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O abismo entre o úbere e a mesa

POR SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

SÁVIO SANTIAGO

EM 07/10/2020

4 MIN DE LEITURA

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Não é de hoje que defendo a tese que não sabemos nos comunicar com o consumidor. Esse indivíduo desconhecido, informado e atualmente tão cheio de opinião.

O consumidor é a mola propulsora do setor. Alheio a todas as discussões setoriais: técnicas, mercadológicas e políticas, ele deseja saborear um bom queijo pela manhã, tomar um café com leite encorpado ou oferecer produtos seguros aos seus filhos e também aos idosos.

O maior atestado de um fracasso em comunicação setorial é torcer para que o alvo não visualize certa ação ou postagem. O setor está contaminado com um discurso setorial pesado, de conflito na maioria das vezes sem causa.

Passamos pelo momento de maior preço médio de leite e derivados, e pelo maior período em altas sequenciais. É certo que nesse ambiente de incertezas o custo está subindo também, mas mesmo assim índices de rentabilidade como o RMCR (receita menos custo de ração) divulgados pelo Milkpoint, mostram que o momento é bom também nos resultados das fazendas.

O discurso conflituoso e conspiratório surge sempre que as tendências de alta mudam para a queda iminente. Surgem discussões sugerindo grandes armações para a derrubada do mercado, apelos aos consumidores para que valorizem a classe, dentre outras iniciativas.

Ninguém em sã consciência reduz o preço do próprio produto pensando em uma estratégia mirabolante pra prejudicar outra pessoa ou grupo de pessoas – nem o produtor para derrubar os preços do leite, nem a indústria para reduzir cotações dos derivados. As quedas acontecem por uma conjunção de fatores que afetam a disponibilidade e o consumo, assim como as altas, e não são do controle de nenhum dos elos envolvidos na produção.

Por outro lado, esses apelos por justiça e valorização aos consumidores não surtem nenhum efeito. Qualquer pessoa ao adentrar um supermercado tem a expectativa de encontrar o produto que gosta pelo menor preço possível. Outro dia para conseguir “descontaminar” a cabeça de um amigo, perguntei a ele se ao procurar uma bela picanha para o churrasco do fim de semana, escolhe a mais cara porque valoriza o produtor de carne, ele admitiu que não. Se tiverem disponíveis duas peças com qualidade equivalente ele logicamente escolherá a mais barata. Não existe senso de justiça em mercado.

Para piorar alguns grupos de rede social que se denominam representantes da classe turbinam essas mensagens com imagens totalmente contrárias ao estimulo de consumo.

A pouco tempo postaram uma foto de um produtor de subsistência em condição precária de operação, com falhas grotescas e visíveis de higiene reclamando da crueldade econômica da indústria para com ele. Essa imagem cria repulsa do consumidor por conta da segurança alimentar duvidosa e o discurso provoca afastamento de determinados consumidores mais sensíveis ao questionamento social. Entendem que aquele produtor de subsistência é o produtor médio nacional, que vive explorado por grandes companhias ricas e poderosas.   

Nessa semana um movimento postou um texto, que no caso de quedas de preços animais em lactação iriam para o abate, e reforçaram o discurso com uma vaca de leite morta pendurada no gancho.

Já houveram momentos de rentabilidade muito mais baixa e de preço da arroba firme em que animais não foram em massa para o abate. Leilões de leite têm marcado preços médios recordes até em animais de qualidade bem duvidosa. Animais de idade avançada e improdutivos por qualquer motivo devem ser descartados como uma estratégia de gestão e não como reação a queda de preços. O mesmo mercado que pode voltar agora, arrisca subir novamente em 60 ou 90 dias – o produtor precisa se profissionalizar e entender que nem só de alta vive qualquer produto.

Postar uma imagem de uma vaca de leite morta, preto e branca, que é um animal historicamente romantizado pelo público, é de uma falta de sensibilidade absurda. Nem o vegano mais fanático teria uma ideia tão genial para denegrir o setor. As vacas são representadas em animais de pelúcia, desenhos animados, materiais destinados a crianças, sempre com seus sinos no pescoço e com as belas manchas preto e brancas – jamais devem ser expostas como um simples objeto, descartável por questões econômicas questionáveis. Essa é a fórmula irracional para o setor contar com a antipatia geral da sociedade, o marketing inverso que acerta em cheio na redução de consumo.

Sobre mercado, não vou me aprofundar porque esse não é o objetivo. Tudo o que sobe, cai e sobe de novo e cai de novo. Entendi isso quando entrei no setor e sugiro que muitos aceitem essa realidade. Gastar energia e tempo criando teorias e culpados só fará com que deixem de direcionar esforços com outras ações de gestão que terão impacto real.

Temo que nunca conseguiremos uma comunicação eficiente com quem consome nossos produtos. Mas se ainda acreditarmos nessa possibilidade, o primeiro caminho é não jogar contra.

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SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

Gestor de Matérias Primas Lácteas da Verde Campo,
empresa do grupo Coca-Cola especializada em lácteos saudáveis. Pioneira na produção de produtos sem lactose. Tem na linha produtos reduzidos em sódio, zero açúcar e proteinados.

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LEOPOLDO ANTÔNIO PEREIRA

CARMO DO RIO CLARO - MINAS GERAIS

EM 13/10/2020

Parabéns Sávio, texto profissional para clarear a visão da classe e ir corrigindo as distorções das opiniões, as vezes inocentes de entendimentos.
Abraço Léo Pereira
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 13/10/2020

Obrigado Léo !!!
ALMIR RUDSON DA SILVA

ITUIUTABA - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 09/10/2020

Parabéns Sávio! Podemos mostrar mais o lado bom e real da atividade, em detrimento a má imagem midiática que apresentam sobre a cadeia do leite. A excessão não poderá ser apresentada como regra, como fazem os veganos!
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 09/10/2020

Tem razão Almir!

Nesse caso não deveria nem ter havido essa excessão, uma vez que o consumidor leigo não conhece a nossa rotina. Ele tende a acreditar que é regra.

De dentro da cadeia não pode sair "fogo-amigo"

Obrigado !!
LUIS EINAR SUÑE DA SILVA

ANÁPOLIS - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 09/10/2020

Excelente reflexão. Na realidade muitos de nós sabemos quem teve a infeliz idéia mentirosa e terrorista. Esquerdopatas adoram isto. Vamos ao que interessa, estamos com custos altos mas as vacas holandesas não vão para o gancho. Valeu Sávio.
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 09/10/2020

Obrigado Luís !!
ROBERTO JANK JR.

DESCALVADO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/10/2020

Ótima e necessária reflexão Sávio. Parabéns.
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 08/10/2020

Obrigado Jank !!!
JOAO PAULO DE SOUZA PIMENTA

PRATA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/10/2020

Quero estar sempre bem informado do setor e acredito que milkpoit e melhor
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 09/10/2020

Você tem razão João Paulo !!
WAGNER BESKOW

CRUZ ALTA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 08/10/2020

Um dia, logo aí à frente, quando estivermos colocando MUITO leite em mercados além mar e o mundo estiver desabando sobre nossas cabeças com reclamações e acusações vindas de fora, visando nos desestabilizar, vamos estar todos unidos e pegando junto, para nos defendermos, nos melhorarmos e não nos acovardarmos.

Olharemos, então, para trás e lembraremos desta foto que te referes: uma Holandesa pendurada no gancho de um frigorífico, clicada do lado ventral com seu úbere estampado, e lembraremos que um de nós postou isso. Neste cenário que pinto, será inacreditável essa foto. Hoje é chocante, mal pensada, egoísta (no sentido de que só pensou no seu quadrado, como se ele não dependesse do conjunto). Será inacreditável, impensável.

Em nossa cultura podemos não considerar a vaca sagrada como na Índica, mas quem vive do leite que ela produz 305 dias por ano, precisa ter um pouquinho mais de consideração para não usar seu envio para o gancho como cavalo de batalha.

Não quero crucificar o responsável, mas me juntar na mensagem de que não foi positivo para ninguém, mesmo que viesse de quem está chutando o balde, vendendo o rebanho e caindo fora do setor no modo "que se exploda" (pois é o que parece).

Que sirva de lição para todos nós e como uma pá de cal sobre a falta de conhecimento do que é e como funciona uma cadeia de suprimento. Respeito ao cliente, em primeiro lugar e roupa suja se lava em casa.
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 08/10/2020

Perfeito !!

Nesse cenário brilhantemente desenhado, certamente nos lembraremos temerosos que a imagem ainda esteja disponível em algum lugar da Web, como diz a garotada: "o print é eterno",

Na realidade atual já travamos brigas com setores atuantes do mercado interno que buscam vencer-nos pela mentira e pelo sensacionalismo. Marketing de produtos que sonham em substituir os lácteos já exploram o jargão "Sem sofrimento animal".

Afim de colaborarmos com quem quer o mal do nosso setor, cedemos de mão beijada munição de bom calibre.

Isso precisa acabar. Produtor de leite não busca pagar uma tonelada de milho mais cara por livre iniciativa porque "valoriza" o produtor de milho...

Você disse muito bem na rede social professor: "protesto antecipado a queda dos preços". Nem caiu ainda, nem sabemos o quanto vai cair e já estão a toda, reforçando inclusive o "clima" baixista.

Triste momento
EM RESPOSTA A SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS
MARLUCIO PIRES

EDEALINA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/10/2020

Na verdade sabemos sim. As notas fiscais pro próximo pagamento já estão nas caixas de e-mails.
EM RESPOSTA A MARLUCIO PIRES
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 08/10/2020

A esmagadora maioria das empresas não praticou baixa em setembro,

Obrigado por participar
LE.PASCHOAL@LIVE.COM

VALINHOS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/10/2020

Excelente texto!
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 08/10/2020

Obrigado !!!
CAMILO RAMOS

NOVA VENÉCIA - ESPÍRITO SANTO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/10/2020

Há 29 anos trabalhando com assistência técnica na pecuária de leite, sempre bati na tecla que o setor de lácteos nunca soube trabalhar o marketing institucional. No dia que o setor aprender a divulgar seus produtos institucionalmente, deixando de lado a concorrência interna, toda a cadeia e todos os "concorrentes" sairão ganhando.
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 08/10/2020

Obrigado pela participação Camilo !
AMAURIK CEZARIO COELHO

PASSA TEMPO - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 08/10/2020

Excelente análise, devemos deixar o mimi de fora do setor, e cada membro olhar para dentro de seu negócio, e buscar obstinadamente a melhoria da eficiência e qualidade, em todos os elos da cadeia leiteira. Agir coordernadamente para defender a imagem do setor, pois tem outros players de outros setores em busca do poder de compra do consumidor. O mercado é soberano.
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 08/10/2020

Perfeito Amaurik !!!
ALEXANDRE BERNARDI

CHAPECÓ - SANTA CATARINA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 07/10/2020

Ótimo texto
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 08/10/2020

Obrigado Alexandre !
DANIELA ALVES DOS SANTOS

SANTA FÉ DO SUL - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/10/2020

Ótimo texto!
SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 07/10/2020

Obrigado Daniela !
MilkPoint AgriPoint