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O Grupo Anti-Leite

POR PAULO DO CARMO MARTINS

PANORAMA DE MERCADO

EM 12/12/2003

5 MIN DE LEITURA

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Domingo, 30/11. Manhã chuvosa em todo o centro-sul do Brasil. Dia propício para ficar em casa, ler jornal. Dia ideal para ser influenciado pela mídia. Pego a Folha de São Paulo. Na primeira página, está lá o leite como manchete! Boa Notícia?

Vejo que não, como todas as outras dos últimos anos. Leite quando sai do caderno de agronegócio e vai para o caderno de Economia ou de Cidades, é porque coisa boa não está por vir.

Leio rapidamente a chamada da primeira página e corro para as páginas internas do primeiro caderno - o mais importante do jornal. Lá encontro a matéria. O título: Nada se cria - iniciativa do ex-presidente foi alvo de uma série de denúncias e críticas. Lula retoma programa do leite lançado por Sarney.

Sem introdução padrão, a primeira frase é do ministro Graziano: o companheiro Sarney tinha razão. Referia-se ao programa de distribuição de leite do Ex-presidente. A partir daí, a matéria descreve como será todo o programa, em 132 palavras, o que inclui o público beneficiado, os estados, as parcerias. Mas logo retoma para o seu eixo principal, sugerindo que haverá uso político com o programa.

E emenda, informando que serão gastos R$ 250 milhões/ano com a aquisição de leite, o que corresponde a 62,5% dos recursos do ministério responsável pelo combate à fome. Para quem estava em casa lendo a matéria relaxadinho como o dia pedia, seguramente começou a se irritar. Seria normal o leitor se perguntar se o ministério era de combate à fome ou de apoio ao leite; se de segurança alimentar ou de segurança dos enricados produtores de leite... Esse mesmo jornal, três meses antes, usou de estratégia semelhante, em sucessivas matérias, ou seja, preparou os consumidores para apoiarem a renúncia fiscal que o Governo acabou providenciando para o setor automobilístico, com o corte do IPI. Convido-o a reler o artigo O Carro e o Leite nesta coluna.

O que a matéria não informa é que, com R$ 250 milhões, 49.250 empregos permanentes serão gerados na economia nordestina. E nem informa que, deixando de contribuir com os combalidos cofres públicos, as montadoras de automóveis deixarão de arrecadar cerca de R$ 800 milhões. E o que é pior: sem gerar nenhum novo emprego!

A matéria continua e mais 146 palavras são usadas para levantar suspeitas de possível uso político com a proposta. Mas não pára por aí. Como toda matéria indutiva que se preza, para ganhar credibilidade, é necessário buscar um embasamento técnico. E qual foi então a fonte escolhida? Ora, o Conselho Federal de Nutricionistas! Regra de Manual. Vivi isso como delegado do Conselho Regional de Economia por quatro anos. E o que diz este Conselho, naturalmente formado por profissionais que se dedicam mais a elaboração de cardápio de refeições industriais e a tentar emagrecer os gordinhos espalhados pelo Brasil? Segundo a matéria, disse que as famílias deveriam ter liberdade de escolher os alimentos que vão consumir. Se não tivesse ficado fora de moda a partir de 01 de janeiro deste ano, iria aproveitar para dizer que esta afirmação é tipicamente Neoliberal! Afinal, um de seus maiores difusores é um economista Prêmio Nobel, que ficou popular com um livro exatamente com este título - a liberdade de escolher!!!

O que a afirmação da Presidenta deste Conselho demonstra desconhecer é que existe uma brutal diferença entre política de rendas, na qual poderia ser citado o relevante Programa Bolsa-escola e Política de combate à desnutrição, focada num produto ou num conjunto de alimentos previamente escolhido. É como remédio. Hum, liberdade de escolher....

Mas vejam só: segundo a matéria, ela ainda insistiu em que o leite não garante os nutrientes de que as crianças precisam, embora seja uma fonte de proteínas. Mas, a R$ 1,00 o quilo, o que a Presidenta sugere? Que produto completo é este que ela não nos informa? Que proposta alternativa tem esse Conselho?

Bom, a matéria inicia seu término com a ardorosa defesa da ação do Governo feita pelo Dr. Jorge Rubez, da Leite Brasil. Mas ainda continuou impiedosa. Colocou sua posição como a voz do mercado e terminou com um subtítulo, onde o Programa é analisado como negócio.

Veja, caro leitor, como é possível, em apenas uma matéria juntar todos os ingredientes que faz a classe média se colocar contra uma decisão governamental justa e correta, sob a ótica social e econômica: coronelismo e uso político, desperdício do dinheiro público e uso da pobreza para ganhos de grupos restritos da sociedade. Querendo ou não, a matéria passou esta imagem. E acho que quis. E quantos a leram? Aos domingos a edição chega próximo de 1,4 milhões de exemplares. O cálculo que fazem é que um exemplar de jornal no Brasil é lido 4 pessoas, em média. Chegamos então a 5,6 milhões de pessoas. Mas tem ainda a versão disponível na internet, que eu não saberia mensurar o número de leitores. Tudo bem: 6 milhões nas duas mídias. Se 10% leram a matéria que saiu no principal caderno daquele jornal e em destaque, num domingo chuvoso, seriam 600 mil leitores!!!!

Defender a política do ministro Graziano é fundamental. Não se pode deixá-lo inibido por pressões como essa, pois não é a única. Caso contrário, irá gastar estes recursos em programas que sejam políticamente sustentáveis. Por outro lado, é importante registrar o papel que o Presidente da Leite Brasil vem cumprindo, defendendo o Programa do Governo. Somente assim será possível expandi-lo para todo o Brasil nos próximos anos. Afinal, leite e pobre têm em todo o Brasil!!!

Agora, umas perguntinhas para o Conselho Federal de Nutricionistas: aonde estavam, quando a merenda escolar era somente produtos formulados tipo feijão em pó, sopa em pó? Aonde estavam quando o governo quebrou o cartel de fornecedores então existente e iniciou o estímulo de consumo de produtos in natura na rede escolar? Porque não se pronunciaram contra e a favor no primeiro e no segundo casos? Porque não propõem uma política alternativa para o combate a fome e o desemprego ao mesmo tempo, tendo por base os tais R$ 250 milhões?

Para ler a matéria da Folha, clique aqui

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SAVIO SANTIAGO

OUTRO - RIO DE JANEIRO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 28/12/2003

Gostaria de acrescentar ainda, que assim como o professor Paulo do Carmo Martins na reportagem citada em seu artigo, me enchi de uma enorme indignação quando assisti na rede Globo a "Retrospectiva 2003" que em determinado momento apresentou o quadro "ano de fartura no campo" em que mencionou a soja como "ouro", a produção recorde de grãos a carne nacional entre outros comentários. Não que essas colocações seja mentirosas ou ofensivas. Pelo contrário, mas simplesmente ignoraram a produção de leite que apesar de seus problemas ainda é o segundo setor que mais emprega nesse país e deve no mínimo ser mais respeitado pela sociedade.

Esse tipo de coisa só reforça uma conclusão, a imprensa e a mídia em geral é regulável por modismos e o leite só se tornará um modismo ou uma "celebridade" se nós que vivemos dele estimularmos a sua divulgação e propaganda.
Vamos em frente, temos um produto nobre nas mãos e brio para lutar e defender nosso trabalho.

Sávio Santiago
Gerente de Política Leiteira
IVP Industrial Vale do Paraíba Ltda
Produtos "Bom Cheff" e "Gran Mimoso"
Resende RJ
SAVIO SANTIAGO

OUTRO - RIO DE JANEIRO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 28/12/2003

O autor merece os cumprimentos de todo o setor: produtores, indústria e profissionais ligados ao desenvolvimento do produto. Mas voltando à nossa realidade interna que só nós conhecemos acho que cumprimentar, parabenizar ou mesmo apoiar é muito pouco. O Brasil é um país competitivo na produção de leite e temos tudo para nos destacar e ter um setor forte como merece, mas a verdade é que não investimos na publicidade do nosso produto. Na maioria dos países desenvolvidos do mundo os setores defendem e divulgam arduamente seus produtos. Nos EUA são comuns e freqüentes as propagandas de leite no horário nobre da televisão e em eventos esportivos.

Um exemplo muito próximo no Brasil foi a tímida propaganda do "Boi verde", que defende o consumo da carne nacional, e que inegavelmente deu um impulso surpreendente no setor a nível de consumo interno e externo da nossa carne.

Chegou a hora de pararmos de chorar e nos lamentar e de agirmos a favor do nosso produto. Nada contra a classe dos nutricionistas, mas quem entende de leite somos nós que produzimos e industrializamos.

Sou a favor de um movimento nacional para discutirmos um fundo de investimento de produtores, indústria e fornecedores de insumos essenciais à produção, para a divulgação do leite no Brasil.

Sávio Santiago
Gerente de Política Leiteira
IVP Industrial Vale do Paraíba Ltda
Produtos "Bom Cheff" e "Gran Mimoso"
PAULO FERNANDO ANDRADE CORREA DA SILVA

VALENÇA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 25/12/2003

Prof. Paulo,

Parabéns pela reação à reportagem inoportuna da Folha de São Paulo e à posição descabida da Sra. nutricionista.
Paulo Fernando Andrade Corrêa da Silva.
Produtor de leite.
CARLOS AUGUSTO PASSOS

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 23/12/2003

Parabéns pela lucidez em seus comentários, de fato, nem tudo é o que parece ser, e cada um "puxa a brasa" para sua sardinha. Sempre haverá insatisfeitos e críticos, nem Jesus agradou a todos. O importante é analisar que houve erros no passado e que eles não voltem a se repetir. Precisamos fiscalizar (aí sim a Patrulha da imprensa é importante) para que realmente não haja uso político dessa importante medida, nem desvios de verba e corrupção como ocorreram no governo do "padrinho do plano" Sr Presidente José Sarney. Obrigado e parabéns novamente.

Carlos Passos
Consumidor de Leite.
MAURÍCIO PALMA NOGUEIRA

CASA BRANCA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 22/12/2003

Prezado Paulo,

Parabéns pelas colocações em seu artigo.

É realmente desanimador quando assistimos reportagens, colocações e afirmações irresponsáveis de profissionais que enxergam a realidade sob uma ótica obtusa.

Um forte abraço,

Produtor de leite;
Scot Consultoria
LEOVEGILDO LOPES DE MATOS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 16/12/2003

Parabéns ao colega Paulo Martins mais uma vez. Infelizmente não somente nutricionistas desconhecem o valor nutricional do leite, como temos grupos de médicos pediatras recomendando aos pais retirarem o leite da dieta dos filhos, pois generalizam que além dos efeitos alérgicos que pode causar, pode perfeitamente ser substituído por outros alimentos. Como me informou um colega que segue a recomendação do pediatra de suas filhas, cortando o leite, que como fonte de cálcio pode perfeitamente ser substituído por brócolis, por exemplo. Eu disse para ele que, para suprir a mesma quantidade de cálcio de uma mamadeira de leite, cada uma de suas duas filhinhas deveriam consumir 2,6 kg de brócolis por dia. Em quem esse pobre pai poderia confiar?
MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 15/12/2003

O que mais supreendeu na leitura do artigo foram os conceitos emitidos pela Presidente do Conselho Federal e Nutricionistas a respeito do valor nutricional do leite. Um alimento recomendado para o desenvolvimento ósseo e muscular dos jovens razão pela qual a maioria dos países o incluem na dieta escolar. Haja visto a China que, sem tradição leiteira, hoje se esforça por produzir e introduzir o leite nas escolas. O uso das produções locais de leite previstas pelo Programa Fome Zero para atenderem a demanda das escolas é uma solução sábia, na medida em que estimula a produção, alimenta bem e mantém o dinheiro em circulação nos municípios, melhorando a vida de todos. Reiterando, pobre e leite existem em todo lugar é só fazê-los encontrar e na melhor condição que é o acesso ao leite in natura na escola, onde são criados hábitos saudáveis para o futuro.
DENISE MARIA BUENO

CARMO DO RIO CLARO - MINAS GERAIS - MÍDIA ESPECIALIZADA/IMPRENSA

EM 15/12/2003

O leite acaba sempre como o patinho feio da história. Como mudar este quadro ou porque este perfil não sofre alteração? Em matérias sobre o tema ao longo dos últimos anos parece que o perfil de produtor sofredor, preços baixos de produção e altos para o consumidor são uma constante. Há falta de união da classe ou qual é o problema real da pecuária leiteira nacional?
ROBERTO JANK JR.

DESCALVADO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/12/2003

Paulo.

Parabéns. É ótimo ter alguem como você e em sua posição com essa lucidez em suas colocações. Tem todo o meu apoio.
Atenciosamente,
Roberto Jank Jr.
NEVIO PRIMON DE SIQUEIRA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 12/12/2003

Tudo o que se faz neste País ou em qualquer lugar do mundo recebe críticas. Até a distribuição de leite para famílias carentes. Realmente a liberdade de escolha é um princípio básico da democracia, e afinal esse é o regime do nosso País não é?

Agora a liberdade tem seus custos sociais também. Quem nunca viu em um bar a compra de cerveja com ticket refeição? Seria a melhor coisa a fazer não é? Dar na mão do "carente" um vale para ele ir ao mercado e comprar o alimento que ele acha que é melhor para o seu filho. Pode ser arroz, feijão, farinha, carne, ou refrigerante, pirulito, cerveja, pinga, enfim, o que o chefe de família achar que deve comprar, afinal encontramos nutricionistas em qualquer mercearia para prestar orientação ao consumidor sempre que necessário.

Nada contra a classe de nutricionistas, somente contra os "poetas" existentes em todas as profissões que acham que tudo anda nos rumos traçados no papel.

Como foi dito na carta do colega, devemos defender o consumo de leite nas escolas e a presença do leite nos programas sociais, não só vendo pelo lado comercial da coisa, mas pelo lado de saúde pública e também pelo social, empregos, etc. Um abraço a todos.
MilkPoint AgriPoint