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O longa vida e o mercado de leite

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 30/11/2001

8 MIN DE LEITURA

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O leite longa vida tem sido colocado como um das responsáveis pela crise do setor leiteiro, em função dos altos custos associados à sua industrialização e embalagem. Aproveitaremos o espaço desta semana para discorrer sobre o tema, sem dúvida dos mais polêmicos que envolvem o setor. O objetivo deste artigo, antes de mais nada, não é colocar a culpa da atual crise no leite longa vida. Vários artigos anteriores desta coluna comentaram o excesso de oferta momentâneo, a desorganização da cadeia e o declínio das cooperativas, entre outros aspectos, também como fatores determinantes da situação atual. No entanto, até pela expressiva importância que o leite longa vida exerce no mercado de leite fluido - e nada indica que isto mudará tão cedo - vale a pena analisar os efeitos da inserção do longa vida no mercado de lácteos nacional.

Não há dúvida que o crescimento do leite longa vida alterou o perfil do mercado de leite fluido formal no Brasil, especialmente a partir do início da década de 90, ao partir de uma tímida fatia de 5,2%, em 1991, para 68,8% em 2000, tornando-se o tipo de leite preferido da grande massa de consumidores.

Este crescimento fenomenal teve sua razão de ser e já foi inclusive discutido por vários integrantes da cadeia do leite no país. De qualquer forma, vamos resumir abaixo as causas tidas como mais relevantes:

* conveniência para o consumidor: por ter prazo de validade de vários meses, o longa vida facilitou a vida de boa parte dos consumidores, especialmente nos grandes centros, cujas dificuldades de adquirir o leite pasteurizado em freqüência quase que diária eram crescentes. Esta vantagem foi potencializada justamente por esta deficiência do leite pasteurizado, com vida de prateleira muito reduzida. Caso tivéssemos leite pasteurizado com 7 a 10 dias de validade, como em alguns países, pode-se supor que o crescimento do longa vida não seria tão vigoroso como foi.

* conveniência para os supermercados: por não precisar de refrigeradores nos pontos de venda e por permitir a recepção de leite de regiões distantes, aumentando a oferta e a concorrência (contribuindo para a redução nos preços de compra pelos supermercados), o leite longa vida tornou-se o leite da preferência dos supermercados. Neste período, convém lembrar, a preferência dos supermercados passou a contar muito na definição dos rumos do mercado, dada a concentração das grandes redes e o aumento do poder de barganha deste setor. Por outro lado, é inegável a influência que as grandes redes de supermercados exercem, hoje, nos próprios hábitos de consumo da população.

* conveniência logística: por ter prazo de validade estendido, o longa vida permitiu o transporte proveniente de locais afastados dos grandes centros, onde a matéria prima era potencialmente mais barata, o custo de oportunidade agrícola, menor, e havia, em muitos casos, auxílio governamental e financiamentos para a produção. Além disso, a embalagem longa vida acomoda-se melhor ao transporte em comparação aos tradicionais saquinhos, é mais facilmente manipulável e não necessita de refrigeração no transporte, mais vantagens importantes.

* alternativa para armazenamento: dada a relativa pouca infra-estrutura para produção de leite em pó no país (e os altos custos envolvidos para se estabelecer estruturas de secagem), o longa vida passou a se constituir em uma alternativa viável para enxugar o mercado em momentos de excesso de oferta ou vendas mais fracas (o dólar elevado, dificultando as importações, tem estimulado empresas a investir em leite em pó, o que pode vir a mudar este cenário).

* diversificação de produtos: enquanto o leite pasteurizado não apresentou grandes inovações no que se refere aos tipos de produtos oferecidos ao mercado e mesmo embalagens, salvo um ou outro caso, o longa vida (às vezes dentro da mesma empresa que produzia o pasteurizado) mostrou-se bem mais eficiente ao captar as necessidades do moderno consumidor de leite, oferecendo leite com baixa gordura, sem lactose ou com ferro, por exemplo.

* marketing agressivo: em função de tantas vantagens, várias empresas de grande porte apostaram no leite longa vida, investindo de forma maciça em campanhas de marketing que se mostraram bastante eficientes.

* preço: aliada a todas estas vantagens, o longa vida passou a ter preços competitivos para os consumidores, especialmente a partir de 1994/95. Note, nos gráficos 1 e 2, que o crescimento do leite longa vida passou a ocorrer de modo mais notável justamente quando seu preço caiu, ficando muito próximo ao leite pasteurizado. Pelos gráficos, é possível perceber que o longa vida cresceu em detrimento do mercado de leite C (futuramente, em outro artigo, analisaremos com mais detalhes estas informações). Em um país com má distribuição de renda, onde boa parte da população tem nos gastos de alimentação uma fatia considerável de sua renda, o preço do leite exerce influência significativa no consumo.





Com tantos argumentos a favor do longa vida, torna-se agora fácil explicar o seu sucesso. Do ponto de vista de mercado, o longa vida era o produto certo, na hora certa. A fome, com a vontade de comer. Tudo, ou quase tudo, conspirava a favor do leite longa vida, que representou uma espécie de divisor de águas no mercado de leite fluido no Brasil, passando inclusive a ser um dos principais determinantes do preço do leite pago ao produtor.

De fato, um estudo realizado pela equipe de pesquisadores do CEPEA/USP, coordenado pelo Prof. Geraldo S. C. Barros, e citado em artigo do pesquisador da FIPE André Meloni Nassar, escrito para o portal Agrocast em 28/11/01, concluiu que o longa vida é um importante balizador dos preços ao produtor no mercado interno. O trabalho, realizado com dados de 1994 a final de 1999, mostrou que, considerando um período superior a 6 meses, a elasticidade entre preço do longa vida e preço ao produtor é de 0,46. Já para um prazo inferior a 6 meses, essa mesma elasticidade foi estimada em 0,09. Esses resultados mostram que quando se considera um período de mais de 6 meses, espera-se que se o preço do leite longa vida no varejo subir 10%, o preço ao produtor se elevará ao redor de 5%. Este estudo, realizado com dados obtidos no ápice das importações de leite, concluiu que o longa vida exercia influência mais de duas vezes maior no preço do leite do que as importações.

Sendo fato consumado a importância que o longa vida adquiriu e a influência que exerce hoje nos preços pagos ao produtor, balizando o mercado, vale a pena comentar sobre os reflexos desta nova realidade na remuneração dos preços ao produtor, tendo como ponto de partida para a análise, as limitações de renda por parte do consumidor, que colocam um teto para o preço do leite que não necessariamente é aquele desejado pela cadeia produtiva, restando ao setor obter suas margens dentro desta conjuntura.

É a partir daí que as inegáveis vantagens do leite longa vida para o consumidor começam a mostrar que têm seu preço, refletido nos custos mais altos de processamento e embalagem. Com custos de processamento e embalagem mais altos, a fatia do bolo (bolo este que não parece neste momento ser muito grande pelas limitações de renda do brasileiro) para divisão entre os elos, fica menor. Como ocorre em situações deste tipo, especialmente em mercados sem a intervenção do Estado ou sem que haja domínio de cooperativas, o produtor é o elo mais fraco e tende a ter suas margens espremidas. Se o longa vida estivesse restrito aos mercados de nicho (leites com ferro, etc.), naturalmente precificados em um patamar bem superior, não haveria problema algum. O problema surge quando 70% do leite fluido formal tem este destino, tornando-se um produto de massa e, portanto, vendido a preços de massa.

Um primeiro paradoxo que surge desta nova realidade, mas não o principal, é que, remunerando menos o produtor, torna-se mais difícil estimular o salto de qualidade da matéria-prima que o setor deseja e espera. Ou seja, se, por um lado, o longa vida falou e vem falando melhor a língua do moderno consumidor que surgiu a partir da década de 90, por outro lado parece não criar as condições ideais para a melhoria da qualidade do leite do ponto de vista de matéria-prima. Afinal, qualidade tem custo e, sem remuneração adequada, sua obtenção fica prejudicada. É só analisar a situação atual: quem tem hoje estímulo para investir em qualidade, com preços menores do que R$ 0,30/litro, em alguns casos menores do que R$ 0,20/litro?

Do lado das indústrias, especialmente entre as de médio e pequeno porte, há sinais de desconforto com o atual mercado, dependente em grande parte de um único tipo de produto, do qual não conseguem obter as mesmas margens de outrora, fruto da feroz competição travada no ponto de venda, sob a coordenação das grandes redes de varejo, além dos limites de renda já comentados acima.

Analisando todas estas informações, a impressão que fica é que o longa vida surgiu como a proposta mais moderna e inteligente para se vender leite fluido no Brasil, diante da realidade de abertura de mercado e maior acesso à informação por parte do consumidor. O problema é que o país e a renda da população não cresceram tanto quanto deveriam, colocando um teto relativamente baixo para o leite longa vida no varejo, diminuindo a bolo para quem vinha atrás. De fato, avaliando novamente os gráficos 1 e 2, nota-se claramente que o longa vida só cresceu de forma significativa quando seu preço caiu e ficou próximo ao pasteurizado.

A conclusão é que, aos preços atuais, a tecnologia UHT parece ser cara demais para um país como o nosso, caracterizada por boa parte da população sem renda suficiente para pagar o que deveria valer a maior comodidade e a maior conveniência proporcionados pelo longa vida.

Fica a dúvida, posto tudo isso, para onde iremos com o mercado de leite no Brasil, tendo como carro-chefe, eleito de forma legítima pelos consumidores, um produto no qual os custos de processamento e embalagem parecem não estar em sintonia com a realidade de grande parte do mercado consumidor, colocando em dúvida a viabilidade de se ter uma cadeia do leite próspera, do produtor ao varejista, alicerçada em matéria-prima de alta qualidade. Este é um dos desafios que o setor tem para resolver.

Por fim, não se deve desconsiderar a importância de outros aspectos que levaram à situação atual: domínio dos supermercados, perda de poder das cooperativas, governo totalmente ausente do mercado, falta de planejamento de longo prazo ao setor, concentração nos laticínios, importações, possível excesso de oferta, e outros. Independente destes importantes fatores, se o longa vida e seus 70% de participação no mercado não são a causa da crise (e certamente não são, sozinhos), por outro lado não parecem contribuir para a sua solução.


MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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