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Uso de anti-inflamatório não-esteroidal para o tratamento de mastite clínica

Por Marcos Veiga Santos - postado em 09/10/2016

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Bruna Gomes Alves* e Marcos Veiga dos Santos

A mastite é a doença mais comum das vacas leiteiras. Na forma clínica, a mastite tem apresentação de sintomas visuais como alterações do leite (grumos, coágulos) e acomete em média 10% das vacas por mês. Além dos prejuízos diretos como descarte de leite com resíduos de antibióticos, redução da capacidade de produção no restante da lactação e aumento do risco de descarte, ocorre redução do desempenho reprodutivo, incluindo o aumento do período de serviço (intervalo parto a concepção), aumento dos serviços por concepção, baixas taxas de concepção e alto risco de perdas embrionárias. Além disso, um estudo indicou que a taxa de concepção ao primeiro serviço foi de 29% em vacas sadias, mas houve redução para 22% nas vacas com mastite clínica antes da inseminação e para 10% nas vacas com mastite clínica após a inseminação.

Outro efeito causado pela mastite clínica é o aumento do risco de descarte involuntário das vacas do rebanho, seja por morte ou abate devido à perda de capacidade de produção de leite, principalmente nos casos mais graves da doença. Este descarte também depende do tipo de patógeno causador da mastite (contagioso ou ambiental) e do tempo de duração do caso. Por exemplo, durante as mastites causadas por patógenos Gram negativos, ocorre a liberação de toxinas como lipopolissacarídeos (LPS) e outros mediadores da inflamação (interleucinas, fator de necrose tumoral e enzimas cicloxigenases-COX).

Alguns sintomas clínicos, como inchaço e dor do quarto afetado, que ocorrem durante a mastite, são de origem inflamatória em resposta à infecção. Assim, a inclusão de anti-inflamatórios no tratamento da mastite clínica poderia ser benéfica para o controle do inchaço do úbere e da dor. Os anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs) têm capacidade analgésica, anti-inflamatória e antipirética, principalmente na inibição das enzimas ciclooxigenases. O meloxicam é um inibidor preferencial da COX-2 e seu uso tem sido correlacionado com a diminuição de tromboxanos no leite durante a mastite, redução das concentrações de prostaglandinas e melhora mais rápida dos sinais clínicos da mastite. Além disso, têm sido relatado que a utilização do meloxicam em adição à antibioticoterapia no tratamento da mastite clínica resulta em menor CCS.

Para avaliar o uso de um AINE, o meloxicam, em conjunto com o tratamento com antibiótico para mastite clínica leve e moderada, um estudo foi realizado em 61 rebanhos de 6 países diferentes (Bélgica, França, Itália, Espanha, Holanda e Reino Unido), totalizando aproximadamente 7800 vacas em regime de duas ordenhas diárias. Desse total, foram selecionadas vacas com mastite clínica em um único quarto e com até 120 dias de lactação. Um grupo das vacas foi tratado com 0,5 mg/kg de meloxicam e comparado a um grupo de vacas que não recebeu o AINE. Além do anti-inflamatório, as vacas foram tratadas com uma combinação de 200mg de cefalexina e 133 mg de canamicina em intervalos de 24 horas, por até 4 dias. O objetivo do estudo foi avaliar se essa combinação meloxicam + antibiótico para casos leves e moderados de mastite clínica diagnosticadas até 120 dias de lactação poderia aumentar a fertilidade das vacas além de aumentar a cura bacteriológica e diminuir o risco de descarte involuntário do rebanho.

Não foram observadas diferenças de temperatura retal das vacas tratadas ou não com o meloxicam, assim como não houve diferença entre as frequências de isolamentos dos patógenos causadores de mastite. A cura bacteriológica dos casos de mastite clínica foi de 67,8% para as vacas tratadas com o meloxicam, enquanto que para vacas sem anti-inflamatório foi de 56,3%. Por outro lado, o uso do meloxicam não afetou a CCS nos dias 14 ou 21 após o tratamento, mas o valor da CCS foi menor para os quartos onde a cura bacteriológica aconteceu.

Com relação ao desempenho reprodutivo, foi observado que o uso de meloxicam em conjunto com o antibiótico para mastites clinicas leves ou moderadas aumentou a proporção de vacas prenhes na primeira inseminação (0,31 versus 0,21), e aos 120 dias após o parto (0,40 versus 0,31). Além disso, observou-se menor retorno ao cio após as inseminações, como também foram necessários menos serviços por concepção (2,43 versus 2,92) nas vacas tratadas com meloxicam.

O uso de anti-inflamatórios não esteroidais, como o meloxicam, em conjunto com o tratamento com antibióticos para casos leves e moderados de mastite clínica resulta em maior probabilidade de cura bacteriológica e aumenta a fertilidade, ao passo que aumenta a taxa de concepção ao primeiro serviço, aumenta a probabilidade de prenhez até 120 dias do parto e reduz o número de inseminações/prenhez.

Fonte: McDOUGALL, et al. Journal of Dairy Science v. 99 No. 3, 2016 (http://www.journalofdairyscience.org/article/S0022-0302(16)00017-5/pdf)

*Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Nutrição e Produção Animal, FMVZ-USP.
 

 

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Opinião

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Comentários:

HENRIQUE ROCHA

Belo Horizonte - Minas Gerais - Indústria de insumos para a produção
publicado em 12/10/2016

Marcelo e o Ceroprofeno ? Quais estudos já foram feitos ? Teria o mesmo efeito ?

Marcos Veiga Santos

Pirassununga - São Paulo - Pesquisa/ensino
publicado em 12/10/2016

Prezado Henrique, o estudo foi feito com o meloxicam e não tenho conhecimento de estudo similar com o cetoprofeno. Na minha opinião, como são anti-inflamatórios com características diferentes, não é possível garantir ou afirmar que os resultados encontrados seriam os mesmos. Atenciosamente, Marcos Veiga

Oderman Oliveira Lima

Itapetinga - Bahia - Indústria de insumos para a produção
publicado em 15/10/2016

Bom dia prof. Marcos. Em relação ao uso de antibiótico L.A injetável associado ao diclofenaco ou piroxican (aine's muito comuns em formulações comerciais) o que o sr. poderia me dizer sobre a eficiência deste tratamento, ou seria melhor o uso separado destes produtos repetindo por mais alguns dias o aine para uma melhor resposta antinflamatória e anti-endótoxica visando uma melhor cura clínica do animal?

Marcos Veiga Santos

Pirassununga - São Paulo - Pesquisa/ensino
publicado em 15/10/2016

Prezado Oderman, na minha opinião, não haveria diferença entre o uso em formulação associada ou não, desde que seja usada a mesma dose. Acho que seria mais uma questào de facilidade de aplicação e de manejo.

Atenciosamente, Marcos Veiga

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