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Artur Falcette, da Sapé Agro/MS: 'por que ao invés de ampliarmos a soja, partimos para o leite?'

Produzindo leite com alta tecnologia desde 2017 e já inserida no agronegócio há décadas, a Sapé Agro, com sede em Maracaju, no Mato Grosso do Sul, tem grande foco na diversificação de atividades. Artur Falcette, diretor executivo do Grupo Sapé Agro e palestrante do próximo Interleite Sul 2019 contou, em uma entrevista exclusiva ao MilkPoint, como tudo começou e os motivos de entrarem na atividade leiteira em um estado sem tradição no setor.

 

Um pouco de história...

No início do século XIX, quando surgiu a Sapé, o governo brasileiro oferecia uma série de incentivos para que o interior do Brasil fosse colonizado ou povoado. Então, famílias de Minas Gerais e Goiás migraram para o Mato Grosso do Sul. Segundo Artur, na década de 1930, a propriedade passa a ser explorada com a pecuária de corte de maneira mais profissional, migrando do modelo da produção de subsistência para a produção comercial.

Em meados de 1960, gaúchos, paranaenses e imigrantes holandeses se deslocaram para a região a fim de cultivar a soja. Então, os proprietários da Sapé decidiram arrendar áreas para essas famílias, a fim de que elas iniciassem a agricultura de grãos na propriedade. Foi dessa maneira que a agricultura entrou no negócio da Sapé, permanecendo nesse formato, por vários anos. Na década de 90, com a crise do setor agrícola no Brasil, a família opta por resgatar essas áreas de agricultura. Em 1996, sobre a administração da sexta geração da família, a propriedade entra de vez na agricultura.

“Além disso, neste ano, ocorreu uma importante transição. Sebastião (o Tatão), transformou a Sapé em pessoa jurídica, iniciando o processo de sucessão à seus netos. Com o início da administração da sexta geração, conduzida por Alexandre e Eduardo Riedel, a fazenda inicia uma fase de desenvolvimento agrícola bastante considerável, com o aumento da área de agricultura e a redução das áreas de pastagens, através do aumento da produtividade.

De 2000 a 2015, foram realizados vários investimentos em infraestrutura, maquinário, ampliação, aumento de produção e a entrada de novas culturas na propriedade, como, cana de açúcar, milho safrinha e aveia, já sinalizando o DNA do negócio para a diversificação. Vale destacar que em 2012 acontece o início de mais uma fase de transição da governança da empresa, quando o Eduardo se afasta e o novo modelo de governança, comigo no papel de Diretor Executivo, passa a ser implantado. Hoje o negócio é conduzido por minha equipe, com autonomia e com uma rotina sistemática de prestação de contas ao conselho de acionistas e ao conselho de administração.”

Falcette é sócio da Infield, empresa de consultoria voltada para sucessão familiar, profissionalização da gestão e educação no agronegócio. Atualmente, é Diretor Executivo do Grupo Sapé Agro (MS), Vice-Presidente da Fundação MS de Pesquisa e Difusão e professor do MBA em Gestão do Agronegócio da Faculdade Novoeste. No Interleite Sul 2019, ele palestrará no painel ‘Um olhar sobre o novo’ e o tema da sua palestra é o seguinte: ‘O leite como negócio: o projeto da Sapé Agropastoril”

Ainda de acordo com Artur, em 2014 veio o frango de corte, em 2015 o turismo tecnológico rural e em 2017 o leite. “Basicamente, a entrada no leite se deu por alguns fatores, mas, principalmente, pela disponibilidade muito grande de matéria-prima para a nutrição animal, o que sinalizava uma importante redução dos custos, afetando bastante a viabilidade do projeto. Em segundo, por uma estrutura que já existia para a pecuária de corte, os famosos custos fixos, que passaram a ser compartilhados, como fábrica de ração, equipe de profissionais, confinamento, entre outros. Optamos sempre pela diversificação e o leite nos apareceu a atividade mais adequada para o momento, já que, na nossa análise, o leite de alta tecnologia traria excelente retorno. Desde o começo sempre pensamos em um leite produzido por alto emprego de tecnologia e com o máximo de variáveis possíveis controladas”.

Detalhes sobre a produção de leite da Sapé

A Sapé utiliza o cross ventilation (sistema de ventilação cruzada), o barracão é fechado e a raça escolhida é a Holandesa. A ordenha - robotizada e voluntária – se chama VMS (Voluntary Milking System). No total são quatro robôs. O projeto foi constituído para suportar até 280 vacas em lactação e atualmente, o rebanho total é composto por aproximadamente 330 vacas com uma produção média diária de 8 mil litros de leite. Pensando em sustentabilidade, o projeto também contempla o uso de biodigestores, reaproveitando os dejetos dos animais para a produção de gás, sendo convertido em energia elétrica.

O Mato Grosso do Sul não é tradicional no leite, por isso, hoje somos os maiores produtores do estado. Temos muitos laticínios espalhados no MS com alta capacidade de processamento de leite instalada, mas que, no momento, estão trabalhando com ociosidade, pois não conseguem fazer a captação da matéria-prima, já que basicamente, os pecuaristas leiteiros aqui se estruturam em pequenos produtores ou assentados rurais, com poucos médios produtores. Assim, estamos escoando nosso leite com facilidade. Uma das vantagens é que somos os únicos que conseguimos fornecer com constância, qualidade e volume, recebendo um excelente diferencial de preço, o que nos ajuda a viabilizar o projeto. Para a quantidade que fornecemos, o laticínio precisaria andar 1000 km, passando por várias propriedades, para poder captar a mesma quantidade. Para buscar o leite na Sapé, o laticínio anda 400 km, 200 km para ir, 200 km para voltar. Assim, parte do custo logístico reduzido pode ser repassada para nós”.

Artur pretende discutir as vantagens, desvantagens e os desafios de iniciar a atividade leiteira ou investir em uma cadeia em um local sem tradição no negócio, como é o que ocorre no Mato Grosso do Sul. “Também, falarei sobre os desafios de quem não produz leite e passa a produzir e o que nos levou a isso em termos de modelo de negócio e como o leite se encaixou, foi estudado e implantado. Explicarei ao público por que acreditamos no leite na nossa região e por que fizemos um investimento desse tamanho no leite, que é uma das atividades mais tradicionais do agro, mas que sempre apanha. Por que ao invés de ampliar uma área de soja, partimos para o leite? Já temos 2,5 mil hectares de soja, 3 mil hectares de cana, por que resolvemos também tirar leite?

Com relação aos indicadores zootécnicos estabelecidos no início do projeto, Artur disse que a equipe conseguiu atingir e agora estão revendo as metas para 2019, isso, com relação à rentabilidade também. “Por um lado, eu tenho um custo baixo por conta da nutrição principalmente, mas, quais são os custos adicionais já que não temos muitos prestadores de serviços para nos atender e poucos profissionais trabalhando com a cadeia? Em cima disso, quero expor na minha palestra no Interleite Sul 2019 como nós superamos as expectativas positivamente e o que nos surpreendeu negativamente durante a implantação”, finalizou.

Se interessou pela trajetória da Sapé? Quer entender com mais detalhes como funciona todo o trabalho do grupo? Então venha conosco participar do Interleite Sul 2019, que está com uma programação para lá de especial! O tema focal do evento é: “Qual será o próximo salto do leite?”

Assuntos como automação, terceirização, parcerias, diferenciação, escala e sistemas de produção que aproveitam ao máximo a propriedade com sustentabilidade serão abordados. O evento ocorrerá nos dias 08 e 09 de maio em Chapecó/SC. Confira a programação completa aqui > http://www.interleite.com.br/sul/

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CELSO PEREIRA DE MATOS

JUNDIAÍ - SÃO PAULO

EM 30/01/2019

Início do século XIX? Não seria início do século XX?