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Cloro mata bactérias no rúmen da vaca!

Por João Luis dos Santos - postado em 23/12/2016

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As propriedades bactericidas do cloro foram comprovadas pelo bacteriologista Koch em 1881 e desde então seu uso como sanitizante para água teve início com inúmeros benefícios a saúde humana. Aprovado pela American Public Health Association (APHA), em 1886, começou a ser utilizado nos EUA no processo de desinfecção de águas para abastecimento público. A expectativa de vida nos EUA passou de 47 para 56 anos quando praticamente erradicou a mortalidade por febre tifóide. Em 1991, a cólera causou a morte de milhares de habitantes do Peru, devido a falta de cloro na água. Em 1939, quando o United States Milk Ordenance and Code recomendou o cloro como agente de desinfetante de equipamentos, sua utilização já era uma prática totalmente difundida na produção de leite.

Ao recomendar que toda água utilizada nas unidades de produção de leite deve ser clorada a Instrução Normativa 62 estabelece um padrão de qualidade para a mesma independentemente de sua procedência, ou seja, qualquer que seja a fonte de sua água ela deve ser clorada. Isso gera muita discussão entre produtores, pesquisadores e profissionais do setor. Uma água de poço que em sua análise não apresenta contaminação deve ser clorada? A reposta está na IN 62 - Cap. 3 art. 3.3.11. Deve ser instalado equipamento automático de cloração, como medida de garantia de sua qualidade microbiológica, independentemente de sua procedência.

Neste ponto surge a pergunta óbvia. Se o cloro mata bactérias na água, vai matar também no rúmen da vaca e isso irá prejudicar o processo fermentativo, reduzir o leite, matar a vaca, etc, etc? Tal pergunta, que surge de produtores, pesquisadores e profissionais como veterinários, agrônomos e zootecnistas entre outros, demonstra um desconhecimento quanto ao processo de desinfecção via cloração bem como o mecanismo de ação do mesmo. Em alguns casos tais afirmações se fundamentam em experiências passadas negativas quanto ao uso do cloro de forma rudimentar, ignorando os procedimentos corretos e assim obtendo resultados indesejados como cheiro forte de cloro na água.

O cloro é extremamente reativo com nitrogênio ou matéria orgânica, ou seja, antes de matar uma bactéria, cada molécula de cloro deverá se ligar a um nitrogênio. Por outro lado, o cloro precisa de 30 minutos para matar uma bactéria. O rúmen de uma vaca pode conter de 80 a 100 litros de alimentos com uma flora média de micro-organismos na faixa de 1014. Um residual de cloro de 0,5 mg/L na água de bebida dos animais representa 0,0005 gramas de cloro contra 80 a 100 litros de pura matéria orgânica mais uma flora de 1014. Essa quantidade de cloro deverá ser eliminada ainda na língua da vaca. Para oxidar os 100 litros de líquido ruminal e alimento e matar todas estas bactérias seria necessário a vaca engolir várias pastilhas de cloro inteira.

 

Opinião

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Comentários:

Romualdo Militão dos Santos

Teresina - Piauí - Consultoria/extensão rural
publicado em 01/01/2017

Caro Dr. João Luis, O balanço no interior do rúmen é bem mais sensível do que possa parecer, embora concorde que o Cloro é economicamente viável venho colocar que hoje na maioria dos países o controle da água é feito por outros mecanismos, Peroxido, UV, e coleta de mananciais livres de contaminante. O cloro ao longo dos anos, por ingestão recorrente , causa um desiquilíbrio na biota ruminal, temos observado que em criações de aves , suínos e ruminantes a retirada do cloro aumenta a produtividade, em alguns caso em 17%. Por vários motivos o uso do cloro traz desvantagens, sendo o biofilme o mais importante , por ser visível, demonstrando que o cloro seleciona bactérias , sendo inócuo para algumas tidas como superbactérias. Creio ser um tema para ser explorado por extremamente importante.

João Luis dos Santos

Campinas - São Paulo - Consultoria/extensão rural
publicado em 01/01/2017

Prezado Romualdo, agradeço muito sua participação e o tema abordado.
Realmente esse é um tema a ser explorado.
Tenho sempre o cuidado de não transformar minhas respostas em outro artigo de blog, mas nesse caso não foi possível.
Em meus mais de 25 anos trabalhando com cloração de água foram inúmeras as vezes que acolhi argumentos contrários ao cloro e tenho o maior prazer em responde-los.
A Portaria 2914, que versa sobre os padrões de qualidade da agua potável para o consumo humano recomenda: Art. 34. É obrigatória a manutenção de, no mínimo, 0,2 mg/L de cloro residual livre ou 2 mg/L de cloro residual combinado ou de 0,2 mg/L de dióxido de cloro em toda a extensão do sistema de distribuição (reservatório e rede).
A admissibilidade do uso de ozônio e UV esta condicionada a posterior cloração para manutenção do residual de cloro mínimo como poderá verificar no Art. 35 da portaria. Países que fazem uso do ozônio ou da UV não tem reservatórios em seu sistema de abastecimento. A água sai das Estações de Tratamento direto para as torneiras das residências. No Brasil e em geral nos países tropicais isso é impraticável, além disso não temos mananciais livres de contaminantes.
Como expliquei (em artigos anteriores) o cloro, quando administrado de forma técnica, sem amadorismos, exageros, com controle da dosagem nunca vai chegar ao rumem. Cloro não é uma partícula radioativa, não tem vida eterna e após sua reação ele deixa de ser cloro. Por mais de 15 anos ensino a avicultura e suinocultura que a água de bebida deve ter no máximo 0,5mg/L de cloro para ser isenta de bactérias. No XVII Simpósio Brasil Sul de Avicultura, após saber que haviam empresas dando água com 30ppm de cloro para aves, em minha palestra no evento reforcei esse conceito. Mas, eu sei, o problema é muito maior que isso.
Em 1992 a água contaminada causou a morte de milhares de peruanos devido a cólera. Pesquise isso e achará mais informação. O motivo, ausência de cloro na água que causou a formação de biofilmes que proliferaram o vibrião da cólera. O problema foi resolvido clorando a água.
Tenho observado ao longo dos anos que o problema do preconceito quanto ao uso do cloro fundamenta-se em três pontos: desqualifica-lo para promover outros produtos; uso de forma amadora sem técnica adequada; má informação do usuário. São mais de 100 anos de histórico de uso e o mundo evoluiu muito depois do cloro. Concordo que ele não é a única solução, existem muitas outras melhores, mas com técnicas e custos proibitivos para nossa realidade.
A pergunta que devemos responder hoje é:
Prefiro tomar uma água sem cloro e correr o risco de morrer, ou perder um ente querido, em algumas semanas devido a uma infecção bacteriana, ou prefiro tomar água clorada e quem sabe aos 70 anos ou mais ter 5% de chance de um câncer de bexiga?
A água não clorada ainda é a maior causa de mortes de crianças com menos de 5 anos e idosos ao redor do mundo.

Romualdo Militão dos Santos

Teresina - Piauí - Consultoria/extensão rural
publicado em 01/01/2017

Caro  Dr.João.
So me concentrei no título do texto, como sou especialista nessa área de bactérias do rumem , não me contive e escrevi para chamar a atenção que a água clorada interfere sim no rúmen, não discordo do benefícios do cloro para os casos que o senhor colocou, mas da mesma forma que o antibiótico é eficaz para debelar infecções bacterianas mas causando vários transtornos ao organismo, o cloro tem prestado um relevante serviço no combate as infecções mas isso não quer dizer que de forma silenciosa não cause  uma baixa produtividade, a questão está, necessito de cloro para tratar minha água? atentemos que a ingestão de água é muito grande e geralmente os usuários cometem o erro de usar maior quantidade que o ideal, causando assim transtornos na biota ruminal. So queria chamar a tenção para o uso comedido do cloro , pois na minha modesta opinião é um limitador das melhores cepas bacterianas ( chamadas de boas bactérias)  e assim diminuindo consideravelmente a produção. SMJ

João Luis dos Santos

Campinas - São Paulo - Consultoria/extensão rural
publicado em 01/01/2017

Olá Romualdo.

Esse elevado nível de trocas de experiências é o que me motiva escrever esse blog, obrigado por seus comentários.
A resposta à sua pergunta é sim. Por norma o Ministério da Saúde exige que toda água de contato direto ou indireto com o ser humana contenha cloro mínimo residual de 0,5mg/L. O Ministério da Agricultura tem normas como a Instrução Normativa 62, a Instrução Normativa 56 que orientam água clorada em unidades de produção de leite e aves. O fato é que (e essa é uma constatação minha, sem fundamente científico e baseada em meus anos de convívio e experiência no setor de produção animal) poucos profissionais da área percebam, é que a atividade veterinária deve ser guardiã da saúde humana acima das exigências da produção animal. O leite, foco de nosso blog, é o alimento com maior número de toxinfecções alimentares no mundo e o problema é higiene.
Higiene se faz com água tratada e isenta de contaminações.
Por outro lado, é exatamente o uso errado, sem controle, dosando mais que o necessário que tenho buscado combater com processos e procedimentos adequados. É isso que tenho ensinado e insistentemente orientado em minhas palestras, consultorias, visitas a produtores e eventos afins.
Produtores de leite que já utilizam o sistema de dosagem correto com um processo de controle adequado já colhem benefícios financeiros da cloração da água. Temos visto CBT ou CPP baixas de 800.000 para menos de 100.000 com a cloração da água.
Você tem total razão quanto a necessidade de uso mínimo e limitado a fim de não afetar as bactérias boas e como mencionou isso vale para o antibiótico e o cloro. Basta ver que super-bactéria que já preocupa a OMS é uma variação da Escherichia coli, uma bactéria que vive em nosso intestino de forma simbiótica e que está se tornando uma ameaça à saúde humana.

Forte abraço e um 2017 abençoado por Deus.

Marcelo Maldonado Cassoli

São João Batista do Glória - Minas Gerais - Produção de leite
publicado em 25/01/2017

Utilizo o clorador de pastilhas recomendado pelo João Luis há mais de um ano. Ele fica na entrada da caixa de água central da fazenda e é distribuída para a ordenha, bebedouros dos animais (de bezerras em aleitamento a vacas adultas, todas confinadas), e para todas as casas de funcionários.
Ele é muito seguro, sem risco de superdosagem, e preciso. O único risco é faltar cloro se não for feita a reposição semanal de pastilhas no clorador.
Não tivemos nenhum prejuízo em termos de produção de leite, composição nutricional do leite ou aceitabilidade da água pelos animais, muito menos algum tipo de intoxicação dos animais. Muito pelo contrário, a CBT do nosso leite não passa de 5 mil , os animais consomem até mais água, pois os bebedouros permanecem mais tempo limpos, reduziu a diarréia em bezerras e gastamos menos mão de obra para lavar todos os bebedouros. Fora a segurança de ter água de qualidade em qualquer torneira da fazenda.
Nossa água é proveniente de 2 poços artesianos de excelente qualidade. Mas o risco de contaminação sempre existe e o clorador nos dá segurança. Recentemente um cano da adutora rachou na emenda e a água amanheceu turva nas torneiras.  Não precisei fazer nada além de consertar a emenda e continuar a abastecer a caixa normalmente. No dia seguinte a água já estava cristalina. Não tivemos qualquer problema com a sanidade dos animais ou com a CBT do leite por conta disso.
Recomendo fortemente o uso do tratamento da água da forma correta, como o João Luis ressaltou, sem amadorismo e usando a fonte adequada de cloro, é seguro e além da questão de Boas Práticas de Produção e  higiene, é uma questão de Biossegurança na fazenda, especialmente para quem usa fontes superficiais de água (minas, córregos, açudes, cisternas).

João Luis dos Santos

Campinas - São Paulo - Consultoria/extensão rural
publicado em 25/01/2017

Olá Marcelo,
Obrigado por compartilhar sua experiência.
Nos motiva saber que esta tudo correndo bem em sua produção.
Vale ressaltar aqui que além da cloração a propriedade do Marcelo Cassoli também adota odas demais práticas de higiene e limpeza bem como os cuidados com o manejo de ordenha correto. Prova disso são os contantes prêmios de melhor qualidade do leite que tem recebido.
A cloração da água é uma etapa da segurança alimentar, nenhuma outra pode ser desprezada mas somada a ela.

Forte abraço.

Edilene Cotrim

São Paulo - São Paulo - Consultoria/extensão rural
publicado em 02/02/2017

Tudo que se utiliza de maneira inadequada traz resultados indesejáveis .
O uso do cloro na água de maneira adequada, seguindo as indicações do Ministerio da Saúde, OMS, etc só tem a contribuir como uma vida mais saudável e com a produção de alimentos mais seguros.
Concordo quando João Luís diz  que existe muito preconceito a respeito do uso do cloro e que  são gerados pela falta de informação e pelo uso errado na água a ser consumida por seres humanos ou animais.
Parabéns pela iniciativa de esclarecer, elucidar e informar.

João Luis dos Santos

Campinas - São Paulo - Consultoria/extensão rural
publicado em 02/02/2017

Olá Edilene

Obrigado por sua participação e comentários de apoio.
Penso que esse paradigma esta sendo quebrado pois não são poucas as empresas e produtores que já fazem uso da cloração da água.
Que melhor forma de quebrar o preconceito do que o dialogo e o conhecimento.
Esse canal é uma excelente oportunidade para isso.

Abraços

Milton Luiz Paiz

São João da Urtiga - Rio Grande do Sul - Revenda de produtos agropecuários
publicado em 10/03/2017

E no caso de bezerros amamentados com substituto lácteo diluído em água clorada, como é a unica alimentação que recebe nos primeiros dias de vida pode ter efeito sobre as bactérias no estômago? Tenho notado aumento de diarreias  e baixo desenvolvimento após a diluição em água clorada.

João Luis dos Santos

Campinas - São Paulo - Consultoria/extensão rural
publicado em 10/03/2017

Caro Milton, obrigado pela participação.

Certamente o baixo desenvolvimento esta ligado a diarreia, mas é improvável que a diarreia esteja relacionada ao cloro.
Isso porque o próprio substituto lácteo irá neutralizar a ação do cloro. Inclusive, uma prática comum no mercado de avicultura era neutralizar o cloro com leite em pó.
Não sei como estão clorando essa água, mas o mais provável é que a diarreia esteja relacionada a água contaminada (nesse caso ineficiência da cloração) ou caso não seja a água, esteja relacionada a outras fontes de contaminação.
Certifique-se de que sua água clorada tenha entre 0,5 e 1,0 mg/L de cloro. Que a cloração seja realizada antes de um reservatório com um tempo mínimo de contato de 30min. Faça uma analise bacteriológica de sua água para detectar coliformes totais, Escherichia coli e bactérias heterotróficas.
No mais veja estas orientações da Embrapa: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1035039/diarreia-em-bezerros-leiteiros-lactantes-a-doenca-e-o-manejo-em-diferentes-unidades-da-embrapa

Fico a disposição.

Abraços

Marcelo Maldonado Cassoli

São João Batista do Glória - Minas Gerais - Produção de leite
publicado em 13/03/2017

No caso do Milton, como já comentei anteriormente aqui, minha experiência prática com o uso adequado do clorador na água servida às bezerras em aleitamento resultou em menor incidência de diarréias.  Vale lembrar que utilizo o sistema de aleitamento automático (calf feeder) a partir do terceiro dia de vida e não uso sucedâneo,  só leite descarte.
Se as diarréias não estiverem associadas ao uso ineficiente do cloro em água de baixa qualidade,  o problema pode advir do próprio sucedâneo,  da baixa colostragem, do estresse,  da falta de higiene geral, etc

João Luis dos Santos

Campinas - São Paulo - Consultoria/extensão rural
publicado em 13/03/2017

Marcelo,
Obrigado mais uma vez por sua participação e apoio no blog

Abraços

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