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O menor preço do mundo: e daí ?

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 18/10/2002

3 MIN DE LEITURA

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A lista de discussão Dairy Outlook, da FAO, através do Milk Report, publicou um levantamento de preços pagos ao produtor, em outubro deste ano em 32 países. Não se trata de preços médios, mas sim de preços indicados pelos próprios membros da lista, ou seja, não é um levantamento realizado com metodologia científica, mas oferece uma boa visualização do que ocorre em relação ao preço do leite nos diversos países do mundo.

A tabela abaixo traz os países cujos membros enviaram os preços atualizados. Não houve preocupação em avaliar eventuais diferenças na qualidade microbiológica ou nutricional, mas sim comparar os preços do kg de leite nos diversos países.

Tabela. Preços do leite pago ao produtor em diversos países, em US$/kg



Nota-se que a maior parte dos países está na faixa de 26 a 35 centavos de dólar por litro de leite, incluindo os países da Europa e Estados Unidos, que também respondem pela maior parte da produção e do consumo mundial de leite. Na faixa de 16 a 20 centavos, destacam-se a Nova Zelândia, que tem grande importância no comércio internacional de lácteos, e a Índia, maior produtor de leite do mundo (incluindo leite de búfala). Em uma faixa ainda menor, entre 10 e 15 centavos de dólar, encontram-se Austrália, Chile, Lituânia e Uruguai e, finalmente, em uma faixa baíxissima de preços, seguram a lanterna a Argentina, o Brasil e o Zimbabwe.

Obviamente que esta situação reflete o atual momento do câmbio no Brasil e Argentina, pois todos se lembram que há cerca de 4 anos atrás, com a paridade do dólar, real e peso, estávamos, na tabela acima, embolados com a turma dos 26 a 30 centavos, ou, com um pouco de boa vontade, em um patamar intermediário, entre 20 e 26 centavos de dólar.

De qualquer forma, podemos finalmente dizer que temos o leite mais barato do mundo, cerca de 50% do preço recebido pelo eficiente produtor da Nova Zelândia. Mesmo que o câmbio retroceda ou que o aumento de custos que já está sendo sentido (o farelo de soja e o milho que o digam) force uma elevação dos atuais preços pagos pelo leite (com uma retomada da inflação, caso contrário não haverá outro jeito), possivelmente teremos sempre um dos preços mais baixos do mundo.

Mas e daí ?

A pergunta faz sentido. Ter o menor preço do mundo pode ser bom, pois permite competitividade a nível internacional, alavancando as exportações e barrando as importações.

Porém, há algumas ressalvas. Primeiro, os mercados internacionais são altamente distorcidos por subsídios, o que reduz os preços internacionais, anula ou minimiza vantagens competitivas e fazem com que as importações deixem de existir.

Em segundo lugar - e ligado às distorções do mercado externo - ter os menores preços do mundo dificilmente irá coincidir com ter os melhores lucros do mundo... Mesmo em países com custo sabidamente baixo, como a Nova Zelândia, verificou-se enorme redução no número de produtores de 1970 para cá, além de consolidação na estrutura cooperativista, tudo visando manter a competitividade internacional, visto que cerca de 90% da produção deste país são exportados.

Por fim, como o leite é um produto largamente produzido no mundo, e com a tendência do abastecimento dos países ser feito cada vez mais localmente, a porcentagem comercializada internacionalmente é baixa, na faixa de 6% do total. Além disso, os mercados compradores são relativamente restritos, pois os grandes mercados, com alto poder aquisitivo, com Europa e Estados Unidos, têm consumo saturado e já produzem quantidades suficientes ou mesmo excessivas de leite (no caso da Europa).

Em resumo, o discurso que comemora termos o menor preço do mundo deve ser visto com menos ufanismo e com mais reflexão, pois, na prática, pouca coisa positiva tiramos dele.

Melhor seria ter um preço razoável, que tornasse as importações menos atrativas, mas permitisse uma remuneração adequada aos produtores de leite.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 21/10/2002

Caro Marcelo,

Não acha o amigo que além de insistirmos na conquista definitiva de uma maior fatia no mercado internacional, já que somos competitivos apesar das ineficiências ainda existentes em toda a cadeia produtiva, deveríamos estimular uma elevação de consumo interno que é muito baixo ainda, cerca de 135 litros por habitante ano?
Um abraço.
A. Carlos

<b> Resposta:</b>

Caro Antônio Carlos,

Com toda certeza. O aumento do mercado interno deve ser uma prioridade do setor, pois o potencial de crescimento é muito elevado, tanto é que diversos países olham o Brasil como um dos grandes mercados em crescimento nos próximos anos. Para aumentar o consumo, deve-se pensar em campanhas de marketing, estímulo aos programas sociais de distribuição de leite, mas, fundamentalmente, contar com uma melhor distribuição de renda e com a retomada do crescimento econômico do país.

Um abraço e obrigado pela participação.

Marcelo


HUMBERTO LUIZ WERNERSBACH FILHO

VITÓRIA - ESPÍRITO SANTO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 21/10/2002

Nosso preço é um dos menores do mundo, porém os custos dos insumos são os maiores, ou seja, os produtores recebem em real e pagam as contas tudo em dólares, é duro...
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