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Perigoso otimismo

POR PAULO DO CARMO MARTINS

PANORAMA DE MERCADO

EM 14/03/2005

5 MIN DE LEITURA

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Inegavelmente, 2004 foi um ano histórico para o leite brasileiro. Os preços recebidos se mantiveram muito estimulantes aos produtores e passamos a ser exportadores líquidos de leite. Para 2005 há um ar de otimismo envolvendo a todos. Será que é justificável?

Recentemente participei de um Workshop organizado pela Associação Brasileira da Indústria de Queijos - ABIQ, quando apresentei os motivos que me levam a ser altamente otimista com a cadeia produtiva de leite brasileira. No longo prazo, o futuro nos reserva uma condição de relevância na definição do preço do leite mundial, pois continuaremos a aumentar o nosso consumo, nossa produção e nossa exportação. Mas, o longo prazo é feito de uma seqüência de curtos prazos. Isso não significa afirmar que teremos, a partir de agora, sempre preços estáveis e estimulantes para o produtor.

Três fatores são de extrema relevância para a definição do mercado de leite e, conseqüentemente, na definição se as condições para os produtores serão favoráveis ou desfavoráveis: produção, consumo e câmbio. Sob o aspecto da produção, os produtores têm se mostrado altamente motivados, pois esperam preços baixos para a alimentação concentrada ao longo de todo o ano, dado o anúncio do previsível comportamento dos preços de grãos para 2005. Portanto, esperam custos menores de produção. Por outro lado, os produtores estão formando expectativas de preços recebidos, considerando que estes se manterão nos níveis atuais. Se isso ocorrer, aumentarão consideravelmente seus ganhos em relação a 2004. Daí vem o otimismo que começa a se materializar na elevação de preços das vacas, conforme noticiou este MilkPoint em 08/03 (leia aqui a matéria).

A estrutura de mercado que o produtor de leite está inserido corresponde ao que os economistas chamam de Concorrência Monopolística. Neste tipo de mercado, cada produtor considera que tem algum controle sobre o preço e sobre a quantidade produzida. Ocorre que são milhares de produtores e, na verdade, esses produtores são tomadores de preços, ou seja, não colocam preço no seu produto. Ao contrário, vão ao mercado perguntar o quanto lhe dá. Não é possível controlar a quantidade produzida por meio de algum acordo entre produtores. Ações nesse sentido são totalmente inócuas, sempre. Coordenar quantidade produzida somente é possível quando se tem poder de mercado, ou seja, quando o agente tem um peso tão elevado que lhe permite manipular o mercado. Definitivamente, esse não é o caso do produtor de leite.

Bom, mas o produtor tem realmente motivos para criar expectativa de preços elevados, quando analisa o passado recente. Veja o gráfico 1 que apresenta preços coletados pelo CEPEA/Esalq/USP nos cinco principais estados brasileiros em termos de produção e são apresentados em valores deflacionados, ou seja, em valores atuais. Como se percebe, desde fevereiro de 2002 os preços estiveram sempre acima de R$ 0,40 e com tendência de crescimento. Se considerarmos os preços médios recebidos em cada ano, também fica visível a tendência de crescimento dos preços (Tabela 1). E se, ainda, considerarmos somente os preços recebidos em janeiro de cada ano, novamente o produtor terá motivos para se sentir motivado (Tabela 2)

Olhando o passado e com a perspectiva de insumos baratos, resta ao produtor racional aumentar a produção, concorda? Pois é, se todos agirem assim, haverá aumento do volume de leite ofertado. Além disso, muitos produtores que aumentaram a produção de soja nos últimos dois anos, principalmente no sul e centro-oeste, terão estímulos para reduzir a produção de soja e aumentar a produção de leite, o que deverá criar um acréscimo adicional na produção. Portanto, é provável que haja um crescimento de produção este ano a uma taxa maior que nos três últimos anos.

Mas, nada assegura que o aumento de produção irá pressionar os preços recebidos pelos produtores para baixo. Afinal, se o consumo se elevar, os preços poderão se manter estáveis. É aí que mora o perigo. O consumo de leite é altamente vinculado ao crescimento da economia. Em momentos em que a massa salarial esteve elevada, tivemos até que aumentar a importação para equilibrar o mercado. Os dados dos anos oitenta até os dias atuais mostram isso. E os indicadores para o segundo semestre não são muito tranqüilizadores. O IPEA, que é o órgão do Governo responsável por fazer previsões sobre o comportamento da economia, já fez a sua primeira previsão de redução do crescimento. Em outubro de 2004 imaginava que cresceríamos 3,5% este ano. Agora, já fala em 3,2%, com possibilidade de ser menos. Este órgão está prevendo que a Indústria, o Comércio e os Serviços crescerão menos. Os investimentos também. Somente o setor agropecuário manterá bom desempenho. Portanto, aumentará a oferta. Se há perspectiva de crescimento menor, não é natural imaginar que isso não se refletirá no consumo de leite e derivados. Com redução de crescimento da produção, há redução do crescimento da renda e, conseqüentemente, do consumo.

Bom, mas o que não for consumido aqui nós podemos mandar para o mercado internacional. É possível que seja o caminho. Mas temos que considerar que o percentual que exportamos é ainda muitíssimo baixo em relação ao que produzimos. E o crescimento de nossa inserção no mercado externo pode não se dar na intensidade necessária. Primeiro, porque isso não ocorre tão rápido. É fruto de negociações e conquista de confiança dos importadores. Segundo, porque nada indica que a política cambial irá se modificar. Com o Real valorizado e, conseqüentemente o Dólar desvalorizado, reduzem-se as chances de exportação de leite em pó que, diga-se de passagem, apresenta parque industrial no limite de saturação, ou seja, com dificuldade de expandir produção.

Portanto, é sempre bom ser otimista. É uma das características que se espera de um empreendedor. Mas é bom avaliar se o otimismo do setor não está além do que as condições permitem. Não podemos nos esquecer do ano de 2001, quando os preços estavam com viés de crescimento e todos estavam extremamente eufóricos. Deu no que deu. Sem que ainda fosse possível avaliar que impactos surgiriam com o "apagão", os preços despencaram em todo o Brasil, em apenas um mês, ...Ou já nos esquecemos de julho de 2001?

Gráfico 1. Preços mensais recebidos pelos produtores de leite em cinco estados selecionados. De Janeiro de 2001 a janeiro de 2005.
 

 




 

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PAULO CESAR DA SILVA AZEVEDO E MARIA AUXILIADORA N. RIBEIRO

NITERÓI - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/04/2005

Quanto a influencia do apagão no preço do leite sugiro a MilkPoint articular com representantes de cooperativas, para usarem gerador quando houver apagão.



Nota: estou inferindo que o causador da redução do preço do leite em 2001. Não entendi porque em jan/2004 também houve redução no preço do leite.



Agradecido.

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