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Quanto seria o preço ao produtor se todo o leite brasileiro fosse exportado?

POR SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

SÁVIO SANTIAGO

EM 04/09/2019

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Recentemente foi anunciada a abertura do mercado chinês para o leite brasileiro. Algumas indústrias já estão habilitadas e o governo anunciou medidas que tendem a melhorar a qualidade média do leite, tornando o nosso produto mais atrativo. Temos uma grande discussão em curso sobre a competitividade do leite brasileiro.

A notícia das exportações é boa e já afirmei em outras oportunidades que se conseguirmos exportar excedentes, mesmo que no vermelho em determinados momentos, o mercado interno que é gigantesco será preservado.

A nossa vizinha Argentina, com todo o histórico que tem de país exportador, somente envia 18% da sua produção a outros países. Isso nos faz crer que para eles é mais negócio atender seu mercado interno e que usam as exportações mais como escoamento de excedentes do que como oportunidade de negócio.

Recentemente o Observatório da Cadeia de Laticínios da Argentina (OCLA) realizou um estudo nesse sentido, com o mesmo título que dei ao texto. “Como seria o preço do leite ao produtor se todo leite argentino fosse exportado?” A conclusão que eles chegaram, é que considerando custos de produção, impostos, embalagens, comerciais e logísticos com rendimento de 8.200 litros para cada tonelada de leite em pó integral - considerando ainda o preço médio de exportação em US$ 3.150 e o câmbio deles nesse momento -  o preço final ao produtor seria 6,8% menor se todo leite argentino fosse exportado. 

O interessante desse resultado é que as oportunidades do mercado interno argentino não são tão boas quanto as nossas. Com todo o abismo econômico/social que o país se encontra - consumo ruim, preços baixos e negócios fracos, as exportações não são tão piores do que as vendas locais. Os preços aos produtores estão em média entre 15 e 16 pesos argentinos por litro. Utilizando o valor de 15,5 pesos em média por litro, com o câmbio atual, estão com o leite a US$ 0,26 por litro. Para exportar todo o leite argentino e virar uma Nova Zelândia das Américas, eles somente poderiam pagar US$ 0,246 aos seus produtores.

O último indicador CEPEA apontou um preço médio brasileiro de R$ 1,3466. Agora convertendo para o nosso câmbio, estamos com US$ 0,32 na média paga aos produtores. Para ficar mais visível, pensando na diferença média do preço em reais, 6 centavos de dólar representam 0,25 centavos de real por litro.

Segundo dados do Milkpoint Mercado, a margem aparente do leite em pó industrial em agosto bateu 34 centavos de real negativos por kg. A mesma plataforma apurou preços médios para o leite em pó industrial de 13,90 no mesmo período no mercado interno. Portanto para simplificar nosso entendimento, o custo do leite em pó industrial médio no Brasil seria de R$ 14,24 por kg ou R$ 14.240 por tonelada. Fazendo a conversão, teríamos um custo de produção de US$ 3.431,32 por tonelada.

O estudo da OCLA é todo baseado em um rendimento industrial médio de 8.200 litros de leite para cada tonelada de leite em pó. No Brasil conseguimos na atualidade em média 8.400 litros de leite para cada tonelada produzida. A diferença de rendimento de 2,4% vem principalmente do teor de sólidos mais baixo do leite brasileiro. Dados da OCLA apontam para uma proteína média na Argentina de 3,40% ao longo do ano, enquanto no Brasil estamos com média anual por volta de 3,25%.

Seguindo em frente, se todo o nosso leite fosse exportado a US$ 3.150, mesmo número do levantamento hermano, teríamos em reais 13.072,50 por tonelada. Sendo o custo médio de 14.240,00, a diferença competitiva seria de 8,9% para zerar a conta. Se ao menos igualássemos o rendimento industrial com aumento de sólidos, essa conta cairia para algo em torno de 6,5%.

A lógica é que não é possível manter plantas de leite em pó operando sem margem por longos períodos, portanto essa conta “para zerar” não tem efetividade prática, seria necessário agregar rentabilidade industrial para viabilizar exportações constantes. Porém, dá para entender o tamanho do caminho a percorrer: hoje, nesse exato momento, o leite que viabilizaria ser exportado sem nenhuma margem para a operação industrial estaria cotado a R$ 1,23 ao produtor.

Todo esse exercício, quando transformado em períodos maiores, dependeria de um fator ainda mais imprevisível que é a variação cambial. Trabalhar tão apertado, sem margem, acomodando excedentes com o risco do dólar estar hoje a 4,15 e amanhã a 3,80 pode gerar momentos de inviabilidade, interrompendo negócios e trazendo ainda mais volatilidade para os preços internos. Com uma simples variação cambial de 4,14 para 3,80 o “preço de viabilidade” viria de 1,23 em 1,12.          

Por fim, o caminho das exportações pode ser interessante se bem planejado. Fortes incentivos fiscais podem ser a solução para viabilizar uma determinada quantidade de leite enviada ao exterior. É preciso desonerar ao máximo a produção de leite, ganhar eficiência em custos e qualidade para transformar o mecanismo das exportações em um regulador em prol da cadeia brasileira. Sem planejamento pode ter efeito inverso.

SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

Gestor de Matérias Primas Lácteas da Verde Campo,
empresa do grupo Coca-Cola especializada em lácteos saudáveis. Pioneira na produção de produtos sem lactose. Tem na linha produtos reduzidos em sódio, zero açúcar e proteinados.

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ANDRÉ GONÇALVES ANDRADE

ROLIM DE MOURA - RONDÔNIA - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 09/09/2019

Parabéns Sávio. Sempre muito elucidativo suas colocações.

Ser ou não ser? Eis a questão!

Penso que antes de tudo, temos que ter uma base de produção sustentável do ponto de vista de competitividade econômica.
Custos de produção adequados, em sistemas de baixo custo, ganho de eficiência no produtor e que gere eficiência também na indústria, desoneração por parte do Estado, enfim um amontoado de itens que podem e devem ser perseguidos de forma conjunta pelos participantes da cadeia.
Sem isso, dificilmente poderemos ter uma estratégia comercial que vingue.
Infelizmente o que vemos é o oposto.
E como você bem expressou, temos um mercado interno gigantesco e convidativo, que por vezes se faz atraente pra os player's mundiais de lácteos, ou oportunistas do mercado.
De fato, se não for muito bem orquestrado, tudo o que tem sido feito, pode ter um efeito boomerang. Aliás, já tem sido isso que vem acontecendo nos últimos anos. Preços internos acima dos patamares aceitáveis fazem com que agentes importadores aproveitem a oportunidade pra ingressarem mais leite importado.
Vamos em frente!

Forte abraço!
SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 12/09/2019

Excelente!!!


Abraço !
MURILO ROMULO CARVALHO

CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/09/2019

Ótima reflexão, Sávio! Lendo me veio outra questão. Será que não chegou a hora do Brasil realmente investir pesado em qualidade e, principalmente dos produtores e indústria buscarem maior rendimento por litro de leite produzido?
Digo isso pois ao redor do mundo temos punições severas para produtores que não seguem padrão de qualidade e uma preocupação muito maior em se aumentar o teor de sólidos no leite, ainda que mantendo o volume estável.
Abraços
SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 05/09/2019

Obrigado pela participação Murilo!

Concordo e vou além. Melhorar sólidos será uma imposição natural do mercado de leite, por um motivo muito simples: custo.

Em torno de 20% do leite nacional vai para envase fluido, todo o restante depende de rendimento industrial. Temos um projeto que está desmistificando que vaca boa de Sólidos produz pouco leite. Muitas empresas de genética criaram esse mito para vender aqui semen de touros que não eram valorizados lá fora.

A realidade vai mudar rápido e por imposição financeira
MARCELLO DE MOURA CAMPOS FILHO

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 05/09/2019

Prezado Savio

Será que interessa ao produtor de leite que exportássemos todo leite no Brasil? A resposta ao meu ver é não, pois a nossa responsabilidade primeira é abastecer o mercado interno, e as exportações seriam de excedentes.

Depois temos a questão do preço ao produtor: a US 23/litro não atrai o produtor em função do custo de produção no País.

E se todo mundo aumentar a produção para vender para a China, isso não será "um negócio da China", pois pela lei da oferta e procura, que é irrevogável, os preços ao produtor, que já é baixo no mundo, despencarão.

Exportar quantidade não me parece o caminho para estabilidade e sustentabilidade do produtor brasileiro. Creio que melhor seria exportar menores volumes mas de produtos de qualidade e de alto valor agregado.

Marcello de Moura Campos Filho
SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 05/09/2019

Caro Marcello;

Se revisar novamente o texto vai perceber que em nenhum momento sugeri a possibilidade de exportar todo o leite nacional. A intenção foi de reproduzir o estudo argentino que mostra a dificuldade de custos ao ingressar nas vendas externas.

O objetivo era de mostra que, ao colocar nosso leite para vendas no exterior estaríamos incorrendo em uma desvalorização do produto oriunda da nossa ainda inexistente competitividade.

Abraço
EM RESPOSTA A SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS
SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 05/09/2019

*mostrar
MAURILIO REIS ARVELOS

SÃO JOÃO DEL REI - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/09/2019

Seus textos são ótimos!
Agora uma dúvida que eu tenho no nosso mercado interno temos excedente porque nos importamos leite em pó? Ou mesmo se não importamos leite em pó teríamos excedente? E outra dúvida com dólar em alta atualmente a importação fica mais inviável e ajuda aumentar o preço do leite interno ou não tem nada ver?
SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 05/09/2019

Oi Maurilio, obrigado por participar!

Existem momentos que temos excedentes, outros não. O fato é que o "time" das importações é diferente, e às vezes em momentos que o leite este com preços altos agentes importam leite que demora 60 dias pra entrar. Quando entram a conjuntura pode não ser a mesma do momento da compra.
Sobre o dólar, o câmbio influencia diretamente em qualquer produto de fluxo externo, quando mais volátil é o dólar, mais instável é a economia. E hoje estamos nesse patamar de instabilidade.
Abraço, obrigado !
ANDRE ALVES

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - ESTUDANTE

EM 04/09/2019

Savio não sou nem de longe especialista neste assunto , em verdade não entendo "patavinas" ,mas seu texto me fez pensar .
Esta nova legislação permite também a venda dos sub produtos do leite , tais como queijo , manteiga etc , produtos que de alguma forma foram manufaturados e geralmente tem mais valor agregado (me corrija se estiver errado) e neste caso a conta é a mesma ?
SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 04/09/2019

Oi André, obrigado pela participação !

Sim, inclusive somos mais competitivos em alguns tipos de queijos.

O fato é que o "grosso" dos negócios mundiais está posicionado nos leites em pó, por isso que a reflexão foi feita nesse produto.

Abraço
MARIUS CORNÉLIS BRONKHORST

ARAPOTI - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/09/2019

Boa tarde Sávio
Muito boa matéria .
Mas com a exportações do excedente já estaríamos num bom caminho
Abraço
SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 04/09/2019

Obrigado pelo comentário Marius,

O objetivo da reflexão é exatamente esse, provocar a busca de uma estratégia para que a venda de excedentes se concretize de forma permanente

Abraço
CARLOS ALBERTO TEIXEIRA ZAMBONI

CAJURU - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 04/09/2019

Parabéns Savio pela matéria. É sem duvida para se pensar, aprofundarmos nas possibilidades e ultrapassar as barreiras.

abs.

Zamboni
SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 04/09/2019

Obrigado Zamboni !!