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Os extremos do leite

POR PAULO DO CARMO MARTINS

PANORAMA DE MERCADO

EM 17/08/2004

5 MIN DE LEITURA

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Anos atrás os críticos da economia brasileira popularizaram a expressão Belíndia. Para estes, o Brasil gerou uma sociedade de extremos. Uma parte vive como na Bélgica, ou seja, de forma rica e desenvolvida. A outra vive como na Índia. O Brasil dos extremos. Nesta última quinzena tive a inusitada oportunidade de vivenciar os dois extremos do leite. E o que é melhor: com suas peculiaridades, são viáveis!

No dia 10 de agosto, estive em Castro, no Paraná. Representando a Embrapa Gado de Leite, recebi o troféu Agroleite, juntamente com outras entidades agraciadas. Essa iniciativa da Cooperativa Castrolanda, em parceria com a Revista Balde Branco, "objetiva homenagear os maiores e melhores destaques dos segmentos ligados à Cadeia do Leite como forma de reconhecimento e valorização da contribuição de cada um em todas as etapas de produção, desde as atividades desenvolvidas da porteira para dentro, até aquelas voltadas ao consumidor final". A Embrapa Gado de Leite ganhou este prêmio pela terceira vez consecutiva.

Dois dias depois e com uma variação de 24 graus na temperatura ambiente, ou seja, no dia 12 de agosto, estive no interior do Estado de Alagoas, em Palmeira dos Índios, para receber, também em nome da Embrapa Gado de Leite, outro Troféu, homenageada por outra Cooperativa - a Carpil, que naquela data comemorou 25 anos. Nesse evento estiveram presentes importantes autoridades dos Ministérios do Desenvolvimento Agrário e da Agricultura e Abastecimento, além de autoridades estaduais e do Banco do Nordeste.

Corro o risco de ser enfadonho, mas para quem não conhece, a Cooperativa Castrolanda é reconhecida por sua tradição, profissionalismo e qualidade. A produtividade do rebanho é comparável com o que há de melhor no mundo, com média de 6.500 quilos de leite por vaca/ano, com uma produção estável ao longo de todo o ano. A produção média por propriedade ultrapassa os 1.100 litros/dia.

Em 2001 tive a oportunidade de conhecer, em minúcias, 15 propriedades vinculadas àquela Cooperativa. O mínimo que fiquei em cada uma delas foi 5 horas. E lá pude comprovar o que afirma a teoria: propriedades que conciliam eficiência técnica e eficiência econômica/administrativa tendem a ser lucrativas. Em média, essas propriedades obtiveram o melhor desempenho, numa comparação com 135 propriedades de outras nove regiões dinâmicas em produção de leite. Nesta singela amostra não necessariamente representativa, em termos estatísticos, encontrei 84% de vacas em lactação em relação a vacas totais do rebanho, uma taxa de lotação de 5,52 U.A/ha, uma produção anual de 19.755 quilos por hectare, e uma produtividade da mão-de-obra de 872 litros por dia-homem.

Em 2003, voltei a Castrolanda. Juntamente com outro pesquisador da Embrapa Gado de Leite e professores da Unioeste, estivemos em cerca de 450 propriedades, também vinculadas à Cooperativa Batavo, visando a produção de um software que sistematizasse a coleta de leite em ambas cooperativas, já que a coleta e a comercialização são feitas em conjunto. Essa experiência foi muito mais rica. Percorrer a região por vários dias e conhecer o dia-a-dia administrativo da Cooperativa Castrolanda deu-me a certeza de estar diante de algo que fugia a tudo que encontramos em outras similares. Portanto, a Castrolanda não é modelo somente na qualidade do leite e do rebanho. É exemplo também naquilo que pouco é conhecido: no seu desenho administrativo.

Também em 2003 participei de uma reunião técnica na Embrapa Gado de Leite, atendendo a uma demanda do presidente da Carpil, que demandava a ação da Embrapa Gado de Leite junto a seus produtores e técnicos. Doze pesquisadores estiveram lá. Todos nós ficamos assustados com o que ouvimos. Como seria possível, na entrada do semi-árido alagoano, tornar viável economicamente a atividade leiteira, em propriedades com 5 vacas? Acredito que vários dos pesquisadores que para lá foram, tiveram como motivo o combustível da pesquisa: a curiosidade.

A Carpil é formada essencialmente por micro-produtores familiares. São, ao todo, 179 famílias. Cada núcleo, organizado num raio de cinco km de distância, congrega 35 famílias. Cada produtor recebeu R$ 12 mil por empréstimo, via Pronaf. Com esses recursos, cada família adquiriu cinco vacas dos estados do Sudeste, e implantou estrutura de produção com o uso de palma forrageira, milho e ração. A produtividade por vaca varia entre oito e doze litros/dia. Existem seis técnicos agrícolas que dão assistência aos micro- produtores. Toda a produção é granelizada e grande parte do rebanho já recebe inseminação artificial. A inadimplência é zero, pois a receita equivalente aos primeiros 12 litros produzidos diariamente são depositados em uma poupança exatamente para fazer frente ao pagamento do empréstimo.

Nas poucas horas que lá fiquei, tive oportunidade de visitar 4 propriedades, pois são todas muito próximas. Conheci dois dos dezesseis jovens que haviam migrado para o Sudeste e resolveram voltar, para produzir leite. A migração de retorno! Um deles informou-me que era frentista de um posto de gasolina, creio que na esquina entre a Paulista e a Pamplona, perto da Fiesp, em São Paulo. Lá, tinha salário de R$ 429,00. Na propriedade, tem renda menor. Mas muito do que necessita é obtido por transações não monetárias. Portanto, consegue obter mais bens e serviços e, o que é melhor, junto da família e amigos.

Das experiências vividas nas duas cooperativas, saí com a impressão que, realmente, os extremos se tocam. Ambas assentam sua estratégia na aplicação de tecnologia, respeitando suas peculiaridades. Não vi na Carpil o culto à pobreza. Ao contrário, vi uma busca incessante pela melhoria. Ambas buscam ganhos de escala. Ao reunir mais de uma centena de micro-produtores, a Carpil viabiliza esse importante pilar para quem quer manter competitividade. Ambas apostam em assistência técnica contínua. Entendem que a modernização é contínua e sem fim. Quem se estabiliza, aí sim, é excluído. Ambas têm projetos de agregar valor ao leite como forma de melhor remunerar o produtor. Ambas estão em buscas de alternativas de melhorar o desempenho administrativo da própria cooperativa. Ambas encontraram formas peculiares de remunerar os produtores em função do desempenho, o que é essencial para o sucesso de uma cooperativa.
O projeto da Carpil precisa ser melhor conhecido e apoiado. Por lá está se quebrando o paradigma da inadimplência agrícola. Além disso, mais do que reduzir o fluxo migratório para o Sudeste e suas conhecidas conseqüências nefastas, está conseguindo o retorno dos que já foram. E mais, gerando emprego, renda e tributos, num município com pouquíssimas alternativas econômicas.

Para terminar, veja o perfil de indicadores que extraí em www.ibge.gov.br (Tabela 1). O que seria de Castro e dos Castrenses, sem o leite? O que poderá ser Palmeira dos Índios e dos palmeirenses, com o leite...?

Tabela 1 Indicadores sociais e econômicos dos municípios de Castro-PR e Palmeira dos Índios-AL.
 


Fonte: www.ibge.gov.br

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