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Custo-benefício de medidas de controle e prevenção de mastite

POR MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 16/03/2010

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Em tempos de margens de lucratividade cada vez mais estreitas, é de fundamental importância que a gestão da fazenda leiteira seja orientada em duas frentes: buscar melhoria no preço do leite e reduzir custos. Em ambos os casos a mastite desempenha um papel central no dia a dia de uma fazenda.

O primeiro quesito pode ser alcançado pela melhoria da qualidade do leite, uma vez que nos sistemas de pagamento do leite por qualidade, o leite com baixa CCS (geralmente <200.000 células/ml) é bonificado e leite com teor de CCS acima de 400.000 células/ml é penalizado. Em relação à redução de custos, a mastite é considerada a doença do gado leiteiro que mais traz prejuízos, o que significa que a redução e controle desta doença pode resultar em menores perdas de produção, menores custos de tratamentos, redução de leite descartado e de descartes involuntários.

Atualmente, existem diversas medidas de prevenção e controle de mastite, as quais têm sido exaustivamente testadas em termos de eficácia. No entanto, em razão da mastite ser uma doença multifatorial, nenhuma medida aplicada de forma isolada apresenta sucesso total no controle da doença. O controle e prevenção da mastite tem sido feito por um conjunto de medidas, as quais devem ser aplicadas em concomitantemente, dependendo da situação específica de cada fazenda.

Outro fator complicador em termos de avaliação do custo:benefício de algumas medidas é que a sua eficácia máxima somente é obtida com treinamento de mão de obra, visto que a qualidade dos procedimentos pode fazer toda a diferença e não somente o fato de usar ou não um determinado produtos ou procedimento.

A tomada de decisões sobre utilizar ou não uma determinada medida de controle pode ser feita com base em recomendações de especialistas ou com base em resultados de estudos científicos. No entanto, na maioria das vezes, as particularidades de cada fazenda leiteira não tornam fácil a avaliação do benefício real de cada medida em relação aos custos que ela representa.

Numa tentativa de esclarecer o assunto, um estudo holandês foi desenvolvido com o objetivo de avaliar a relação custo:benefício da aplicação de medidas de controle de mastite em fazendas leiteiras, considerando com resposta a eficácia em termos de redução da CCS do tanque e da incidência de mastite clínica.

O foco do estudo era identificar dentro de um conjunto de medidas (Quadro 1) tradicionalmente recomendadas para o controle de mastite, aquelas que trariam o maior retorno econômico para o produtor.

Quadro 1. Relação de medidas de controle (conforme recomendações do National Mastitis Council e Dutch Udder Health Centre).



Inicialmente, foi feito um levantamento de toda a literatura científica, durante os últimos 10 anos, sobre estudos que avaliaram a eficácia das medidas de controle, considerando como resposta a porcentagem de redução de CCS do tanque ou da redução da incidência de mastite clínica.

Para avaliações sobre as quais não foram encontrados valores de eficácia na literatura consultada, foram consultados grupos de especialistas para estimativa de eficácia. Para a avaliação das medidas de manejo (Quadro 1) foram feitas simulações de custo de cada medida, considerando o custo do produto e mão de obra, descarte de leite e outros serviços envolvidos para uma fazenda com 65 vacas em lactação e uma ordenha com 12 unidades.

Foi selecionado um total de 218 estudos científicos para embasamento da eficácia da medidas de controle em relação à redução de CCS e de mastite clínica. Além dos resultados da literatura científica, foram consultados 15 especialistas para obtenção de informações sobre as eficiências de medidas, sobre as quais não havia dados de experimentos ou estudos científicos.

Dentre as medidas estudadas, a desinfecção dos tetos após a ordenha foi a que isoladamente teve o maior efeito na redução da CCS do tanque e da incidência de mastite clínica, tanto para agentes contagiosos quanto para ambientais. No outro extremo, o uso de luvas durante a ordenha teve o menor impacto em ambos sobre a redução de incidência de mastite clínica causada por agentes contagiosos e ambientais, ainda que este fator tenha sido avaliado em poucos trabalhos de pesquisa.

Em relação às demais medidas, houve grande variação do efeito da sua aplicação em relação aos agentes ambientais e contagiosos, o que indica que é importante considerar as características especificas de cada fazenda para aplicação das outras medidas. Algumas medidas, ainda que reconhecidamente importantes, não foram avaliadas por pesquisas científicas, como por exemplo a recomendação de evitar a superlotação de animais e de melhorar a alimentação das vacas, o que dificulta o estabelecimento de retornos quando uma fazenda se propõe aplicar tal medida.

A estimativa de custos anuais para o conjunto de medidas avaliado está apresenta na tabela 1. Considerando a análise de custo:beneficio, as medidas com maiores retornos da aplicação foram: a) Lavar com água quente a unidade de ordenha depois de uso em vacas com mastite clínica e antes do uso em outras vacas; b) Utilização de uma tolha única por vaca; c) Manter vacas de pé após a ordenha; d) Uso de luvas pelos ordenhadores durante toda a ordenha.

Tabela 1. Custo (€/ano) de implantação de medidas de controle, considerando custo de mão de obra, gasto com produtos e custos totais, para uma fazenda com 65 vacas em lactação e ordenhadeira com 12 unidades (valores estimados para a Holanda, 2010).



A avaliação de custo:benefício como rotina dentro de uma fazenda é geralmente trabalhosa e complicada, pois muitos dos fatores que influenciam tanto o custo quanto os benefícios são de difícil controle e estimativa. Muitos proprietários e técnicos tomam como base de decisão somente a eficácia de uma determinada estratégia, sem levar em consideram a relação custo:benefício.

O mais comum é que medidas que sejam mais eficientes sejam adotadas e aquelas que implicam em maiores custos sejam evitadas. No entanto, a avaliação da relação custo:benefício do estudo em questão revela as medidas com as maiores eficácias não são necessariamente aquelas com a melhor relação custo:benefícios.

Um exemplo bastante comum, é a desinfecção dos tetos após a ordenha, cuja eficácia é indiscutível e bastante alta, mas não foi classificada dentro das medidas com maior retorno em termos de custo:benefício, com base na metodologia avaliada. Por outro lado, o uso de luvas durante a ordenha, ainda que não apresente altos valores em termos de eficácia, é altamente vantajosa em termos de custo:benefício, pelo seu baixo custo relativo.

O estudo em questão traz uma abrangente avaliação da eficácia de 17 medidas de controle de mastite. As medidas avaliadas foram aquelas consideradas como mais recomendadas por instituições internacionais, porém deve-se destacar que outros fatores podem afetar a eficácia das medidas, como por exemplo, a situação atual de saúde do úbere de cada fazenda.

Fonte: Huijps et al, J. Dairy Sci. 93 :115-124, 2010.

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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ANDRÉ PERES

PELOTAS - RIO GRANDE DO SUL - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 26/05/2016

EVANDRO VILLELA RIBEIRO

BOA ESPERANÇA - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 03/10/2011

Olá, gostaria de saber sua opinião quanto ao uso do pulsador eletronico como forma de prevenção de mamite. Qual é ou seria seu custo beneficio?
FLÁVIO HENRIQUE MARQUES MOREIRA

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS

EM 21/03/2011

Boa tarde!!
Muito bom o seu artigo. Gostaria de saber se você tem dados ou cálculos de quanto o produtor gasta ou deixa de ganhar por causa das perdas econômicas relacionadas com mastites clínicas e subclínicas e o quanto pode afetar diretamente no "bolso" do produtor. Essas informações são importantes para o meu trabalho de conclusão de curso (TCC).
Obrigado!


<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Flávio Henrique Marques Moreira",

Sugiro utilizar uma planilha que está disponível em: http://www.uwex.edu/milkquality/spreadsheets/mastitisspreadsheet.xls

Atenciosamente, Marcos Veiga
ELZA NAVES ESTEVES BORGES

GOIATUBA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/01/2011

Gostaria saber mais sobre a medida de limpeza com agua quente dos conjuntos de ordenha, modo de realizar o procedimento e produtos utilizados.
Destas 17 medidas mencionadas; esta citada e o uso de luvas ainda não foram adotadas na propriedade.
Atualmente temos muitos problemas de mastite clinica de forma aguda e com baastante resistencia a varios antibioticos. Tivemos muito barro e os animais praticamente mergulhavam o ubere todos os dias. Os locais criticos de barro foram cercados e queremos fazer o maximo de prevenção para melhorar a qualidade do leite.

<b>Resposta do autor:</b>

Prezada Elza Naves Esteves Borges",

Não há um detalhamento sobre esta medida. Pessoalmente, acho que não vale a pena investir neste tipo de procedimento, pois envolve uma grande dificuldade prática para realização. Em relação à higiene de ordenha, a medida mais importante seria o pré-dipping seguido da secagem com papel toalha descartável.

Atenciosamente, Marcos Veiga
GILBERTO KURTZ

GETÚLIO VARGAS - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 05/06/2010

olá, tenho muitos problemas com mastite em minha propriedade, antibioticos, poucos funcionam, queria saber quanto a eficiencia de vacina para mastite.

atensiosamete;
gilberto kurtz


<b>Resposta do autor:</b>

Prezado gilberto kurtz,

Existem atualmente duas vacinas contra mastite que apresentam eficácia comprovada: J5 (contra mastite causada por coliformes) e Staphylococcus aureus. A primeira vacina tem uma eficácia em termos de prevenção de casos clínicos causados por coliformes de 70-80% e a segunda de cerca de 60% contra S. aureus.

Eu destaco que não existe uma vacina que proteja contra todas as causas de mastite e sim especificamente contra um ou dois tipos de agentes causadores. Neste caso, a primeira avaliação a ser feita é se estes agentes são encontrados no rebanho (na maioria sim). Outro ponto fundamental é que a vacinação é uma medida auxiliar e não substitui em hipótese nenhuma a necessidade de um programa de controle de mastite, que deve ser empregado em conjunto com a vacinação.

Minha opinião é de que, quando usado em conjunto com um programa de controle e quando existe alta prevalência dos agentes mencionados, a vacinação é uma excelente medida. Não é pela utilização exclusiva da vacinação que o rebanho terá sucesso no controle, mas pode ser uma medida auxiliar muito importante.

Atenciosamente, Marcos Veiga

www.marcosveiga.net

MURILO MARCHI FERREIRA

SÃO LUIZ GONZAGA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/04/2010

olá. professor estou realizando durante o meu estagio curricular um trabalho onde coleto amostras de leite de resfriadores em expansão. por enquanto sao 6 amostras.
tenho todos os dados de manejo da propriedade. solicitei o exame bacteriológico as primeiras amostras ja vieram o resutados(todas bacterias ambientais) ja defini a estrategia de manejo e vou realizar mais 2 coletas. como posso fazer o manejo após a 3º coleta, devido a cada coleta ir melhorando o manejo.


<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Murilo Marchi Ferreira,

Pela sua mensagem, eu entendi que você está fazendo coletas de leite do tanque para contagem bacteriana total. A recomendação é que essas coletas sejam feitas pelo menos uma vez ao mês para monitorar as condições de higiene de ordenha e resfriamento do leite. Outro procedimento que também pode ser feito está relacionado com ao controle de mastite. Neste caso, a recomendação seria a realização da CCS ou do CMT e em seguida coletar as amostras positivas para cultura e identificação do agente causador.

Caso não tenha respondido completamente, por favor, entre em contato novamente. Atenciosamente,

Marcos Veiga

ROGERIO LIMA

SANTA MARIA DE JETIBÁ - ESPÍRITO SANTO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 29/04/2010

Marcos tenho uma propriedade com bezerro ao pé, ordenha mecanica e estamos com problema de CCS alta. Como a produção individual das vacas não é alta, indentificamos os tetos afetados e deixamos para a mamada dos bezerros. Esse leite mastitico pode afetar a saude das bezerras???


<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Rogerio Lima,

Sempre existe algum risco do consumo do leite com agentes causadores de mastite pelas bezerras, uma vez que isso pode ser uma fonte de transmissão de mastite em novilhas. Por outro lado, considerando que em média 30% das vacas estão infectadas, isso normalmente já vem acontecendo, independentemente do tipo de leite que se usa. A recomendação seria não permitir que uma bezerra mame na outra , para evitar o risco de transmissão de mastite a partir das bactérias que se encontram na boca das bezerras.

A recomendação minha seria a identificação das vacas com alta CCS e realizar a cultura microbiológica do leite dos quartos, para saber o tipo de agente causador. A partir de então pode-se recomendar o tratamento, segregação ou descarte da vaca.

Atenciosamente, Marcos Veiga



EMANUEL CÉSAR

LIMOEIRO DO NORTE - CEARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/03/2010

Parabéns pelo artigo!

Professor,
Qual o procedimento que devo tomar com um animal que já secou o leite em duas tetas? É possível recuperar essa situação e o animal voltar a dar leite normalmente? Devo secar a vaca para fazer o tratamento, ou espero ela concluir sua lactação para fazer o tartamento? Ou não tem mais jeito, não retorna nunca mais o leite nessas tetas.

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Emanuel César,

É difícil falar exatamente o que acontecerá com essa glândula, após um novo parto. Caso o quarto tenha secado (por uma mastite, por exemplo) durante a lactação, a minha sugestão seria fazer o tratamento de vaca seca (aos 60 dias antes do parto) e aguardar o retorno após o parto.

Caso tenha ocorrido uma lesão (fibrosamento) do tecido, possivelmente não haverá mais produção de leite no quarto para o resto da vida do animal. Por outro lado, dependendo da lesão, pode ocorrer recuperação e a produção retornar, pelo menos parcialmente.

Atenciosamente,

Marcos Veiga

ROBERTO MANSO LEITE

PINDAMONHANGABA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 21/03/2010

Parabéns mais uma vez pelo artigo.
Não foi avaliado e nem comentada a importância do pré dipping!
Acredito que este procedimento seja tão importante com o pós.
TIAGO MORAES FERREIRA

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/03/2010

Caro Professor e Amigo Marcos Veiga,

Parabéns, pelo o artigo as medidas são fundamentais para redução da CCS.

Realmente nós temos que ser muito rigorosos na aplicação das medidas de controle da mastite. É um tema de grande desafio da pecuária de leite nacional.
ANDRÉ DE OLIVEIRA ANDRADE

VIÇOSA - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 16/03/2010

Ótimo artigo!
Gostaria de saber professor, se você tem dados sobre o custo-benefício da utilização do antibiograma do leite para "nortear" o tratamento de casos de mastite.
Desde já agradeço!



<b>Resposta do autor:</b>

Prezado André de Oliveira Andrade,

Eu não tenho conhecimento de pesquisas que tenham avaliado esse item (antibiograma). Minha opinião é de que é mais vantajoso investir dinheiro em cultura (identificação de agente causador) do que em antibiograma, ainda que essa possa ser uma ferramenta interessante em algumas situações de monitoramento.

Atenciosamente, Marcos Veiga