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Manter o valor gerado é o grande desafio dos produtores

Um dos maiores desafios dos produtores rurais é manter para si uma parcela maior do valor gerado ao longo das cadeias do agronegócio.

Na raiz desse problema está o fato de a produção ser extremamente pulverizada, com pouca ou nenhuma diferenciação entre produtores, que, individualmente, são incapazes de controlar a oferta e os preços. O resultado é que os ganhos de eficiência (leia-se produtividade) são em grande repassados aos elos seguintes e à sociedade, que tem à disposição alimentos a preços cada vez mais baixos.

Conforme nos mostrou o Prof. Chaddad, no evento AgriPoint Gestão Leite 2006, o preço real das principais commodities agrícolas nos Estados Unidos foi reduzido para cerca de 2/5 do observado ao final da década de 1960, enquanto a fatia da renda familiar norte-americana gasta com alimentos caiu de 25% para menos de 10%. Durante o mesmo período, o número de produtores agrícolas caiu de 4 para 2 milhões nos EUA, sendo que o grupo dos 10% maiores agricultores atualmente produzem o equivalente a 75% do valor bruto da produção. Essa ampla consolidação na produção é uma resposta a enorme competição dentro do setor produtivo, em que, para permanecer na atividade, é preciso elevar continuamente a eficiência, reduzindo os custos. A estratégia dominante é, portanto, a liderança de custos. Permanecerá na atividade e terá retorno quem, continuamente, tiver custos de produção mais baixos.

A realidade é, no entanto, mais complexa do que isso. Como as inovações são rapidamente difundidas, o sucesso de um produtor hoje não implica em sucesso futuro; outros implantarão novas técnicas e processos que resultarão, por sua vez, em custos mais baixos, processo este que explica a dificuldade do produtor manter o valor gerado, ainda mais em um ambiente em que as empresas compradoras também se consolidam, fruto da pressão do varejo e da necessidade de escala para competir globalmente. No caso do leite, a perecibilidade do produto e a sua alta participação relativa nos custos de um laticínio dificultam ainda mais esse cenário, contribuindo para a redução do poder de barganha dos produtores.

É irônico notar que essa dificuldade de manutenção do valor por parte dos produtores não coincide com a importância histórica da produção de alimentos na expansão das sociedades. Na realidade, como nos mostra Jared Diamond no brilhante "Armas, Germes e Aço", o domínio da agricultura e da produção animal, iniciada por volta de 9.000 A.C., foi o fator primordial que definiu a supremacia de determinadas sociedades do passado. Os povos que conseguiram dominar a agricultura tinham enormes vantagens em relação aos povos que praticavam a caça e coleta. Ao produzir muito mais nutrientes por área, podiam ter uma população significativamente maior; ao produzir muito mais nutrientes por pessoa, podiam desenvolver uma estrutura societária mais complexa, inclusive sustentando pessoas que não precisavam produzir seu próprio alimento, como no caso da caça e coleta. Assim, surgiram pensadores, inventores e burocratas que, respectivamente, puderam desenvolver novos conceitos, novas tecnologias e exércitos e estados. Esses povos, cuja vantagem inicial estava no domínio da agricultura, dominaram praticamente todos os povos que viviam da caça, pesca e coleta. Afinal, tinham mais pessoas, desenvolveram tecnologias (inclusive armas) e, ainda, criaram resistência para uma série de germes letais, cuja origem estava nos animais domesticados.

Isso tudo é história, mas não deixa de ter seu romantismo e certa dose de ironia (o consolo é que pelo menos não está sendo usado como argumento para a manutenção dos subsídios agrícolas em países desenvolvidos, que mais se beneficiaram do domínio da agricultura nos tempos antigos!). De qualquer forma, a história contrasta com a dificuldade atual dos produtores rurais em manter o valor gerado com seu trabalho.

Há, no entanto, algumas formas de manter esse valor. A primeira é através justamente dos subsídios, isto é, de uma compensação, pelo governo, para os produtores, de forma a manter a renda dos produtores em patamares elevados. Além de comercialmente criticável, os subsídios criam óbvias distorções, entre elas a atratividade artificial dos setores subsidiados, resultando na necessidade de criar barreiras de entrada, caso contrário muitos produtores seriam atraídos pelas condições artificialmente vantajosas destes setores, aumentando continuamente a produção e criando um rombo sem fim nas contas públicas. As barreiras de entrada podem ser cotas de produção, como as verificadas na produção de leite da Europa e Canadá.

A outra maneira de manter o valor dos produtores é através da regulamentação, isto é, do estabelecimento de preços mínimos, abaixo dos quais o mercado não poderá pagar. Isto também implica em custos para a sociedade e tende a não estimular o aumento da eficiência. Afinal, não há um estímulo significativo para o aprimoramento da atividade, sendo o resultado final para a sociedade muito aquém do desejado.

Uma outra maneira de manter o valor se dá através de uma mudança no relacionamento dos agentes, no caso indústrias e produtores. Isso pode envolver contratos de mais longo prazo e ações de cooperação entre eles. A medida que o mercado de leite reconhece que há diferenças entre produtores (qualidade, constância de fornecimento, volume) há espaço para avanços nesse relacionamento, ainda que em geral sejam modestos. Não se pode menosprezar aqui o papel das pressões sociais em relação a isso. Recentemente, a VCP, empresa da área de papel e celulose, iniciou um novo empreendimento no sul do país que se alicerça justamente em uma relação de cooperação de longo prazo entre os pequenos produtores - fornecedores de madeira na região - e a empresa. Tal iniciativa, que cria um novo paradigma na relação entre fornecedores e compradores, reside justamente na necessidade de desenvolver uma nova forma de relacionamento, mais aceitável socialmente e, quem sabe, até mais lucrativa no longo prazo.

Por fim, as cooperativas representam uma maneira potencialmente importante de manutenção do valor gerado pelos produtores. No caso do leite, as cooperativas são especialmente relevantes, dadas as características do produto (perecibilidade) e da produção (muito pulverizada). Não por acaso, em vários países que produzem quantidades significativas de leite as cooperativas desempenham o papel principal na captação de leite. Várias das principais empresas de laticínios do mundo são cooperativas, inclusive as 4 que, juntas, estão criando uma entidade mundial de valorização de lácteos, conforme anunciado pelo MilkPoint na semana passada (Fonterra, Arla, Campina e DFA).

Porém, a cooperativa está sujeita às mesmas forças de mercado das empresas com outra estrutura de capital. Isso quer dizer que precisa ser gerenciada de forma profissional, inovar em produtos e processos e ter uma estrutura de custos compatível com o mercado. As que não conseguem acompanhar o ritmo, fatalmente perderão espaço.

Nesse final de semana, anunciamos a aquisição da tradicional Sancor, a segunda maior empresa de laticínios da Argentina, por uma empresa do megainvestor George Soros. Embora seja um duro golpe para o cooperativismo lácteo, é importante reconhecer que, envolta em dívidas de mais de uma centena de milhão de dólares, a verdade é que Sancor não conseguiu fazer as mudanças necessárias ao longo do tempo para competir nesse mercado. Dentro dessa realidade, a venda do controle, mantendo os cooperados uma participação de 37,5% na empresa, foi uma solução satisfatória - talvez a única possível nesse cenário.

Em um ambiente em que subsídios e ações regulatórias se mostram cada vez menos defensáveis, uma relação mais cooperativa entre produtores e indústrias e, principalmente, cooperativas mais fortes (o que, em última análise, influenciam positivamente na melhoria das relações entre produtores e indústrias), representam as alternativas para a manutenção do valor gerado na produção.

Os desafios, porém, são consideráveis, uma vez que as cooperativas estão sujeitas às regras de mercado e, como tal, precisam de eficiência administrativa, gestão profissional e custos competitivos, em grande parte atuando como as demais empresas do mercado. A venda da Sancor, até então símbolo do leite argentino, fundada em 1938, apenas reforça essa constatação.

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JOSÉ EDUARDO PEREIRA MAMEDE

AGUAÍ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/11/2006

Prezados Marcelo e leitores,

Dentre as alternativas colocadas, sem dúvida a melhor maneira de se manter o valor do nosso produto será por meio do estabelecimento de contratos de longo prazo para fornecimento de leite, entre os produtores e a indústria, uma vez que:

1º) estabelecer e/ou manter cooperativas gerenciadas de modo profissional me parece muito difícil de se conseguir neste momento, embora não seja impossível;

2º) me parece ser uma tendência que as indústrias, já gerenciadas de modo profissional e operando no mercado, têm uma série de vantagens competitivas em relação às cooperativas. Esta tendência é demonstrada pelo aumento da captação de leite pela indústria e a diminuição por parte das cooperativas, nos últimos anos;

3º) as indústrias transformando-se nas maiores coletoras de leite, será necessário estabelecer e implementar regras claras, técnicas e comerciais, de modo a melhorar o relacionamento entre a indústria e os produtores.

Neste sentido, me parece que regulamentos como os do tipo "Conseleite", implementados pelo Paraná e Rio Grande do Sul, se constituem em uma tendência para regular os aspectos comerciais e técnicos destes contratos. É claro que os aspectos técnicos deverão estar referenciados nos requisitos da IN-51.

Entendo que, os regulamentos do tipo Conseleite estão vindo para ficar, assim como os do tipo Consecana, precursores na regulamentação comercial e técnica entre as usinas de açúcar e álcool e os seus fornecedores.

Talvez alguns segmentos da cadeia do leite possam fazer alguma crítica aos regulamentos do Conseleite, mas nada que não possa ser aprimorado ao longo do tempo.
HERCIO KRABBE

TEUTÔNIA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/11/2006

Prezado editor,

Inicialmente, cumprimentos pelo editorial. É muito importante cada atividade conhecer a sua importância na cadeia produtiva. Por outro lado, também reconhecer as suas limitações. A organização em cooperativas fortes, associações bem estruturadas (exemplo AFUBRA) ou mesmo consórcios de produção, certamente são estratégias mais necessárias do que pensar na criação de marcas próprias de lácteos na convicção de que quanto mais marcas concorrentes melhor.

As marcas de leite longa vida no mercado brasileiro já passa de cento e cinqüenta. As mudanças são muito rápidas tanto na produção como nos processos industriais, pois quem se instala por último se instala melhor.

Acredito que temos muito mais a ganhar em organização da produção para então relacionarmos melhor com indústrias competitivas tanto no mercado nacional e internacional.
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/11/2006

Infelizmente, quase todas as experiências no campo do cooperativismo no Brasil foram sepultadas por administrações catastróficas ou, até mesmo, desonestas, que quedaram por dilapidar o patrimônio das entidades e, em alguns casos, dos próprios cooperados, mormente no caso do leite.

Nem mesmo a argentina Sancor resistiu. Daí a considerabilidade dos desafios a serem vencidos pelos produtores para agruparem-se, num país em que não é tradicional a união entre os integrantes de um mesmo setor. Resta-nos, assim, o indefectível "cada um por si" e Deus por todos. Se é que Ele é mesmo brasileiro, como comentam - certamente não está ligado ao mercado do leite.

Na seara da individualidade, o pequeno sai sempre perdendo, já que o grande produtor, com mais de oito mil litros/mês, é um pouco assediado pelos laticínios e pode exigir preços mínimos para o seu produto (não muito alto, mas que lhe permita não perder em excesso), principalmente neste período de águas e pseudo-abundância.

Foi o que conseguimos fazer com nosso fornecedor e estamos, pelo menos, conseguindo empatar as contas, ao invés de patinar no vermelho. Queria que todos os colegas conseguissem atingir este patamar, mas é muito difícil.

Por outro lado, se não fosse a dificuldade, seria sem graça. Pode parecer humor negro mas, se eu, que me considero pequeno grão de areia no deserto, consegui, meus companheiros têm condições de, também, gozar do benefício de suas produções, mesmo que seja só para andar no rumo do azul em suas contas e aumentar a produção, com a melhoria genética dos rebanhos e da qualidade do leite produzido. Ânimo e mãos à obra.