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Inteligência de mercado para o leite no Brasil: o que falta?

POR SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

SÁVIO SANTIAGO

EM 04/04/2022

5 MIN DE LEITURA

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O setor do leite no Brasil tem um grande diferencial competitivo que também acaba sendo o maior desafio.

O nosso mercado consumidor é um dos maiores do mundo, o brasileiro gosta de lácteos e esse é um setor com uma importante característica regional. A indústria é bem fragmentada, com características muito distintas entre uma e outra e temos industrialização em quase todos os municípios.

Essas características parecem retratar um setor 100% saudável. É um status de concorrência perfeita e fragmentada, o que geralmente é uma característica desejável na maioria das atividades. E isso é de fato positivo no nosso setor.
 

Onde então estão os desafios?

A diversidade de aplicação da matéria prima, a diferença tecnológica e estrutural entre produtores e indústrias e as decisões de mercado de curto prazo que favorecem um ambiente de total falta de inteligência de mercado setorial.

Por vezes, o industrial está vivendo um momento de retração nas vendas à um varejo estocado, e a mensagem que está chegando ao produtor ainda o estimula a aumentar produção. Como em alguns momentos, o mercado vem de um longo período de retração, indicando ao produtor que deve reduzir produção e os preços estão reagindo na ponta.

O tempo de reação ou retração de preços entre os elos é muito distinto e depende de movimentações que não estão ao alcance de todos os olhos envolvidos. Os principais países desenvolvidos na produção de leite no mundo monitoram e as vezes até interferem na disponibilidade total de leite.

A Nova Zelândia por exemplo, tem dependência quase total de exportações e por isso tem uma fragilidade de mercado que nós não temos, e mesmo assim conseguem pensar o setor a médio e longo prazo de uma forma muito mais eficiente que o Brasil.

Logo surgirão argumentos que levam a uma politização do tema, insinuando que estou sugerindo controle e interferência de mercado. Já me antecipo respondendo que não tem absolutamente nada haver com controle de preços.

O uso de inteligência aplicada, pode sugerir ações a médio e longo prazo que são absolutamente benéficas a todos os elos. Conflitos a parte, é fato que indústria e o produtor só ganham dinheiro com o mercado valorizado por estar menos ofertado do que a demanda pontual. É absolutamente mais saudável e porque não dizer mais fácil, administrar escassez do que excedente.

Discutindo recentemente esse tema em um grupo muito qualificado de produtores e técnicos, fui frontalmente questionado e concordo em parte com os argumentos. Normalmente, o consultor a campo, luta diariamente para aumentar produção média, produção por área e por consequência a produção total do produtor atendido. Pensando individualmente, esse é realmente o cenário mais correto. Produtor precisa melhorar sempre a sua eficiência, reduzindo custo fixo constantemente. Eu entendo e concordo em parte. A pequena parte que eu discordo, é que nem sempre produzir o máximo é a melhor decisão pensando coletivamente enquanto setor.

Será que o efeito de ter um custo fixo mais diluído por de ter mais leite na fazenda, em determinado momento, sempre será mais vantajoso do que não ter um preço satisfatório por um longo período?

Será que em algum momento vale a pena tirar animais em avançado período de lactação da linha de produção para manter a oferta ajustada a demanda? Será que esses animais estão dando resultado?

Logicamente, que tentar fazer isso isoladamente, não terá efeito prático nenhum. Se o meu vizinho está buscando aumentar produção, a minha decisão de controlar a oferta é inócua, e aí pode ser melhor seguir o mesmo caminho.

Outra polêmica é em relação ao uso de promotores de produção. Nada contra a decisão técnica de usá-los. Mas será que economicamente é sensato fazer o uso em momentos de excedentes? A resposta é a mesma: isoladamente pode ser, mas enquanto setor certamente não é.

Em alguns momentos, uma redução de oferta de 3 a 5% é totalmente suficiente para corrigir distorções de mercado pontuais. Estamos falando de 30 a 50 litros em uma propriedade de 1.000 litros dia. Será que uma propriedade de 1.000 litros dia não tem 30 litros de animais que não estão trazendo resultado?

Ninguém está falando que é fácil organizar um trabalho desse nível. Repito, somos fragmentados, desorganizados, decentralizados, sem padrão tecnológico, mas o pior cenário é não aplicar nenhuma inteligência de mercado.

Recentemente com o advento da pandemia, a maioria das indústrias ainda assustadas pelo desconhecido cenário, soltaram comunicados sugerindo a redução de produção por parte das fazendas. Produtores, também apavorados com o problema, secaram animais de lactação avançada. Só não estava combinado com ninguém o aumento de demanda por influência do isolamento social e do auxílio emergencial. O resultado é que tivemos meses de bons preços e bons resultados em produtores e indústrias, porque é sempre melhor administrar escassez.

O que se viu adiante, foi um problema de redução de consumo que não foi acompanhada de forma equivalente por redução de oferta. E aí tivemos um longo período de administração de sobre oferta, e todos sabemos os nossos resultados.

Não nos falta gente boa e especializada, dados confiáveis, previsões bem fundamentadas. Mas nos falta a capacidade de sentar a mesa e discutir o que realmente importa.

Muito tempo e muita energia é perdida com conflitos, teorias da conspiração e brigas entre produtor e indústria. Um elo acredita piamente que o outro está ganhando dinheiro quando o cenário está ruim. Como se para estar difícil para um, tem que estar bom para outro. Essa é a maior perda de tempo do setor: quando está difícil para um, está invariavelmente difícil para outro.

Isso, pelo simples fato de que quando há menos valor final por um derivado, há menos valor a ser dividido entre os participantes da produção desse produto. Sendo assim, há sempre uma margem menor, quando não nula ou negativa a ser partilhada.

Vejo por vezes representantes que na verdade não são de fato representantes eleitos pelo setor, gastando oportunidades políticas com o governo com argumentos e reivindicações completamente equivocadas e inócuas. Vão lá na frente de uma ministra de estado ou de um parlamentar, reclamar do que não é de fato o problema, e aí ficamos estigmatizados como “reclamões”, uma vez que logicamente as solicitações são checadas e desacreditadas.

É hora de se criar mecanismos de inteligência, nem que seja para somente para emitir alertas e dar direção para quem deseja seguir. Nós trabalhamos com leite: Perecível, imprevisível e de difícil gestão no dia a dia.

Alguma coisa precisa ser feita como inteligência de mercado no setor além do “nada” que fazemos hoje.

SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

Diretor de Originação na UltraCheese - Administração da rede de fornecedores de leite, negociação de matérias primas lácteas, gestão de qualidade.

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WILGNER HENRIQUE THOMAZ

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 25/04/2022

Olá, Savio! Muito prazer! Primeiramente quero parabeniza-lo pelo excelente trabalho. Seus artigos são ótimos! Me chamo Wilgner, também sou de Lavras-MG. Estou em processo de formação como UX Design e estou fazendo uma pesquisa sobre a agropecuária leiteira em Lavras-MG. Me indicaram esse site pois tem bastante artigos seus, tenho feito algumas leituras e tenho gostado bastante. Gostaria de saber se podemos bater um papo virtual via Google meet ou Zoom. Caso tenha interesse, só me confirmar que passo meu e-mail para conversarmos melhor. Desde já agradeço.
MARLUCIO PIRES

EDEALINA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/04/2022

Boa tarde Sávio. Tb já discuti com um consultor aqui em casa, falando que cada produtor está inserido num contexto enorme, e que sem tomar decisões coletivas, o resultado individual sempre será nulo. Ele sempre contra argumenta que a única solução é maximizar a produção pra diluir o custo fixo. Nunca achei ele totalmente errado, mas vc, como sempre, com uma visão mais ampla do problema, matou a charada.
A informação tem que chegar mais rápido, mesmo sabendo da volatilidade do mercado, as decisões tinham que ser, de alguma forma, mais coletivas. Produzir sempre ao máximo, apesar de ser viável quanto ao custo fixo, de nada resolve em épocas de demanda fraca e oferta abundante.
Sempre cito seu artigo "a morte da galinha dos ovos de ouro", pois ele cita um problema futuro da cadeia, onde os grandes produtores cresceram amparados pelos menores. Um típico esquema de pirâmide. Parabéns pelos artigos. Sempre precisos.
ANDRE ROZEMBERG PEIXOTO SIMÕES

AQUIDAUANA - MATO GROSSO DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 04/04/2022

Legal Sávio. Parabéns pela reflexão. Temos claramente um problema de lógica de ação coletiva entre os produtores e o dilema de maximizar o lucro individual. A teoria nos diz que problemas desta natureza devem ser resolvidos com incentivos reais para tomadas de decisões coletivas mais acertadas em detrimento ao individualismo. Acredito que o desafio seja achar os esses incentivos e mecanismos de implementá-los.
Aproveito para sugerir a leitura desse artigo que publiquei a alguns anos e que o resumo está na minha coluna aqui do Milk Point.

https://www.milkpoint.com.br/colunas/andre-rozemberg/inovacao-tecnologica-e-a-exclusao-de-produtores-de-leite-226497/

Grande abraço
FERNANDO BACK

FORQUILHINHA - SANTA CATARINA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 07/04/2022

CLARO,LÓGICO E PRECISO! PAÍSES COMO EUA ESTÃO COM CONCENTRAÇÃO CADA VEZ MAIOR DE REBANHOS E PRODUÇÃO E OS RESULTADOS SÃO CADA VEZ PIORES LEVANDO A UMA ESPIRAL SEM FIM. INTELIGÊNCIA É O QUE ESTÁ FALTANDO ALÉM DE ESPÍRITO COLETIVO. É PRECISO CRIAR UM FÓRUM PERMANENTE COM GENTE REALMENTE CAPACITADA E CONHECEDORA DA ENGRENAGEM POR DENTRO PARA GERAR DEMANDAS PARA POLÍTICAS PÚBLICAS.
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