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Os números do IBGE e a captação de leite nos últimos anos

Foram divulgados recentemente os dados relativos à produção captada e industrializada pelos laticínios até o terceiro trimestre desse ano. No dia 26/12, fizemos uma matéria sobre esses números (clique aqui para ler).

Em comparação a 2001 (tabela 1 e gráfico 1), houve expressiva queda de 3,21% na captação de leite. Nos dois primeiros trimestres, 2002 apresentou valores superiores a 2001, em 1,84% e 3,10%, respectivamente. Com a redução nos últimos meses, 2002 apresenta recepção praticamente igual a 2001, com probabilidade da diferença até agora de 0,5% ser anulada no último trimestre do ano.

Apesar disso, o terceiro trimestre mostrou modesto aumento de 1,81% em relação ao segundo semestre do ano. Para mostrar que esse aumento não é muito notável, a título de comparação, para os mesmos períodos do ano passado, a produção captada no terceiro trimestre foi 8,45% superior à produção do segundo trimestre.

Caso a redução na recepção em comparação a 2001 se repita no último trimestre, pela primeira vez, desde 1997, a recepção de leite inspecionado cairá no Brasil, considerando a base anual.

Tabela 1. Leite adquirido pelas indústrias no último trimestre, em 2001 e 2002 (em mil litros)




Fonte: Dados do IBGE, elaboração CNA/DECON, MilkPoint

A análise da história recente dos dados relativos à recepção oficial de leite no Brasil permite interpretações interessantes.

O gráfico 2 traz as curvas de produção de leite desde 1997. Os anos de 97, 98 e 99 tiveram comportamento bastante parecido, exceto pelo fato de uma tendência de aumento na produção em janeiro (especialmente em 98 e 99).

O ano 2000 foi um divisor de águas na produção oficial de leite. Começou com uma produção 5,3% maior (janeiro de 2000 x janeiro de 1999), seguindo-se uma queda significativa até junho (vale a pena notar que nos anos anteriores a diferença entre safra e entressafra não foi tão grande quando em 2000).

A partir daí, 2000 literalmente descolou da tendência histórica. O crescimento da produção foi muito elevado, de forma que, em dezembro, a produção estava nada menos do que 18% mais alta do que no mesmo mês do ano anterior (ou seja, o ano começou com 5% de diferença, terminou com 18%). Para se ter uma idéia do crescimento da produção nesse período, vale dizer que a produção de setembro de 2000 (um mês de entressafra) foi quase igual à produção de janeiro de 1999 (em plena safra).

A partir da subida da produção em 2000, a captação se estabeleceu em um novo patamar. Enquanto que em 97 apenas por um mês do ano captou-se mais de 1 bilhão de litros, em 2001 e 2002 (até agora) em todos os meses se captou mais do que esse valor.

Não é possível nesse espaço fazer uma análise mais aprofundada das razões do grande aumento da produção, pois depende da relação entre preços pagos pelo leite e custo dos insumos, além do ambiente econômico do país e a motivação do setor, que exigiriam uma análise mais ampla. Mas algumas coisas podem ser ditas. O setor verificou grande queda na produção de leite ao longo do primeiro semestre de 2002, o que estimulou preços mais elevados em meados do semestre. Em junho de 2000, segundo dados da Scot Consultoria, o preço do leite B em São Paulo estava 20,5% mais alto do que no mesmo mês de 1999. Em dólar, a diferença era 18%. As condições pareciam interessantes para a produção de leite.

Mas não por muito tempo. A grande elevação na produção, a partir de agosto de 2000, fez com que entrássemos em 2001 em pleno vapor. Ao contrário dos anos anteriores (principalmente 2000), não houve queda significativa na produção a partir de janeiro. Embora o preço tenha caído no segundo semestre de 2000, a queda foi branda (o preço de junho de 2000 estava 11% mais alto do que de fevereiro de 2001). Os custos de produção estavam controlados e o setor vivia um bom momento, em função da aprovação das medidas anti-dumping e encarecimento das importações (também pela alta do dólar). A produção de leite em 2001 começou acelerada.

Nunca a diferença entre entressafra e safra seguinte atingiu valores tão elevados como no ano 2000/2001 (tabela 2). De outubro de 2000 a março de 2001, produziu-se 1,148 bilhão de litros a mais do que entre abril e setembro de 2000, isso somente no setor formal.


Fonte: IBGE, elaboração MilkPoint

Tabela 2. Produção na entressafra (abril a setembro) e na safra (outubro a março do outro ano). Em mil litros



Para complicar mais a situação, 2001 foi o ano do apagão e o consumo patinou. Resumo da ópera: uma "onda" de leite, iniciada em agosto de 2000 e que não perdeu força no primeiro semestre de 2001, coincidiu com um consumo estagnado em meados de 2001. O resultado, maximizado pelas forças díspares no setor, foi a brusca queda nos preços no mesmo período, sendo interessante notar que a produção ainda teve fôlego para subir mais, até dezembro de 2001 (as importações caíram no mesmo período).

O ano de 2002 seguiu mais ou menos o padrão de 2001, com as diferenças já comentadas, porém teve como característica distinta o fato do consumo ter aumentado, segundo os dados da AC Nielsen. Ou seja, produção semelhante, consumo mais alto = preços mais elevados.

Um outro dado interessante que estes números mostram é a tendência realmente de uniformização da produção entre safra e entressafra. Excetuando-se o atípico ano 2000, os demais anos mostram uma tendência de equiparação da produção de abril a setembro de um ano com a produção somada de janeiro a março e outubro a dezembro. Embora tido como prova da evolução, há quem diga que isso é um mau sinal para os produtores, pois reflete o aumento de custos para produzir leite na entressafra, mas isso é pano para outra manga...

Nos vemos novamente em 2003, de governo novo e esperanças sempre renovadas !


Fonte: IBGE, elaboração MilkPoint

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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