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Mastite afeta o desempenho reprodutivo de vacas leiteiras

POR TIAGO TOMAZI

E MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 31/08/2010

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A mastite, tanto em sua forma clínica quanto subclínica, é a doença que mais acomete vacas leiteiras, acarretando não apenas prejuízos relacionados ao descarte de animais, produção e qualidade do leite, mas também, por causar efeito negativo sobre o desempenho reprodutivo dos animais acometidos.

Em uma propriedade leiteira, muitos esforços são realizados para que se consiga obter uma cria por vaca ao ano, já que a eficiência produtiva de uma exploração leiteira é extremamente dependente da eficiência reprodutiva. Muitas estratégias são utilizadas para melhorar os índices reprodutivos de um rebanho leiteiro, tais como, programa de vacinação, protocolos de inseminação artificial em tempo fixo, monitoramento do escore corporal e fornecimento de dietas adequadas. No entanto, vários estudos demonstram que infecções intramamárias (IIM) apresentam resultados prejudiciais à fertilidade de um rebanho.

Infecções intramamárias antes ou após a cobertura ou inseminação artificial (IA) deprimem a fertilidade dos animais, reduzindo as taxas de prenhez e aumentando o número de serviços por concepção, sem que haja diferença entre os tipos de patógenos (gram-negativos e gram-positivos) causadores da doença.

Durante a lactação de uma vaca, amostras de leite com contagens de células somáticas (CCS) acima de 400.000 células/mL reduzem as taxas de concepção de vacas infectadas, indicando patogenicidade dos agentes causadores de mastite subclínica sobre o estado reprodutivo fisiológico de vacas leiteiras.

Pesquisadores de Israel, em um estudo recente, avaliaram o efeito da IIM subclínicas crônicas, e os eventos acarretados pela mastite clínica em curto prazo sobre o desempenho reprodutivo de um grupo de 73 vacas holandesas. Os animais foram divididos em três grupos experimentais segundo a forma da doença (clínica ou subclínica) e CCS: 1) grupo das vacas não infectadas (n = 22) referiram-se as vacas sem sintomas de IIM e com CCS < 200.000/mL; 2) grupo clínico (n = 9) constituído por vacas que apresentaram sintomas de mastite clínica antecedendo o estudo; 3) grupo subclínico (n = 42), formado por vacas com CCS > 250.000/mL, de forma crônica e sem sinais clínicos.

Para análises microbiológicas e de CCS, amostras de leite foram coletadas diariamente e encaminhadas para análises. Para controle do ciclo estral, as vacas foram sincronizadas através da aplicação de duas doses de PGF2α, sendo realizados monitoramentos para detecção de cios três vezes ao dia. As vacas que participaram do procedimento de sincronização e não apresentaram cio até o quarto dia após a primeira indução hormonal foram excluídas do experimento. As estruturas ovarianas (folículos e corpo lúteo) foram avaliadas por meio de ultrassonografia. Além disso, foram realizadas coletas de sangue para avaliações hormonais de estradiol e secreção pulsátil de LH. Após a ovulação, os ovários foram examinados a cada 2-3 dias para caracterização da dinâmica folicular e desenvolvimento do corpo lúteo (CL).

Os resultados reprodutivos de 70% das vacas com mastite permaneceram inalterados, no entanto, cerca de 30% das vacas com mastite apresentaram ovulação retardada, caracterizada por aumento no intervalo normal entre o estro e a ovulação (E-O) de 30 para 60 horas. Este atraso na ovulação reduz substancialmente a probabilidade de fecundação bem sucedida das vacas inseminadas. Isso se deve a curta viabilidade do espermatozóide no aparelho reprodutor da fêmea e dos ovócitos após ovulação.

A porcentagem de vacas sadias comparadas com vacas com mastite clínica e subclínica que demonstraram um intervalo E-O normal ou prolongado está apresentada na Figura 1. Um total de 12 de 46 vacas (26%) compreendidas nos grupos subclínico (SC) e clínico (C) exibiram um intervalo E-O mais longo que o normal (n = 8), ou não ovularam até 96 horas do período experimental (n = 4). Esta proporção diferiu da do grupo de vacas não-infectadas (NI), no qual apenas 1 de 22 vacas manifestou ovulação retardada.



Figura 1: Porcentagem de vacas exibindo um intervalo estro-ovulação prolongado e vacas que não ovularam durante as 96 horas de período experimental após o início do estro. Fonte: Adaptado de Lavon, et al., 2010.

Todas as vacas com mastite (clínica ou subclínica), incluindo aquelas que apresentam um intervalo E-O prolongado, e as vacas que não ovulam durante o período experimental apresentaram estruturas ovarianas com aparência normal, sem indicação de presença de cistos ou folículos persistentes.

A maioria das infecções clínicas foi causada por E. coli, enquanto que nas infecções subclínicas, os agentes causadores foram Streptococcus dysgalactiae e estafilococos coagulase-negativa. Não foi encontrada relação entre o tipo de bactérias (gram-positivas e gram-negativas) e alterações reprodutivas. Também não houve diferença de CCS entre vacas com intervalo estro-ovulação normal e prolongado.

Este estudo indicou que os efeitos no retardo da ovulação de vacas que contraíram naturalmente IIM tiveram início com um decréscimo na produção de estradiol, resultando na redução da concentração deste hormônio na pré-ovulação. Consequentemente, isto indica que o efeito estimulador do estradiol, quando prejudicado, irá interferir na indução do GnRH que reduzirá diretamente a liberação de LH, sem que haja mudanças na concentração pulsátil deste hormônio, sugerindo que a mastite está afetando diretamente o funcionamento folicular.

A supressão direta do estradiol folicular como um efeito primário de IIM difere substancialmente em vários estudos conduzidos em bovinos. No estudo relatado aqui, o efeito imediato da fase aguda causado pela endotoxina ou inoculação bacteriana no desempenho reprodutivo acarretou primeiramente uma depressão na secreção das gonadotrofinas. A atenuação na secreção pulsátil de LH durante a fase folicular resulta na diminuição das concentrações do estradiol pré-ovulatório e redução na liberação de LH, bloqueando ou retardando a ovulação. O mecanismo exato responsável pela indução de baixas secreções de estradiol em vacas com mastite subclínica, ou com sintomas de mastite clínica controlados até poucas semanas antecedendo a ovulação, ainda não está muito claro, necessitando de mais estudos para elucidar tal relação.

Este é mais um trabalho que destaca a importância de se fazer um controle eficiente da mastite nos rebanhos leiteiros. Desta forma, não estaremos apenas garantindo produção e a qualidade do leite, mas também, disporemos de mais uma ferramenta, que juntamente com um manejo reprodutivo adequado, garantirão a fertilidade e a lucratividade de uma propriedade leiteira.

Fonte: Lavon et al. J. Dairy Sci. 93:911-921, 2010.

TIAGO TOMAZI

Médico Veterinário e Doutor em Nutrição e Produção Animal
Pesquisador do Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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RONALDO MENDONÇA DOS SANTOS

UBERABA - MINAS GERAIS

EM 23/10/2010


Interessante o trabalho exposto acima.

vacas com mamite além de poder comprometer a reprodução poderá levar a maior taxa de mortalidade embrionária, principalmente a precoce. Talvez, essa seria uma explicação das mais plausíveis da baixa taxa de prenhez do gado leiteiro, uma vez que é uma patologia das mais agravantes na atividade.


Um forte amplexo,

____________________________________________________________
(34) 9932-9140 - Ronaldo Mendonça dos Santos

Colaborador: www.embryosys.com.br bovine reproduction
JOSÉ CARLOS SILVA JÚNIOR

PASSOS - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 10/09/2010

Boa noite!
Foi um excelente texto, sou fã da bovinocultura leiteira principalmente na parte de reprodução, área pela qual quero me especializar.
tenha uma boa noite e um ótimo fim de semana!
JÚLIA D. LIMA DIAS

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/09/2010

Caro Marco Antonio,

sugiro que para tomar a decisão do tratamento de mastites sub-clínicas você não use o CMT como teste dignóstico e sim o cultivo microbiológico de amostra de leite colhida assepticamente.
Isso se deve ao fato de que, dentre os microorganismos que mais comumente causam a mastite sub-clínica, apenas o tratamento do Streptococcus agalactiae durante a lactação tem mostrado resultados satisfatórios.

Att,
Júlia Dias
MARCO ANTONIO PARREIRAS DE CARVALHO

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS

EM 06/09/2010

Boa noite,
Excepcional trabalho que nos leva a algumas conclusões para a prática diária de uma propriedade leiteira:
1 - Deve-se realizar CMT periodicamente no rebanho em lactção;
2 - Deve-se tratar SIM mastite subclínica, ao contrário do propogado por grandes cooperativas, de que não se trata mastite subclínica. Além da redução da fertilidade, as vacas com mastite subclínica são vias de disseminação de agendes patogênicos causadores de mastite;
3 - Se no teste do caneco de fundo preto forem observados grumos, existe possibilidade algo maior de que se trata de E. coli, o que irá direcionar o tratamento antibiótico que empregamos de forma empírica;
4 - Para não ocorrer desperdício de semem, deixar para inseminar no próximo cio, vacas em tratamento de mastities agudas ou crônicas.
Agradeço discussões quanto a eventuais equívocos na minha interpretação deste belo texto.
Obrigado,
Marco Antonio
EDER GHEDINI

TAPEJARA - RIO GRANDE DO SUL

EM 01/09/2010

Olá, inicialmente gostaria de cumprimentá-los pela difusão destes dados, podendo desta maneira, elucidarmos ainda mais as questões relacionadas com o manejo do rebanho leiteiro. Cabe salientar, sob meu ponto de vista que, a medida que se tem no organismo animal um déficit imunológico, indiferente da patologia que acomete este animal, a reprodução estará diretamente afetada. Forte abraço!