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O novo normal

POR SAVIO SANTIAGO

SÁVIO SANTIAGO

EM 17/08/2020

4 MIN DE LEITURA

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Falar de normalidade enquanto brasileiro é um desafio. Vivemos historicamente em uma constante metamorfose ética, cultural, política e econômica. Alguém disse em uma peça publicitária há algum tempo que “o melhor do Brasil é o brasileiro”, e com muita razão. Mas o contrário também é verdade em muitas situações e períodos da nossa história.

Faz parte do novo normal, “normalizarmos” enquanto sociedade, por exemplo, o impacto de mais de 100 mil mortes pela covid-19. Simplesmente nos acostumamos com o noticiário e seguimos a vida. Alguns conseguem piorar ainda mais a realidade a tornando um fato político, mas esse não é o objetivo da reflexão (se você, amigo leitor, quer politizar mortes - aqui não será um ambiente fértil para debates).

Partindo para a seara econômica que é a que interessa nesse texto, estamos vivenciando um novo normal que tem pontos muito positivos e outros macroeconômicos nem tanto.

Ao iniciar a pandemia, o governo se verteu com muita razão a uma política de transferência direta de renda. Ficava claro que o impacto econômico causado pelo novo coronavírus para diversos setores seria catastrófico, mas que seria ainda mais letal a uma camada de brasileiros invisíveis para o sistema: os informais.

Mas para que os informais fossem contemplados com a urgência necessária, era sabido que parte dos recursos cairia nas mãos de muitas pessoas que eram inativas economicamente, e pior, outra grande parte seria indevidamente utilizada por quem menos precisa.

Mesmo com os destinos do dinheiro confusos e muita das vezes indevidos, o governo se surpreendeu com o aporte de arrecadação e com o ganho político da medida. O impacto negativo da pandemia que se estimava até acima de 10% no PIB para 2020, já figura em menos de 3,5% nas previsões macro, podendo ficar bem menores após novas atualizações. A popularidade do Presidente que apontava para baixo, inverteu, principalmente nas camadas mais carentes da população.

O programa foi batizado de “auxílio emergencial”, mas ao que tudo indica será parte do nosso novo normal por muito tempo, mesmo que em outros valores. A combinação de aporte econômico e suporte político seduziu o governo que se apega nessa nova realidade de calmaria e popularidade.

Para o nosso setor, os impactos iniciais também foram muito positivos. Ao se atender camadas mais carentes com um impulso de renda, a priorização imediata foi a categoria dos alimentos.

Segundo estudo recente da consultoria ZAHG, o consumo de frutas e verduras, por exemplo, subiu 44%. A consultoria afirma que a demanda aumentou porque a alimentação se transferiu com muita força para preparos dentro do lar e porque também aumentou o interesse do consumidor por manter a despensa mais estocada. Isso se deve a menor circulação das pessoas para as compras e a sensação da necessidade de manter “estoque de urgência” que supra qualquer emergência. Essa mudança de hábitos aliada a mais renda disponível provocou valorização em quase todos os itens da cesta básica.

O governo que se elegeu se intitulando “de direita” e “liberal na economia e conservador nos costumes” agora se vê em meio a uma contradição ideológica porque flerta com práticas utilizadas em economias socialistas. Essas práticas naturalmente provocam imediato incremento de capital político em um país pobre como o Brasil.

Porém, os efeitos a médio e longo prazo preocupam. Todos sabemos que o dinheiro transferido tem que sair de algum lugar: dinheiro não dá em árvore.

O retorno às manchetes da possibilidade de um imposto sobre movimentação financeira, camuflado de reforma tributária, marca essa mudança de rumos econômicos de forma muito clara. A CPMF era um famigerado imposto infinito que à época tinha a justificativa de gerar recursos para a saúde. Nunca foi isso de verdade: hoje quem tem condição financeira, tem como prioridade manter contratado um plano de saúde privado para si e para a família dada a péssima qualidade da saúde pública no país.

Ter uma nova CPMF como bengala para políticas de transferência de renda populistas, aproxima o país de exemplos econômicos muito mal sucedidos, inclusive aqui nas Américas. O impulso artificial por aumento de consumo é diretamente proporcional ao aumento de carga tributária para o setor produtivo e inflação crescente.

Para o nosso setor, o momento de valorização e aumento da rentabilidade pontual é positivo. Commodities como UHT, muçarela e leite em pó marcam valorizações seguidas e puxam os preços dos derivados de tabela, que têm correções mais morosas e que estavam por anos se arrastando em tentativas de valorização da indústria para varejo. Isso indica claramente um ganho de valor na cadeia.

Não quer dizer que os preços não cairão mais, mas que as novas curvas de queda tendem a marcar pisos de preços mais altos. Depois de muito tempo é um ganho econômico importante para o setor, e isso é sim um fator a comemorar por hora.

O aumento de consumo na pandemia provoca também outro efeito positivo, o incremento dos lácteos como hábito de consumo permanente para determinados indivíduos. Isso se deve ao efeito positivo da experimentação. Muitas pessoas que por diversos motivos não tinham o hábito de consumo de laticínios ou de determinados produtos lácteos, estão mantendo por um bom período o novo hábito de consumi-los. Um hábito repetido por muito tempo vira cultura, e nesse ponto estamos tendo um ganho muito considerável.

Espero que esse momento seja o nosso novo normal de ganho de valor e aumento consumo, mas que não nos esqueçamos de manter a cautela, porque tempos econômicos turbulentos virão.

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SAVIO SANTIAGO

Gestor de Matérias Primas Lácteas da Verde Campo,
empresa do grupo Coca-Cola especializada em lácteos saudáveis. Pioneira na produção de produtos sem lactose. Tem na linha produtos reduzidos em sódio, zero açúcar e proteinados.

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ANTONIO BOVOLENTO JR.

ITU - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 20/08/2020

Caro Savio,

Duas considerações a respeito desse assunto:

Também não deixam de ser preocupantes as perspectivas da retirada desses benefícios emergenciais no resto do mundo, principalmente nos países ricos. Qual será o impacto sobre as nossas exportações do agronegócio quando essa enxurrada de dinheiro secar? Talvez até haja uma queda nos preços dos grãos, e até mesmo do dólar, mas a renda do produtor (e do agronegócio) aqui pode ser impactada?

Muitas cabeças importantes, como Yuval Harari e Mark Zuckerberg defendem a ideia de uma renda mínima (ou renda universal básica), coisa meio parecida com esse auxílio emergencial atual. Na minha opinião, não se trataria de transferência de renda, mas de garantia de uma renda mínima.Concordo que dinheiro não nasce em árvore, como você diz, mas será que essa iniciativa poderia ser útil, ou até mesmo necessária, desde que devidamente acompanhada de um ajuste fiscal, obviamente? Nesse caso, imagino que nosso setor seria um dos grandes beneficiados, não? O que você acha?
SAVIO SANTIAGO

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 20/08/2020

Bom dia Antonio !!

Sobre a primeira questão, concordo. Mas a maioria dos países importadores já estão com a atividade econômica em plena recuperação. Natural que após perda de reservas e endividamento crescente, nações passem por períodos recessivos.

Sobre a segunda questão, renda mínima e transferência de renda conceitualmente são a mesmíssima coisa. O dinheiro tem que sair de algum lugar para subsidiar a renda mínima e isso é transferência de renda. Como não nasce em árvore, ele sai inevitavelmente dos setores produtivos de uma sociedade, incluindo trabalhadores. O resultado é sempre perigoso.
Renda mínima para pessoas abaixo da linha da pobreza comprovadamente já se comprovou ser importantíssimo, agora dinheiro do erário permanentemente nas mãos de 25% da população tende a gerar sérios problemas no futuro

Abraço !!!
ARNALDO BANDEIRA

CURITIBA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 19/08/2020

O Auxilio Emergencial do Governo (AEG), além dos benefícios imediatos e riscos futuros apontados pelo autor, como sempre com muita clareza, serve bem para mostrar quão importante são as políticas econômicas que promovem melhor distribuição de renda, ao invés de políticas neoliberais que, ao contrário, só fazem concentrar cada vez mais a renda e riqueza nas mãos de poucos.
SAVIO SANTIAGO

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 19/08/2020

Olá Arnaldo!

Obrigado pelo elogio,

Como Economista, a minha opinião é que sempre há um meio termo em tudo. Transferência de renda a quem está na base da sociedade já provou ser uma prática justificável tanto do ponto de vista social como econômico.
Mas transferência de renda indiscriminada (Mas justificável) como é o auxílio emergencial, capaz de causar distorções em mercados e setores, sempre provocam mais problemas do que benefícios pra economia. Agradeço sua participação !
SÓSTENES SILVA

EM 19/08/2020

O capitalismo liberal não existe. Toda vez que ocorre catástrofes o capitalismo pede socorro as políticas socialistas.
SAVIO SANTIAGO

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 19/08/2020

Grande Sostenes !

Práticas de transferência de renda costumam corrigir distorções pontuais e criar a médio prazo distorções econômicas maiores. A história mostra isso.
Aqui na estão sendo sentidas. Podemos
Esperar um 2021 com grande desemprego, inflação recorde e a conta nas costas de quem produz.
Como disse no texto, dinheiro não dá em árvore.
Vamos aguardar para ver o efeito
Abraço !!!!!
EDMILSON MARTINS DE MENDONÇA

CORONEL XAVIER CHAVES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 18/08/2020

Bela e profunda reflexão sobre o momento econômico brasileiro e seus impactos na cadeia de lácteos. Pra nós, produtores de leite, esse artigo contribui inclusive na novas tomadas de decisão. Realmente, a pandemia está criando um novo normal. Parabéns!
SAVIO SANTIAGO

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 19/08/2020

Obrigado Edmilson !!
JOÃO LEONARDO PIRES CARVALHO FARIA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/08/2020

Sávio, mais uma vez, um artigo espetacular....meus parabéns!
SAVIO SANTIAGO

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 19/08/2020

Obrigado João !
ANTÔNIO CARLOS GUIMARÃES COSTA PINTO

LUZ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/08/2020

Parabéns para a matéria.
Os tempos tendem a ser melhores principalmente pela valorização das comodites. Com soja e milho nas alturas, a ração fica cara. Se houver quedas acentuadas no preço ao produtor, vai haver uma debandada(que já está ocorrendo há tempos) muito acelerada. O setor lácteo têm que acordar que hoje o produtor têm outras saídas, e não vai ficar eternamente escravo
SAVIO SANTIAGO

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 19/08/2020

Obrigado pela participação Antônio!

Aí que está o ponto que devemos ter cautela, o mercado de leite não é tão diretamente conectado ao de grãos. Já tivemos vários momentos de custos de grãos altíssimos e preços de leite baixos onde não houve uma debandada imediata de produtores. Portanto um retorno forte de preços seria desafiador nesse sentido. Mas também afirmei que o próximo piso de preços de lácteos deve ser mais alto.

Abraço e obrigado !
CARLOS ALBERTO T. ZAMBONI

MOCOCA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 17/08/2020

Sávio parabéns mais uma vez por matérias atuais e reflexivas.

Eu acredito tbem que o "Momento de Valorização" chegou ou chegara para o nosso segmento, e vejo tbém essa valorização expandindo-se além da fronteira do Consumidor, chegando ao Varejista/Atacado, que saberá respeitar-nos e valorizar -nos, percebendo assim a importância dos lácteos para os seus negócios.Já estão bem evidentes nas últimas semanas as atenções dispensadas por eles e as conquistas de melhores margens dos "derivados de tabelas", L. Condensado, creme de leite TP, Requeijões.

abs

ZAMBONI
SAVIO SANTIAGO

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 17/08/2020

Concordo professor !!! Obrigado por participar
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