ESQUECI MINHA SENHA CONTINUAR COM O FACEBOOK SOU UM NOVO USUÁRIO
Buscar

Medindo a safra brasileira

GIRO DE NOTÍCIAS

EM 19/04/2007

4 MIN DE LEITURA

7
0
Por Marcos S. Jank1 e André Pessôa2

Do alto de sua experiência e invejável lucidez nonagenária, o engenheiro agrônomo Fernando Penteado Cardoso, presidente da Fundação Agricultura Sustentável (Agrisus), costuma dizer que somos um país em que as pessoas "acham muito, observam pouco e não medem praticamente nada". Exemplos flagrantes são o tamanho da economia informal, o custo da sonegação, as perdas nas colheitas e o tamanho real da produção agropecuária.

Pelo quarto ano consecutivo, dez empresas e instituições apoiaram a Agroconsult na realização do Rally da Safra, a maior expedição técnica de avaliação da safra de grãos do País. Durante quatro semanas, 91 técnicos percorreram 29 mil quilômetros em 13 Estados, visitando 109 pólos de produção agrícola e colhendo amostras de mais de mil lavouras de soja, milho e algodão. No percurso, foram realizados 37 eventos com a participação de mais de 3,5 mil produtores.

O levantamento quantitativo do Rally da Safra constatou que em 2007 o Brasil vai colher a maior safra de grãos de sua história - 134 milhões de toneladas -, graças ao clima favorável, aos fortes ganhos de produtividade e à melhoria dos preços internacionais. A soja deve atingir 58,4 milhões de toneladas, 12% a mais que no ano passado, sobre uma área 6,4% menor. O milho deve alcançar o recorde de 52,2 milhões de toneladas, 18% a mais que em 2006, numa área apenas 2,2% superior. Além do recorde de 37,7 milhões de toneladas na safra de verão, observou-se um plantio recorde de milho safrinha (plantado no mesmo ano agrícola, após a colheita da soja de verão): 4,3 milhões de hectares produzirão 14,6 milhões de toneladas do produto, 30% a mais que em 2006. Junto com os ganhos do plantio direto, o cultivo de uma segunda safra de grãos no mesmo ano, sem irrigação, é um dos diferenciais que hoje tornam o Brasil líder mundial em eficiência agropecuária.

Outra constatação da viagem foi o rápido avanço da cana-de-açúcar no Centro-Oeste e no Triângulo Mineiro, o que marca o início de um novo ciclo de intensificação do uso da terra, provavelmente de magnitude semelhante ao observado nos anos 70. Tudo indica que está se formando um tripé de disputa pelo uso da terra entre a cana-de-açúcar, o sistema integrado de produção de soja/milho e as pecuárias de corte/leite. O valor oferecido para arrendamento de terras pelas novas usinas de cana vai eliminar os últimos bolsões de ineficiência agropecuária em grandes, médias e pequenas propriedades rurais, gerando pouco a pouco o sistema mais eficiente de produção integrada de alimentos, rações e bioenergia do planeta.

O resultado deste ano merece comemoração, pois os produtores brasileiros seguem dando mostras inequívocas de sua competência técnica e capacidade de resistir às constantes adversidades, como a taxa de câmbio valorizada, a infra-estrutura e o aumento do custo dos derivados de petróleo. Outro fato relevante é a constatação de que tem aumentado o número de produtores que estão utilizando mecanismos modernos de proteção contra a flutuação de preços, como os contratos futuros e de derivativos. Mesmo no milho, houve forte avanço da "comercialização responsável".

Porém o levantamento qualitativo realizado com os produtores nesta jornada pelo interior do País aponta um quadro bem menos festivo nos vetores que cercam o desempenho da produção agropecuária. O sentimento dos produtores misturava a angústia com o passado recente de fortes prejuízos e acúmulo de dívidas, o alívio pela farta colheita e bons preços e a preocupação com um futuro incerto por conta dos custos novamente em alta, a logística deplorável e o câmbio cada vez mais valorizado. Além disso, quando se mergulha de corpo e alma no Brasil profundo, se percebem algumas das novas mazelas contemporâneas da agricultura. Merecem destaque:

- O aumento expressivo da criminalidade no campo, com roubos de cargas (especialmente defensivos agrícolas), de máquinas agrícolas e de carros de serviço, assaltos às fazendas e nas estradas. Os produtores e trabalhadores rurais já vivem hoje o mesmo grau de insegurança que marca o cotidiano dos cidadãos das grandes metrópoles! Vale lembrar que esta nova forma de criminalidade se soma ao intolerável desrespeito de direitos de propriedade das invasões ilegais de terra produtivas.

- A dificuldade que os produtores dos cerrados produtivos do Nordeste têm enfrentado para contratar funcionários que queiram trabalhar com carteira assinada, pois a maioria dos trabalhadores locais disponíveis teme perder os benefícios do Programa Bolsa-Família, numa chocante inversão de objetivos e valores da política social. Onde vai parar a tão esperada geração de empregos e o aumento da produtividade do País, se milhares de cidadãos estão sendo seduzidos por políticas assistencialistas que estimulam a ociosidade?

- A dramática e vergonhosa deterioração das estradas, com conseqüente elevação dos fretes nos caminhos por onde é escoada a safra agrícola.

Até quando vamos adiar os investimentos em infra-estrutura de armazenagem e transporte de produtos agropecuários? Até onde vamos deixar crescer a nova onda de criminalidade no meio rural? Até quando o atual ciclo de alta de preços das commodities conseguirá atenuar a valorização cambial? Quando vamos aprender a substituir "paternalismo" por "produtividade"?
O sucesso mundial do agronegócio brasileiro depende de um conjunto muito pequeno de políticas públicas que, infelizmente, escapam do controle dos agricultores: infra-estrutura, defesa sanitária, segurança e respeito aos diretos de propriedade. Não é pedir muito. Basta o governo reorientar os enormes desperdícios de recursos públicos do setor por aquilo que em economia se convenciona chamar de "geração de bens públicos".

_________________________________________________________________________

1Marcos Sawaya Jank é professor da FEA-USP e presidente do ICONE.
2André Pessôa é idealizador do Rally da Safra e Sócio-Diretor da AGROCONSULT (www.agroconsult.com.br)

7

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

BENVINDO FERREIRA

SÃO BORJA - RIO GRANDE DO SUL

EM 17/05/2007

Na atual conjuntura temos uma única certeza, no arroz, trigo e soja no RS, vamos todos quebrar, não há sustentabilidade nessas culturas. Há uma única certeza: vai dar prejuízo, vamos quebrar ou perder muito dinheiro. Os custos de produção são muito superiores ao valor arrecadado pela venda dos produtos.

Culpa de quem? Da carga tributária, do Custo Brasil, do Mercosul (das desigualdades e benefícios tributários do Mercosul), da alta dos adubos no mercado internacional.

É necessário ver onde está o furo, tem muita gente ganhando dinheiro com os produtos agrícolas, com certeza o produtor é quem não é.

Fazendo uma brincadeira diria: é preciso que o governo proíba o plantio de trigo, soja e arroz no RS, virou jogo de azar, certeza que vai dar prejuízo para a grande maioria e lucro grande para uma minoria. Como jogo de azar, dá cadeia no Brasil, vejam o que esta acontecendo diariamente com os donos de Bingo, Jogos Eletrônicos, etc, teríamos de encontrar quem está lucrando as custas das pesadas perdas dos agricultores.

O Brasil não terá como competir, inclusive na agricultura, se mantiver essa nefasta carga tributária, esse enorme parasitismo estatal, tudo isso anula e prejudica a enorme vantagem brasileira de quase ilimitada oferta de terras agricultáveis e clima favorável. Aparentemente a única solução seria transformar o Brasil num enorme canavial, e os alimentos para alimentar a população a gente teria de importar. É mais barato importar! Isso não aconteceu pois eles são reféns das dívidas que tem com os bancos e aparentemente não tem outra alternativa a não ser continuar jogando.
FRANCISCO DE PAULA BARRETO NETO

GOIÂNIA - GOIÁS - FRIGORÍFICOS

EM 04/05/2007

Parabéns pelo artigo, é muito bom para todos nos que compomos o setor primário de nossa economia contar com informações de pessoas realmente comprometidas com a causa. Mais uma vez parabéns pela maturidade como foi escrito o texto de tamanha relevância para o setor.
ANDRE ZANAGA ZEITLIN

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 27/04/2007

Roberto,

Acabo de ler que o BC comprou em dólares mais do que já tinha em reservas, tentando segurar o dólar acima de R$ 2,00. Eu, você e com certeza o pessoal lá no BC melhor ainda, sabemos que ninguém segura taxa de cambio dessa maneira.

Aliás a opção, com a qual concordo, foi de ter cambio flutuante, cambio transparente, que mostra a quantas anda a saúde financeira da pátria. A razão dessa taxa de cambio estar do jeito que esta não é o governo comprar pouco dólar, mas gastar muito real. Muito mais do que arrecada com os 40% do PIB que abocanha.

Ai, como qualquer pai de família que gasta mais do que ganha ou empresário que não consegue fechar as contas, o jeito é pedir emprestado, seja no banco ou no agiota. Para atrair empréstimo, já que outro atrativo não há, tome juro nas alturas e dinheiro especulativo entrando de baciada.

Para completar, uma cultura em que exportar é bom e importar é ruim (apesar do seu irmão há muito ensinar que não é nada disso) represa no país os 40 bilhões de nosso superávit, de novo depreciando o dinheiro dos gringos por aqui.

Solução? Moleza: reforma na gestão pública (Lei de Responsabilidade Fiscal, lembra?) e um pouco mais de abertura nas importações ajudam bem. Investimento em educação, segurança, infra-estrutura pra atrair mais investimento externo produtivo não fazem mal também.

Enquanto isso, é bom preparar o lombo mesmo pois concordo com você: no médio prazo essa história não tá cheirando bem não.

Abracos,

Andre
SEBASTIÃO MESSIAS DE MORAES

NITERÓI - RIO DE JANEIRO

EM 26/04/2007

Concordo com o Sr. Roberto Jank, alguma coisa está errada na atual conjuntura.
ROBERTO JANK JR.

DESCALVADO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 23/04/2007

O leitor Normann Kalmus, como muitos, observa que a trajetória do câmbio é irreversível. Considero a atual paridade cambial um enorme fator de risco porque, ainda que extremamente competentes, com o dólar atual já estamos produzindo leite, carne e frango ao custo Norte Americano e laranja ao custo Sul-Africano; a agricultura, com os atuais aumentos em U$ dos insumos, não ficará atrás em 2007.

Apenas permanecemos na pauta exportadora porque há um brutal aumento real do valor das commodities no mundo, por conta da demanda asiática. Diga-se de passagem, um fator completamente fora do nosso controle e cujo estímulo vale tanto para nós como para os outros países exportadores.

A crise de 29 quebrou cafeicultores brasileiros por fatores completamente alheios ao seu controle; enxergo a atual questão cambial sob a mesma ótica e me preocupo bastante em produzir leite e laranja conjunturalmente no mesmo custo em dólares de concorrentes com enormes desvantagens estruturais comparativas.

Não quero acreditar que isso seja normal e que precisaremos conviver com essa relidade.
NORMANN KALMUS

CAMPO GRANDE - MATO GROSSO DO SUL - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 21/04/2007

Interessantes observações dos autores, embora as conclusões não pareçam ser as que o setor realmente gostaria de ouvir.

Não adianta lastimar a paridade cambial: ela está estabelecida e, a persistirem os sinais internacionais baseados no desempenho da nossa economia, o Brasil obterá o "investment grade", que aumentará as reservas, trazendo conseqüente redução dessa relação.

Se o agro-produtor brasileiro realmente pretende se posicionar no mercado internacional deve atentar para a exigência internacional crescente de proteção ao meio ambiente e sanidade.

Não existem fórmulas mágicas e nem se deve, responsavelmente, acreditar que se possam aumentar as margens de lucro à custa de desequilíbrio macro-econômico ou a partir de subsídios cada vez mais combatidos internacionalmente.

Se o governo pelo menos fosse medianamente competente em relação à manutenção da segurança jurídica, já teríamos avançado bastante. O suficiente para que o medo não invadisse o campo também.

Realmente precisamos ser mais técnicos, achar menos e medir mais.

Parabéns
ROMEU FRANCO RIBEIRO JUNIOR

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 20/04/2007

Os autores foram felizes no artigo antecipando as previsões que provavelmente serão ratificadas nos levantamentos oficiais, e mais ainda, detectanto sentimentos relevantes do "Brasil Profundo" e de forma objetiva e clara alertam para os principais problemas estruturais da agricultura no país.

Parabéns

Eng. Agr. Romeu F. Ribeiro Jr
MilkPoint AgriPoint