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Porque o leite da Nova Zelândia é um sucesso mundial

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 18/10/2004

4 MIN DE LEITURA

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É muito provável que a grande maioria aponte que o sucesso do leite na Nova Zelândia está na produção de leite a pasto, aproveitando as ótimas condições naturais do país, permitindo obter leite de baixo custo, altamente competitivo e, com isso, deter 30% do mercado internacional de lácteos, porcentagem que vem crescendo nos últimos anos.

Não há dúvida que as condições naturais exercem um papel importante na definição do sistema de produção de leite da Nova Zelândia e em sua competitividade mundial, mas há outros aspectos fundamentais por trás do sucesso. Primeiro, as condições naturais precisam ser bem aproveitadas, e isso eles fazem muitíssimo bem, seja através do manejo de pastagens, seja através da genética adequada para produção de sólidos com o menor custo possível por área. Segundo, é preciso reconhecer as limitações e evitar que elas reduzam a competitividade da produção. É o que eles fazem, por exemplo, ao otimizar ao extremo a utilização da cara mão-de-obra e da terra, cujo hectare custa mais de 15.000 dólares, ou ao praticamente não utilizar suplementação, cujo custo é quase sempre proibitivo. Coincidentemente, são três itens de custo nos quais temos enormes vantagens comparativas com os neozelandeses. É de se perguntar se nós aproveitamos corretamente essas e outras vantagens que temos, como as condições tropicais, que permitem produzir muita matéria seca por área.

Embora deva-se reconhecer que a produção de leite a baixo custo seja uma condição necessária para o sucesso da Nova Zelândia no mercado internacional, ela não é suficiente. Se assim fosse, a Argentina e o Uruguai, cujos custos de produção são historicamente semelhantes a Nova Zelândia, teriam um papel bem mais relevante no mercado mundial de lácteos do que têm hoje, para não dizer do Brasil.

É preciso bem mais do que baixo custo de produção, e os ingredientes desse "bem mais" estão presentes na Nova Zelândia de forma mais evidente do que em qualquer outro país, sendo eles os grandes responsáveis para fazer com que uma vantagem comparativa - o baixo custo de produção - se transforme em vantagem competitiva.

O ponto-chave para o sucesso do leite como cadeia produtiva na Nova Zelândia está na coordenação desta cadeia. Com a filosofia "from cow to consumer" ("da vaca ao consumidor"), o país criou as condições necessárias para que os custos de transação ao longo dos elos fossem diminuídos, as respostas às necessidades do mercado ocorressem mais rapidamente (na verdade, em várias ocasiões eles têm se antecipado às necessidades do mercado), os produtos comercializados tivessem elevada qualidade e regularidade. "From cow to consumer", esteja o consumidor em qualquer parte do mundo, ou esteja a vaca em qualquer parte do mundo, se considerarmos a recente expansão internacional da Fonterra, a mega-cooperativa que controla a produção, a industrialização e o comércio de lácteos.

O aperfeiçoamento dessa estratégia permitiu que a Nova Zelândia conquistasse o mercado mundial de commodities. Hoje, trabalhando com a tendência de longo prazo de queda nos preços das commodities, com a competição com outros países e com o aumento da produção de produtos frescos nos países com consumo crescente, a Nova Zelândia busca se especializar, de forma a depender cada vez menos das commodities e mais de produtos derivados do leite, com alto valor agregado e que utilizarão como matéria-prima justamente estas commodities. Com a excelência operacional estabelecida e com o país sendo reconhecido como líder no segmento, essa meta vai se tornando factível.

Há quem argumente ser bem mais fácil fazer isso em um país uniforme, com poucos produtores ou, ainda, quando se coordena a cadeia através da eliminação dos elos: na Nova Zelândia, o produtor é a indústria e o foco quase único é o mercado internacional. Praticamente uma única cooperativa controla o mercado. Fica bem mais fácil, com certeza, mas não há nada escrito dizendo que temos de copiar o modelo neozelandês para obter sucesso no mercado mundial (e mesmo no mercado interno) neste século XXI, ou que se não copiarmos, estaremos fadados ao fracasso. Pelo contrário, como as semelhanças com a Nova Zelândia são muito poucas, sejam naturais, sócio-econômicas ou históricas, temos de encontrar nosso próprio caminho, a partir de onde estamos hoje.

Além das condições naturais, do foco em baixo custo e na coordenação da cadeia, há outras razões que explicam o sucesso da Nova Zelândia. Na semana passada, pude constatar mais uma vez algumas dessas razões. Tive a oportunidade de participar como palestrante da Cream Club Conference, que reúne produtores de destaque de vários países, que apresentam suas fazendas e visões, assistem palestras de especialistas locais e internacionais, discutem tendências de mercado e, principalmente, aprendem muito uns com os outros. Nesse ano, o evento foi no Brasil, com o apoio da DPA e da DeLaval. Como em outros eventos internacionais que participei, os integrantes da Nova Zelândia demonstraram comportamento que ajuda a explicar o sucesso internacional que têm: interesse em conhecer a realidade dos outros, mente aberta para aprendizado contínuo, senso prático, ambição (no bom sentido), visão global, ausência de preconceitos e conhecimento do mercado, entre outras características. Um fato que sintetiza boa parte dessa visão foi a contratação, no ano passado, de um canadense para presidir a Fonterra. Alguém imagina uma cooperativa ou empresa brasileira do setor de lácteos fazendo o mesmo?

Tudo isso junto, na dose certa, gera enorme competitividade e capacidade de resposta às mudanças que ocorrem com freqüência cada vez maior. Nestas condições, não há porque temer a competição internacional ou a abertura de fronteiras. Nesse ponto, fica claro que as condições naturais da Nova Zelândia são apenas um fator - talvez nem o mais importante, tanto é que os neozelandeses estão se espalhando pelo mundo, Brasil incluído, via DPA - na equação que termina com o resultado que todos nós conhecemos: liderança mundial.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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VOLNEI DE MOURA FÃO

PASSO FUNDO - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 29/10/2004

Parabéns Marcelo, excelente sua análise. Ao mesmo tempo que esclarece nos desafia e nos coloca a pensar em muitas coisas que ocorrem por aqui.

Gostaria de comentar 3 pontos que considero importantes:

1) Nós precisamos aproveitar melhor as condições disponíveis, assim como eles fazem;

2) Quando você diz que devemos encontrar nosso próprio caminho. Isto é ponto chave. Não precisamos copiar, o que devemos fazer é conhecer e aprender o que os outros fazem e porque fazem, e então desenvolver nossos próprios modelos. Quanta coisa já foi simplesmente copiada e quanto produtor já quebrou por isto? Já provamos que somos capazes, mas ainda é preciso fazer muito;

3) O comportamento dos Neozeolandeses, este sim deve ser copiado. Para dominar alguma coisa é preciso conhecê-la, saber o que tem a oferecer e também suas limitações. Assim, seremos eficientes.

Grande Abraço.

Volnei de Moura Fão
FUNDACEP-Cruz Alta/RS
FERNANDO ENRIQUE MADALENA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 23/10/2004

Caro Marcelo,

Ademais dos fatores que você aponta, há o extraordinário grau de civilização daquela sociedade, detentora, apesar de não ser país rico, do nono lugar entre todos os países no índice de desenvolvimento humano da ONU e do segundo melhor lugar em corrupção, com nota 9,6. É o único lugar do mundo que conheço em que não me sinto na defensiva, a ver por onde vão me querer passar para trás. Talvez por isso mesmo seja que os produtores são os donos da cadeia, o que elimina as fricções entre os elos.