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Superávit na balança de lácteos: e se o consumo interno crescer...

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 29/06/2004

4 MIN DE LEITURA

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A notícia de possibilidade de equilíbrio entre importações e exportações de lácteos já nesse ano é tida pelos analistas do setor como um dos principais fatos até agora em 2004, até antecipando previsões recentes, de que o país seria superavitário daqui a 3 ou 4 anos. De fato, se considerarmos o nosso desempenho em 2004, comparado aos anos anteriores, veremos que a tendência de redução nas importações e aumento nas exportações é significativa, como podemos observar pelos gráficos 1 e 2. Analisando o gráfico 1, enquanto em 1997 apresentávamos, nos primeiros 5 meses do ano, déficit de quase US$ 200 milhões, nesse ano o déficit está em apenas US$ 6,5 milhões, apenas 3,5% do primeiro valor. O gráfico 2 dá uma visão mais clara ainda de como o país caminha para se tornar superavitário.

Sem dúvida, a possibilidade de exportar mais do que importar é muito interessante e deve ser explorada pelo setor. Além de contribuir para o saldo positivo da balança comercial, diminui a dependência do mercado interno e gera receita em dólares. O Brasil é virtualmente desconhecido no setor de lácteos e é importante que vá colocando a cara para fora, conhecendo como funciona esse mercado que, por sinal, já é bastante amadurecido. E já estamos começando a incomodar. Em recente evento que participei no Canadá, sobre investimentos internacionais no setor de lácteos, mais de um grande "player" comentou que o Brasil está começando a incomodar, ainda que de leve. Embora ainda representemos muito pouco do mercado internacional, começamos a ser notados, o que tem seus aspectos positivos, mas também negativos.

Longe de querer jogar água fria nas exportações, é importante lembrarmos que estas se iniciaram e se intensificaram muito mais em função da apatia do mercado interno do que de uma estratégia eminentemente exportadora das empresas do setor. A criação da Serlac, por exemplo, teve origem na crise de 2001, cuja queda de preços forçou a busca de outros mercados. Em 2003 e início de 2004, reclamações por parte da indústria sobre o nível de consumo se tornaram freqüentes. Apenas agora parece haver sinais de recuperação.

Uma outra forma de analisar esse viés exportador se dá pelo aumento da produção de leite nos últimos anos: não tivemos nenhum aumento em proporções chinesas ou mesmo semelhantes a outras atividades do agronegócio, principalmente a soja. Certa vez, nosso então colunista da seção Conjuntura, o Prof. Luis Fernando Laranja, escreveu um artigo comentando as exportações do agronegócio. O artigo entitulava-se, mais ou menos: "é o agronegócio que vai bem, ou o país que vai mal?" O objetivo era lembrar que, embora o agronegócio fosse bem, seus resultados, àquela época (3 anos atrás), se realçavam frente à estagnação econômica do país. Com o leite, pode-se dizer que algo semelhante ocorre. As exportações crescem e as importações diminuem mais em função da falta de apetite interno do que da busca das exportações como estratégia de longo prazo.

Mesmo considerando que a exportação "aconteceu" em vez de ser rigorosamente planejada, esse fato é relevante, à medida que empresas passam a considerar cada vez mais o mercado externo como opção comercial de longo prazo, como já demonstrou a Itambé, por exemplo, e à medida que empresas multinacionais dão mostras de considerar o país estratégico para o suprimento de matéria-prima competitiva (vantagem que, aliás, nunca conseguiu me animar muito). Empresas de segmentos de difícil atuação, como o de queijos, também estão buscando espaço no mercado internacional. Tudo isso é importante e deve ser incentivado.

No entanto, o fato das exportações ainda representarem muito pouco da produção de leite brasileira e estarem mais sujeitas à incapacidade do mercado interno torna lógico lembrar que, caso tenhamos um súbito crescimento de consumo por um eventual ganho de renda (ou um sustentado, por renda e marketing) - o que é sempre desejável - pode vir a faltar leite e a tão sonhada condição de superávit do setor terá de ficar para depois.

Isso será ruim? Não necessariamente, afinal o importante é que o mercado de lácteos cresça - interna ou externamente. Vale lembrar que o consumo de lácteos no Brasil é ainda baixo e de pequeno valor agregado. Ganhos em volume e valor serão sempre muito bem vindos.

Mesmo que isso venha a ocorrer, o desenvolvimento de mercados no exterior não deve ser abandonado. O país pode e precisa estabelecer canais permanentes no mercado externo e, para isso, não pode submetê-lo aos altos e baixos do mercado interno. Também, isso não altera o fato do país realmente rumar para uma condição de superávit na produção de leite, seja agora ou daqui há alguns anos. Levando em conta o desempenho de outros setores do agronegócio e as possibilidades do leite, não haveria prova maior de incompetência da cadeia do leite do que a manutenção eterna da condição de déficit na balança comercial de lácteos.

A produção de leite brasileira tem totais condições de crescer a taxas suficientes para abastecer um mercado interno sadio e novos canais que porventura venham a se abrir. Para que isso aconteça, além do já comentado crescimento do mercado interno, que em parte independe do setor, exceto na questão do marketing (que aliás precisa ser perseguido), é necessário que produtores e indústria busquem maior integração e trabalhem com visão de longo prazo no desenvolvimento de soluções duradouras para a atuação no mercado externo.



MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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PAULO FERNANDO ANDRADE CORREA DA SILVA

VALENÇA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/07/2004

Marcelo,

Com a ausência dos excedentes de leite no mercado interno em função das exportações, a tendência dos preços pagos aos produtores é aumentar, o que já vem ocorrendo. Com preços menos aviltados a reação dos produtores será imediata, com o correspondente aumento da produção. Este contexto me parece trazer o equilíbrio para a cadeia produtiva do leite que esperavamos a décadas.

Paulo Fernando Andrade Corrêa da Silva
Coordenador APLISI

<b>Resposta do autor:</b>

Caro Paulo, obrigado pelos comentários. Realmente o setor já demonstrou que tem capacidade de resposta. A questão passa também por outro lado. Sempre que os preços aumentam, a grande mídia noticia, há pressões para redução dos preços, o governo ameaça reduzir taxas de importação, etc. Se isso não ocorrer mais, realmente há espaço para o setor elevar a produção e equilibrar novamente oferta e demanda.

Abraco,

Marcelo
JOSÉ EUSTÁQUIO BERNARDINO DE SENA - NENÊ SENA

CANDEIAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/07/2004

Marcelo!
Informações muito interessantes...

Um abraço.

Nenê