Na crise, sempre consulte o seu travesseiro |
Estamos diante de um momento de exceção. Calamidades públicas causadas por pandemias, greves, guerras ou catástrofes naturais inutilizam planejamentos econômicos e naturalmente mudam a ordem natural das coisas.
De uma hora para outra todas as tendências conjunturais mudam, se confundem e causam incertezas. Ativos mais frágeis evaporam, atividades entram em risco e medidas de gestão emergenciais são tomadas com mais agilidade.
Impactos macroeconômicos sobre os mercados pesarão sobre todas atividades locais com maior força e dinamismo. Fora das crises, ações de gestão têm efeito equilibrado com as interferências externas no resultado dos negócios, em momentos de exceção não.
Em dois anos esse é o segundo evento inesperado que o país enfrenta. Em 2018, a greve dos caminhoneiros causou consideráveis prejuízos a sociedade. A diferença é que agora a questão é mundial e de saúde pública.
Apontar caminhos ou propor soluções padronizadas em um momento tão incerto não é prudente e pode induzir graves erros.
Torna-se cada vez mais vital acompanhar variantes de mercado e suas tendências. Na pecuária de leite, as principais influências de mercado são o preço do leite, dos derivados e das commodities milho, soja e petróleo. A análise das cotações deve ser acompanhada de ações de técnicas de gestão no sentido da redução de custos, despesas e avaliação quanto a postergação de investimentos. “Ah, mas com soja e milho nesse preço não dá pra reduzir custos”: Claro que é mais difícil, mas sempre, sempre dá pra reduzir custos, desperdícios e despesas desnecessárias.
Tenho vistos movimentos no sentido de sugerir ações que vão desde a secagem de animais até a redução da alimentação, visando equilibrar estes custos. Em tese, reduzir o volume disponível no mercado quando se tem tendências contrárias entre os preços de leite e os principais insumos de produção parece lógico, mas pode provocar distorções perigosas no curto e médio prazo. Claro que sempre será coerente secar animais antieconômicos e reduzir custos de alimentação quando possível, mas a situação de cada propriedade deve ser individualmente analisada com o devido auxílio técnico.
A greve dos caminhoneiros reduziu os estoques de giro de leite em virtude do descarte do produto naquele momento. Estima-se que em torno de 300 milhões de litros se perderam diante da inviabilidade logística na coleta de leite e na distribuição dos derivados. A primeira reação pós-greve foi uma abrupta subida nos preços atrelada ao desabastecimento pontual. A realidade daquele momento logo foi seguida de uma ressaca no consumo e da não menos intensa queda nos preços.
É óbvio que na possibilidade de um colapso que leve ao eventual descarte do produto, medidas mais emergenciais surgirão, mas devem ser pensadas e adaptadas a cada negócio. Se o produtor tem normalidade na colocação do produto e pretende permanecer na atividade, a melhor solução pode ser ter calma e pensar com mais clareza no “pós crise”.
Em uma situação como a que estamos vivendo, frases de efeito ressurgem. Dentre tantas, tem aquela: “É na crise que surgem oportunidades”. A situação prévia que cada um vivia quando entrou na crise e as atitudes tomadas durante esse período determinarão quem vai largar na frente no período de retomada.
Portanto se cabe um conselho responsável, seria esse: tenha calma, olhe para dentro com riqueza de detalhes, olhe muito para fora analisando diariamente tendências, consulte técnicos especializados e tome decisões das quais não irá se arrepender depois.
Por mais especializado que um técnico seja, por mais informações que um analista tenha, por mais parceira que a indústria seja, sempre escute e analise todas as sugestões.
Mas, na crise, só tome decisões após consultar seu travesseiro.
Gestor de Matérias Primas Lácteas da Verde Campo,
empresa do grupo Coca-Cola especializada em lácteos saudáveis. Pioneira na produção de produtos sem lactose. Tem na linha produtos reduzidos em sódio, zero açúcar e proteinados.
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JORGE LUIZ PEREIRA DE OLIVEIRAALTÔNIA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL EM 22/04/2020
Bom dia, Savio!
Contudo isto que está ocorrendo, com certeza o aumento de estoques do leite. Na sua opinião as empresas irão reduzir o preço e/ou limitar a compra do leite in natura direto do produtor? |
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SAVIO SANTIAGOLAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS EM 23/04/2020
Boa tarde Jorge!
Não são as empresas. O mercado estocado e com vendas limitadas naturalmente terá preços pressionados. Sobre a limitação de compra dos produtores eu acho que vai depender do tempo que a crise se estender. Obrigado pela participação |
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RAFAELCHAPECÓ - SANTA CATARINA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL EM 22/04/2020
Parabéns.
Excelente material. |
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JOÃO LEONARDO PIRES CARVALHO FARIAMONTES CLAROS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL EM 20/04/2020
Muitas vezes as pessoas se desesperam quando percebem que as incertezas e situações fora do controle realmente guiam as suas vidas. Obviamente, sempre temos que trabalhar naquilo que podemos ter o controle, mesmo que de forma parcial, mas em momentos em que o dia de amanhã é incerto, o desespero bate na porta.
Sábios conselhos para uma classe tão atormentada pela falta de controle emocional no dia a dia(eu me incluo muitas vezes nesta caracterização)!! |
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MÁRIO SANTIAGOBARBACENA - MINAS GERAIS EM 17/04/2020
Parabéns Sávio Santiago, está se tornando um excelente consultor técnico, ótimas matérias muito bem redigidas, diferentes pontos de vista, sábios e valiosos conselhos, está no rumo certo, siga brilhando, sucesso.
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MARLUCIO PIRESEDEALINA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE EM 17/04/2020
Boa tarde Sávio. Concordo quanto a secagem de vacas pouco produtivas ou com gestação adiantada. Quanto aos grãos, realmente houve uma forte alta, de dois meses pra cá, mas nem sempre diminuir a ração é solução pra baixar o custo do leite, pois as vezes eu tiro dois mil reais de ração, mas a produção cai 3 mil litros, e o valor por litro que preciso receber pra zerar minhas contas acaba aumentando. Mas acredito que quando acabar a quarentena, havendo retomada principalmente na venda de queijos, haverá forte concorrência entre laticínios por leite, já que com o dólar a 5 e tantos, fica inviável a importação de leite em pó
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SAVIO SANTIAGOLAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS EM 17/04/2020
Obrigado por participar Marlucio!
Estou concordando com o que você disse em relação a tirar alimentação no texto, por isso sugiro análise de cada caso. Sobre o mercado de leite pós crise não acho que deve reagir tão rápido. Os volumes excedentes estão praticamente lotando as plantas de leite em pó do país e parte desse produto voltará como matéria prima para o mercado. Além disso sairemos de uma realidade de 13 milhões de desempregados para mais de 20 milhões. Também torço para que tudo melhore o quanto antes, mas não sugiro que você considere na sua tomada de decisões recuperação rápida de preços de leite, ela acontecerá mas pode ser um pouco mais tardia. |
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EM RESPOSTA A SAVIO SANTIAGO
MARLUCIO PIRESEDEALINA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE EM 20/04/2020
Bom dia Sávio
O produtor de leite sempre espera o melhor, mas se prepara pro pior. Infelizmente o desemprego vai aumentar de imediato, e com certeza o consumo de lácteos, principalmente os com maior valor agregado vão sofrer. Mas mesmo com o futuro tão incerto, temos hj, com dólar a 5.23, competitividade no preço do leite em pó, contando 8.5 litros por kg de pó. Vai resultar em leite a menos de USS 2.500. |
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