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Importância da colonização dos tetos na transmissão de S. aureus

POR MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 02/03/2015

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 Por Eduardo de Souza Campos Pinheiro* e Marcos Veiga dos Santos

Dentre as bactérias causadoras de mastite, Staphylococcus aureus (S. aureus) é uma das principais, devido ao perfil contagioso, baixa taxa de cura e alta prevalência. Esta bactéria causa, na maioria das vezes, mastite subclínica e/ou crônica, com baixa resposta da vaca à antibioticoterapia, o que dificulta a erradicação e/ou controle deste agente em muitos rebanhos. Devido ao impacto econômico (negativo) que esta bactéria pode causar em um rebanho leiteiro (aumento da contagem de células somáticas [CCS], resultando em perda de bonificação ou penalização no preço do leite, por alguns lacticínios; diminuição da produção de leite é importante entendermos a epidemiologia da mastite causada por S. aureus para desenvolvermos um eficiente programa de controle.

Um importante “fator epidemiológico” que vem sendo estudado há algum tempo, é a capacidade de S. aureus de colonizar a pele do teto, e se a presença deste agente no exterior do teto é um fator predisponente para novas infecções intramamárias (IIMs). A utilização de técnicas moleculares possibilitou esclarecer algumas dúvidas, porém os resultados dos estudos ainda são inconclusivos. Por exemplo, pesquisadores ingleses concluíram que a maioria das cepas de S. aureus que causam mastite são altamente adaptadas à glândula mamária, e são diferentes das cepas isoladas da pele do teto. Porém, outros estudos sugeriram que a maioria dos isolados de S. aureus da pele e canal do teto, são geneticamente semelhantes aos isolados de IIMs, assim como isolados de locais extramamários (como focinho e narinas, vagina e pele do jarrete) eram semelhantes aos isolados do leite.

Além do auxílio na identificação das fontes de infecção por S. aureus, as técnicas de biologia molecular possibilitaram o estudo de alguns fatores de virulência desta bactéria (genes que estão associadas à patogenicidade das bactérias), assim como relacioná-los a uma maior ou menor prevalência de uma cepa dentro do rebanho. Estudos demonstram que um número limitado de cepas é detectado em rebanhos com uma cepa predominante. Sabendo-se disso, foi sugerido que cepas com baixa prevalência dentro de um rebanho poderiam agir de maneira semelhante à de algumas bactérias ambientais, colonizando a pele do teto sem gerar uma resposta acentuada na glândula mamária. O predomínio de algumas cepas estaria relacionado à capacidade destas de expressarem os seus fatores de virulência, os quais facilitariam a sua maior prevalência no rebanho.

Recentemente, foi publicado um estudo que objetivou relacionar a presença de S. aureus na pele do teto com a ocorrência de IIM (causadas por este agente), pelo uso de uma técnica molecular (eletroforese em gel de campo pulsado [EGCP]), assim como caracterizar os isolados de acordo com os fatores de virulência produzidos. Foram selecionados quatro rebanhos leiteiros do estado de Ohio, Estados Unidos, com histórico de animais com mastite causada por S. aureus. A prevalência de vacas com IIM por S. aureus nestes rebanhos variou de 6 a 15%. No total, foi coletado leite de 228 quartos mamários, para realização de cultura microbiológica, e feito swab na superfície externa (pele) dos 228 tetos correspondentes aos quartos mamários com coleta de leite. Os isolados positivos para S. aureus foram analisados pela técnica de EGCP. Os fatores de virulência (genes) expressos pelas cepas S. aureus foram analisados por PCR.
Neste estudo, S. aureus foi detectado em 28 (12%) das 228 amostras de leite coletadas, e em 25 (11%) das 228 amostras de swab de teto. No total, os isolados de S. aureus foram identificado a partir de 20 vacas com 43 quartos infectados. Desses quartos, 10 (23%) tiveram isolamento positivo no leite e na pele do teto, 18 (43%) somente no leite, e 15 (34%) somente na pele do teto. Portanto, 38% (20/53) dos isolados foram de quartos infectados e isolamento positivo na pele do teto e no leite, 34% (18/53) foram de quartos com isolamento positivo no leite mas negativo na pele do teto, e 28% (15/53) foram de quartos com isolamento positivo na pele do teto mas negativo no leite. Sem considerar a relação genética entre as cepas de S. aureus, a colonização do teto por este agente foi significativamente associada à presença deste no leite (P < 0,0001), sendo que quartos colonizados por S. aureus na pele do teto tiveram um risco 4,5 vezes maior de serem diagnosticados com IIM por S. aureus, do que quartos negativos para colonização na pele do teto por este agente.

Os isolados de S. aureus que apresentaram semelhança maior ou igual a 80%, de acordo com o resultado da EGCP, foram agrupados como fazendo parte do mesmo grupo genético. Três grupos genéticos foram identificados neste estudo: A, B e C. Todos com isolamento positivo tanto na pele do teto quanto no leite. A distribuição dos 53 isolados de S. aureus nos grupos genéticos ficou da seguinte forma: 8 isolados (15%) no grupo A, 38 (72%) no grupo B, e 7 (13%) no grupo C. Dos 38 isolados do grupo genético B, 60,5% foram do leite e 39,5% da pele do teto. Porém, nos grupos A e C, S. aureus foi isolado em maior frequência na pele do teto que no leite. A maioria dos isolados da pele do teto (60%) foi de quartos sem IIM por S. aureus. Isso sugere que a colonização da pele do teto não é uma consequência da IIM (apesar de alguns estudos relatarem que quando excretado no leite, S. aureus pode contaminar as teteiras da ordenha e as camas das vacas, culminando em uma possível contaminação da pele do teto, principalmente em rebanhos de alta produção). O fato dos isolados de S. aureus no leite serem geneticamente próximos aos da pele do teto sugere que outros locais (extramamários) podem servir como reservatório para possíveis IIM causadas por este agente.

Quando os isolados de S. aureus do leite e da pele do teto foram oriundos do mesmo quarto mamário (da mesma vaca), estes foram classificados como pares. No total, 10 pares de isolados foram identificados. A variabilidade genética foi observada em 5 dos 10 pares (50%). A não associação dos grupos genéticos em metade dos pares pode ser explicada pelo fato de apenas um isolado por amostra positiva ter sido usado para a distinção genotípica pela EGCP.

Outro ponto relevante seria a possível contaminação do leite, no momento da coleta para cultura microbiológica, por S. aureus presente na pele do teto. Para evitar esse falso positivo para IIM, a coleta foi feita assepticamente e os resultados de cultura foram comparados aos de CCS e à contagem de unidades formadoras de colônia (UFC) na placa de ágar sangue. Em 89% dos isolados de S. aureus a contagem de UFC foi maior que 1000 colônias/ml de leite. Os valores médios da CCS dos grupos genéticos A, B e C foram 3,5 x 106, 3,43 x 106 e 1,13 x 106, respectivamente (sem diferença estatística; P = 0,8). Três fatores de virulência (hlgB, clfA, e clfB) foram mais frequentes dentre os isolados de quartos com CCS > 400.000 células/ml de leite.

Alguns autores sugerem que a dominância e patogenicidade de algumas cepas de S. aureus são devido aos diferentes fatores de virulência entre as cepas. Os isolados do grupo genético B tinham em maior frequência os genes clfA e clfB do que os demais grupos. Esses genes são conhecidos por decodificar proteínas responsáveis pela adesão de S. aureus em células epiteliais do canal do teto, e possivelmente contribuíram para que houvesse maior predomínio de bactérias do grupo B no rebanho.

Por fim, os pesquisadores concluíram que quartos colonizados por S. aureus na pele do teto tinham maior risco de apresentarem uma IIM por este agente, comparado com quartos sem colonização na pele do teto. Além disso, a presença de alguns fatores de virulência pode ter contribuído para que uma determinada cepa se tornasse mais prevalente dentro do rebanho.

Para refletirmos sobre o assunto...
Um questionamento frequentemente feito pelos produtores é se existe problema em fornecer aos bezerros leite (não pasteurizado) de vacas com mastite por S. aureus. A transmissão direta não ocorre, ou seja, a bactéria que é ingerida não chega na glândula mamária pela corrente sanguínea. Porém, caso o leite esteja contaminado por S. aureus, este pode contaminar locais extramamários (nariz, focinho, vagina e jarrete) e o(s) teto(s) das bezerras (principalmente se estas são criadas em grupo e uma bezerra mama no teto da outra [“mamada cruzada”], ou pode ocorrer transmissão para os tetos via picada de moscas hematófagas). Segundo o estudo apresentado, animais com o teto colonizado por S. aureus têm maior risco de apresentarem IIM por este agente. Então, caso exista um elevado número de primíparas que pariram com IIM por S. aureus, podemos suspeitar de contaminação por este agente durante a fase pré-lactante desses animais.

Fonte: L. B. da Costa et al. J. Dairy Sci. 97 :6907–6916, 2014.

*Mestrando do Departamento de Nutrição e Produção Animal (VNP), FMVZ-USP.

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 08/04/2015

Prezado Douglas, as taxas de cura de tratamento de S. aureus em vacas leiteiras são médias ou baixas (30-60%). Um dos principais fatores que afetam esta taxa de cura é a idade da vaca (vacas adultas e velhas têm taxa de cura muito inferior ao de vacas de primeira lactação (cerca de 30%). Outro fator fundamental para o tratamento é o tempo de duração do tratamento, sendo recomendado pelo menos 4 a 5 dias de tratamento.

Sendo assim, as bases mais usadas para tratamento de S. aureus são a base de cefalosporina e ciprofloxacina, as quais podem ser usadas em conjunto com o uso de antibióticos de uso sistêmico. Para casos crônicos de mastite causada por S. aureus não se deve esperar boas taxas de cura. nestes casos, as duas únicas formas de tratamento com maior chance de cura são: tratamento combinando (intramamário 5 dias+ sistemico 2-3 dias) e a terapia prolongada (pelo menos 5 dias de tratamento).

As vacas que não responderem ao tratamento devem ser descartadas ou segregadas (inha de ordenha) do restante do rebanho.

Atenciosamente, Marcos Veiga
DOUGLAS

TRÊS CORAÇÕES - MINAS GERAIS

EM 08/04/2015

boa noite , qual tratamento de eleição para mamites causadas por Staph. aureus? realizamos varias terapias sem sucesso, e estamos com vacas crônicas , mergulhar as teteiras em soluções com cloro após uma ordenha completa de uma vaca antes de começar a ordenhar outra vaca seria uma solução para evitar a disseminação?
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 17/03/2015

Prezado Marcos, a transmissão da mastite contagiosa, como esta causada por Staph. aureus pode ser transmitida de uma vaca ou quarto infectado ou com apenas colonização da pele dos tetos por meio da mão do ordenhador e da teteira.

É importante destacar que a simples a colonização da pele dos tetos é apenas um mecanismo de contaminação dos tetos, mas a vaca pode não estar infectada dentro da glândula mamária, atenciosamente, Marcos Veiga
MARCOS HELVECIO MONTEIRO JUNIOR

PIEDADE DO RIO GRANDE - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 17/03/2015

Uma cepa de S. aureus que está em um teto de uma vaca, que não tem presença da IIM, ele pode causar IIM em outra vaca pela mão do ordenhador ou a teteira?
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 14/03/2015

Prezado João Leonardo,

De forma geral, as infecções antes do parto são na grande maioria subclínicas, mas eventualmente alguns quartos podem ter sinais clínicos (aumento de volume) e eventualmente ter perda da função (quarto perdido).

Atenciosamente, Marcos Veiga
JOÃO LEONARDO PIRES CARVALHO FARIA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/03/2015

Professor, estas IIM por S. aureus na fase pré-lactante, tem riscos grandes de acarretarem uma perda de teto ou o risco maior é a doença subclínica??
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 12/03/2015

Prezado Kolowyskys, não tenho a informação sobre empresas que comercializam este equipamento. Basicamente, a pasteurização mais usada é pelo método lento (65oC por 30 minutos). Nesta combinação de tempo e temperatura, os microrganismos patogênicos são eliminados.

Atenciosamente, Marcos Veiga
KOLOWYSKYS SILVA DE ALENCAR DANTAS

BATURITÉ - CEARÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 12/03/2015

Excelente matéria, bem direcionada à nossa realidade, no tocante a qualidade de leite. Quanto à pasteurização do leite ofertado às bezerras, gostaria de mais detalhes do processo, e onde posso adquirir material (pasteurizador) adequado a esta atividade?? Ou pode ser qualquer um?
MILENA TOMASI BASSANI

BENTO GONÇALVES - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 11/03/2015

Parabéns pelo artigo imensamente esclarecedor.
Contribuindo com o pensamento, clfA e clfB são associados a formação de biofilme e não será, também por isso, que eles era mais associados nos rebanhos? Porque sabemos que a formação de biofilmes é um grande problema na cadeia de lácteos deste a obtenção até o produto final.
Agradecida mais uma vez pelo artigo