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Fabricantes de queijo e goiabada artesanais de MG amargam queda de vendas para turistas

GIRO DE NOTÍCIAS

EM 19/10/2015

5 MIN DE LEITURA

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O tacho centenário, passado de geração para geração, está vazio e encostado ao fundo das casas. Os baldes de leite já não são carregados com tanto entusiasmo e assumem novos usos na fazenda. A retração na economia afeta duramente dois exemplares da produção artesanal de Minas Gerais, eleitos patrimônio imaterial. O queijo e a goiabada feitos pelas mãos de gente simples do interior mineiro sentem os efeitos da crise brasileira, tanto no processo de fabricação quanto nas vendas diretas. A tradicional sobremesa de sabor incomparável, batizada de romeu e julieta, encareceu e enfrenta, agora, dias de preocupação e ansiedade em conhecidos polos produtores da Região Central de Minas, o Serro e São Bartolomeu, distrito de Ouro Preto.

Sem conseguir repassar os custos mais altos, em razão da inflação elevada, 40% dos produtores do famoso queijo do Serro deverão abandonar a atividade neste ano. Em São Bartolomeu, doceiros lamentam a queda superior a 80% do comércio da goiabada cascão – ícone do local – e parte deles começa a abandonar a arte. A iguaria que une o queijo e a goiabada à mesa viveu nos últimos anos dias de glória, com vendas em alta lembradas com muito orgulho por quem permaneceu trabalhando no tacho ou no campo. O avanço dos preços e o aperto do orçamento das famílias brasileiras, no entanto, abalaram o sonho de levar a tradição adiante. O doce perde espaço na programação dos turistas, que reduziram compras, assim como entre os grandes revendedores. Produtores do queijo artesanal também dão adeus às formas, pressionados pela seca que castiga o pasto. A duras penas, nas fazendas e nas cozinhas dos doceiros, há quem tente sobreviver à turbulência na economia, para não abandonar a arte a que se dedicou nos últimos 50 anos.



Detalhada no papel, a conta não fecha, tirando o sono dos produtores do tão famoso queijo do Serro. Eles recebem, por meio da cooperativa da cidade, R$ 10,50 pelo queijo de cerca de 1kg produzido, mas neste ano a situação financeira apertou. Os insumos ficaram cerca de 40% mais caros, a falta de chuva castigou o gado, que exige cada vez mais ração, e o trabalho é árduo demais para pouco retorno. No balanço entre despesas e ganhos, os gastos já têm ultrapassado os lucros. A cooperativa alega que, num momento de retração da economia, em que a produção diminuiu 30%, em média, aumentar o preço da delícia seria um retrocesso para a tradicional atividade.

Sem dinheiro e endividados, homens e mulheres do campo começam a repensar a vida de dedicação a esse patrimônio imaterial nacional. “Temos uma dívida de R$ 5 mil que o trabalho com o queijo não cobre”, lamenta a produtora Valdirene de Oliveira dos Santos. Ela diz que vai quitar o que deve, mas já não tem esperança para o mercado da iguaria. “A nossa vida ficou cara demais, e não temos tido lucros. Então, fica difícil continuar”, desabafa.

O desânimo não é só dela. De acordo com a Associação dos Produtores Artesanais do Queijo Serro (Apaqs), 11 municípios têm identidade cultural e direito de produzir essa iguaria mineira, o que engloba cerca de 800 produtores. Em 2008, o modo de produção recebeu o título de patrimônio cultural e imaterial do Brasil. Jorge Brandão Simões, um dos dirigentes da Apaqs, conta que, com a seca enfrentada no ano passado, muitos produtores estocaram água, que acabou neste semestre. O medo, agora, é que a crise arraste 40% deles do negócio até o fim do ano.

Maria Ângela Pereira Lomba, de 30, é uma das produtoras que vão abandonar a queijaria montada na fazenda. Desde menina, ela está no ofício e chegou a fazer 80 peças diariamente. Todo dia, assim como outros produtores que se dedicam à iguaria, ela acorda às 4h para retirar leite e passa o dia por conta da fabricação da delícia. “É um trabalho que exige demais, a única renda que temos, mas não dá mais retorno”, compara.

Um dos maiores custos é o de manutenção do gado. Maria Ângela diz que ainda neste ano sai do mercado do queijo artesanal. “Não dá mais, já foi o tempo em que o queijo era valorizado”, afirma. Jorge Brandão explica o conflito que ela vive nas contas. Em linhas gerais, se a produtora vender 10 litros de leite, receberá R$ 11. Para produzir um queijo de um quilo, ela precisa de 9 litros do insumo, ou seja, o custo será de R$ 9,90, restando a ela R$ 1,10. “Não dá”, diz Jorge, acrescentando que falta auxílio ao campo, diante da restrição e do encarecimento do crédito nos bancos.

A situação se complica no município, ante o receio dos produtores com os efeitos do encolhimento da economia em 2015. Segundo o presidente da Cooperativa dos Produtores Rurais do Serro (CooperSerro), Carlos Drumont, em março deste ano, a entidade se reuniu com os seus 140 associados e apresentou o balanço referente ao ano de 2014. “Tivemos um resultado de R$ 500 mil e foi decidido em assembleia que esse valor seria dividido para todos. As pessoas tinham medo do que o ano poderia reservar”, comenta Carlos. Os preços pagos aos produtores pelo queijo acabaram reduzidos de R$ 11 em 2014 para os atuais R$ 10, 50. Carlos afirma que, se houver correção, a produção perderá clientela.

Ilusão

A Cooperativa informou que houve queda de 20% na produção, em decorrência da seca enfrentada na região. O volume ofertado pelos produtores caiu para 50 toneladas mensais. “Levamos a iguaria para grandes redes e temos um custo operacional com isso. Os preços da gasolina e da energia subiram”, destaca Carlos. A ração para o gado corresponde à metade dos custos de produção e, neste ano, encareceu cerca de 30%.

“A gente vive de ilusão”, define o produtor João Magno. Ele diz que, com a seca, vem gastando mais com a compra de ração e o preço baixo do queijo não compensa a dedicação necessária à atividade. “Sabemos que uma iguaria de um quilo é vendida na capital por cerca de R$ 30. Aqui, recebemos R$ 10. Há uma exploração que, com a situação econômica brasileira, ficou mais intensa para nós”, afirma.

João não pode pensar em abandonar a produção de queijo, por ser a única fonte de renda da sua família. Ele investiu cerca de R$ 20 mil em 2008 na queijaria que montou na fazenda, incluindo as medidas necessárias para cumprir as normas do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA). “Foi uma quantia muito alta e, agora, estamos sem saber o que será de nós”, lamenta. 

As informações são do Estado de Minas.

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