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Análise de água em produção leiteira - parâmetros microbiológicos

Por João Luis dos Santos - postado em 14/06/2017

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Instrução Normativa 62 – Capitulo 3. Parágrafo 3.3.11. Abastecimento de água:

“Deve ser de boa qualidade e apresentar, obrigatoriamente, as características de potabilidade fixadas no Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal - RIISPOA. Deve ser instalado equipamento automático de cloração, como medida de garantia de sua qualidade microbiológica, independentemente de sua procedência”.

Características de potabilidade. Essa é a expressão central deste parágrafo da norma. Não existe água potável para vaca, água potável para frango ou suíno. Água potável refere-se a uma água que não oferece risco e nem perigo à saúde humana. O conceito de 'risco' e 'perigo' no saneamento se refere ao 'risco' como uma característica da água que ofereça o perigo, por exemplo, uma água contaminada com coliformes fecais. Perigo é, estando ciente do risco, utilizar essa água em atividade de consumo humano de forma direta ou indireta.

Ao enviar a amostra de água para realizar analise microbiológica, esta deve ser coletada em recipiente esterilizado, preferencialmente indicado pelo laboratório, mantida refrigerada e chegar no local da análise em no máximo 24 horas. Segundo os padrões de potabilidade microbiológicos devem ser analisados os seguintes parâmetros:

cloração da água na produção de leite

O grupo dos coliformes totais (CT) inclui espécies de origem não exclusivamente fecal, podendo ocorrer naturalmente no solo, na água e em plantas. Por isso, na avaliação da qualidade de águas naturais, os CT têm valor sanitário limitado e sua presença na água indica problemas no processo de desinfecção ou falta de higiene e segurança do sistema de distribuição de água, como por exemplo, reservatórios sem tampas ou não conservados adequadamente.

Com base no fato de que dentre os cerca de 106 a 108 dos coliformes fecais/100 mL usualmente presentes nos esgotos sanitários predomina a Escherichia coli (uma bactéria de origem exclusivamente fecal), esta tem sido largamente utilizada como indicadora de poluição das águas naturais.

Alguns preferem a definição de coliforme termotolerante, sendo que dentre as bactérias desse grupo, podemos citar além da própria Escherichia coli, algumas bactérias do gênero Klebsiella, Citrobacter e Enterobacter. A E. coli é a única que vive no intestino humano. Vale destacar que a E. coli não causa problemas à saúde quando está no intestino, pois é uma bactéria normal nesse local. Logo, a sua identificação na água tem o papel de indicar a presença de fezes animal e a presença de outros patógenos nas fezes, assim, corremos o perigo de ser contaminados.

É pouco provável que os coliformes termotolerantes se desenvolvam em sistemas de distribuição, a menos que exista abundância de nutrientes, ocorra pós-contaminação, a temperatura da água tratada seja superior a 13ºC e que não exista cloro residual livre. Por isso, se a água está contaminada isso quer dizer que é recente e a fonte de contaminação está próxima.

A contagem de bactérias heterotróficas (genericamente definidas como micro-organismos que requerem carbono orgânico como fonte de nutrientes) fornece informações sobre a qualidade bacteriológica da água de uma forma ampla.

O teste inclui a detecção, inespecífica, de bactérias ou esporos de bactérias, sejam de origem fecal, componentes da flora natural da água ou resultantes da formação de biofilmes no sistema de distribuição, sendo que algumas podem ser patogênicas oportunistas. Portanto, presta-se ao papel do indicador auxiliar na qualidade da água ao fornecer informações adicionais sobre eventuais falhas na desinfecção, colonização e formação de biofilmes no sistema de distribuição, eventuais alterações na qualidade da água na reserva ou possível não-integridade do sistema de distribuição.

Dentre os fatores que podem favorecer a formação de biofilmes, destacam-se: temperatura elevada; estagnação de água em trechos de baixo consumo, como em pontas de rede; disponibilidade de nutrientes e baixas concentrações residuais de desinfetante. Por esta razão o parágrafo citado da norma acima termina dizendo que:

'Deve ser instalado equipamento automático de cloração, como medida de garantia de sua qualidade microbiológica, independentemente de sua procedência'. 

Não importa se sua água é mineral ou se na análise não apresentou E. coli, coliformes totais ou bactérias heterotróficas. Armazenar a água não clorada em um reservatório é um risco e fazer uso da mesma é um perigo que pode causar prejuízos sérios, já que a contaminação da água pode ocorrer a qualquer momento sem que você note. No próximo artigo abordaremos os padrões de qualidade físico-químicos.

Outros cuidados e boas práticas que se deve ter com os recursos hídricos nas propriedades, podem ser vistos em detalhes em dois cursos online disponíveis para os assinantes do EducaPoint, sob minha apresentação, confira:

* Gestão da qualidade e quantidade da água 
* Pegada hídrica na produção leiteira 

 

Opinião

O texto deste colunista não reflete necessariamente a opinião do site MilkPoint.

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Comentários:

Thiago Narciso

Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Produção de leite (de vaca)
publicado em 18/06/2017

João bom dia. Gostaria de saber se existe algum prejuízo para os bovinos leiteiros, se eles consumirem água clorada, visto que o rúmen é uma câmara de fermentação biológica. Já tive uma experiência de cloração "caipira" no meu reservatório e observei um decréscimo de produção nos animais. Caso seja possível a cloração do reservatório destinado aos bovinos, quais são os parâmetros de utilização do cloro? Grato.

João Luis dos Santos

Campinas - São Paulo - Consultoria/extensão rural
publicado em 18/06/2017

Caro Thiago,

Obrigado por sua participação e pergunta.
Sobre a questão de fornecer água clorada para bovinos, tive a oportunidade de publicar aqui um breve texto relacionado ao tema que inclusive foi tema de entrevista no canal TerraViva. Para responder, acesse este link e veja: https://www.milkpoint.com.br/mypoint/244735/p_cloro_mata_bacterias_no_rumen_da_vaca_cloro_rumen_agua_bacterias_fermentacao_vaca_6112.aspx
Recentemente tive acesso a um trabalho realizado no exterior que dectou que bovinos começam a recusar água com residuais de 1500 a 1800 mg/L de cloro.
O residual de cloro recomendado pelas normas de qualidade da água é de 0,5 a 1,0 mg/L em qualquer ponto da rede de distribuição. Essa quantidade é impossível prejudicar qualquer aspecto da produção ou do animal, mas reduzirá drasticamente a contaminação do leite se utilizada na água da sala de ordenha.
Para atingir esse residual, o cloro dosado vai depender da qualidade de sua água. Caso seja uma água límpida. de um poço como mencionou, deve dosar 2 a 3 mg/L para manter o residual de 0,3 a 1,0 mg/L.
Outro ponto importante. Não é recomendado dosar o cloro no poço. Esse procedimento errôneo e muito utilizado não tem referencias e nem aceitação técnica. Num dado momento você terá excesso de cloro na água e ai sim o risco de redução de consumo de água pela vaca, mas logo esse cloro reage e é consumido, então sua água vlta a ser contaminada.
O correto é instalar um dosador de cloro na entrada do reservatório, mas tem que ser um dosador que permita você ajustar o cloro na quantidade que for necessária e tento um kit para medição do cloro dosado e do residual.

Fico a disposição, abraço.

Valdecir Luis Boni

Chapecó - Santa Catarina - Indústria de insumos para a produção
publicado em 19/06/2017

De elevada importância esse assunto sobre a água que devemos recomendar ao nosso produtor de leite p a lavagem do equipamento, visto que esta questão ainda está muito deficiente em muitas regiões do pais, e cabe a nós, gestores da área, levarmos o conhecimento ao nosso produtor.

João Luis dos Santos

Campinas - São Paulo - Consultoria/extensão rural
publicado em 19/06/2017

Caro Valdecir
Obrigado por seu comentário.
Temos trabalhado amplamente neste tema na região sul, no RS e SC.
Caso tenha alguma demanda e precise de apoio local podemos indicar empresa na região para lhe atender.

Abraços e sucesso.

Jose Joseli da Silva

Surubim - Pernambuco - Consultoria/extensão rural
publicado em 19/06/2017

É de capital importância estas informações, como uma orientação para enriquecer os conhecimentos técnicos e práticos, principalmente  do agricultor familiar, visando melhorar a produção e produtividade, na bovinocultura de leite. Sempre aconselhamos que seja oferecida água limpa e fresca, de boa qualidade, principalmente para os animais novos. Uma maneira prática de qualificar a potabilidade da água para fornecermos aos mesmos, é que seja fornecida a água que bebemos. Mais uma boa ideia seria que fosse determinado as quantidade de cada microrganismo por ml de água, para os produtores tivessem condições de entender um pouco das análises bacteriológica da nossa água.

Abraços

José Joseli da Silva.

João Luis dos Santos

Campinas - São Paulo - Consultoria/extensão rural
publicado em 19/06/2017

Caro José,

Muito importante e pertinente a sua colocação e me possibilita explanar um pouco mais o tema.
O parâmetro de avaliação comparativa com a água que nós beberíamos é o ideal, muitas vezes menciono isso em meus treinamentos.
A ideia de analisar todos microrganismos presentes na água é algo a ser discutido, isso devido ao custo. O fato da E. coli ser a bactéria indicadora da qualidade sanitária traz uma grande facilidade e segurança por duas razões.
Primeira é que se tem E. coli indica que tem fezes na água, o que sanitária e higienicamente é inaceitável.
Segundo é que há E. coli, todas demais bactérias potencialmente prejudiciais a saúde humana podem estar presentes.
Terceiro, trata-se de uma das analises microbiológicas de menor custo que existe. Outros microrganismos exigiram meio de cultura específicos, métodos mais elaborados e o custo seria elevadíssimo.
Eu costumo dizer que o melhor parâmetro para o produtor entender os benefícios de uma água clorada é a CBT ou CPP no leite. Clore a água da sala de ordenha de uma forma correte e técnica como já mencionamos em outros textos e na coleta seguinte a redução ca CBT ou CPP será imediata.
Notei em minhas experiências que para o produtor a analise da água não tem muito sentido uma vez que ele faz uso deste recurso a muitos anos e acredita que tem a melhor água do mundo.
Então o resultado na qualidade do leite parece ter impacto mais convincente.
Agora, considere bem, falo isso pela minha experiência na região sul e sudeste. Nunca tive oportunidade de desenvolver trabalhos no nordeste.

Abraços, fico a disposição.

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