamento, este comportamento se torna habitual e separado dos fatores subjacentes que poderiam ter sido responsáveis pelo seu desenvolvimento inicial. Embora a maioria dos bezerros cessem este comportamento após o desaleitamento, os que continuam em fases posteriores aumentam sua duração diária. Neste estudo, a mamada cruzada pareceu não influenciar a probabilidade de desenvolver mastite na primeira lactação de vacas receptoras, em comparação com indivíduos que não foram mamados. Adicionalmente, não foi observado nenhum incidente de úbere danificado, nem diferença na produção de leite.

Como conclusão, a mamada cruzada pode começar em uma idade jovem e se tornar um hábito ao longo do tempo, persistindo quando se formam parceiros preferenciais. Embora a razão pela qual alguns bezerros realizam esta ação e outros não (mesmo quando criados sob as mesmas condições) permaneça incerta, as duplas de novilhas parceiras preferenciais encontrados no estudo podem ser uma explicação para que esse comportamento persista. Além disso, os resultados deste estudo sugerem que baixos níveis de mamada cruzada não aumentam a probabilidade de mastite ou danos no úbere de receptores.

Referências bibliográficas:

Vaughan, A., Miguel-Pacheco, G. G., de Passillé, A. M., & Rushen, J. 2016. Reciprocated cross sucking between dairy calves after weaning off milk does not appear to negatively affect udder health or production. Journal of Dairy Science, v. 99: 5596-5603.

Cometários

A pesquisa vem mostrando diversos benefícios da criação em grupos, como o maior consumo de alimento e maior sociabilidade, com manifestação de comportamentos positivos (brincadeiras), mas também comportamento negativos ou estereotipados como é o caso da mamada cruzada. No entanto, a criação de bezerras em lotes tem sido associada a maior ocorrência de perda de tetos e mastite na primeira lactação, principalmente pela observação de mamadas cruzadas. Este aspecto, juntamente com a maior transmissão de doenças, tem desmotivado produtores a adoção de sistemas de criação coletivas. Este trabalho, é o primeiro a demonstrar que não existe correlação entre as mamadas cruzadas e a perda de tetos ou injúrias ao úbere, assim como na ocorrência de mastite ou maior CCS. No entanto, a dieta líquida fornecida era leite descarte pasteurizado, o que pode ter reduzido a chance de mostrar problemas como a ocorrência de mastite em resposta a inoculação de bactérias do focinho da bezerra que terminou de consumir o leite e agora está realizando mamada cruzada. De qualquer modo, o fato dos animais formarem pares preferenciais e este ser o fator que faz com que o comportamento seja persistentes em animais mais velhos, sugere que a separação destes pares poder auxiliar na solução do problema.


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Comentários

Andre Rego

Xanxerê - Santa Catarina - Produção de leite
postado em 30/08/2016

PARABÉNS PELA MATERIA, MUITO INTERRESANTE E ESCLARECEDORA.

Roberto Jank Jr.

Descalvado - São Paulo - Produção de leite
postado em 30/08/2016

Se ao invés de Holandesas fossem Girolandas, a sequela em tetos seria enorme.

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