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Sugerir cautela na alta não é clichê

POR SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

SÁVIO SANTIAGO

EM 05/11/2020

5 MIN DE LEITURA

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Faz parte do trabalho de muita gente estudar e tentar prever variáveis econômicas de diversos segmentos. A análise de mercado é muito importante para nortear estratégias de gestão no intuito de aproveitar as oportunidades na alta e minimizar riscos na baixa.

É uma tarefa extremamente complexa e normalmente não se confirma exatamente como o previsto, mas pode dar importantes direcionamentos. No setor lácteo as variáveis são numerosas e muito dinâmicas. Em determinado momento uma variável impacta mais, em outro período o mesmo índice interfere menos.

O setor é caracterizado por ter vários micro mercados que formam o todo, e cada um com as suas peculiaridades: são produtos refrigerados líquidos ou queijos, produtos “carga seca” fluidos ou concentrados, na forma de pó ou pasta, doces, etc. São distintos em tempo de processo, estoque de giro, shelf life, valor agregado, volume de participação, volatilidade dentre outras características.

Para desenhar as tendências é preciso cruzar históricos desses setores secundários e criar correlações coerentes com o único produto comum a todas aplicações que é o leite in natura.

Os principais fatores que determinam se um mercado sobe ou cai são aqueles básicos da lei maior de mercado: Oferta e Procura (demanda), e no leite basicamente funcionam assim:

 

São vários fatores, alguns não representados nesses diagramas, que determinam se o volume disponível ficará maior ou menor que a demanda. Ou que levam a demanda a ficar maior ou menor que o volume disponível.

Estamos saindo do momento em que os preços do leite no campo atingiram recorde histórico. Alguns derivados também alcançaram seus recordes, outros não. A movimentação de volume de leite entre os derivados através dos vasos comunicantes funcionou como sempre, buscando aplicar mais matéria-prima aos produtos de melhor posicionamento pontual.

Assim como o leite e alguns de seus derivados, os principais componentes da alimentação animal também alcançaram índices recordes que elevaram substancialmente o patamar de custo de produção. Essa não foi uma preocupação tão alta até o momento porque os preços de leite acompanharam a tendência levando boa rentabilidade ao negócio. O índice “Receita Menos Custo de Ração” analisado pelo Milkpoint Mercado aponta resultado recente de margens atrativas.

Passamos por um momento de exceção onde uma considerável injeção de recursos governamentais nos últimos meses impulsionou o consumo de alimentos. O auxílio emergencial e a mudança de comportamento do consumidor com as medidas de isolamento, distorceram de forma quase que imprevisível o mercado do leite. Uma rápida e bem feita mudança de canais de varejo levou a meses sequenciais em alta de preços e vendas.

Segundo dados da Nielsen, o consumo de Lácteos marcou crescimento de 5,3% no primeiro semestre do ano.

Com preços subindo e margens consistentes, foi inevitável aumento na produção interna também provocada por estímulo. O índice de Captação de Leite do Cepea (ICap-L) que já apresentava crescimento em três meses consecutivos marcou 3,88% em agosto e, ao que tudo indica, apresentará novo crescimento no consolidado de Setembro. Esse número reforça a ideia que o que de fato interfere na formação de preços não é o custo, mas o impacto que as margens efetivamente causam na disponibilidade de leite. Essa semana, o professor Wagner Beskow publicou um texto em suas redes sociais extremamente elucidativo sobre essa realidade.

Voltando aos fatos recentes, alguns derivados de grande participação descolaram abruptamente das suas curvas de preços comuns, tiveram seus estoques muito reduzidos e, assim, elevaram com muita força os preços do leite spot (leite negociado entre as indústrias). A partir daí o estímulo às importações foi imediato.

Somente nos meses de julho, agosto e setembro, o saldo negativo da balança comercial ficou em 58 milhões de litros internalizados a mais do que o total dos primeiros seis meses do ano. Para o mês de setembro, o volume importado se aproxima de 7% do total estimado disponível no Brasil. Em outubro, segundo informação de Valter Galan do Milkpoint Mercado, devemos ter o maior nível de importações em um mês dos últimos 13 anos.

O Auxílio Emergencial – que chegou a representar aproximadamente 51 bilhões de reais por mês de transferência direta de recursos federais para a população – foi reduzido para 16,7 bilhões após a prorrogação no início de setembro com menor valor. Ainda é um recurso importante, mas que pode ser superado negativamente pela perda de capital circulante com o desemprego. Desde de maio, o total de desocupados saltou de 10,1 milhões de pessoas para 13,5 milhões, um aumento de 33% conforme dados divulgados pelo IBGE. Além dessa perda de renda temos a mudança intensa nos hábitos de consumo, com a flexibilização a população reduz o direcionamento de recursos aos alimentos e volta a aplicá-los em outras atividades e setores.

Com a menor renda que se combina com maior disponibilidade de leite, tanto pelo aumento da produção interna quanto pelo crescimento forte das importações, estamos diante de um movimento consolidado de queda nos preços.

Altas e quedas em um produto com a complexidade do leite são normais, esse é um mercado que não se estabiliza completamente nunca. Pode a matéria prima ter se estabilizado em determinado momento, mas sempre haverá algum derivado em queda ou alta. A normalidade se perde quando a referência se perde.

Em discussão sobre mercado a dois meses, afirmei que o produtor deveria ter cautela no momento de maior alta de preços. Claro que sei que em momentos de alta recorde o mercado naturalmente vai se motivar a produzir mais, o que me referi como cautela foi na gestão financeira. Estava claro em minhas análises que o setor havia perdido a referência nas altas, e ter produto disponível passou a ser a principal preocupação de produtores e indústrias.

A cautela sugerida era na gestão conservadora dos recursos alcançados com preços e margens recordes. Um mercado quando perde a referência para cima, fica com baixíssima sustentação quando a tendência verte para baixo. Assim, como não se via o pico, agora não se tem noção do piso.

O custo de produção sobe de forma preocupante, mas como afirmei, só se reflete em uma tendência direta sobre os preços de leite quando provoca efetivamente redução na oferta. A possível falta de insumos básicos para a alimentação animal pode provocar uma aceleração na redução dos volumes, mas por hora a produção segue em crescimento e ainda com margens interessantes. O tempo em que o alto custo de produção precisará para arrefecer a oferta de leite pode aproximar perigosamente o “céu do inferno”.

Os novos preços de atacado do leite UHT, por exemplo, se aproximam da realidade de março, quando as cotações estavam entre 2,95 e 3,05. Nesse mesmo período o leite ao produtor atingiu média CEPEA Brasil de R$ 1,4527, valor completamente impensável para a realidade de custos de produção atual.

A pandemia fez com que o setor perdesse a referência de seus preços e custos e isso pode fazer com que a reacomodação do mercado seja extremamente perigosa e traumática.

Parece clichê um analista de mercado sugerir cautela, vemos isso com muita frequência, afinal cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Essa palavra até rende questionamentos, afinal bons gestores precisam sempre ser cautelosos. Mas a euforia existe e pode dizimar um projeto sólido rapidamente quando se torna o norte de gestão do negócio.

SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

Gestor de Matérias Primas Lácteas da Verde Campo,
empresa do grupo Coca-Cola especializada em lácteos saudáveis. Pioneira na produção de produtos sem lactose. Tem na linha produtos reduzidos em sódio, zero açúcar e proteinados.

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HENRIQUE MACHADO E SILVA

COROMANDEL - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/11/2020

Momento delicado. Se a indústria abaixar os preços dos produtores com o custo atual e o preço da arroba muito altos, os produtores, principalmente os pequenos que não conseguem ser tão eficientes em compras de insumos pelo volume e logistica, sentirão muito. Provavelmente haverá descarte e menor disponibilidade de ração para as vacas, o que diminuirá muito a oferta. As importações também irão diminuir agora com a queda do Spot. Imagino que se, se os preços aos produtores baixarem (o que parece ser a tendencia), o período de baixa terá baixa duração e em breve teremos preços maiores que os dos dias atuais pois voltará a faltar leite no mercado.
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 07/11/2020

Bom dia Henrique !

Como eu disse no texto, quando as variáveis afetarem a disponibilidade de leite a tendência deve reverter

Obrigado !!!
JOÃO LEONARDO PIRES CARVALHO FARIA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 06/11/2020

Excelente artigo!
E no meio disso tudo, há a desinformação e as fake news que deixam o pecuarista ainda mais preocupado e indeciso.
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 06/11/2020

Verdade João, abraço !
ELMER UCHIDA

ITUMBIARA - GOIÁS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 06/11/2020

Excelente texto! Essa oscilação já era prevista no momento que o leite SPOT estava R$0.70 acima do preço do leite em pó que entrava na Brasil. Hoje o SPOT se iguala na faixa de preço do leite importado, com queda de 0.8 do spot e do UHT. Já se encontra leite uht sendo vendido abaixo de R$2,60!! A indústria ainda tem uma referência, mas o produtor ainda está com a cabeça nos preços acima de R$ 2, que não é mais uma realidade de mercado, fato preocupante e incisivo na margem de lucro do mesmo.
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 06/11/2020

Obrigado por participar Elmer
MARLUCIO PIRES

EDEALINA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/11/2020

Boa tarde Elmer. Acho que a questão não é o preço que o produtor tem na cabeça, mas o cenário que vem se mostrando cada vez menos interessante para se produzir leite. Tanto que hj, 22 dias depois do seu comentário, o mercado já não fala mais em queda. Fala-se muito no preço da arroba, mas existem outras atividades agropecuárias com perspectiva futura, muito mais atrativas que o leite. O artigo do Sávio fala em cautela na alta, eu mesmo gostaria de otimismo em algum momento
MÁRCIO PERIN

MOREIRA SALES - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 06/11/2020

A curto prazo, futuro preocupante aos produtores. custos de produção subindo ( principalmente soja e milho) e preços do leite em queda.
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 06/11/2020

Obrigado Márcio
MÁRIO SANTIAGO

BARBACENA - MINAS GERAIS

EM 06/11/2020

Mais uma vez parabéns Sávio Santiago, fez um diagnóstico muito preciso e minucioso do mercado com muita propriedade, dando pareceres muito bem elaborados, ricos em detalhes, cita fontes confiáveis, elabora diagramas que refletem com exatidão as variáveis que afetam o preço final devido a flutuabilidade nos custos da cadeia produtiva e incertezas do mercado, suas matérias são multiplicadoras de resultados e dignas de publicações noutras mídias, sugestão: reuna-as em um livro, faça isso, abraços, Mário Santiago.
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 06/11/2020

Obrigado Mário !
EDMILSON MARTINS DE MENDONÇA

CORONEL XAVIER CHAVES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 05/11/2020

Preocupante mesmo! Ainda bem que a arroba está com preço atrativo. Se fosse possível organizar um movimento amplo entre os produtores de leite, a hora era essa de convencer a todos venderem vacas para o abate. Fico intrigado: com dólar batendo a casa dos 6 reais, será que importar é um bom negócio? Com relação à cadeia leiteira, a incompetência do país se revela na falta de competitividade de nossos produtos; carga tributária sufocante, sobretudo.
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 05/11/2020

Boa tarde Edmilson!

Produtores estabilizados normalmente não descartam animais produtivos. Mas é uma estratégia interessante descartar animais com defeito, problemas reprodutivos e idade avançada,

Obrigado !!!!
ELMER UCHIDA

ITUMBIARA - GOIÁS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 06/11/2020

Mesmo com o dólar batendo 5,75 reais ainda compensava a importação de leite em pó, visto que o preço do SPOT tava em média 2,65/L retrasado. Hoje o discurso já não é mais o mesmo
EM RESPOSTA A ELMER UCHIDA
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 06/11/2020

Verdade Elmer
ALESSANDRA POLASTRINI

PALMAS - TOCANTINS - ESTUDANTE

EM 05/11/2020

Excelentes suas explanações! Pesquisa a cadeia de valor do leite e realmente estamos vivendo um período de incertezas com relação ao presente e, especialmente, em relação ao futuro.
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 05/11/2020

Obrigado Alessandra
ANDRÉ QUINTO TURATTI

CAIBI - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 05/11/2020

Vamos passar por um momento complicado .
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 05/11/2020

Obrigado por participar André
TIMOTHEO SOUZA SILVEIRA

CASTRO - PARANÁ

EM 05/11/2020

Excelente Sávio! Esclareceu e trouxe luz a muitas discussões!
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 05/11/2020

Obrigado Timotheo !
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