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Efeitos da seleção para alta produção e tipo em outras características importantes de gado leiteiro - Parte I

POR EMMANUEL VEIGA DE CAMARGO

E NATHÃ CARVALHO

NATHÃ CARVALHO E EMMANUEL VEIGA DE CAMARGO

EM 10/11/2016

6 MIN DE LEITURA

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A seleção visando a maior produção de leite e o processo de “especialização” de algumas raças bovinas, tem levado a um tipo animal que vem apresentado uma série de limitações observadas em vacas leiteiras por produtores de distintas localidades do mundo. Estudos conduzidos por Madalena (2007; 2009), afirmam que na América do Norte e na Europa, já por mais de uma década, vêm sendo apontados problemas de fertilidade, saúde e altas taxas de descarte e mortalidade em algumas raças taurinas especializadas, como o Holandês, raça que constitui a base da genética de Bos taurus taurus no Brasil e no mundo para leite.

Almeida (2007) também observou em seu trabalho, limitações relevantes nos rebanhos da raça Holandesa oriundos de genética proveniente dos Estados Unidos e do Canadá. Segundo o autor, essas preocupações foram levantadas em conferência na American Holstein Association no ano anterior a sua publicação.

No entanto, cabe salientar, que outras raças leiteiras também têm demonstrado perda de algumas qualidades importantes em detrimento da seleção para alta produção, embora em menor intensidade. Estudos americanos mostram queda um pouco acentuada nas respostas reprodutivas também em rebanhos da raça Jersey (figura 1).

Trabalhos sugerem que a produção de leite e a reprodução são antagônicas. Este declínio aparentemente temporal na fertilidade está associado tanto com o melhoramento genético quanto com as práticas modernas de manejo que levaram a um rápido aumento na produção de leite por vaca (WASHBURN et. al, 2002).

Nas raças zebuínas, Santos et al. (2013), afirmam que, devido à intensa seleção e melhoramento genético com foco na produção de leite, também houveram perdas em características adaptativas e relacionadas à sobrevivência desses animais.

Figura 1.
Produção de leite e taxa de concepção em 532 rebanhos Holandeses e 29 rebanhos Jersey de 1976 a 1999 (WASHBURN et al., 2002).

melhoramento genético - bovinos leite

A partir do exposto, o objetivo deste e dos próximos artigos não é criticar especificamente a raça Holandesa através da descrição de suas limitações e sim alertar aos envolvidos na cadeia produtiva que antes de grandes volumes de leite, é preciso buscar a eficiência produtiva através da exploração de animais saudáveis, longevos e férteis, independente da raça a ser utilizada. Neste contexto, será discutido a seguir, o melhoramento genético dos bovinos leiteiros para alta produtividade e as consequências desse processo em características essenciais para a eficiência produtiva dos rebanhos.

De acordo com Pereira (2012), a maioria dos programas de melhoramento de bovinos de leite é baseada em teste de progênie, delineamento mais apropriado para grandes e médias populações, o qual se objetiva predizer, com alta confiabilidade, a contribuição genética média de um reprodutor para a futura progênie. Tais programas estruturados nessa metodologia têm contribuído de forma significativa nos processos de seleção. Conforme o mesmo autor, a seleção, cujo conceito mais simples é a escolha dos indivíduos que deixarão descendentes na próxima geração, é uma das maiores forças de modificação da frequência gênica e tem sido utilizada pelo homem há milênios, intuitivamente, com o favorecimento de reprodutores e de matrizes mais adequados a determinado propósito.

Segundo Madalena (2012), o grande sucesso na seleção para maior produção de leite nas principais raças taurinas (Bos taurus taurus) na América do Norte e Europa acarretou resposta correlacionada negativa para fertilidade e saúde. Trabalhos citados por Pereira (2012) reforçam que a ênfase de seleção para aumento da produção de leite pode influenciar diretamente a saúde das vacas, levando a uma diminuição da vida produtiva e ao descarte involuntário por fatores não produtivos. Em revisão publicada por Madalena (2007), o autor relata diversos exemplos de “efeitos colaterais” da seleção para maior produção, que tem sido extremamente efetiva na América do Norte e na Europa.

Conforme o mesmo pesquisador, em outra revisão publicada em 2009, tais consequências têm trazido limitações aos rebanhos, causando crescente preocupação no mundo todo, uma vez que as raças taurinas constituem os principais recursos genéticos globais para produção de leite. Características relacionadas à fertilidade e saúde foram fortemente afetadas pela seleção intensiva para a produção leiteira. Diversos autores americanos como Hare et al. (2006), ressaltaram que em vacas leiteiras, a relação entre a seleção para alta produção de leite e a diminuição da vida produtiva, aumento da taxa de mortalidade e declínio da fertilidade devem ser evitadas.

Figura 2. Segundo alguns autores, o grande sucesso na seleção para maior produção de leite nas principais raças taurinas na América do Norte e Europa acarretou respostas correlacionadas negativas para fertilidade e saúde dos animais. 

melhoramento genético - bovinos leite - Jersey

Madalena (2007) relatou através de uma vasta revisão, que o critério de produção leiteira para seleção culminou também no aumento de requerimentos em relação à capacidade de consumo de alimentos. Isso levou a um tipo de animal que em sistemas de alta produção só consegue atender tais exigências após o parto através da mobilização de tecidos, provocando um severo balanço energético negativo, com consequências desfavoráveis na fertilidade e na saúde.

Em avaliação realizada nos Estados Unidos, alguns autores mostraram maiores perdas de peso nas primeiras semanas de lactação em vacas submetidas à seleção para alta produção de leite quando comparadas às vacas selecionadas para média produção, embora aquelas apresentassem maior consumo de matéria seca (HARRISON et al., 1990). Como consequência estes autores observaram o atraso da manifestação de cio e do período de serviço.

O mesmo estudo demonstrou maior balanço energético negativo no grupo de matrizes selecionadas para maior produção leiteira, evidenciado pelas maiores concentrações de β – hidroxibutirato e pela maior perda de peso por dia. Madalena (2012) afirma que o Brasil importa a genética de Bos taurus taurus e a multiplica, de forma que as tendências mundiais se repercutem no país tendendo a exacerbar-se na medida da intensificação dos sistemas nacionais.

Além da seleção para produção, tem sido detectado que a busca para forma leiteira ou angulosidade (Figura 2) também resultou em vacas com menores reservas corporais, influenciando negativamente a fertilidade (MADALENA, 2009). Segundo o mesmo autor, por estes motivos, as pesquisas sobre avaliação de linhagens e de cruzamentos de Bos taurus taurus de aptidão leiteira tem recentemente adquirido importância em vários países.

Ledic e Tetzner (2008) acrescentam que o biotipo das raças leiteiras taurinas que evoluiu nos últimos 30 anos, buscou fêmeas muito grandes, com maior exigência alimentar, de tipo anguloso, com grande perda de escore corporal no pós-parto e consequentemente, com declínio da fertilidade. Pryce et al (2000) apud Madalena (2007) estimaram a correlação genética entre o intervalo entre partos e o escore de condição corporal em - 0.40, de forma que as vacas geneticamente mais magras apresentavam intervalo entre partos mais longo.

Figuras 3 e 4. Evolução do tipo: Seleção para forma leiteira/angulosidade na raça Holandesa, como um exemplo.

melhoramento genético - bovinos leite - holandês

melhoramento genético - bovinos leite - holandês

Pereira (2012) entende que dentre as opções que podem resultar em aumento da produção e da produtividade e agregar valor à atividade leiteira, está o melhoramento genético. Ele ainda acrescenta que para explorar a heterose e a complementaridade entre as raças, o cruzamento é uma das alternativas capazes de oferecer resultados no horizonte mais curto do tempo.

Kinghorn (2006) também defende que as principais ferramentas utilizadas no melhoramento genético animal são a seleção e o cruzamento. Conforme o autor, no geral, por benefício dos efeitos da heterose, os animais cruzados apresentam performance superior (em torno de 0 a 10% para características de crescimento e de 5 a 25% para características de fertilidade). Considerando todo o sistema de produção, o efeito da heterose pode ser ainda maior pelo fato dos efeitos se acumularem entre as características.

Para Ledic e Tetzner (2008), a introdução de raças, os cruzamentos, o desenvolvimento de novas raças e o aprimoramento das já existentes são atividades básicas para a pecuária leiteira. Os mesmos autores observam que em razão da diversidade dos micro-climas existentes no Brasil, há várias alternativas para a elevação da produção em termos de estratégias de melhoramento genético. Algumas destas estratégias serão discutidas nos próximos artigos.

Referências bibliográfica

ALMEIDA R. Raça Holandesa: pontos fortes, limitações de hoje e oportunidades no futuro. Piracicaba: Milk Point, 2007. Disponível em:

EMMANUEL VEIGA DE CAMARGO

Médico Veterinário e Doutor em Zootecnia pela UFSM. Docente do Instituto Federal Farroupilha (Alegrete/RS), onde é professor do curso de Zootecnia.Coordenador de produção e orientador do Grupo de Pesquisa e Extensão em Ruminantes na mesma instituição

NATHÃ CARVALHO

Zootecnista formado pelo Instituto Federal Farroupilha (campus Alegrete/RS) e discente do Programa de Pós Graduação em Zootecnia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS (área de Melhoramento Genético Animal).

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NATHÃ CARVALHO

ALEGRETE - RIO GRANDE DO SUL

EM 27/11/2016

Sr. Roney,

Você está correto ao apontar estes fatores como grandes influenciadores da performance reprodutiva do rebanho. É fato e é conhecido, que os aspectos reprodutivos pouco são influenciados pelo componente genético. No entanto, é importante frisar, que para as características de baixa ´"influência" genética, ou seja, de baixa herdabilidade, também podem ser aprimoradas geneticamente através da adoção de cruzamentos, uma estratégia interessante para projetos comerciais de produção de leite. Fique conosco, acompanhando nossas postagens. Nos próximos artigos mostraremos resultados interessantes no que tange à reprodução em bovinos leiteiros oriundos de cruzamentos entre diferentes raças especializadas.
RONEY ZIMPEL

CAPITÃO LEÔNIDAS MARQUES - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 22/11/2016

Muito obrigado pelos esclarecimentos Sr. Emmanuel,

Concordo que um parâmetro solitariamente pode não ser adequado para medir a eficiência de um sistema, e mensurar e não tomar decisões desperdiça tempo.

Como a concepção das novilhas apresenta-se em " ótimos" níveis, talvez o componente genético não seja o responsável por um decréscimo na taxa de concepção das vacas e sim fatores ambientais, nutricionais, sanitários.. etc... o que o amigo acha dessa linha de raciocínio?

Obrigado pela atenção
EMMANUEL VEIGA DE CAMARGO

ALEGRETE - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 21/11/2016

Caro Roney Zimpel

Quanto ao seu primeiro questionamento, as taxas de concepção de novilhas, independente de raça, se mantêm com percentuais ótimos, sendo superiores a 70%. Todavia, para esse objetivo, há necessidade de obedecer aos critérios de idade e peso compatíveis ao primeiro serviço.

Acreditamos que a eficiência reprodutiva possa ser avaliada de diferentes formas, não sendo uma variável apenas, uma anotação apenas, a detentora de todas as explicações necessárias ao sucesso do empreendimento.

Bem assim, no caso específico da taxa de concepção, invariavelmente, ela determinará mudanças na taxa de eliminação de animais do rebanho; no número de animais para reposição; no progresso genético do rebanho; na duração do período seco dos animais; na vida produtiva dos animais (dias em lactação) e por fim, na própria produção de leite comercializável.

Pelo exposto, fica claro, o comprometimento do retorno do capital investido, quando, não atendido os requisitos mínimos para um bom manejo reprodutivo.

Dessa forma, somos solidários ao apontamento das informações, seja ela a taxa de concepção ou quaisquer outros índices defendidos pelos meios acadêmicos. Todavia, me parece mais importante às tomadas de decisões que serão colocadas em curso quando os índices não atenderem os objetivos de cada uma das propriedades.

Espero ter atendido sua expectativa.

De qualquer sorte, mantenho disposição ao diálogo pelo email:<bovinosdeleite.al@iffarroupilha.edu.br>.


RONEY ZIMPEL

CAPITÃO LEÔNIDAS MARQUES - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/11/2016

Boa noite senhores,

Tenho algumas  dúvidas.

1-A taxa de concepção de novilhas de ambas as raças citadas vem decrescendo na mesma proporção da dos animais adultos?  

2-A taxa de concepção e o melhor parâmetro para avaliar eficiência reprodutiva de rebanhos leiteiros?  

3 - Qual a relação da taxa de concepção com retorno sobre capital em rebanhos leiteiros?
NATHÃ CARVALHO

ALEGRETE - RIO GRANDE DO SUL

EM 17/11/2016

Claret, se tiveres fotos dos produtos e dados de produção, etc, me passe por favor?

natha.carvalho@ufrgs.br
NATHÃ CARVALHO

ALEGRETE - RIO GRANDE DO SUL

EM 17/11/2016

Caro Argemiro,

Acredito que todos nós procuramos "esta vaca"....Se o senhor encontrar, nos avise também! ehehehe, abraços!
CLARET RODRIGUES DA CUNHA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/11/2016

Nosso projeto e baseado em doadoras Jersey PO genotipados. Cruzamento com touros holandeses escolhidos segundo dados genéticos.

Todos produtos são FIV.
ARGEMIRO MAGALHÃES

SÃO GONÇALO DO SAPUCAÍ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/11/2016

Estou a procura de uma vaca que come pouco, de boa fertilidade e longevidade e muito produtiva. Alguém tem, tenho interesse em comprá e se possível ainda que produza carne de qualidade. Quem tem me avise.
NATHÃ CARVALHO

ALEGRETE - RIO GRANDE DO SUL

EM 16/11/2016

Claret

Obrigado pelo positivo comentário.

Realmente, os animais oriundos do cruzamento entre Holandês e Jersey (Jersolando) apresentam resultados muito interessantes. Inclusive, destacaremos nos próximos texto esse cruzamento e alguns resultados desses animais. Acompanhe nossas postagens!
JOSÉ SOARES DE MELO

PIUÍ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/11/2016

Assunto de grande interesse para os produtores de leite. Acredito que os produtores  do Brasil estão no caminho errado em suas estratégias de seleção para produção e tipo. Além dessa seleção danosa, a crescente consanguinidade ainda fragiliza mais os animais. Quem já leu " A Origem das Espécies" de C. Darwing, percebe claramente que o que está sendo feito com nossas vacas, terá certamente consequencias danosas num futuro próximo.
RONEY ZIMPEL

CAPITÃO LEÔNIDAS MARQUES - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/11/2016

Boa noite senhores,

Tenho algumas  dúvidas.

1-A taxa de concepção de novilhas de ambas as raças citadas vem decrescendo na mesma proporção da dos animais adultos?  

2-A taxa de concepção e o melhor parâmetro para avaliar eficiência reprodutiva de rebanhos leiteiros?  

3 - Qual a relação da taxa de concepção com retorno sobre capital em rebanhos leiteiros?
CLARET RODRIGUES DA CUNHA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/11/2016

Animais Jersolando, produto de FIV, a partir de vacas jersey PO genotipadas e acasalamento com touros holandeses são ferteis,produtivos e longevos.
NATHÃ CARVALHO

ALEGRETE - RIO GRANDE DO SUL

EM 11/11/2016

Prezado Sidney,

Agradecemos seu comentário.

Com certeza. O Friesian e o British Friesian são opções interessantes neste sentido. Inclusive falaremos sobre isso num texto que publicaremos mais para frente.
SIDNEY LACERDA MARCELINO DO CARMO

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/11/2016

Prezado,



Daí hoje termos a opção de adotarmos os touros frisian, estes têm produzidos animais menores com boa produção e fertilidade.



grato
MilkPoint AgriPoint