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O leite na Pesquisa do Orçamento Familiar

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 21/05/2004

7 MIN DE LEITURA

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Nesta semana, o IBGE divulgou a nova Pesquisa do Orçamento Familiar, feita com 48.000 famílias durante julho de 2002 e junho de 2003. A última edição havia sido realizada em 1996 e, pela importância que representa, é o tema que será comentado hoje nesse espaço.

A POF mostrou muito do que já se sabia, mas trouxe novidades bastante significativas no padrão das receitas, dos gastos e do consumo das famílias brasileiras, além de alguns dados para os quais uma análise mais embasada necessitaria do conhecimento da metodologia completa (o que esperamos ter na próxima semana).

Entre as novidades, está a diversificação do consumo do brasileiro. Produtos tradicionais, como leite pasteurizado, arroz, feijão e batata tiveram consumo diminuido. O leite, por exemplo, apresentava consumo de 62,4 kg por pessoa por ano no levantamento de 1987/1988 e, no ano passado, caiu para meros 38 kg. Aí surgem as primeiras dúvidas. Imagino que, por leite pasteurizado, o IBGE considere além do pasteurizado o UHT, caso contrário os números não batem. Se considerarmos os 38 kg para uma população, digamos, de 170 milhões de habitantes, seriam 6,46 bilhões de kg/ano, número até compatível com UHT + pasteurizado (5,7 bilhões em 2002, segundo a ABLV), mas incompatível apenas com o pasteurizado, com cerca de 1,48 bilhão. Também, é preciso saber se o leite em pó está incluido nessa conta (já o informal imagino que não esteja).

Outro dado surpreendente é a enorme queda verificada no consumo de leite fluido e, mais ainda, o fato do consumo de leite fluido estar, em valores absolutos, 26% menor do que em 1987/88, de acordo com esses dados. Sim, porque 62,4 kg multiplicados por 140 milhões de pessoas, aproximadamente a população na época, teríamos 8,74 bilhões de kg. Consigo imaginar que houve mudança de hábitos, mas não que o consumo de leite fluido tenha se reduzido em valores absolutos. Também, esse número seria incompatível com a produção de 13,5 bilhões de kg em 1988, sendo 7,2 bilhões "sifados".

Vale lembrar que, naquela época, praticamente inexistia leite longa vida, ou seja, os 62,4 kg de consumo eram supridos pelo leite pasteurizado. De acordo, com esse dado, hoje, mesmo com o longa vida e toda sua praticidade, o consumo per capita e absoluto teriam caido significativamente. De posse da metodologia completa, espero ter uma idéia mais clara destes números.

Mas vamos aos dados que não geram tantas controvérsias, mas sim informações interessantes. Produtos como iogurte, alimentos preparados, guaraná e água mineral verificaram grandes aumentos. A água mineral por exemplo, tinha consumo de menos de 1 kg/ano em 87/88, atingindo agora 18,5 kg. O guaraná passou de 2,7 kg para 7,7 kg, provalvemente fruto do marketing, distribuição e do aparecimento dos genéricos. O iogurte, de 1,1 kg para 2,9 kg/ano. Isso representa não só sofisticação do consumo, mas também o aumento da oferta de bens para consumo nesse período. O consumidor de hoje tem uma oferta de produtos muito superior ao que tinha 30 anos atrás.

Uma mudança interessante nesse sentido é a perda proporcional de importância da alimentação nos gastos das famílias. Há 30 anos, as famílias gastavam 33,91% com alimentação; hoje gastam 17,10%. Há muito mais opções de gastos, de celulares à previdência privada. Há também mais impostos e gastos com serviços bancários, por exemplo, que há 8 anos atrás representavam 0,04% das despesas e, hoje, 0,90%. Comentário óbvio: não é surpresa os enormes lucros dos bancos nesse período.

Segundo o presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes, essa mudança indica a necessidade de reformulação do IPCA, utilizado para refletir o aumento da inflação. Segundo ele, os alimentos devem perder peso no cálculo do índice, o que é uma boa notícia para o setor. Sempre que algum alimento sobe de preço, a ligação imediata com a inflação é feita, com amplo espaço na mídia e com repercussão no governo. Com o menor peso, talvez essa "pressão baixista" se reduza com o tempo.

Essa maior oferta de produtos, aliada à sofisticação do consumo, abrem espaço para ações de marketing visando ganhar espaço na preferência do consumidor. Por ações de marketing, entende-se não só promoção, mas criação de produtos com apelo de consumo, seja pela exploração dos benefícios para a saúde, seja pelo sabor, aparência e praticidade. Por isso, é importante que trabalhos como o da Láctea Brasil sejam estimulados por todos aqueles envolvidos no setor.

Por outro lado, a POF mostra mais uma vez as desigualdades sociais do país. Os hábitos de consumo variam drasticamente dependendo da classe social, de forma que a análise da média é pouco esclarecedora.

A faixa de mais baixo rendimento (até R$ 400,00) tem na alimentação 32,68% do custo, contra apenas 9,04% na faixa mais alta (mais de R$ 6.000,00).

O peso dos grupos de alimentos também merece ser comentado, até derrubando alguns chavões recorrentes no setor. Entre os tipos de alimentos consumidos pelas famílias brasileiras, considerando apenas a alimentação no domicílio, o grupo de Carnes, vísceras e pescados é o que mais pesa nas despesas (18,34%), seguido de Leites e derivados (11,94%). Cerveja, chopp e bebidas alcóolicas, incluíndo as despesas fora do domicílio, atingem 3,34%, ou seja, o brasileiro gasta significativamente mais com leite e derivados do que com bebidas alcóolicas. Nesse sentido, a tabela 1 traz o comparativo de leite e derivados, bebidas alcoólicas e refrigerantes nos dois extremos sociais, mostrando que, em ambos, leite e derivados têm peso superior.

Tabela 1. Porcentagem gasta com leite e derivados, bebidas alcoólicas e refrigerantes nos dois extremos sociais


Outro dado que mostra o efeito da renda é a constatação que, entre as famílias que tem renda mensal superior a R$ 6.000,00, o consumo de leite é de 63,5 kg mensais, ao passo que nas de renda de até R$ 400,00, é de apenas 8,9 kg (tabela 2), ou seja mais de 7 vezes menor. O queijo prato, então, é 35 vezes mais consumido na casa dos mais ricos do que dos mais pobres, que comem apenas 40 gramas por pessoa por ano (umas 3 fatias).

Nota-se que tanto a carne bovina quanto a carne de frango apresentam um perfil mais homogêneo entre as classes, talvez pelos hábitos de consumo das classes mais altas e pelo fato do consumidor mais pobre encontrar alternativas mais baratas nas chamadas "carnes de segunda" (a nossa bebida láctea...).

No outro extremo, arroz, feijão e farinha de mandioca são mais consumidos entre os mais pobres, indicando ser estes componentes da dieta desta camada.

Esses números indicam, sem dúvida, que o problema de renda é crítico para o aumento do consumo de lácteos no Brasil. Os lácteos pesam no orçamento dos mais pobres e tem seu consumo proporcional à renda. E são muitos os pobres.

São quase 8 milhões de famílias, ou 16%, com renda abaixo de R$ 400,00 mensais. Cerca de 25 milhões de famílias, ou 51%, tem renda menor do que R$ 1000,00 mensais. Cerca de 27,5% das famílias afirmaram ter muita dificuldade de chegar até o final do mês com o seu orçamento atual e 47% afirmam não consumir alimentos em quantidade suficiente.

Tabela 2. Quanto consomem os mais ricos e os mais pobres, de acordo com a renda mensal


As diferenças regionais também apareceram. Enquanto no Sudeste se gasta R$ 2.163,09 da média nacional, no Nordeste se gasta apenas R$ 1.134,44. Falando do leite, no Sudeste e no Sul as quantidades adquiridas (respectivamente 40,9 e 42,1 kg) são cerca de sete vezes maiores que as observadas no Norte e Nordeste (5,1 e 7 kg), enquanto o Centro-Oeste apresentou dados similares a média nacional (27,9 kg). Novamente a questão da renda (o auto-consumo e o leite em pó, caso não estejam inclusos, diminuiriam essa diferença).

Outro dado interessante é que, pela primeira vez, o IBGE apurou o valor das receitas não-monetárias (trocas, doações, auto-consumo), que atingiram 14,6%, em média. Porém, na zona rural, este valor subiu para 23,3%. Esse número certamente nos faz lembrar da importância do auto-consumo de lácteos, aqui embutido.

A POF, do qual até agora tivemos acesso a um resumo, mostra inúmeros outros dados, a maioria nada animadores, como o fato de, na média, se gastar mais com fumo (R$ 10,20/mês) do que com periódicos, livros e revistas (R$ 5,81), ou o fato de edudação estar em último lugar no ranking das famílias de mais baixa renda.

Em uma primeira e breve análise, é possível concluir que o consumo de lácteos é enormemente afetado pela renda da população e que, mesmo assim, há grande espaço para ações de marketing e posicionamento de produtos, pois os hábitos de consumo estão se alterando rapidamente. Acompanhar essas mudanças e adaptar os lácteos a elas será de grande importância para que tenhamos uma cadeia mais lucrativa para todos os envolvidos.

Boa semana a todos.

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Marcelo Pereira de Carvalho é coordenador do MilkPoint, que busca conhecer as tendências de produção e mercado de leite no Brasil e no mundo, com objetivo de aumentar a rentabilidade no curto prazo e a sustentabilidade da atividade no longo prazo.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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MATHEUS BRESSAN

OUTRO - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 25/05/2004

Marcelo,
Não vou comentar o artigo, mas cumprimentá-lo pela agilidade em tratar de questões realçadas, preliminarmente, na POF. Há surpresas e muitas, como tenho acompanhado em diversos artigos de jornais. Aguardarei acesso à pesquisa.
Parabéns pela iniciativa.
Bressan
MilkPoint AgriPoint