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O câmbio, a crise e o leite

POR LUIS FERNANDO LARANJA DA FONSECA

PANORAMA DE MERCADO

EM 01/08/2002

3 MIN DE LEITURA

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Novamente o Brasil ganha repentinamente uma dose de eficiência produtiva instantânea. Nada mais eficiente do que o câmbio cair para o Brasil galgar mais alguns degraus na "eficiência" de produção de commodities agrícolas. Com a crise cambial desta semana, quando o dólar bateu em R$ 3,200, nós ficamos repentinamente mais competitivos no mercado internacional. No caso específico do leite voltamos a beirar a casa dos US$ 0,10/litro como preço médio pago nas principais bacias leiteiras, talvez mais precisamente numa faixa entre US$ 0,11 e US$ 0,12/litro. Não que eu ache que temos que comemorar o troféu de país mais competitivo, se é que esse é o termo correto, na produção leiteira. Aliás talvez como a crise cambial atinja também a Argentina e Uruguai, os nossos hermanos também estejam com a mão na taça.

Mas gostaria de reforçar aqui a tese que tenho defendido sistematicamente, de que a nossa competitividade do agribusiness que gera imensas divisas para nosso país, salvando a nossa balança comercial, é em grande parte fruto de uma vantagem cambial, especialmente após a primeira grande desvalorização do Real ocorrida em janeiro de 99. Não quero aqui desprezar as importantes evoluções do setor agropecuário, do aumento de produtividade, etc... No entanto não podemos também nos iludir e projetar nosso desenvolvimento calcado na venda de commodities agrícolas, ignorando problemas estruturais do país.

Mas voltando ao caso do leite, neste ano tomou uma certa proporção e uma certa importância a questão da exportação de lácteos, com vários agentes envolvendo-se no processo, inclusive com a criação de uma trading específica para o setor. Se por um lado o volume exportado ainda é pouco significativo, o pontapé inicial foi dado, desencadeado por uma percepção de que havia excedentes no mercado decorrentes da alta taxa de crescimento da produção dos últimos anos. Pois bem, mas como a crise que abateu o setor produtivo foi severa no ano passado, isso gerou uma depressão no mercado e falta de entusiasmo por parte dos produtores, resultando num desaquecimento da produção neste ano de 2002.

Como conseqüência óbvia, houve sinais de falta de leite no mercado, o que perdura até este momento e faz com que os preços pagos aos produtores estejam estáveis ou até mesmo sofrendo pequenos reajustes nesta época do ano, fato atípico nos anos recentes. Bom, mas outra conseqüência é que as importações voltaram a crescer no primeiro semestre de forma significativa, para surpresa de muitos. E isso ocorreu pela junção de dois fatores: escassez de leite no mercado interno e principalmente pela queda no preço dos lácteos no mercado internacional. O leite em pó passou de cerca de US$ 1.800/ton em jun/2001 para cerca de US$ 1.200/ton em jun/2002. Isso significa que mesmo com a aplicação de algumas medidas de proteção ao mercado brasileiro, o produto chegaria no Brasil a US$ 1.400/ton. Esse valor, com o câmbio a 2,70 ainda era razoavelmente competitivo para entrar no mercado brasileiro. Mas agora, se o câmbio se estabelecer numa faixa de 3,20 já ficaria um pouquinho mais apertado para viabilizar a importação. E isso é bom para o país e bom para os produtores, pois tende a aliviar a nossa balança comercial e a gerar alguma pressão positiva nos preços em Real. Pena é que grande parte dos insumos dos produtores é relativamente ou totalmente atrelada ao dólar...

Mas o que me preocupa e aborrece nesse processo todo é que entra crise cambial, sai crise cambial, a situação do cidadão brasileiro não melhora devido à crise interna, com alta taxa de desemprego, poder aquisitivo em queda e custo de vida crescente alimentado pela inflação não-oficial que é pressionada pelos preços administrados pelo governo e outros mais.

E o que o leite tem a ver com isso? É simples, o consumo não aumenta visto que o consumo de lácteos tem uma estreita relação com a renda. E é por essas e outras que temos alguma possibilidade de exportar leite, enquanto o consumo doméstico é baixo e grande parte dos cidadãos passa fome. E cada vez que aparece uma crise cambial com desvalorização aguda do Real nós comemoramos com a chance de vender mais commmodities agrícolas. Afinal de contas quem é tão capaz de produzir leite a US$ 0,10/litro no mundo?

LUIS FERNANDO LARANJA DA FONSECA

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LEONARDO TINÔCO

OUTRO - RIO GRANDE DO NORTE - PESQUISA/ENSINO

EM 16/09/2002

É interessante que no nosso Brasil o estímulo exportador esteja atrelado à redução do consumo do mercado interno. Estranho fato, uma vez que produzir leite a U$0,10/litro deveria ser por si só, uma vantagem competitiva.

Entretanto não entendo porque a agregação de valor a produtos como o leite, não seja disponibilizado àqueles que produzem. Exemplo disso
é a não disponibilidade de dados e ou projetos que indiquem pelo menos o
custo de produção de leite em pó, ou as fontes de informação sobre a industrialização do leite. Porque?

Será que só podemos crescer mediante
grandes empresas, cadeias globalizadas de comercialização? Será que não
podemos desenvolver (se é que já não está desenvolvida) tecnologia de
produção industrial de leite e derivados? Acho que está na hora do Brasil assumir o seu papel de carro chefe do agronegócio no mundo, ao invés de insistir na posição de mais um vagão velho e enferrujado.

Quem sabe associando vontade política, compromisso com TODOS os produtores rurais não apenas com restrita classe de privilegiados) e um pouco mais de
patriotismo!

Discurso antiquado? Quem sabe, mas plenamente justificável visto o grande
atraso do processo de tomada de decisões referente ao nosso
desenvolvimento e a melhoria da qualidade de vida do povo brasileiro.

Pelo menos, antes tarde do que nunca.
Caso os senhores saibam de algum projeto e/ou experiência em unidades de
produção de leite em pó (indústria ou pequenas indústrias), por favor me
informem. Garanto que divulgarei.
MilkPoint AgriPoint