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Bem-estar animal: o mercado deve pagar por isso?

POR SAVIO SANTIAGO

SÁVIO SANTIAGO

EM 16/10/2019

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O momento do mercado mundial de leite é desafiador: propriedades ganhando em tecnologia, aumentando sua produtividade, mas, em contrapartida, o consumo segue desalinhado e marcando quedas constantes.

A realidade da redução de consumo atinge praticamente todos os países relevantes na produção de leite. O mais preocupante é que não é uma variável totalmente vinculada a problemas de ordem econômica.

Os EUA, por exemplo, vêm mantendo, na última década, uma realidade econômica mais estável que a brasileira, com crescimento efetivo, mais geração de empregos e renda, além do histórico de ser um país desenvolvido com democracia consolidada há mais tempo, alta produtividade industrial e agrícola.

Contudo, de acordo com o DFA (Dairy Farms of America), as vendas de leite no país caíram mais de US$ 1,1 bilhão no ano passado. Uma realidade contrastante com um cenário de pleno consumo e renda.

O dado também contrasta com os índices de consumo de carnes. Embora tenha havido uma troca importante da carne bovina pela carne de frango, o consumo total - incluindo a carne suína - teve recuperação em 2018.

Segundo especialistas, a redução do consumo de carne bovina tem maior vínculo econômico. Quando comparado ao preço da carne de frango, a carne bovina é mais cara. Mas, na conta total da redução, não se exclui como causa a parcial substituição por alimentos à base de plantas.

Parece uma hipocrisia aumentar o consumo de frangos em detrimento do da carne bovina, uma vez que é conhecidamente mais complexo garantir uma rotina respeitosa de bem-estar animal em uma granja avícola. Mas o fato é que a redução pode ter acontecido pela soma de vários fatores e que os produtos de origem vegetal estão se consolidando como um novo entrante substitutivo.

As alternativas vegetais não lácteas tiveram mercado de US$ 11,9 bilhões nos EUA em 2017 e estima-se que terá crescimento aproximado de 25% ao ano até 2025.

A discussão sobre bem-estar animal nos EUA tem atingindo com muita força especificamente a pecuária de leite. Ativistas buscam polemizar, deturpando práticas comuns em fazendas e têm conseguido êxito no público “não radical”.

Historicamente, os EUA são nosso direcionador de tendências sócioeconômicas. Não por acaso temos hábitos de consumo, preferência por marcas, tecnologias, músicas e entretenimento tão vinculados à eles. São o nosso norte direcionador do futuro, algumas vezes mais distante e em outras mais próximo.

Portanto, o que acontece lá provavelmente vai acontecer aqui e já estamos com fortes sinais dessa nova realidade na pecuária de leite.

As novas gerações se caracterizam pela preocupação com o modo como as coisas são produzidas e são os maiores consumidores ativos da atualidade. Questionamentos ambientais, sociais e relativos ao bem-estar animal motivam pessoas que têm desconhecimento dos processos produtivos a migrar silenciosamente seus hábitos de consumo para produtos que “seriam” mais adequados aos seus valores.

Voltando especificamente para o bem-estar, podemos dizer que estamos diante da "geração pet shop". Nas últimas duas décadas o mercado pet quadruplicou de tamanho em todo o mundo. O amor por animais fez com que as pessoas ficassem mais sensíveis a possíveis maus-tratos ou procedimentos que causam dor e sofrimento.

Estrategicamente, não seria inteligente ao setor lácteo brasileiro esperar as coisas se agravarem, como ocorreu nos EUA, nem mesmo entrar em rota de colisão argumentativa com ativistas ou consumidores como normalmente fazemos.

É preciso olharmos para dentro, melhorar processos, garantir de fato que nossos animais estão sob um sistema que os respeita e propicia bem-estar por toda a sua vida para, depois disso, comunicar positivamente ao mercado o que conseguimos.

Como sempre, essas questões trazem questionamentos sobre remuneração:

“Ah, mas vou receber por isso?”

A resposta é que é possível, em um primeiro momento, que o mercado precifique selos de “garantia de bem-estar animal” em produtos, mas que não devemos pensar nisso. Devemos pensar em garantir a sobrevivência do setor frente a redução drástica de consumo que pode vir a ocorrer nos próximos 10 anos.

O produtor é o ator principal da cadeia, mas quem paga a conta é o consumidor. Se ele está dando sinais que se preocupa com um tema ou com mais de um, devemos agir de forma correta e inteligente para mantê-lo conosco.

Existem hoje certificadores de bem-estar animal no Brasil e fora do país com atuação na América Latina. Eles aplicam check lists completos que analisam perfeitamente o dia a dia dos animais, identificando onde podem estar os pontos críticos para a manutenção de suas vidas produtivas e respeitando as suas liberdades fundamentais.

Atuamos com força nessa frente a três anos. Temos uma certificação nacional que é pré-requisito de fornecimento de leite e estamos implantando uma certificação de bem-estar internacional mais abrangente e focada em pontos mais específicos. Acreditamos que esse valor deve ser respeitado e que a nossa operação não teria sentido se ignorássemos possíveis desvios.  

A mudança de cultura é necessária e precisamos dela para podermos falar bem de nós mesmos para a sociedade.

SAVIO SANTIAGO

Gestor de Matérias Primas Lácteas da Verde Campo,
empresa do grupo Coca-Cola especializada em lácteos saudáveis. Pioneira na produção de produtos sem lactose. Tem na linha produtos reduzidos em sódio, zero açúcar e proteinados.

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LUIZ ROBERTO FAGANELLO

TOLEDO - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/11/2019

Importante reflexão trás esse artigo. A atividade leiteira é muito complexa, passando pelo conhecimento em agricultura, o manejo dos solos e da água, e outros fatores produtivos e ambientais, para otimizar ao máximo a produção de alimento e de boa qualidade. ainda as inúmeras etapas da parte pecuária exigindo atenção e cuidados rotineiramente. Sem esquecer jamais da gestão do negócio, pois tudo deve estar muito à mão para decisões mais acertadas. O produtor que conseguir alinhar o maior número possível dessas variáveis estará um passo a frente para competir diante as adversidades impostas . O bem-estar animal é uma variável de extrema importância, independente se o mercado paga ou não por ele. O produtor terá como recompensa melhores indicadores técnicos, como a maior taxa de reprodução, maior velocidade de reposição de novilhas, maior longevidade para as vacas e ainda a maior produtividade, entre tantos outros. Consequentemente melhorará o indicador econômico pela maior eficiência produtiva como um todo. Antes de premiar simplesmente pelo melhor manejo preocupando-se pelo bem-estar animal, vejo como uma necessidade em respeitar todos os fatores intrínsecos ao sistema produtivo. Essa harmonia em produzir leite pode ser favorável sim para o setor, mas vejo todo o conjunto da ópera.
JOSÉ REIS ABOBOREIRA DE OLIVEIRA

IGUAÍ - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/10/2019

A sua excelência, o consumidor é quem deve direcionar a sua opção pelo consumo de produtos.
Cabe aos produtores inteligentemente seguir esta tendência para não ficar de fora do mercado.
O bem-estar animal não deve ocorrer de incentivo ou remuneração, mas do dever consciente do produtor de tratar seu rebanho.
O produtor que implanta o bem-estar animal na sua fazenda recebe dos animais maior produtividade e melhora da reprodução. A melhora da receita é a consequência
Parabéns pelo artigo Savio de Barros
SAVIO SANTIAGO

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 18/10/2019

Obrigado José Reis !!
BRUNO VICENTINI

LAVRAS - MINAS GERAIS

EM 17/10/2019

É fato consumado que um bom tratamento aos animais só traz benefícios. Menos stress, mais produção. Animais bem tratados, redução de custos com tratamentos "evitáveis". Realmente, não adianta entrar "em rota de colisão" , mas é lamentável vermos diariamente "mentiras e mitos" virarem verdades. Penso que falta articulação do setor produtivo em esclarecer e orientar o consumidor.
Parabéns pelo artigo!
SAVIO SANTIAGO

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 17/10/2019

Verdade Bruno,

Mas o fato é que antes de tentar esclarecer e orientar o consumidor temos que ter segurança que todos os produtores estão adotando práticas visando o bem estar,

Uma imagem isolada contrapondo o que estamos esclarecendo, pode ser um enorme tiro no pé.

Acredite, ativistas vão buscar essa imagem.

Obrigado pela participação!
EM RESPOSTA A SAVIO SANTIAGO
RUBENS CARLOS LÜDTKE

TENENTE PORTELA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/10/2019

Verdade Savio, os ativistas vão buscar imagens, as quais dependendo da situação, vão ser possível encontrar, e não sendo possível encontrar, fabricar-se-ão, assim como tenho visto em uma publicação a respeito do manejo de suínos, na qual fazem crer que um leitãozinho que ao ser transportado, tenta fugir por uma fresta de ventilação da carroceria do caminhão... só que quem conhece do assunto, sabe muito bem que aquele animalzinho só alcança aquela fresta naquela altura com ajuda de um humano!
JAQUELINE PAIM CERETTA

IJUÍ - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/10/2019

Antes de pensar em ganhar mais o produtor deve pensar em não perder. Só vamos conseguir ter maior lucratividade se conseguirmos atingir o que o consumidor deseja, a questão do bem estar, bem como da qualidade, não deve ser paga deve ser incentivada. Parabéns pelo artigo Sávio. Pensamentos e pessoas como você fazem toda a diferença. Abraços
SAVIO SANTIAGO

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 17/10/2019

Obrigado Jaqueline!

Você é referência na produção de leite respeitando esses conceitos!