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Prática do discurso

POR PAULO DO CARMO MARTINS

PANORAMA DE MERCADO

EM 14/06/2004

11 MIN DE LEITURA

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Estreei nesta coluna quinzenal em 14 de março de 2003. Nestes 31 artigos que até o presente fiz aqui publicar, procurei abordar diferentes temas relacionados ao leite, sempre sob olhar de um economista, sem necessariamente expressar a opinião da Embrapa. Separar a opinião pessoal e a posição da Empresa é algo fundamental. Quebro momentaneamente este comportamento, trazendo para este privilegiado espaço o discurso que proferi, quando de minha assunção a condição de Chefe-Geral, ocorrida em 03 de junho próximo passado. Vamos ao discurso...

"Em sua Carta ao Rei Dom Manuel comunicando a previsível descoberta do novo continente, o escrivão Pero Vaz de Caminha valorizou sua narrativa, visando ser atendido no seu pedido de trazer de volta à corte o seu genro, que estava na distante ilha de São Tomé. No afã de agradá-lo, numa época em que alimento era tão escasso e caro, que ser gordo era sinônimo de riqueza e poder, Caminha cometeu um exagero, ao afirmar que "querendo-se aproveitar desta terra tão graciosa, dar-se-á nela tudo".

José Bonifácio - o Patriarca da Independência, na Assembléia Constituinte de 1823, pronunciou um duro e histórico discurso contra a escravidão. E mostrou visão de futuro, quando afirmou que "uma vez que acabe o péssimo método da lavoura de destruir matas e esterilizar terrenos em rápida progressão, e se forem introduzidos instrumentos e técnicas apropriados, certamente a agricultura produzirá a riqueza necessária para tornar o Brasil um país grande, não somente em extensão territorial".

Confesso que sou fã de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá. Sua história de empreendedor está a merecer o devido reconhecimento da sociedade brasileira. Mas isso ainda acontecerá, pois estamos aprendendo, gradativamente, a valorizar as instituições e as pessoas que as fazem.

Em sua autobiografia, Mauá afirmou que o Brasil somente seria uma nação rica, quando solucionasse quatro problemas. O primeiro: as estradas e as vias de comunicação. O segundo seria a dedicação ao trabalho. O terceiro seria disponibilizar capital a juros estimulantes ao investimento. E o quarto problema a enfrentar seria criar, no Brasil, o que hoje concebemos como pesquisa, ensino e extensão voltados para a agricultura.

A história econômica do Brasil é a história da sua agricultura. Sem a renda gerada na agricultura, não haveria capital para a construção de Itaipu. A Petrobrás não seria hoje um orgulho nacional, ao completar 50 anos de existência. E Brasília seria apenas um sonho ou visão de Dom Bosco. O setor agrícola bancou tudo isso e muito mais. Alguns poderiam dizer que o desenvolvimento se deu também por meio de empréstimos internacionais. Sim, é verdade. Mas, pergunto: qual o único setor que é superavitário na Balança Comercial, continuamente, desde que a República foi fundada?

Voltemos a Caminha. Pero Vaz legitimou uma inverdade. E as nossas aulas de ciências nos trouxeram a errada confirmação. Como todos nós fizemos crescer um pezinho de feijão em algodão embebido com água, imaginamos que agricultura é algo fácil. Cunhamos até a expressão Tirar Leite, como se fosse algo exploratório e não cultivável, como tirar terra de um leito de um rio, ou explorar uma pedreira.

A visão de Mauá sobre a agricultura, somente foi considerada nos anos 70. Há 31 atrás foi criado o Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária, formado por universidades, empresas estaduais de pesquisa e a Embrapa, com o propósito de aumentar a oferta de alimentos, não por meio da expansão da fronteira agrícola, mas por meio do aumento de produtividade. Aí sim, Caminha passou a ter razão. Se querem um exemplo, vejam o caso do cerrado brasileiro. Quando Brasília foi inaugurada, o correto seria afirmar que naquelas terras, em se plantando, quase nada dava. E o presidente JK faleceu sem que tenha visto quanto produtivo é o cerrado brasileiro hoje. Isso foi obra da tecnologia agrícola brasileira.

A missão da Embrapa é contribuir para que os alimentos sejam cada vez mais baratos e mais confiáveis ao consumidor, conservando o meio ambiente, para que o setor produtivo possa se manter competitivo. Isso somente é possível com a geração contínua de tecnologias.

E estamos cumprindo essa missão, em várias frentes. Não somente na soja, no boi gordo ou no frango. Vejam o caso do leite. Entre 1970 e 2003, o Brasil mais do que triplicou sua produção, enquanto que o custo de produção caiu para 1/3 do que era. Se não houvesse pesquisa nacional o Brasil teria visto dizimar toda produção nacional, quando o Governo Collor abriu abruptamente o nosso mercado a importações de derivados lácteos, que chegavam aqui a 14% do que custavam em seus países de origem, em função de subsídios.

Em cada uma das 37 unidades da Embrapa geramos tecnologias que asseguram emprego, renda e redução das imensas desigualdades regionais e sociais, marcas estruturais do Brasil. Padre Vieira afirmou que "o semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é a ação; e as ações são as que dão ser ao pregador. Ter nome de pregador, ou ser pregador de nome não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras são o que convertem o mundo". Temos essa noção na Embrapa. Pesquisador aqui não se legitima somente com o trabalho no laboratório ou texto publicado em revista acadêmica. Pesquisador aqui, para ser reconhecido como tal, segue o que ensinam Milton Nascimento e Fernando Brant: o artista tem de ir onde o povo está. O pesquisador tem de ir ao encontro do produtor, conhecer seu ambiente, suas dificuldades, enfim, seu modo de agir e pensar. E isso nós fazemos nesta Unidade. Nossa equipe conhece cada palmo desse Brasil, pois o leite é um dos poucos produtos que é encontrado em todos os 5.400 municípios da Federação.

Se o Brasil está aprendendo a valorizar o agronegócio, por falta de informação, ainda não valoriza a sua atividade láctea. Mas deveria. O IBGE nos informa que o que o leite deixa de renda nas propriedades é mais que o café, a cana-de-açúcar, o arroz, o trigo, o algodão, o milho e as aves, isoladamente. Se consideramos a cadeia de lácteos, seu faturamento é 80% maior do que todo o seguimento de bebidas, é mais que o faturamento com bovinos, é mais que toda a indústria farmacêutica, é mais que a produção de eletrônicos. É o segmento de maior faturamento no setor de alimentos, correspondendo a 1,5% do PIB.

Uma ótima opção para gerar emprego é apoiar a implantação de laticínios, dado o forte encadeamento que esta indústria tem na economia. Quando um laticínio vende um queijo a um supermercado, por exemplo, aquele queijo não gerou emprego somente no laticínio, na fazenda e na transportadora, mas também na indústria de plásticos, no setor de papel e celulose, em material elétrico, em madeira e mobiliário...Enfim, os laticínios alavancam empregos em 41 dos 75 setores que compõem a economia brasileira.

Ao longo de seus 28 anos de existência, com a dedicação dos que aqui passaram e permanecem, Esta Unidade de Pesquisa da Embrapa tornou-se referência mundial na geração de soluções tecnológicas para a produção de leite nos trópicos. Somos 260 colaboradores. Nossa equipe técnica é formada por 60 doutores, e 22 mestres. Todos nós, focados num único assunto: o leite.

O Congresso nacional discute, neste momento, o Projeto de Lei de Parceria Público-Privado. Aqui na Embrapa, desde o seu início, fazemos parceria com o setor privado, até porque, esse é o nosso modelo de ação. Muitos dos senhores que aqui estão, vindos de diferentes estados, atestam isso. Produtores, criadores, cooperativas, empresas de máquinas e equipamentos e laticínios, que se interagem conosco.

Nesta gestão, ampliaremos a relação com o setor produtivo e com a sociedade. Consideramos estratégico aumentar o nosso compromisso e a nossa responsabilidade com dois assuntos primordiais. O primeiro é a busca da melhoria qualidade do leite e da segurança do alimento. Já trabalhamos esse assunto há uma década. Mas temos um longo caminho a seguir, se quisermos preservar o mercado nacional para os produtos nacionais. É por isso que estaremos contratando, nos próximos dias, mais um doutor nesta área.

A outra ação estratégica é focar o mercado internacional. Formaremos equipe com fortíssima interação com o setor exportador de lácteos brasileiros, realizando pesquisas que subsidiem o setor privado e o Governo nas negociações com a ALCA e União Européia. Não podemos mais nos basear somente em estudos da Austrália e Nova Zelândia, quando negociamos. E mais, iremos seguir a Rota Lula. Todos os países que o presidente visitou até o momento, são potenciais compradores de leite e de tecnologia láctea brasileiros. Isso é gerar emprego e renda no Brasil.

Ainda nessa visão de Parceria Público Privado, numa ação inédita e conjunta com a Organização das Cooperativas do Brasil, com a Confederação Brasileira das Cooperativas de Leite e com o CEPEA/USP, nos próximos dois meses estaremos disponibilizando informações fidedignas de preços de produtos lácteos para as cooperativas e para todo o mercado nacional. Ações como essas reduzem as imperfeições de mercado e protegem os pequenos produtores e os pequenos laticínios.

Também intensificaremos a Parceria Pública. E, nesse caso, as universidades são naturais parceiras, dado o forte vínculo que mantemos com elas, no Brasil e no exterior. Já estamos envolvidos em vários cursos de mestrado e doutorado. Muitos alunos vêm para cá, em busca de orientadores, de animais e laboratórios para desenvolver suas teses. Também recebemos alunos de escolas técnicas e de graduação, que conosco complementam sua formação, via estágios. Hoje são 140. Eu mesmo fui um deles, há 21 anos atrás.

Sentimos o interesse das Universidades em intensificar esta relação. Vejam o caso da UFJF. Este terreno no qual estamos, a ela pertence. E fruto de entendimentos com a Reitora Margarida Salomão, seremos, brevemente, a primeira unidade de pesquisa da Embrapa a nos valer de leilão eletrônico para a realização de compras. Para o próximo ano, iremos lançar com a UFJF um curso de MBA em Gestão do Agronegócio do Leite e enviaremos nossos técnicos administrativos para freqüentar seus cursos de pós-graduação.

Outro exemplo, agora com uma empresa estadual de pesquisa. Por decisão do Dr. Baldonedo Napoleão- Presidente da Epamig, e por interferência direta do Dep. Custódio Mattos que sensibilizou o governador Aécio Neves, já está em avançado estagio a contratação de dois pesquisadores doutores, pela Epamig, que serão lotados aqui para interagir conosco na produção de animais F1 obtidos por meio de Fertilização In Vitro. Estaremos disponibilizando animais rústicos, mas com características de elevada aptidão para a produção de leite.

Com a Emater dos estados, com as Prefeituras, e com os assentamentos, pretendemos expandir a experiência exitosa do Pro-leite, desenvolvido desde 1995 com a Prefeitura de Juiz de Fora, adaptando-o às diferentes realidades regionais.

As ações administrativas serão norteadas por dois conceitos: Governança Corporativa e Logística Integrada. Governança Corporativa foi introduzida no Brasil em 1999, e trata de pautar as ações da empresa sob a égide da ética, da transparência e da responsabilidade social. Na prática, as empresas estão incorporando bandeiras do mundo da política e introduzindo-as nas relações de trabalho e nas relações com seus clientes e a sociedade. E o interessante é que, na Bolsa de Valores de São Paulo, as empresas que agem assim estão tendo valorização maior em suas ações. Portanto, ética e transparência tem valor, até monetário. Já para a introdução do conceito de logística integrada, não basta decisão, apenas. São necessários recursos, que iremos buscar...

Ao ser escolhido para dirigir esta Unidade, tive a liberdade de indicar os nomes para as Chefias Adjuntas. Isso aumentou minha responsabilidade. E, após ouvir colegas e refletir solitariamente, convidei, para a Chefia Adjunta de Pesquisa e Desenvolvimento e meu substituto imediato, o Dr. Pedro Braga Arcuri, doutor em Nutrição de Ruminantes. Para a Chefia de Comunicação e Negócios, convidei o Dr. Marne de Paula, sociólogo e técnico de carreira. E para Chefia de Administração o Dr. Luiz Portual contador, e também técnico de carreira.

Mas entendi que a Unidade não poderia abrir mão da competência acadêmica e da experiência administrativa de alguns de seus melhores quadros. Então, resolvi instituir o Conselho Assessor Técnico para os nossos campos experimentais. Esse conselho tem a finalidade precípua de sugerir racionalidade técnico-administrativa para as nossas bases físicas, uma localizada no município de Cel. Pacheco, e outra em Valença, estado do Rio. Seus integrantes são os pesquisadores:

Aloísio Teixeira Gomes - Doutorado em Economia Rural.
Carlos Eugênio Martins - Doutorado em Solos.
José Ladeira da Costa - Doutorado em Forragicultura.
Luciano Patto Novaes - Doutorado em Manejo Animal.
Nilson Milagres Teixeira - Doutorado em Melhoramento Animal.
Wanderlei Ferreira de Sá - Doutorado em Reprodução Animal.

Para administrar o Campo de Cel. Pacheco, indiquei o Dr. Aloísio Torres, Doutor em Agronomia. Para o Campo de Santa Mônica, reconduzi ao cargo o médico veterinário, Dr. Marcos Junqueira.

Gostaria de dedicar minhas últimas palavras aos colegas que estiveram à frente da Administração que finda. E a administração do colega Duarte teve um belo e exitoso desempenho. Mas isso é importante somente no momento. É como a nota que tiramos numa disciplina. Com o tempo, é esquecida pelo professor, pelos colegas e por nós mesmos. O que fica é o conceito. E o conceito de sua administração, Prezado Duarte, entre nós, seus colegas de Unidade e entre os agentes do setor produtivo, é que você trouxe novos horizontes a esta Unidade e a tornou próxima dos produtores, dos laticínios, e dos tomadores de decisões públicas. Você deixou esta Unidade maior do que já era. Tenha certeza: com novos caminhos, com novos parceiros, com novos métodos e instrumentos, porque os tempos apresentam novos desafios, já estou seguindo o norte trilhado por você.

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