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Por que "ser competitivo" incomoda tanto?

POR SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

SÁVIO SANTIAGO

EM 11/12/2017

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É cada vez mais constante que em momentos adversos de mercado, produtores e indústrias externem suas insatisfações com as importações de leite registradas no histórico brasileiro. De fato, é um tanto desconfortável que um país de dimensões continentais, vastos recursos naturais, com regiões de grande aptidão leiteira e que tem um mercado interno de 200 milhões de consumidores importe leite de países vizinhos. 

Esse desconforto na verdade revela um inexplicável “complexo de inferioridade” no setor leiteiro nacional. Sem querer desmerecer nenhum dos nossos vizinhos, mas o Uruguai, tão “temido” produz anualmente em torno da metade do leite do Rio Grande do Sul. Nos últimos dois meses importamos em média no equivalente leite, 75 milhões de litros. Esse montante é equivalente a produção de micro-regiões de Minas Gerais por exemplo. 

Aparentemente a questão não está nos números, mas no simbolismo que representa comprar leite dos países vizinhos em detrimento dos nossos produtores locais. Uma sensação de desprestígio do produtor nacional, ator principal da atividade leiteira no país. Quando o tema parte para o simbólico, fica claro que as motivações passam a ser mais do campo emocional resultando em reações mais alteradas de defesa do setor nacional (mesmo que este não esteja sob ameaça por esse motivo, nesse momento).

Essas reações são perfeitamente compreensíveis, porém ocultam o risco da cadeia láctea não discutir seus problemas e por isso não buscar soluções. Certamente, a questão principal é a falta de competitividade no mercado externo. Hoje, o nosso problema principal não está nas importações de leite, mas sim na nossa falta de capacidade de atuar de forma positiva na balança comercial. 

A mazela principal não é só estar negativo na balança, mas sim não ter a possibilidade de exportar de forma estratégica em momentos que o nosso grande mercado interno dá sinais de que vai ser incapaz de consumir tudo o que produzimos. 

Quando falamos em competitividade, a discussão fica ainda mais tensa. Daí surgem argumentos como o “custo Brasil”. Ficam expostas as más condições estruturais de estradas, distribuição inconstante de energia elétrica, altos impostos, questões políticas e por aí vai. O objetivo não é criar mais polêmica acerca de um assunto já demasiadamente polemizado, mas sim trazer novos elementos para a discussão. 

Quando se fala em competitividade do leite, o argumento “custo Brasil” fica diminuído pela histórico positivo que o país tem em outros setores do Agronegócio como a soja, o boi, milho, frango por exemplo. Logicamente que essa questão é sim importante e faz sangrar também os setores que exemplifiquei acima, mas o fato é que eles conseguem superar a dificuldade e se manter com resultados positivos na balança comercial;

Nunca seremos um país que priorizará a exportação de lácteos como atividade principal no comercio setorial, mas podemos usar esse mecanismo para enxugar o mercado sem contaminar os preços internos.  Para isso precisamos ser competitivos e não estamos falando só de custo de produção, mas também de qualidade do leite (rendimento industrial), segurança alimentar, segurança sanitária e garantia de origem. 

Como comparar o custo do nosso leite com o leite neozelandês se o teor de sólidos do leite brasileiro e o alto patamar de células somáticas permite um rendimento industrial mais de 20% inferior?

Estive presente no evento Agro+Lean, organizado pela Clínica do Leite (Esalq/USP Piracicaba) onde tive a oportunidade de participar de um painel sobre a relação Produtor/Indústria.  Permanecendo até o fim do evento, pude presenciar o excelente trabalho realizado sob a liderança do Professor Paulo Machado com a execução de sua grande equipe. O método MDA é uma ferramenta poderosa que propicia enorme ganho de eficiência nos processos produtivos das fazendas participantes. 

As apresentações de fazendas de todos os tamanhos foram extremamente motivadoras. Vimos gente competente, eficiente, profissional, que ganha dinheiro com leite, produzindo com qualidade, responsabilidade. Vimos gente feliz! Na Verde Campo também temos vários exemplos de sucesso em fazendas que assistimos, e temos a mesma impressão de realização e satisfação dos produtores com a atividade. 

Os índices de qualidade do leite das fazendas participantes do MDA, assim como os que temos na Verde Campo não deixam nada a dever para muitos países do mundo e reforçam a tese que enquanto tivermos bons exemplos, temos a condição de replicá-los.  Esses produtores realizados estão mais abertos a processos de melhoria contínua, e serão eles que elevarão a atividade leiteira no Brasil a um novo patamar de competitividade.

Por fim, o termo "ser competitivo" incomoda, porque rompe a barreira da zona de conforto. O termo "ser competitivo" força que produtores que tem o leite como atividade complementar, decidam sobre tornar a operação prioritária ou abandoná-la.
A discussão sobre esse termo promove a mais importante seleção setorial já ocorrida na história do leite no Brasil.

 

SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

Gestor de Matérias Primas Lácteas da Verde Campo,
empresa do grupo Coca-Cola especializada em lácteos saudáveis. Pioneira na produção de produtos sem lactose. Tem na linha produtos reduzidos em sódio, zero açúcar e proteinados.

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SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 18/12/2017

Caro Paulo Roberto;

Um dos fatores para o custo ser alto é realmente o que você expôs;

Mas se podemos ter uma capacidade de suporte 10 vezes superior porque não temos ?

A resposta está na discussão proposta acima, eficiência. O benefício de se ter uma capacidade de suporte 10 vezes maior certamente compensa qualquer investimento ou esforço;

Essa é uma atitude, entre tantas, que torna o produtor mais COMPETITIVO. Quem quer optar pela zona de conforto achará varias desculpas para não fazer o correto;

Obrigado pela participação !

PAULO ROBERTO VIANA FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/12/2017

O custo operacional é alto por que temos solo fraco e não corrigimos com acerto.
Colocamos 1 U A/ha e em solo corrigido podemos colocar 10 U A/ha.
Estamos na contra mão quando analisamos alimento (protéina + N D T) para período seco.
Que tal falarmos que TODOS produtores deveriam fazer ANALISE DE SOLO e fazer interpretação correta, não importa o seu sistema de produção.
Nosso produtor não deve ser orientado pelo balconista.
PAULO FERNANDO MACHADO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 15/12/2017

Obrigado por suas palavras sobre o MDA. Vamos juntos (Verde Campo, Clínica do Leite e outras instituições de mesmo propósito) fazer da pecuária de leite uma atividade de tanto sucesso quanto a soja, boi, milho, etc.
SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 15/12/2017

Certamente professor;

Mais uma vez, parabéns pelo excelente trabalho !
PAULO FERNANDO MACHADO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 15/12/2017

Realmente, Sávio, a concentração de sólidos no nosso leite é o principal fator a ser trabalhado nas fazendas. Claro que CBT e CCS são importantes mas, para melhorar a eficiência dos processos na indústria (e sua rentabilidade), os produtores precisam aumentar a concentração de gordura e proteína do leite produzido por suas vacas para que todos ganhem mais.
JOSELITO GONÇALVES BATISTA

UBERABA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 15/12/2017

A matéria é de fundamental importância diante do cenário vivenciado no momento em nosso setor. Mas nao expressa na totalidade a realidade da produção de leite no nosso país. Temos um grande número de produtores produzindo com qualidade, eficiência em todas áreas estratégicas da atividade. Temos uma grande maioria produzindo fora destes padrões é uma outra parte tão grande quanto a segunda totalmente fora dos padrões citados é necessário pro mercado competitivo e globalizado de hoje. E ainda uma pequena quantidade produzindo com altíssima qualidade mas de forma inteligente verticalizou a atividade e coloca seus produtos direto pro consumo.
Fiz questão de destacar esta divisão produtiva pra dizer que os produtores fornecedores de leite ao mercado consumidor através das indústrias estão no mesmo patamar da logistica de captação destas indústrias , ou seja, leite com qualidade ou não estão no mesmo balaio. Podíamos sim ter uma grande quantidade de leite nos padrões internacionais de consumo e transformação , mas a própria indústria se encarrega de destruir um trabalho de primeira qualidade do produtor. E mesmo vendo isto não se importa tanto em aprimorar ainda mais a qualidade de seu produto, faz um trabalho a nível de receber e atender um programa de qualidade da empresa compradora para receber o preço relativo a este programa que diga-se de passagem são totalmente subjetivos e não remuneram o suficiente para cobrir os custos desta qualificação proposta pelas empresas. Entendo que além dos gargalos citados pelo autor da matéria temos este que considero preponderante na hora de se decidir em produzir leite dentro dos padrões internacionais. Realmente precisamos de uma mudança sistemática no nosso setor. Precisa de seriedade, responsabilidade, coerência e credibilidade por parte das industriais e por parte do produtor profissionalismo e comprometimento. Estes dois elos precisão definir uma estratégia de convívio e forma segura e sustentável para eles. E não praticarem uma uma política canibalísta como a praticada hoje. O produtor está morrendo ...
SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 12/12/2017

O segredo do Doce de Leite deles é simples, e foi abordado no texto. Qualidade do leite em sólidos e Células Somáticas reflete em rendimento industrial;

Abraço
LUIS EINAR SUÑE DA SILVA

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 12/12/2017

Carlos.
É isto mesmo.
Existem ótimos exemplos de eficiência no setor leiteirro à serem.seguidos ou copiados numa escala maior ou menor.
Sobre o Dulce de Leche - rsrsrs. Vivi no Uruguay 14 anos conheço bem como se trabalha por lá e o otimo gado Holandês Uruguayo que se alimenta em pastagens nobres.
Os Herefords e Angus produzem junto com o rebanho da Argentina - as melhores carnes do mundo.
SAVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 12/12/2017

Caro Luis

Concordo integralmente, é muito mais difícil lidar com uma situação que pede mudança.
Sair da zona de conforto não é fácil
O fato é que tem muitos produtores no Brasil que já são competitivos em qualidade, gestão e tecnologia. Portanto existe espaço para melhora

Abraço
LUIS EINAR SUÑE DA SILVA

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 12/12/2017

Vc tem razão, como consultor qdo falo em ser competitivo, somos tachados de exigentes e de não querer olhar o lado do pequeno produtor.
Os pontos de corte são exatamente estes qualidade e decisão se o leite é empresarial ou se o sujeito é um leiteiro apenas.
CARLOS DESTRO

CAMPINA VERDE - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 12/12/2017

O pecuarista brasileiro não tem apoio governamental, (laticinio deita e rola) e por outro lado o leiteiro não absorve novas tecnologias como por exemplo o COMPOST BARN.
Na cidade de Campina Verde MG tem produtores com 17 vacas com mastite e não tem noção do que esta fazendo e não procura o escasso apoio de técnicos.
Brigamos por cada centavos e não entendem quem o lucro também pode estar nas economias do lado operacional onde o Compost Barn pode diminuir o custo operacional reduzindo compra de medicamentos e manejo e por ai vai.
Estive no Uruguai e la se compra um kilo de doce de leite que Minas nunca experimentou por apenas $ 80 pesos, mais ou menos R$ 8,00/kg na gondola do Supermercado Tata em Montevidéu. Tem coisas errada ai e o gado la é tudo Redeford.