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O consumo interno alavanca a produção - até quando?

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 19/03/2008

7 MIN DE LEITURA

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Os ventos favoráveis que sobram no mercado de lácteos mundial, elevando preços a níveis recordes, vêm estimulando a produção, dos grandes produtores globais a países sem expressão e que praticamente sequer possuem setor lácteo interno. Quem pode, está investindo para aumentar a produção e quem não pode, dá um jeito: a União Européia acabou de aprovar aumento de 2% no rígido sistema de cotas de produção de leite, o que representa potencial de quase 3 bilhões de litros por ano a mais; investidores da Nova Zelândia, cujo crescimento é limitado pela área, pelo sistema de produção e pelos altos custos (e talvez pelo clima), estão promovendo a nova descoberta da América, com significativos investimentos no Uruguai e, mais recentemente, no Chile, através de empresas de capital aberto dedicadas a produzir leite.

Mas é na China e, mais recentemente, no Brasil, onde esse forte estímulo de preços e de conjuntura positiva tem resultado nas taxas de crescimento mais expressivas. Não temos os dados de 2007 fechados, mas a estimativa é que a produção total brasileira tenha crescido por volta de 6%, com a produção inspecionada crescendo bem mais, talvez ao redor de 10% (saberemos isso nos próximos dias, quando IBGE divulga a pesquisa trimestral do leite referente ao quarto semestre). Segundo o USDA, o crescimento continuará neste ano. A produção no Brasil crescerá 8% em 2008, atrás apenas da China, com 8,6%.

A figura 1 sugere que a estimativa do USDA não parece tão exagerada. O Índice de Captação de Leite do Cepea/USP, calculado a partir das informações passadas pelas indústrias e que têm acompanhado os dados oficiais do IBGE, mostra que nos últimos 7 meses (até janeiro/08) a produção está nada menos do que 16,7% acima do que no mesmo período no ano anterior. E, mais do que isso, a taxa de aumento é crescente, com cada mês, desde maio - exceto em outubro - aumentando mais em relação ao mesmo mês do ano anterior, a ponto de janeiro ter verificado elevação de 22,5% em relação ao mesmo mês do ano passado. É um crescimento sem precedentes em porcentagem e em volume absoluto, caso os dados do IBGE assim o confirmem.

Figura 1. Variação na captação de leite nos últimos 7 meses em comparação ao mesmo período do ano passado.


Esse crescimento é a prova de que a produção de leite no Brasil tem potencial de sobra para crescer. Bastam condições favoráveis e uma boa sinalização de futuro que o leite aparece, ainda mais se atividades concorrentes passam por um momento menos atrativo, como foi o caso da cana e do gado de corte no ano passado. Percebe-se, pela figura 1, que após um início de ano marcado pelo desestímulo dos preços de 2006 primeiros meses de 2007, a produção foi subindo, mesmo na entressafra do Centro-Sudeste, respondendo aos preços mais altos e à melhor relação de troca dos últimos meses.

O crescimento da produção nesses níveis normalmente promoveria redução dos preços. Porém, se analisarmos a figura 2, veremos que, apesar de ter certamente havido uma forte redução de setembro até janeiro, os valores pagos pelo litro de leite estão quase 40% mais altos do que há um ano. E, em fevereiro, já começou a haver reação de preços e maior procura de leite, com laticínios que não estavam aceitando mais leite começando a buscar ativamente novos fornecedores. Sinal de que precisam de leite.

Figura 2. Evolução dos preços de leite ao produtor (em R$/litro de leite).


Em outras palavras, esse grande aumento na oferta de leite não resultou em uma queda igualmente fenomenal nos preços. Como explicar isso?

A explicação está na elevação do consumo interno (obs: as exportações em 2007 cresceram apenas 8,5% em volume, ou cerca de 150 milhões de litros, cerca de 0,5% da nossa produção). A disponibilidade per capita de leite vem crescendo de forma consistente nos últimos anos, apesar de pouco falarmos nela e do conceito arraigado de que o consumo está estagnado.

Considerando um aumento de 6% na produção de leite em 2007, atingimos 140,5 kg/habitante/ano, quase 5 kg a mais do que em 2006. De 2001 em diante, esse aumento médio foi de 2,53% ao ano, com 2007 apresentando 3,3% de acréscimo no consumo per capita, o maior valor desde 2001 (ano do apagão, onze de setembro, crise da Argentina) para 2002. A figura 4 mostra que esse aumento tem sido consistente nos últimos 4 anos. Se essa taxa de 2,5% continuar, chegaremos a 2020 com mais de 190 kg/habitante/ano, a estimativa mais positiva do trabalho "Cenários para o Leite no Brasil em 2020".

Figura 3. Variação no consumo per capita de leite nos últimos anos.


A conclusão é evidente: é a demanda interna que vem impulsionando o mercado. E há outras evidências desse fato, a começar pela constatação de que foi o aumento do consumo das famílias em 2007, 6,5% mais alto do que em 2006, que sustentou o elevado crescimento de 5,4% do PIB no ano passado. O aumento do consumo foi o maior desde 1996, quando a série foi iniciada. Por trás desse expressivo crescimento do consumo está o igualmente significativo aumento do PIB per capita que, com 4% de crescimento, só perdeu para os 4,2% de 2004. O aumento da massa salarial (mais 3,6%) do emprego (mais 3,0%) e da expansão de crédito (mais 28,8%), sem falar dos programas de transferência de renda, explicam porque não é mais a demanda externa, mas sim a interna, que movimenta hoje a economia.

Sabe-se que quando a renda aumenta, em especial nas classes menos favorecidas, há efeito imediato no consumo de proteínas animais, como os lácteos. Em matéria do jornal "O Estado de S. Paulo", de 16/03, Karim Nabi, diretor do Carrefour, diz que em 2007 as vendas de alimentos cresceram 10% na rede, mas que os iogurtes atingiram elevação muito maior: 30% em comparação a 2006. Dados do Latin Panel confirmam esse crescimento. As vendas de iogurtes cresceram 32% em valor em comparação a 2006 e 27% em volume. Ou seja, mesmo com preços mais altos, vendeu-se bem mais.

Outros produtos que não fazem parte da cesta básica também cresceram. Em 2007, donas-de-casa gastaram 27% a mais com bebidas à base de soja, 21% com leites fermentados e 20% com sobremesas prontas. E esse crescimento atingiu valores mais significativos ainda nas classes de renda mais baixa. Para se ter uma idéia do que isso representou, o volume médio de compras de sobremesas prontas cresceu 40% nas classes D e E, no ano passado; bebidas de soja cresceram 27% nas mesmas classes, contra um aumento mais "modesto" de 14% nas classes A e B. É definitivamente o crescimento na base da pirâmide.

Figura 4. Variação anual porcentual do consumo per capita de lácteos.


O fato é que a bicicleta está sendo pedalada - e rapidamente - pelo consumidor interno. Com isso, estimula-se a produção e mantém-se preços atrativos. A grande questão que permanece é até quando esse consumidor continuará pedalando a bicicleta, isto é, estimulando a produção e fazendo o mercado de bens de consumo se expandir.

A primeira nuvem nesse cenário vem do ambiente externo. Com a virtual quebra do Bear Sterns, um importante banco norte-americano, no final da semana passada, muitos analistas entendem que a onda de más notícias que se abate sobre a maior economia do mundo está longe de acabar, afetando em maior ou menor grau as demais economias. Qual será esse efeito, quando e como virá, não se sabe, mas o viés nesse sentido não é positivo.

A outra incógnita é a sustentabilidade desse crescimento interno. Alguns analistas acreditam que não será possível crescer a taxas superiores a 5% de forma continuada, pois faltam investimentos em infra-estrutura e capacidade produtiva (apesar do aumento de 13,4% nos investimentos em 2007), trazendo o risco inflacionário, que pode resultar em aumento de juros. Também, argumentam que será difícil o crédito manter a taxa de expansão verificada em 2007, além do que o aumento do custo dos alimentos já corroeu parte da renda dos mais pobres, lembrando ainda que as exportações tendem a cair (em lácteos, em fevereiro já exportamos 3% a menos do que no mesmo mês do ano passado em volume, apesar do aumento em volume).

Uma outra variável relevante é o mercado internacional de lácteos e o valor do dólar. As análises indicam preços dos lácteos abaixo dos valores de 2007 - embora ainda elevados para os padrões históricos - e câmbio deteriorado, reduzindo a competitividade das nossas exportações. A manter estas condições nos próximos meses, se não atrapalhar, o comércio internacional tampouco será a válvula de escape para a produção.

Resta, por fim, a produção interna. Espera-se, nos próximos meses, um desaquecimento na oferta, que já está ocorrendo, conforme a tendência histórica nessa época do ano. Dessa maneira, ainda que haja alguma desaceleração na economia, para os próximos meses é possível que a equação produção/consumo/comércio internacional feche e nos faça caminhar com relativa estabilidade e viés de alta. A questão será o comportamento dessas variáveis a partir de setembro, considerando que o estímulo ao aumento da produção de leite permanecerá, ainda que menos intenso do que o verificado em 2007 (fruto de preços médios atraentes e estáveis, apesar dos custos mais altos e de talvez um gargalo na oferta de animais). E que, segundo os analistas econômicos, é nesse período que as turbulências serão sentidas em maior intensidade.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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RENATO CALIXTO SALIBA

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/03/2008

Caro Marcelo,

Vida de produtor de leite não é fácil, mas acho que apesar de tudo que foi dito as perspectivas são boas, mas temos que controlar nossos custos, o que está muito difícil. Temos que tomar decisões quase todos os dias e as vezes tais decisões são antagônicas as anteriores.

Hoje em dia, os dirigentes de cooperativas e de laticínios, devem ficar atentos, pois o mercado muda diariamente. Em um dia tudo parece caminhar para o paraíso, em outro para o inferno, e ainda tem o purgatório.
GIROLANDAS DAS TERRAS ALTAS

SANTOS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/03/2008

Nós criadores e produtores fazemos parte desse processo, por isso devemos acreditar, batalhando, atingindo metas e superando espectativas, consequenteme os resultados virão sendo pela produção do leite e seus derivados e nas crias.
Marcelo de Souza.
PAULO CÉSAR DE CAMARGO

CURITIBA - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 25/03/2008

Caro Marcelo,
Parabéns pela clareza e objetividade, no entanto, ficou a questão do ATÉ QUANDO?
Ainda esta disponível na página do CILeite (http://www.cileite.com.br/panorama/3panorama.htm) um artigo do então Chefe-geral da Embrapa Gado de Leite (Paulo do Carmo Martins), mostrando que em janeiro/2007 as expectativas das fontes bem informadas, eram de um FUTURO de EXCESSO de LEITE.
No Paraná o projeto da Rede de Inovação e Prospecção Tecnológica para o Agronegócio-Região Sul (www.ripasul.com.br), concluiu um Termo de Referência para Projetos Estruturantes voltados à Inovação Tecnológica, e estamos trabalhando na conclusão de documentos semelhantes para Santa Catarina e Rio Grande do Sul, para então consolidarmos um documento para nortear políticas de apoio a Inovação Tecnológica para a Cadeia Produtiva do Leite na Região Sul.
Seria da maior importância sua opinião, como também do Paulo do Carmo Martins e de outros especialistas sobre o papel da Inovação Tecnológica no ATÉ QUANDO do crescimento nesta importante Cadeia Produtiva.
Paulo César de Camargo
Coordenador RIPASUL
FERNANDO ENRIQUE MADALENA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/03/2008

Caro Marcelo,

É isso aí. Dinheiro no bolso do pobre é motor da produção de leite. Há 30 anos que há estudos verificando que no Brasil a elasticidade renda do leite e lácteos é muito alta para os que ganham menos. Lembram do aumento do consumo de iougurte quando a inflação foi contida, logo após o plano Real?

Nada contra exportar, pelo contrário, mas o Brasil tem que aplicar a criatividade para desenvolver o mercado interno, primeiro para que as pessoas tenham melhor nutrição, mas também para depender menos das incertezas externas na economia do leite. Porém, passar dinheiro para os mais pobres implica que vai sair do bolso nosso, dos menos pobres. Melhor não reclamar se isto for (bem) feito; quanto antes entendermos que estamos todos no mesmo barco, melhor.

Parabéns pelo artigo, com a clareza de sempre.
NELSON JESUS SABOIA RIBAS

GUARACI - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/03/2008

Prezado Marcelo

Muito boa a sua análise. Eu costumo dizer que o Brasil sofre da "Sindrome da Super-produção", todo produto que apresenta melhoria de preço em pouco tempo apresenta crecimento estrondoso de produção, e na sequência derruba todas as espectativas.

Faço um pedido a você, para usar suas facilidades de pesquisa e capacidade para escrever, e nos brindar com um artigo sobre o crescimento dos custos de produção X crescimento dos preços do leite, não da para falar que os preços estão 40% maiores sem indicar o aumento dos custos de produção.

Tivemos uma alta absurda nos adubos, sal mineral e rações, e agora vira também o aumento nos salários.
Aumento da produção vem sempre com queda de preço, pois sabemos que a velocidade do aumento de consumo não vai acompanhar a velocidade do aumento da produção.

Obrigado.
MilkPoint AgriPoint