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Conhecendo melhor o Corynebacterium bovis

POR MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 28/01/2005

4 MIN DE LEITURA

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O C. bovis é uma das espécies do gênero Corynebacterium, o qual é composto de bactérias aeróbicas e Gram-positivas. De uma maneira geral, a espécie C. bovis é isolada quase que exclusivamente a partir de fontes em bovinos, sendo que um dos principais sítios é a glândula mamária. O canal do teto parece ser um dos locais principais de ocorrência deste agente, ainda que a infecção possa se localizar na cisterna da glândula ou em outras partes do tecido mamário.

Quanto a patogenicidade, a espécie C. bovis é considerada um patógeno de significância limitada, pois é causa principal da forma subclínica da mastite. Em concordância ao conceito de baixa patogenicidade do agente, alguns pesquisadores consideram-no como comensal da glândula mamária. Independentemente da sua baixa patogenicidade, o C. bovis é altamente contagioso, podendo ser considerado ainda mais contagioso que os conhecidos microrganismos contagiosos causadores de mastite, Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae. Os resultados de estudos de infecções naturais e experimentais causadas apontam que a elevação da CCS de quartos infectados é de cerca de 50.000 cel./ml, o que reforça o caráter de baixa patogenicidade.

É fato que alguns rebanhos podem ocasionalmente ter casos de mastite clínica, nos quais se isola como agente causador o C. bovis. Muitos pesquisadores questionam se a presença deste agente nas amostras de leite nestes casos não se deve ao não crescimento de outro microrganismo e que o isolamento do C. bovis pode ser acidental, pois em muitas vacas clinicamente normais este microrganismo pode ser isolado de amostras de leite. Desta forma, é de se esperar que em certa proporção de casos clínicos de mastite seja isolado C. bovis sem que esteja implicado como causa de parte dos casos clínicos.

O gênero Corynebacterium é uma das causas mais freqüentes de mastite (20 a 30% de isolamentos em diversos países), o que pode ser explicado em parte devido à sua baixa patogenicidade, por ser altamente contagioso e por ser apresentar principalmente na forma subclínica da doença.

Mesmo com a sua importância quantitativa, devido ao baixo potencial patogênico o controle do C. bovis não é feito por medidas específicas. Em virtude de seu comportamento contagioso, à semelhança de S. aureus e S. agalactiae, o controle somente pode ser atingido por uma série de medidas. Entre as de maior eficácia, encontra-se o tratamento de vaca seca, cuja taxa de cura elevada configura-se numa boa estratégia de controle do C. bovis. Como medida complementar, a desinfecção dos tetos após a ordenha (ou pós-dipping) atua eliminando agentes causadores de mastite presentes na superfície e extremidade do teto, os quais podem ser transferidos de quartos mamários infectados no momento da ordenha. Pode-se assim afirmar que a desinfecção dos tetos após a ordenha reduz a transmissão de agentes contagiosos entre vacas durante a ordenha. Diversos estudos realizados em rebanhos que não aplicavam este tipo de desinfecção dos tetos demonstraram aumento da prevalência de C. bovis, em comparação com rebanhos com aplicação regular da desinfecção dos tetos após a ordenha. Em muitos casos, pode-se estimar que a prevalência alta de C. bovis é um indicador de deficiências de manejo de ordenha, em particular quanto ao pós-dipping.

Um dos pontos de maior controvérsia quanto ao C. bovis é sobre o seu papel na dinâmica das infecções intramamárias. A partir da década de 70, foi levantada a hipótese de que o C. bovis poderia apresentar uma função protetora na glândula mamária contra outros agentes causadores de mastite. No entanto, a literatura científica sobre o assunto produziu resultados controversos. Alguns estudos iniciais baseados em infecção experimental indicaram que os quartos infectados com C. bovis tinham menores riscos de infecção causada por S. aureus. No entanto, não foi demonstrado o mesmo efeito protetor contra outros agentes, tais como S. uberis e S. agalactiae. Estudos posteriores demonstraram que havia efeito protetor em quartos infectados por C. bovis para os agentes principais da mastite (S. uberis, S. agalactiae e S. aureus). Tais resultados, no entanto, foram contestados por estudos que demonstraram que quartos infectados por C. bovis estavam em maior risco de infecção causada por estreptococos ambientais, S. aureus e S. agalactiae, o que confirma a controvérsia em torno do papel protetor deste agente na saúde da glândula mamária.

A despeito dos resultados serem inconclusivos sobre o efeito protetor do C. bovis em relação aos agentes de maior patogenicidade, foram levantadas algumas possíveis explicações para os estudos com resultados positivos. Uma das hipóteses levantadas baseia-se na elevação da CCS dos quartos infectados por C. bovis, visto que é demonstrado que quartos com CCS abaixo de 20.000 cel/ml encontram-se em maior risco de ocorrência de casos de mastite clínica. Ainda que possa ser considerada como explicação, o aumento da CCS não seria a única hipótese para o efeito protetor. Outra possível explicação é que a infecção causada por C. bovis interfere na capacidade de outros agentes causadores de mastite de invadir e multiplicar na glândula mamária. Desta forma, uma bactéria pode produzir substâncias inibidoras do crescimento de outra, caracterizando um mecanismo de competição para a multiplicação bacteriana.

Finalmente, postula-se um efeito de aumento da imunidade da vaca infectada com C. bovis, o que aumentaria a capacidade de resposta do animal contra outros agentes.

Em resumo, ainda são inconclusivos os resultados dos estudos sobre o efeito protetor do C. bovis na mastite bovina, o que somente poderia ser confirmado com a elucidação dos mecanismos protetores.

Fonte: Proceedings of the British Mastitis Conference, p.23-34, 2003.

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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