ESQUECI MINHA SENHA CONTINUAR COM O FACEBOOK SOU UM NOVO USUÁRIO
Buscar

Em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão

POR SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

SÁVIO SANTIAGO

EM 28/12/2021

4 MIN DE LEITURA

9
11

O setor lácteo brasileiro, assim como em alguns outros países do mundo, é caracterizado por uma relação de conflito perene na cadeia produtiva.

Esse cenário se agrava muito em momentos de crise, como estamos passando. Surgem discussões setoriais, acusações e dúvidas sobre a distribuição de margens na cadeia.

Interações onde os arroubos emocionais se sobressaem a razão, provocam um contexto de desinteligência inevitável. Como a palavra mesmo sugere, o clima de conflito tira toda a possibilidade de análise crítica do problema e de possíveis soluções do ponto de vista setorial.

Isso tudo já seria preocupante o bastante por si só, mas temos um outro problema estrutural que agrava ainda mais a situação.

O setor brasileiro é essencialmente especulativo. Relações curtas baseadas em barganha e especulação imperam em detrimento de parcerias consolidadas, nas quais um elo procura sentir a dor do outro e dividir o peso do fardo a ser carregado.

Está muito claro que a força negocial troca de mãos sucessivamente de acordo com a demanda de mercado, e nas relações especulativas, o sentimento de se compensar dos momentos mais frágeis está sempre vivo na cabeça das indústrias e produtores. Uma queda de braços interminável se estabelece, onde ganhos pontuais quase sempre se sucedem de perdas na sequência.

Temos um raro momento em que os dois elos da cadeia produtiva estão fragilizados. Produtores e indústrias não podem reclamar dos resultados do ano de 2020, principalmente no pós-pandemia. Já em 2021, andamos de lado o ano todo. Nesse momento, as principais commodities do leite estão entre 12% e 15% mais baratas que no mesmo período do ano passado e o leite produtor mais de 7% menos valorizado em valores deflacionados.

Chegamos a um cenário de esgotamento, onde a indústria opera com meses sequenciais de margens aparentes variando de nulas para negativas, e os produtores, que saíram de um ano com margens recordes, agora estão muito apreensivos com um aumento galopante em todos os itens de custos que envolvem uma produção de leite.

Mas como “em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”, a indústria se queixa que não consegue cair os preços da matéria-prima nos níveis que os derivados caíram, aumentando assim o buraco da sua operação já combalida nos últimos 13 meses. Os produtores, por sua vez, reclamam que a indústria está insensível, abaixando os preços em um momento que os custos sobem. O fato é que toda operação precisa de margem para que se distribua resultados e se consolide crescimento perene.

O melhor cenário para o produtor é sempre quando a indústria está ganhando dinheiro, invariavelmente quando o leite está valorizado. E vice-versa, produtor ganhando dinheiro fica firme na atividade, pronto para produzir leite em qualidade e volume suficiente para suprir a indústria.

Dessa vez, sobrou até para o Conseleite. Estamos falando de um método matemático, que nada mais é que um indicador do que seria o valor de referência para gerar margens equivalentes a produtores e indústrias, e que, na verdade, nem é seguido por ninguém como decisão de formação de preços.

Tanto não é referência de precificação que existe uma diferença, há mais de um ano, de aproximadamente R$ 0,50 entre o valor realmente pago (Cepea) em comparação com os Conseleites. Se revoltaram com a estrutura do índice, pedindo revisão de custos que já são realizadas de tempos em tempos, e que, muito provavelmente, não trará mudança significativa nos valores.

Os custos subiram demais na produção, mas também subiram proporcionalmente na industrialização: milho, soja, adubo, energia, embalagens, insumos químicos e fretes têm forte influência do dólar, em um setor que vende seu produto em real ao mercado interno, sofrendo com todas as mazelas econômicas que impactam o consumo do Brasileiro.

A desinteligência cria uma cortina de fumaça sobre os temas estruturantes que realmente deveriam ser debatidos: financiamento de estoques, medidas de planejamento da oferta, plano nacional de exportação de lácteos, assistência técnica, sanidade, qualidade do leite...

A briga constante abre espaço para políticos e representantes oportunistas, que sempre falam o que o sensibilizado quer ouvir, tirando proveito pessoal sem agregar nada de solução.

Países que não têm a abundância do nosso mercado interno, como a Nova Zelândia, por exemplo, conseguem estabelecer uma relação profissional entre produtor e indústria, mapeando seus problemas e criando soluções eficientes. Precisamos começar a pensar o mercado, não aguentamos mais brigas, precisamos de inteligência de mercado.

Nosso foco tem que ser atender o consumidor, entendendo o seu comportamento. Empurrar produto uma época e não ter produto para atender o mercado em outra não é o melhor cenário. A oferta de leite no Brasil está sempre conectada com a influência do estímulo, que vem da viabilidade ou da inviabilidade pontual. Margens sobem, leite sobe de volume logo em sequência, margens caem, leite logo tem redução de volume produzido. Entre esses momentos cíclicos, muita gente boa vai ficando pelo caminho.

É necessário trazermos todos para a mesa, sem conflitos, discussões rasas ou resquícios do passado. O setor é de quem produz e beneficia, e temos que prezar pelo bem dos nossos negócios.

SÁVIO COSTA SANTIAGO DE BARROS

Diretor de Originação na UltraCheese - Administração da rede de fornecedores de leite, negociação de matérias primas lácteas, gestão de qualidade.

9

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

PAULO MAURICIO B BASTO DA SILVA

CASTRO - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 03/01/2022

O Brasil não é um país sério. O Conseleite, como bem disse no artigo, não é seguido por ninguém. As indústrias reclamam, e com razão, mas são os primeiros a tomar decisões erradas e mentem em relação ao que eventualmente é acordado . Os produtores reclamam, e com razão, mas a grande maioria não conhece nem o custo de produzir 1 litro de leite. Nosso sistema, viciado, historicamente corrompido pela política e aspectos culturais dificilmente chegará em um nível de profissionalização como a Nova Zelândia, como gostamos de comparar. Precisaremos de mais algumas gerações. O que vale é apenas a leite da oferta e da procura e ponto final.
WILLEM VAN DER VLIET

CAIÇARA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/01/2022

Muito bom seu texto Savio, parabéns. Agora, como apontar algumas saídas? Creio que exportação não é uma saída viável (por enquanto), pois os "kiwis" conseguem produzir muito barato. Aumento da produtividade e da eficiência? Existe um gap muito grande entre os produtores tecnificados que usam o tripé genética - alimentação - manejo e a grande maioria, que evolui pouco desde a época do tabelamento do leite quota / extra quota. E é este caminho que precisamos trilhar, ao meu ver, para que a pecuária leiteira chegue a patamares estáveis, onde todos ganham, fechar o gap da produtividade e eficiência. Assistência técnica de qualidade (uso de aplicativos), atualizar os currículos nas escolas técnicas, usinas engajadas no processo, financiamentos dirigidos. No futuro, o setor de lácteo nacional deve ser capaz de atender aos consumidores de forma consistente com produtos lácteos de qualidade a preços acessíveis. O setor de laticínios deve ser construído contando com fazendas e cadeias de valor produtivas e eficientes que gerem valor suficiente para permitir o reinvestimento em melhorias futuras, com a promoção de modelos de produção de leite profissionais, produtivas e eficientes.
RONEY JOSE DA VEIGA

HONÓRIO SERPA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/12/2021

Esqueceu de mencionar o varejo, que não produz nada e ganha muito!!
OSMAR REDIN

PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 30/12/2021

Tens razão Roney, o varejo é o elo com maior margem, tirando os impostos. O problema que esse elo não senta com os demais para discutir a situação!
Abraços.
TABAJARA MARCONDES

FLORIANÓPOLIS - SANTA CATARINA - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 29/12/2021

"...e o leite produtor mais de 7% menos valorizado em valores deflacionados."
Prezado Sávio
Pelos levantamentos da Epagri/Cepa, mesmo deflacionado (IGP-DI), o preço médio aos produtores catarinenses de 2021 praticamente empata com o de 2020. Com vantagens expressivas em alguns meses e reduções em outros. Neste caso, especialmente de setembro a dezembro. Portanto, o problema maior parece ser o fato de os preços caírem ao final do ano e os custos de produção do leite permanecerem alto.
OSMAR REDIN

PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 29/12/2021

Parabéns pelo texto Sávio.
Se houvesse mais dialogo franco entre os elos e busca efetiva de soluções, não estaríamos acusando um ao outro. Principalmente o elo do produtor e da indústria, que afinal, tem necessariamente trabalhar juntos. O CONSELEITE é o que menos tem culpa nessa crise e simplesmente faz seu levantamento, que afinal, poderia ser a referência para aprofundar as discussões do setor.
RODRIGO LUIS SECHI

IJUÍ - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 29/12/2021

Ótimo texto, seria muito bom ver um dia, todos em uma mesa, discutindo estes temas e chegando em comum acordo.
O sistema Uruguayo é um bom exemplo. Lá existe uma boa relação entre os braços que compõem a cadeia do leite.
CRAIG BELL

JABORANDI - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/01/2022

Acho que nenhum produtor brasileiro queria receber o mesmo preço do produtor uruguaio.
MARLUCIO PIRES

EDEALINA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/12/2021

Concordo muito quanto ao mercado ser especulativo, e que quanto melhor pra indústria, melhor pro produtor. Mas mesmo entendendo muito o lado da indústria, sei que ela tem uma válvula de escape em épocas de margem negativa: ela põe preço no seu principal insumos.
Quanto as boas pessoas ficando pelo caminho, no caso dos produtores que abandonam a atividade, acho que o termo mais adequado seria "buscando outros caminhos", e pela amostragem bem regional que tenho desse grupo, é visível a melhora, tanto financeira quanto de qualidade de vida.
MilkPoint AgriPoint