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Cooperativa de leite e produção familiar

POR PAULO DO CARMO MARTINS

PANORAMA DE MERCADO

EM 11/07/2003

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O mês de julho, em que se comemora o dia do cooperativismo, iniciou com excelente notícia. O ministro da Agricultura anunciou que o governo estuda um programa estruturante para cooperativas de leite. Em contra-partida, estabelecerá requisitos para aquelas que desejarem aderir ao programa. A principal exigência é que as pretendentes proponham reestruturação administrativa, que leve a ganhos de escala. É chegada a hora, portanto, de se pensar em processos de parcerias, alianças estratégicas, fusões, aquisições... Enfim, novos desenhos administrativos para o cooperativismo lácteo.

Essa iniciativa do ministro, em oportuna hora, traz os ingredientes necessários, capazes de marcar definitivamente a sua passagem pelo Executivo Federal. Afinal, é consenso a importância primária das cooperativas para os produtores de leite. Em regiões aonde há cooperativa, os preços recebidos pelos produtores tendem a ser maiores. Quando estas deixam de existir, os preços recebidos na região tendem a se deprimir.

Mas a sua relevância não é somente em termos comerciais. Há também o fator solidariedade, cultivado como princípio pelo cooperativismo, o que significa a valorização do produtor, de sua família e da região na qual atua.

É inegável, por outro lado, a tendência de perda de espaço das cooperativas no mercado lácteo, fenômeno não recente. Vem desde os anos oitenta, quando o Estado brasileiro perdeu a condição de dar suporte às atividades das cooperativas de leite, que muitas vezes apresentavam desempenho favorável, mas em função de condições artificiais derivadas do apoio estatal. No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Paraná, em São Paulo, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Espírito Santo, na Bahia... Enfim, em todo o Brasil, as cooperativas de leite, que detinham fidelidade do consumidor a suas marcas - que é tudo que uma empresa busca permanentemente adquirir - perderam vida, total ou parcialmente.

Enquanto os laticínios de maior porte promoveram amplas modificações visando ganhos de competitividade, as cooperativas de leite, em sua ampla maioria, pouco ou nada fizeram para se adaptar. Saudosismo e a dificuldade de entender que os tempos eram outros, acirraram as disputas políticas internas nas cooperativas singulares e entre cooperativas singulares e central.

Isso não é bom para o desenvolvimento regional do Brasil, e muito menos para o produtor de leite, em especial. Daí a importância desse anúncio do ministro Roberto Rodrigues. A ação institucional de seu ministério poderá induzir as cooperativas a se repensarem e agirem rapidamente, visando ganhar escala de produção e de comercialização. Esse é o primeiro passo de um único caminho possível, no sentido de melhor remunerar o produtor no curto prazo, e garantir a sobrevivência da cooperativa, no longo prazo.

É necessário reconhecer a existência de uma cadeia sequencial a ser trilhada, se as cooperativas de leite quiserem ser competitivas. Para melhor remunerar o produtor, é necessário agregar valor ao leite entregue pelo cooperado. Sem agregação de valor, como melhor remunerar o produtor? Sem marcas fortes, sem atuar no mercado nacional e, ainda, sem estar motivada a se preparar para disputar o mercado global, como agregar valor ao leite? Sem ganhos tecnológicos, que viabilizem o lançamento contínuo de novos produtos, como obter marcas sólidas e atuar no mercado nacional e global? Sem ganhos de escala na captação e na distribuição, como disponibilizar recursos para investir em ganhos tecnológicos? Sem uma ampla reforma administrativa e de concepção, como obter ganhos de escala? Fechando o ciclo, como remunerar melhor o produtor e garantir a sobrevivência da cooperativa, sem repensar as práticas do cooperativismo de leite brasileiro?

Nos últimos dois anos, tenho ido com regularidade ao Paraná, em função de pesquisa que realizo com cooperativas daquele estado. Chama-me atenção algumas características peculiares que apresenta. Uma delas é a manutenção da Emater em real atividade. Isso distoa do restante do Brasil. Nos demais estados, salvo raras exceções, o que se vê é um definhamento desse importante braço operacional do Estado na agropecuária, traduzido em pouco ou nenhum investimento em treinamento e contratação de novos técnicos. No Paraná, a Emater está vinculada, em parte, às cooperativas, para cumprir a sua principal missão: atenção à produção familiar.

Em função de artigo que publiquei recentemente neste espaço, recebi convite para fazer palestra de abertura no V Amigas do Leite, em União da Vitória-PR. Informaram-me que o evento iria reunir 750 mulheres, produtoras de leite. Confesso que o meu primeiro pensamento foi desconfiar desse número. Afinal, é lícito se lançar mão de alguma estratégia para seduzir um palestrista, tendo ele que sair do interior de Minas Gerais, e, ainda por cima, no final de semana (sexta-feira a domingo).

Valeu a condição de São Tomé: ver para crer! O evento reuniu 806 produtoras. Alguém conhece algo similar no Brasil? Não merece ir para o imaginário livro dos recordes do leite nacional?

Algumas impressões pessoais fortes ficaram dessa ida até lá. A primeira é a confirmação da importância da mulher na produção familiar leiteira no sul do país. Juntamente com pesquisadores da Embrapa Gado de Leite, em passado recente visitamos 75 propriedades de leite no Rio Grande do Sul e Paraná, para dissecar a vida econômica da propriedade. Percebi que quem conhecia a atividade era a mulher. E falava com autoridade, ao contrário do que ocorre no restante do país. Além disso, recentemente percorremos todas as mais de 500 propriedades vinculadas às cooperativas Castrolanda e Batavo. Somadas às 806 mulheres presentes no evento citado, tudo isso forma um universo que permite-me afirmar que as mulheres das propriedades de leite do sul são efetivamente as donas da produção. Ao contrário do que ocorre em São Paulo, Minas Gerais e Goiás, por exemplo, onde a regra é a mulher cuidar mais da casa e dos filhos. Nestes estados, a mulher é apêndice do processo produtivo e inexpressiva na tomada de decisões.

A segunda impressão relaciona-se ao assunto central deste artigo. Foi relevante conhecer melhor o trabalho da cooperativa Sudcoop. Localizada inicialmente no oeste do estado, esta cooperativa não teve origem no leite. Mas vem crescendo rapidamente neste segmento, na contra-mão do que ocorre com a maioria de suas co-irmãs. Já é a sétima empresa em captação de leite e a grande novidade no ranking elaborado anualmente por CNA-Leite Brasil. Apresenta trajetória próxima, creio, do que almeja o ministro, com a proposta para o cooperativismo: ganho de escala. Em parceria com outras duas cooperativas, hoje está presente no outro extremo do Paraná. Ainda em parceria com um laticínio privado, atua também em Santa Catarina.

Pude registrar ainda a importância desta cooperativa para a produção familiar e também para toda a economia dos municípios da região. Isso explica a participação, no evento, de uma dezena de prefeitos, somada a de deputados e do Vice-Governador. A média ali é de 70 litros de leite/dia. Isso onera tremendamente o custo de captação. Mas alguém tem de cumprir esse papel econômico, de estar próximo da pequena produção familiar.

Ao realizar um mega evento em torno da mulher, levando-as a refletir sobre mercado do leite, custo de produção e outros assuntos, há um lado oportunista, no melhor sentido que esta palavra pode expressar: aproveitar as oportunidades. Ao investir num evento de mulheres, numa região em que o leite começa a despontar, a Sudcoop está cumprindo o seu papel filosófico como cooperativa, por meio da conquista de fidelidade que, afinal, é coisa de mulher!

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IVAN RIOS

CASTANHEIRA - MATO GROSSO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/01/2013

isso e muito bom , parabens