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Uma visão otimista do setor lácteo para 2020

Na última Expomilk, a Leite Brasil promoveu um interessante debate a respeito do futuro do leite no Brasil. A grande sacada foi pedir aos debatedores que oferecessem uma visão pessimista ou otimista para o futuro do leite, dependendo do sorteio realizado na hora para cada debatedor. Assim, os participantes deveriam ter "na manga" uma versão otimista e, ao mesmo tempo, uma versão pessimista do futuro (estabeleceu-se 2010 como ponto final), apresentando ao público a versão sorteada, independentemente do desejo ou das expectativas de cada um.

Esse enfoque permite, se bem trabalhado, visualizar as oportunidades e as ameaças futuras, estimulando ações que levem aos cenários desejados e, de forma oposta, evitando um desenrolar que nos leve a cenários indesejados e que, pela distância no tempo e pelas atribuições do dia-a-dia, não se mostram tão claros no presente.

Tendo isso em mente, resolvi apresentar as minhas versões otimista e pessimista do que seria a cadeia do leite no futuro, não mais em 2010, que considero muito próximo, mas sim 2020, até para coincidir com o documento da CIA denominado "Mapping the global future", sobre o futuro do mundo em 2020, que foi traduzido e publicado recentemente, sendo um sucesso de vendas nesse momento.

Apresentarei hoje a minha visão otimista do futuro, deixando a pessimista para a próxima oportunidade. Vale ressaltar que não é objetivo da análise prever o futuro, mas sim trazer elementos que possam servir de reflexão para o setor, permitindo que tenhamos um posicionamento mais ativo e menos passivo em relação ao futuro. Também, dada a abrangência de temas que poderiam ser tratados em uma análise como essa, me ative a alguns dos principais aspectos, deixando vários outros propositadamente de fora. Por fim, vale ressaltar que não a visão retratada abaixo não necessariamente o que acho que ocorrerá, mas sim o que poderia ocorrer supondo um cenário otimista para o desenvolvimento da cadeia do leite nos próximos 15 anos.

A visão será materializada como sendo o balanço do XIV Simpósio Interleite, a ser realizado em 2020, cuja temática terá como foco o desempenho do setor na década de 2010-2020. Confome colocou Robert Hutchings, da CIA, no citado relatório: "A análise linear resultará em um casulo muito diferente com o passar do tempo, mas nunca gerará uma borboleta. Para isso, é preciso um pouco de imaginação". Vamos a ela, portanto.

"XIV Interleite traz balanço do setor e apresenta visão otimista para a próxima década".

"A década de 2010 a 2020 foi um período de grandes avanços para o setor lácteo brasileiro, ainda que existam desafios importantes a remover. A produção cresceu a 48,5 bilhões de litros, com cerca de 38,5 bilhões consumidos internamente, com média de 175 kg/habitante/ano. O Brasil continua o quinto maior produtor do mundo, atrás da União Européia, Índia, China e Estados Unidos. Os demais 10 bilhões de litros foram exportados principalmente para países da América Latina, América do Norte, África e Ásia, sendo notáveis as perspectivas futuras verificadas pela África para os próximos anos, fruto do crescimento econômico e melhoria das condições de vida nos países da região subsaariana. Apesar de ter apenas 10% do mercado externo de lácteos, número inferior ao que se previa no início do século, as perspectivas para a exportação são muito favoráveis, especialmente depois que Europa e Estados Unidos finalmente removeram os subsídios internos e abriram seus mercados, no ano passado. O país está bem posicionado nessa questão e estima-se que a maior parte do aumento previsto de produção (fala-se em produção de 75 bilhões de litros até 2030) será destinada à exportação. Mesmo tendo o mercado interno crescido mais do que o previsto, de 2005 a 2020, quase a metade do crescimento absoluto da produção foi destinado às exportações, tendo sido a outra metade (ou pouco mais do que isso) consumida no Brasil.

Entre as razões para o aumento do consumo per capita estão o incremento de renda, o desenvolvimento de novos produtos focados em segmentos específicos de mercado e, sem dúvida alguma, a campanha nacional de marketing de lácteos iniciada em meados de 2007 e que tem sido responsável não só pela propaganda, mas pela realização de pesquisas e divulgação dos benefícios dos lácteos para a saúde. Esse trabalho tem sido muito facilitado pela engenharia genética, que desenvolveu características ainda mais favoráveis para os lácteos.

Não se pode negar também a melhoria da qualidade do leite verificada principalmente após 2010. Os resultados alcançados são surpreendentes se considerarmos as dificuldades na implantação das normas de qualidade do leite no início do século, bem como a elevada taxa de informalidade e as fraudes que eram comuns há apenas 2 décadas. A maior conscietização do consumidor, que passou a exigir cada vez mais qualidade e certificação, e a ameaça de novos produtos foram os fatores que forçaram o movimento decisivo da criação de uma agência reguladora pelo setor, para, em parceria com o governo, garantir efetivamente a qualidade do leite.

O resto, como se sabe, é história. A venda de leite não pasteurizado inexiste, exceto pelas vias legais, no intuito de abastecer consumidores bem informados e cientes dos riscos, que constituem um nicho de mercado. As fraudes foram intensamente combatidas através da implantação de uma metodologia que permite, com precisão e baixo custo, detectar em tempo real a presença de substância lácteas e não lácteas no leite.

Entre as conquistas, deve-se destacar ainda o fortalecimento das cooperativas, que hoje captam cerca de 60% da produção de leite (embora em função de contratos de longo prazo com indústrias, não processem todo o leite em suas instalações). Esse crescimento, ainda que tenha vindo após a quebradeira de muitos, foi fundamental para que indústrias e produtores finalmente conseguissem reduzir os atritos e criar um cenário de mais longo prazo, positivo e necessário para ambos.

O setor lácteo atingiu, enfim, a maturidade esperada, sendo uma prova disso o sucesso das aquisições da cooperativa "x" em Angola, na Argentina, no Chile, na Costa Rica e nos Estados Unidos, sendo o próximo desafio a implantação de uma unidade em solo indiano, com o intuito de participar de forma mais competitiva do mercado asiático. Esses fatos têm um significado especial ao se considerar que muitos não acreditavam que a fusão das principais cooperativas do país fosse se tornar realidade algum dia, o que efetivamente ocorreu em 2009.

Os desafios ainda são muitos. A redução no número de produtores continua, embora as condições econômicas do país, oferecendo mais oportunidades de trabalho, tornem esse processo muito menos traumático do que no passado. A competição no mercado continua firme, tanto no âmbito interno, quanto externo. As duas multinacionais chinesas presentes do país e que juntas processam quase 20% do leite brasileiro representam um desafio considerável às empresas nacionais e à manutenção das margens de lucro da cadeia, dado o poder de negociação desta empresas.

É possível, no entanto, ser otimista acerca do futuro. Afinal, o setor já vivenciou situações mais difíceis no passado, quando as perspectivas de crescimento e melhoria eram menos óbvias, e as superou. Mais do que nunca, é válida a máxima de Peter Drucker: ´a melhor forma de prever o futuro é criá-lo´.


Em uma próxima oportunidade, desenvolverei a difícil missão de apresentar a visão pessimista do futuro. Até lá, gostaria que o leitor refletisse sobre o conteúdo acima. É interessante torná-lo realidade? Em caso positivo, é possível torná-lo realidade? Novamente se positivo, o que precisa ser feito, e como fazê-lo? Envie seu comentário utilizando o espaço abaixo.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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ANILDO PETERSON

SANTA CRUZ DO SUL - RIO GRANDE DO SUL - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 16/12/2007

Estamos otimistas com o setor lácteo. E muito feliz com o seu comentário, precisamos projetar criar alternativas favoráveis de mercado para favorecer os produtores.

Agradeço a oportunidade de participar, e vamos continuar trabalhando para que o setor possa melhorar sua lucratividade, gerando mais empregos, e um bom produto para nutrição humana.
JOSÉ EDUARDO PEREIRA MAMEDE

AGUAÍ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/11/2006

Prezado Marcelo,

Sem dúvida, é oportuno este seu artigo no momento em que acaba de ser lançado o livro "Estratégias para o Leite no Brasil", uma parceria entre o Pensa (FEA-USP), Editora Atlas e Markestrat, com apoio do Milkpoint.

Então, vamos às respostas para as suas perguntas. É interessante torná-lo realidade? Sem dúvida que sim. Em caso positivo, é possível torná-lo realidade? De novo, sim.

Novamente se positivo, o que precisa ser feito, e como fazê-lo? O pessoal que preparou o livro mencionado acima usou metodologias de planejamento estratégico para "pensar" em estratégias de médio e longo prazos para a cadeia produtiva do leite.

Como resultado, entendo que foram estabelecidos os grandes "objetivos estratégicos" para toda a cadeia produtiva. Com base nestas mesmas metodologias de planejamento estratégico, os próximos passos seriam:

Reunir todas as partes interessadas na cadeia do leite;
Detalhar as ações estratégicas para cada um dos objetivos;
Definir os responsáveis pela implementação destas ações (Governos, associações de produtores e das indústrias, sindicatos etc.);
Levantar os recursos necessários;
Alocar estes recursos;
Estabelecer metas estratégicas para cada objetivo estratégico;
Estabelecer indicadores para monitoramento do alcance das metas;
Monitorar continuamente e replanejar quando necessário;
E muito esforço e trabalho de todos nos próximos 14 anos, se desejarmos alcançar a "visão estratégica colocada para 2020".

Eu prometo fazer a minha parte como produtor de leite, e ficarei à disposição para ajudar nas ações que forem necessárias.
HUMBERTO MARCOS SOUZA DIAS

ALFENAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 12/11/2006

Parabéns Marcelo!

Boa reflexão e acredito que possível.
JOÃO PAULO DE OLIVEIRA SANTOS

APARECIDA DE GOIÂNIA - GOIÁS - ESTUDANTE

EM 04/11/2006

Marcelo, Parabéns!

Realmente essa é uma visão muito otimista. Espero que pelo menos parte dos nossos governantes tenha lido este editorial e refletido conosco.

Muito se fala em geração de emprego e distribuição de renda. Sabemos que a cadeia láctea tem um papel muito importante nesse contexto. Mas o produtor de leite tem vivido muitas dificuldades ao longo dos anos, poucos conseguindo absorver tecnologias e tornar a atividade eficiente do ponto de vista econômico com competitividade. Talvez por falta de assistência técnica altamente qualificada e recursos financeiros.

Vejo que o poder público, juntamente com a iniciativa privada, deve ter o setor produtivo como um dos principais focos nesses próximos anos. Ambos implementado ações que viabilize acesso a créditos e assistência técnica público ou privada, dessa forma buscando melhorias principalmente na qualidade do leite, que hoje é um gargalo para a indústria, e tornar a atividade competitiva economicamente, não perdendo espaço para a cana-de-açúcar, por exemplo.

Ações para fortalecer o setor produtivo devem ser encaradas como uma estratégia. Para a indústria ter o produtor como parceiro e o poder público como alternativa para garantir geração de emprego e renda, evitando a exclusão de produtores desse crescimento. Caso contrário, sob pena de termos as principais bacias leiteiras do país (MG e GO) engolidas pelos canaviais.
MARCELO DE FIGUEIREDO E SILVA

FRANCA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 02/11/2006

Realmente muito interessante a proposta de olharmos o futuro e imaginarmos que chegaremos nestes patamares de consumo, produção, exportação e qualidade partindo da realidade atual. Muitas das "previsões"certamente acontecerão.

O que nos resta é traçar nossa rota e trabalhar em conjunto com toda a cadeia láctea, superando os desafios que o autor ainda não nos oferece, mas que certamente existirão.
MÁRCIO TEIXEIRA

URUANA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/11/2006

Marcelo,

Lendo revistas e artigos antigos, específicos do setor leiteiro brasileiro, podemos perceber que houve grandes avanços no setor, principalmente das novas tecnologias de produção. Mesmo assim, podemos perceber que hoje existem problemas exatamente iguais aos de 15 anos atrás, e os mesmos não têm perspectiva de melhora, como por exemplo, a obtenção de renda.

Ainda hoje, depois de todas as mudanças realizadas (tanques resfriadores, ordenha mecânica, genética, etc) e melhoria na qualidade do leite, com custos por conta somente do produtor, nos deparamos com o extermínio daqueles produtores que tanto investiram e trabalharam para a pecuária leiteira no Brasil, muitas vezes levando uma vida inteira de dedicação.

Acho que em 2020, as paisagens não serão de pastos verdes e de famílias trabalhando com leite. Será de gigantescas plantações de cana, e o Brasil continuará a importar leite e alimentos como faz hoje. Que pena, não é?

Vai ser mais fácil você escrever o lado pessimista. Espero que eu esteja errado em minhas previsões (pessimistas).

<b>Resposta do autor:</b>

Caro Márcio,

Obrigado pelo comentário. Em uma primeira análise, escrever o lado pessimista pode ser visto como apenas uma continuação da situação atual. Afinal, os problemas são muitos e, para vários deles, parece não haver vontade ou capacidade de solução.

Porém, talvez esta seja uma visão pessimista em si. Há aspectos positivos, há evolução em diversas frentes, talvez estejamos querendo andar rápido demais com um processo que por definição é lento (confesso que tendo a não concordar com essa contemporização).

Espero, pelo menos, que a retratação do cenário pessimista, ao ser mais parecido com o atual do que o otimista, sirva de reflexão para quem tem condições de tomar a decisão.

Um abraço,

Marcelo
NELSON JESUS SABOIA RIBAS

GUARACI - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/10/2006

Marcelo,

Muito bom o seu processo para se ter visão estratégica de longo prazo para o mercado de lácteos e o futuro dos produtores de leite. A complicação para nós, produtores, está no curtíssimo prazo, pois está muito difícil sobreviver nesta atividade.

Na minha visão, só chegarão a 2010 (para então começar a participar do seu cenário otimista) os grandes produtores, que sejam bastante eficientes na redução e controle de seus custos e, da mesma forma, os produtores familiares.

Não vejo futuro para os produtores médios que dependam de mão-de-obra de terceiros e muita tecnologia que não podem ser bancadas sem a grande escala de produção. Esses médios produtores (1000 a 2500 litros por dia) saindo do mercado, viabilizará às outras duas categorias categorias citadas. Esta é uma visão otimista.
WAGNER BRANCO

SÃO PAULO - SÃO PAULO - TRADER

EM 30/10/2006

Prezado Marcelo,

Muito interessante, realmente. Ótimo trabalho. Confesso que o exercício de futurologia, no que se refere à exportação de laticínios, tem sido uma constante em meu cotidiano profissional.

Trabalho em uma empresa "trading", e é de grande interesse saber quais serão os rumos do setor, no médio-longo prazo, especialmente no que tange à exportação de lácteos.

Analisando desta forma, acredito que o grande desafio para escoar o excedente de leite em pó (que certamente existirá) será a taxa de câmbio. Apesar do custo baixo, é muito difícil exportar se o preço do produto brasileiro ficar abaixo do custo, devido ao real forte em relação ao dólar.
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/10/2006

Marcelo,

Difícil será aguentarmos até 2020, pois estamos em estado de insolvência imediata, sem quaisquer perspectivas de melhora, pelo menos nos demais três ou quatro anos. Quem sobreviverá até lá?

Muito complicado é tentar almejar sobreviventes no caos que se nos anuncia cotidianamente, tão logo abrimos as janelas de nossas casas, logo ao amanhecer, em nossas fazendas.

Precisamos parar de prever e passar a planejar e impor, ao operário presidente, respeito ao setor lácteo brasileiro. Não se pode vingar a perda dos ovos matando a galinha. E é isso que estamos presenciando. Futuro: que futuro haverá se inexiste o presente?
ANTONIO BOVOLENTO JR.

ITU - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 27/10/2006

Marcelo,

Sem dúvida muito interessante, original, útil, e por que não dizer divertida a proposta de prever cenários para o leite no Brasil no futuro? Certamente todos os leitores do site que leram a matéria aceitaram o desafio de criar seus próprios cenários, e provavelmente não haverá dois cenários iguais.

Acredito que dispomos de ferramentas suficientes para analisar as mega-tendências do setor para que, ao estilo do trabalho que fazia Alvin Tofler, projetar o futuro do nosso negócio no Brasil e no mundo.

Mais que simples exercício de futurologia, se tivermos a capacidade de perceber os sinais que o ambiente de negócios nos envia e, principalmente, se soubermos onde queremos estar em dez ou quinze anos, poderemos fazer cumprir nossas próprias profecias.