FAZER LOGIN COM O FACEBOOK ESQUECI MINHA SENHA SOU UM NOVO USUÁRIO

O uso da CCS em diferentes países - Parte 1

POR MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 28/11/2006

5
0
A contagem de células somáticas (CCS) é um critério mundialmente utilizado por indústrias, produtores e entidades governamentais tanto para o monitoramento de mastite em nível individual e de rebanhos, quanto para a avaliação da qualidade do leite. As células somáticas do leite são compostas basicamente por leucócitos originários do sangue e por células epiteliais de descamação. Após a invasão bacteriana da glândula mamária, ocorre rápido aumento da CCS do quarto infectado, sendo que o principal fator que afeta a CCS é a ocorrência de uma infecção intramamária (IIM).

A definição de um limite de CCS para estimar a ocorrência de uma IIM em uma vaca depende de diversos fatores como a prevalência da mastite no rebanho, o estágio de lactação e qual a finalidade dessa informação. Ainda que o limite de 200.000 cel/ml seja reconhecidamente utilizado na grande maioria das situações, o uso de um valor único de CCS para tomada de decisões em um rebanho leiteiro pode levar erros de interpretação.

Introdução

A contagem de células somáticas (CCS) é um critério mundialmente utilizado por indústrias, produtores e entidades governamentais para o monitoramento de mastite em nível individual e de rebanhos e para a avaliação da qualidade do leite. Os resultados da CCS podem ser obtidos a partir de amostras de quartos mamários (principalmente em trabalhos de pesquisa), amostras composta dos quatro quartos (monitoramento de rebanhos) e de amostras do tanque (monitoramento da qualidade do leite).

A sua utilização como ferramenta para monitoramento de mastite e avaliação da qualidade do leite teve início no final da década de 1970 . A partir de 1992, os países da União Européia adotaram como limite máximo legal para a CCS do leite para consumo humano, o valor de 400.000 cel/mL, enquanto no Canadá e nos EUA, os limites fixados são respectivamente: 500.000 e 750.000 cel/mL.

A partir de 2005, a Instrução Normativa 51/2002 (Ministério da Agricultura e Pecuária - MAPA) estabeleceu o limite de 1.000.000 cel/mL para o leite produzido nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. As demais regiões têm um cronograma de implantação desses limites de acordo com a Tabela 1.

Tabela 1. Limites legais para CCS do leite, de acordo com a Instrução Normativa Nº 51/02 (MAPA, 2002).


Além das implicações legais, a saúde da glândula mamária pode estar relacionada com o bem estar dos animais de produção, visto que casos de mastite clínica pode ocorrer dor e desconforto e, freqüentemente, os quais têm sido apontados por entidades de defesa dos direitos dos animais como indesejáveis.

A CCS do tanque está relacionada com o aumento do risco da ocorrência de resíduos de antibióticos em rebanhos leiteiros, em função da maior utilização de tratamentos intramamários. Finalmente, uma baixa CCS do tanque, além de estar relacionada com baixo nível de infecções intramamárias, também está associada com menor contagem bacteriana total e maior padrão de higiene de produção de leite.

A CCS pode ser expressa na forma de escore linear de células somáticas, que tem sido adotado em vários países. Como pode ser observado na Tabela 2, o uso do escore de células somáticas (ECS) facilita a interpretação dos resultados, uma vez que a cada aumento de 1 (um) escore linear, a CCS é dobrada.

Tabela 2. Relação entre o escore de células somáticas (ECS) e a contagem de células somáticas (CCS).


CCS em nível de quarto mamário

A mastite é uma inflamação de um ou mais quartos mamários, na maioria das vezes, associada a uma infecção intramamária (IIM) de causa bacteriana. A mastite subclínica ocorre quando a inflamação não resulta em alterações perceptíveis, sendo diagnosticada pelo isolamento bacteriano no quarto afetado ou por alterações celulares e de composição do leite.

As células somáticas do leite são compostas basicamente por leucócitos originários do sangue e por células epiteliais de descamação. Os leucócitos fazem parte do sistema imune, cujas células principais são: neutrófilos, linfócitos e macrófagos. No quarto mamário sadio, os macrófagos predominam (66-88%) e os neutrófilos representam cerca de 1-11%, no entanto, durante uma infecção intramamária, os neutrófilos podem compor aproximadamente 90% das células somáticas presentes no leite.

Após a invasão bacteriana da glândula mamária, ocorre rápido aumento da CCS do quarto infectado. O objetivo dessas células é eliminar as bactérias existentes, visto que se o caso de mastite for resolvido a CCS do leite retorna aos limites normais dentro de algumas semanas. Contudo, quando o sistema imune não elimina o agente causador a CCS permanece acima do limite normal por longo período, ainda que possa sofrer variação ao longo do tempo.

A CCS é um indicativo da ocorrência de inflamação da glândula mamária em resposta à invasão bacteriana. Dessa forma, a CCS ou outros métodos indiretos (CMT, WMT) de estimativa da inflamação podem ser usados para classificar um quarto mamário como infectado (mastite subclínica) ou não (sadio).

A existência de IIM em um quarto é o fator que isoladamente mais afeta a CCS. O estágio de lactação afeta a CCS, sendo que imediatamente após o parto a CCS é alta, mas é rapidamente reduzida para níveis normais dentro de 4-5 dias, se não houver infecção intramamária. No entanto, em vacas sem isolamento bacteriano (sadias) não ocorre efeito da ordem de parição e do estágio de lactação, conforme pode ser visualizado na Figura 1. A CCS pode aumentar com a idade, com o avanço da lactação e com a redução da produção de leite, no entanto a ocorrência de IIM é o principal fator determinante da CCS.

Figura 1. Média geométrica de CCS de vacas sem isolamento bacteriano na primeira () segunda () e terceira (□) lactação, em diversos estágios de lactação.


A freqüência de ordenha também pode afetar a CCS. A mudança de 2 para 3 ordenhas/dia pode reduzir a CCS tanque e a porcentagem de vacas infectadas no rebanho, enquanto que o aumento da freqüência de ordenhas pode causar aumento da CCS.

O diagnóstico preciso de IIM em um quarto pode ser feito pelo uso da CCS e/ou da realização de culturas microbiológicas repetidas ao longo do tempo. Entretanto, o uso de avaliações múltiplas requer mais tempo, mão-de-obra e representam custos elevados em situações de campo, além disso, nem sempre estão disponíveis aos produtores. Ainda que possa apresentar erros de identificação, como em qualquer método diagnóstico, pode-se assim estabelecer um limite de CCS como indicativo para diferenciar entre um quarto infectado ou não.

Com base em estudos realizados na América do Norte e Europa, a média geométrica da CCS de quarto não-infectados é de aproximadamente 70.000 cel/ml, enquanto a média aritmética é de 187.000 cel/ml.

Tabela 3. Critérios para diagnóstico da mastite com base em resultados de quartos mamários.


Em termos gerais, alguns pesquisadores têm definido o valor de 200.000 a 250.000 cel/ml como limite para separar os quartos infectados e não-infectados, de forma a reduzir a ocorrência de falso-positivos e falso-negativos. Utilizando-se esse limite, pode-se estimar uma sensibilidade de 73-89% e especificidade de 75-85%.

A definição de um limite de CCS para classificar um quarto com infecção afeta a sensibilidade e a especificidade desse método diagnóstico. A sensibilidade é a habilidade do teste produzir um resultado positivo quando a vaca realmente apresenta mastite, enquanto a especificidade é a habilidade de apresentar resultado negativo quando a mesma não apresenta mastite.

Dessa forma, independentemente do limite de CCS escolhido para classificar uma vaca ou quarto com mastite subclínica, algumas vacas não-infectadas apresentarão CCS acima desse limite (resultados falso-positivos) e algumas vacas infectadas apresentaram CCS abaixo do limite estabelecido (resultados falso-negativos), conforme pode ser observado na figura 2.

O aumento do limite de 200.000 para 300.000 cel/mL causa redução dos falso-positivos e aumento dos falso-negativos, ou seja, aumenta-se a especificidade, mas diminui-se a sensibilidade do teste (Figura 2). Dessa forma, a escolha do limite deve ser feita considerando o objetivo da realização do teste.

Numa situação em que se busca minimizar os resultados falso-negativos, o limite pode ser reduzido, o que aumenta a sensibilidade do teste. Por outro lado, quando o objetivo é reduzir os falso-positivos, pode ser utilizado um limite maior, priorizando a especificidade do teste. Por fim, a especificidade e sensibilidade dos testes dependem também da prevalência da mastite no rebanho.

Figura 2. Representação esquemática do efeito da alteração do valor de referência da CCS para classificar uma vaca como infectada ou não-infectada.


Tabela 4. Sensibilidade e especificidade de limites de CCS para identificar ocorrência de infecção intramamária (n=22.467 amostras).


Ultimamente, foi proposto um limite de 100.000 cel/ml para a CCS de um quarto mamário sadio e quando a CCS > 200.000 cel/ml, o quarto mamário apresenta alta probabilidade de estar infectado. Essa faixa de variação pode ser atribuída ao tipo de bactéria causador de mastite, sendo que os patógenos principais (Streptococcus agalactiae, Staphylococcus aureus, estreptococos ambientais e Mycoplasma spp.) causam maior elevação da CCS que os patógenos secundários (C. bovis e Staphylococcus spp).

Em média, a CCS de quartos mamários sadios (sem isolamento bacteriano) foi de 68.000 cel/ml, enquanto para quartos com isolamento de patógenos secundários a CCS foi de 110.000 a 150.000 cel/ml e de cerca de 350.000 cel/ml para quartos infectados com patógenos principais.

O uso do limite de CCS de 200.000 cel/ml pode ser utilizado em condições de campo para distinguir entre quartos infectados ou não, visando minimizar os erros de diagnóstico. Dessa forma, a variação da CCS de uma vaca entre dois meses consecutivos pode ser usada como indicativo da ocorrência de uma nova infecção. Contudo, deve-se destacar que a escolha de um único limite de CCS não é adequada para todas as situações nas quais se deseja tomar decisões baseadas na CCS de uma vaca. Deve-se levar em conta: a prevalência da mastite no rebanho, o estágio de lactação e o tipo de uso dessa informação.

Fonte:

SANTOS, M. V. O uso da CCS em diferentes países In: Mesquita, A.J. Durr, J.W., Coelho, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Editora Talento, p. 181-197, 2006.

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

5

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

ALIEN MOREIRA PORTELLA DE MELO

NATAL - RIO GRANDE DO NORTE - ESTUDANTE

EM 09/11/2008

Prof Marcos Veiga,

Sou estudante de Zootecnia na UFRN, e estou fazendo um trabalho de conclusão de curso sobre leite de Cabra, e utilizei parte desta publicação em minha monografia, e gostaria muito que se o Sr. pudesse me enviasse a referência bibliográfica deste artigo (local onde foi publicado, ano, etc) para eu poder colocá-lo como referência.

Desde já, parabenizo-o pelo seu excelente trabalho.

Atenciosamente,
Aline Moreira

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Alien,

Segue a informação solicitada.

SANTOS, M. V. O uso da CCS em diferentes países In: Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil ed.Goiânia : Talento, 2006, v.1, p. 181-197.

Atenciosamente, Marcos Veiga.
GLAUBER DOS SANTOS

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 25/03/2007

A dívida que eu fiquei foi em relação à mastite ambiental. Na resposta à pergunta do André (no mesmo artigo), foi citado o S. <i>agalactiae</i> como agente contagioso e nao ambiental. É isso mesmo?

Glauber

<b>Resposta do autor:</b>

Glauber,

A bactéria <i>Streptococcus agalactiae</i> é um agente contagioso. Os agentes de mastite ambiental são Coliformes (<i>Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Klebsiella sp., Enterobacter aerogenes), Estreptococos ambientais (S. uberis, S.bovis, S. dysgalactiae), Enterococos (Enterococcus faecium, E. faecalis</i>).

Marcos Veiga dos Santos

Professor Associado
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP
MARINEL BATISTA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS

EM 06/12/2006

Prezados,

Realizamos um teste com o nosso produto em uma fazenda em Lorena/SP, usando um processo de sanitização das tetas e equipamentos utilizados na ordenha com o objetivo de diminuir o nível de contaminação do leite. O resultado foi muito positivo, apresentando uma redução para 7.000 cel/ml no primeiro momento e reudzindo em zero na segunda etapa. Caso tenham interesse em conhecer este teste, teremos prazer em apresentar.

Como não sou especialista no assunto, apenas a vendedora do produto, poderia colocá-los em contato com a médica veterinária que procedeu os testes.

Atenciosamente,

Marinel Batista
Microbiana Descontaminações Ltda

<b>Resposta do autor:</b>

Prezada Marinel,

Obrigado pela sua mensagem e pela sua contribuição. Acredito que essas experiências de campo têm o seu valor nas condições em que foram realizadas, mas acredito ser difícil uma generalização para outras condições. De qualquer maneira, obrigado pela sua contribuição.

Atenciosamente, Marcos Veiga


ANDRÉ LUIZ COKELY RIBEIRO

DESCALVADO - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 04/12/2006

Prof. Marcos Veiga,

Trabalho coordenando o Projeto Educampo em Frutal, MG e estamos nós, Cooperativa (COFRUL) e Produtores muito empenhados na melhoria da qualidade do leite. O ponto forte do grupo de 20 produtores são CBT, na faixa de 30.000/ml, e CCS de alguns, chegando até a 130-150 x 1000/ml, porém, percebo que ocorre o seguinte: destes produtores que costumeiramente possuem rebanho com baixa CCS, os casos de mastite clínica são mais freqüentes, porém, sem interferir na CCS Tanque devido à eficiência na detecção destas, através dos testes de Caneca e CMT.

Em exposição de trabalho na UFMG em Julho, o palestrante citou que quando se busca reduzir drasticamente a CCS individual e global por consequência, automaticamente estamos reduzindo o nível natural de "PROTEÇÃO" da glândula mamária, o que tem feito empresas como DPA e Danone reverem os critérios de padrões de CCS para pagamento do leite.

Você concorda com esta linha de raciocínio ou não? Se existe, gostaria de receber informações precisas, confiáveis e atualizadas sobre padrões de CCS mínimos para garantir proteção natural do úbere. Muito obrigado,
André Cokely.

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado André,

Obrigado pela sua mensagem.

Esse é um assunto sobre o qual existem opiniões muitas vezes divergentes. Em termos científicos, a CCS de uma vaca sadia é menor que 200 mil cel/ml e que valores abaixo disso estariam dentro de normalidade. Nesse caso, é possível adotar como um bom padrão de CCS para o tanque, valores também abaixo de 200 mil cel/ml. Para se ter uma idéia, em países europeus, existem médias de países variando entre 100 e 150 mil/cel de todos os rebanhos.

Na minha opinião e de grande parte dos especialistas no assunto, a CCS deve e tem que ser reduzida, pois do contrário o produtor perde em termos de produção e a industria também em termos de qualidade. na medida em que os rebanhos conseguem reduzir a mastite contagiosa (S. aureus e S. agalactiae) ocorre redução da CCS e maior risco de mastite de origem ambiental, o que pode ocorrem principalmente na forma de casos clínicos, muitos deles agudos. Isso tem ocorrido em todo o mundo e o grande desafio é o controle da mastite ambiental.

A mudança de postura é que um rebanho com baixa CCS tem que estar mais atento ao ambiente e implantar medidas mais voltadas para o controle da mastite ambiental (vacinação J5, nutrição) e NÃO manter uma CCS alta para evitar esses casos.

Atenciosamente, Marcos Veiga



CURT PINTO CORTES

OUTRO - RIO DE JANEIRO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 02/12/2006

Adorei a matéria e a forma como o Dr. Marcos consegue passar as informações com clareza.

É de profissionais com esta característica que precisamos no meio, afinal, só há comunicação quando um fala e o outro entende.

Eu estou dando esse depoimento como agradecimento, pois fui um felizardo ao poder contar com as informações passadas, que muito estão contribuindo para minha vida profissional, num curso do SENA/RJ, que ele ministrou.

Mais uma vez, parabéns.

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Curt,

Obrigado pela sua mensagem. Fico contente em saber que essas informações são úteis para que trabalhar diretamente com o produtor.

Atenciosamente, Marcos Veiga