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Como o sistema de pagamento afeta a qualidade do leite ? Parte 1

POR BRUNO BOTARO

E MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 16/04/2008

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As atuais barreiras comerciais aos produtos agropecuários brasileiros permitem-nos observar o poder restritivo das políticas internacionais na cadeia mundial de fornecimento de alimentos, no caso específico destes não atenderem os parâmetros de qualidade adotados pelos países importadores. Nos EUA, tais políticas também restringem a entrada do leite daquele país em alguns mercados, devido a diferença de exigência das leis americanas comparadas a de outros países, como Europa, Nova Zelândia e Austrália. Os limites máximos para células somáticas no leite daquele país são de 750.000 céls./mL, enquanto dos outros países possuem limites máximos de 400.000 céls/mL.

A mastite, considerada a enfermidade mais prevalente e mais onerosa entre os rebanhos leiteiros dos países desenvolvidos, e a alta contagem de células somáticas (CCS), conseqüência desta inflamação, leva a um decréscimo da qualidade do leite cru, o que determina menor processabilidade da matéria-prima. Má qualidade higiênica e, mais especificamente, a alta CCS têm implicações na cadeia produtiva do leite, processamento, tempo de vida de prateleira e qualidade sensorial do produto, e indiretamente sobre a preocupação do consumidor no que diz respeito à saúde pública. Essa perda monetária e de confiabilidade no produto é transferida ao produtor, que acaba por receber menores preços pelo leite entregue. Muitas vezes, ainda, penalizações são adotadas, tais como a exclusão temporária do produtor como fornecedor ou deduções de seu pagamento, fatores que prejudicam todo o mercado.

Desta forma, os programas de pagamento por qualidade incentivam financeiramente o produtor a fornecer leite de melhor qualidade. Mas, a despeito destes programas bonificarem o produtor com um incentivo monetário para a manutenção da qualidade, sobretudo a baixa contagem de células somáticas do tanque, o grau em que esses indutores monetários influenciam a qualidade não é conhecido. Sobre este aspecto, simulações preliminares realizadas em 1990 e 1992, com os dados sobre a qualidade do leite holandês e canadense sugeriram que rebanhos com baixa média anual de CCS são menos susceptíveis a variação de suas contagens, enquanto que propriedades com média de CCS anual alta eram mais variáveis. Esses estudos permitiram concluir que incentivos financeiros sob a forma de programas de premiação por qualidade, poderiam motivar uma ação em prol da redução do número de produtores com alta CCS.

Para demonstrar a maneira como os produtores são influenciados pelos prêmios oferecidos nos programas de pagamento por qualidade, pesquisadores avaliaram a qualidade do leite fornecido a uma grande cooperativa norte-americana, após a implantação de um programa de bonificações pela qualidade de leite, e durante seu processo de implementação. Para tanto, buscaram estimar o impacto das bonificações adotadas pelo programa da cooperativa sobre a subseqüente qualidade de leite dos seus cooperados individualmente, sobre a qualidade do leite total recebido pela cooperativa, e sobre a probabilidade de um produtor fornecer leite com CCS<100.000 céls/mL num determinado mês.

A cooperativa em questão era responsável pela captação de aproximadamente 1% do leite daquele país durante o período do estudo, que ocorreu entre abril de 1998 e dezembro de 2005. Para tanto, os pesquisadores registraram o volume de leite captado de cada propriedade (que somaram, ao final do estudo, 36.930 observações), o preço recebido pelo leite entregue (US$/100 kg), e a contagem de células somáticas.

Apesar de agressiva, a política de pagamento adotada pela cooperativa era bastante variável para o parâmetro CCS - que variava de US$ 0,15 a US$ 1,00 para cada 100 kg de leite captado com baixa CCS (<100.000 células/mL) - o que permitiu aos pesquisadores a avaliação do impacto do programa sobre a CCS do tanque de seus cooperados durante o estudo. Durante este período, as bonificações seguiram o seguinte cronograma de adoção: de abril de 1998 a fevereiro de 1999, bonificação de US$ 0,15/100 kg com CCS<100.000 céls/mL; US$ 0,50/100 kg de prêmio entre fevereiro de 1999 e julho de 2001; US$ 1,00/100 kg entre agosto de 2001 e julho de 2002; e US$ 0,60/100 kg a partir de agosto de 2002. Bonificação aos produtores com contagens entre 100.000 e 150.000 céls./mL; entre 150.000 e 200.000 céls/mL; e entre 200.000 e 300.000 céls./mL também eram oferecidas, com deduções proporcionalmente menores.

Os pesquisadores levaram em consideração, inclusive, as variações sazonais, de rebanho, a produção individual do produtor e a bonificação adotada na época. Foi demonstrado que o programa de premiações teve forte influência tanto na CCS média dos produtores, quanto na probabilidade de um produtor, num dado mês, fornecer um leite com CCS<100.000 céls./mL.

A partir dos resultados ilustrados na Figura 1, pode-se observar que as médias ponderais mensais (CCS ponderal) do leite recebido pela cooperativa e as médias individuais de tanque (CCS do produtor) dos cooperados seguem a mesma tendência. As médias ponderais mensais permitem visualização da tendência da CCS para o leite captado em sua totalidade pela cooperativa, enquanto que as médias individuais demonstram as tendências da CCS ao nível do produtor.

Figura 1: Variação temporal da CCS média dos produtores (□) e CCS ponderal (■), por mês. (Adaptado de Nightingale et al. 2008).


Fonte: Nightingale et al. Journal of Dairy Science, 2008.

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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FABRICIO XAVIER BAIER

OURO PRETO DO OESTE - RONDÔNIA - ESTUDANTE

EM 09/08/2010

Muito bom Artigo, vejo que a cadeia leiteira do Brasil como um todo precisa pagar por qualidade pra insentivar os produtores a produzir com qualidade e penalizar aqueles de má qualidade, sendo que tem que dar um suporte tecnico aos produtores, mostra pra ele o porque e principalmente que ele ta perdendo dinheiro,sendo que o produtor so responde quando doi o Bolso.
Temos que emplementar essa ideia de pagamento por qualidade em todas as Industrias Lacticas para podermos ter um leite de qualidade e poder exporta pra Europa onde seremos muito bem remunerados, temos que o futuro.
YURI ALVES TAVARES

ITAPETINGA - BAHIA - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 16/06/2008

Muito colocadas as explicações desse artigo. O importante é termos uma boa qualidade do leite para que as empresas possam pagar mais, sendo de grande interese final para o consumidor que ganhará na qualidade sensorial do produto.
SADI VALENTINI

SALTO DO LONTRA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/06/2008

Muito importante o artigo, mas no Brasil as empresa que compram leite deviam adotar essa maneira para pagamento aos produtores, como já existe algumas empresa que pagam o leite por qualidade.
JORGE ANDRÉS RODRÍGUEZ PERDOMO

SERTÃOZINHO - SÃO PAULO - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 21/04/2008

Muito bom o artigo, nos incentiva a melhorar a qualidade do leite, sempre e quando tenhamos incentivos. Seu Ariosvaldo, sinto muito sua situação, mas não sei se seja possível que você fale o nome da firma para que eles fiquem com mais vergonha, e nem sempre a firma, mas muitas vezes o consultor de campo.

Abracos e boa semana.
ARIOSVALDO GERALDO BARBOSA

CORDISBURGO - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 18/04/2008

Estou iniciando no ramo de laticínio e quero alerta a todos os iniciantes para tomar muito cuidado na hora de adquirir as máquinas. Eu tomei um grande prejuízo por ter confiado em uma empresa que vende máquinas para laticínio. Paguei adiantado e na hora de me entregarem as máquinas, entregaram outras inferiores e faltando 4 meses; e até hoje não consegui que colocassem as máquinas para funcionar.