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Austrália: o Brasil do futuro ?

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 20/12/2002

4 MIN DE LEITURA

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Para a última semana do ano, trazemos uma entrevista inédita com Robert Pettit, especialista em mercados internacionais de lácteos da Australian Dairy Corporation, a entidade que estuda o agronegócio lácteo na Austrália e que é mantida pelos produtores.

A Austrália é, possivelmente, o país cujas características mais se assemelham às brasileiras, apesar de guardar também enormes diferenças. Entre as semelhanças, pode-se destacar:

- a vasta extensão territorial
- o papel dos rebanhos como desbravadores de novas fronteiras
- a grande importância relativa do agronegócio na economia do país
- a latitude
- mais especificamente em lácteos, o livre mercado no setor

Entre as diferenças, pode-se citar:

- a densidade populacional, bem inferior à brasileira
- o PIB per capita, bem superior
- o clima, com grandes áreas sujeitas à seca
- o foco definido da indústria láctea na exportação
- produtores de leite bastante organizados
- cerca de 11 mil produtores apenas, produzindo pouco mais da metade do que o Brasil produz com mais de 800.000 produtores
- na medida do possível, boa relação entre os elos da cadeia

Em função das semelhanças e mesmo das diferenças, conhecer e acompanhar o setor lácteo (e mesmo outros setores) da Austrália pode se constituir em um interessante e oportuno exercício para todos aqueles que atuam no Brasil. Muito daquilo que aconteceu e acontece na Austrália pode ser analisado sob a ótica brasileira. É um dos poucos países desenvolvidos com os quais essa comparação pode ser feita, senão o único. A Nova Zelândia, por exemplo, apresenta uma situação bastante distinta de mercado, com praticamente um monopólio dos produtores de leite, materializado na ex-New Zealand Dairy Board e hoje na Fonterra Cooperative Group.

A desregulamentação do setor lácteo australiano, terminada em 2000, colocou o livre mercado em funcionamento. Como nos mostrou Pettit, o preço caiu significativamente, produtores (mais) e indústrias foram afetados, o varejo e os consumidores foram os grandes beneficiados. Porém, após um período inicialmente crítico, é bem verdade que amenizado por programas de auxílio aos produtores, tudo indica que a cadeia do leite da Austrália vai encontrando um novo caminho, baseado no entendimento da necessidade de cooperação e não de confronto, tendo sempre o acompanhamento de perto do governo e da AACC, o CADE deles, responsável por evitar abusos de poder econômico.

Com a desregulamentação, a Austrália cria, definitivamente, as condições para atuar com sucesso em um mercado internacional menos distorcido pelos subsídios. A competitividade nasce dentro do país, sem artifícios excusos e falsos. Um aspecto interessante colocado por Pettit é que o grande ganho de competitividade da Austrália ocorreu a partir do acordo de livre comércio com seu vizinho, a Nova Zelândia. A partir daí, houve uma espécie de "choque" de profissionalismo e o setor teve de se mexer.

No Brasil, como já se sabe, a desregulamentação foi feita de uma só vez, sem que houvesse estudo e preparação prévios, para que os efeitos negativos fossem minimizados. Pegou todos de surpresa, em especial as cooperativas e produtores, que arcaram com a maior parte do ônus do processo. Hoje, em meio a um livre mercado muito discutível, o setor vai discutindo soluções, sendo forte inclusive a corrente dos que pregam o retorno de uma maior interferência do governo, evitando as distorções que existem.

O fato é que ainda estamos cicatrizando as feridas da desregulamentação. Esse ano trouxe avanços, como já comentado nesse espaço, que devem ser notados no que se refere à organização da cadeia produtiva do leite. A aprovação das novas normas de qualidade, que, afinal de contas e apesar dos pesares, era uma antiga reivindicação do setor, após um longo processo de discussão e entendimento entre grupos com opiniões inicialmente opostas, refletindo amadurecimento no setor.

Mais recentemente, a inclusão do leite na PGPM, que deve sair no Diário Oficial nessa semana, também representa um avanço na tentativa de organizar a cadeia do leite no Brasil.

Por fim, aquela que considero a iniciativa mais promissora do ano e a que pode indicar os caminhos futuros, foi a constituição do Conseleite, no Paraná, um conselho paritário, formado por representantes dos produtores e das indústrias, com mediação da universidade, com o objetivo de acompanhar os custos e as margens ao longo da cadeia do leite.

Esses são exemplos claros dos ajustes que vêm sendo feito pela cadeia do leite, com o objetivo de produzir um ambiente comercial que seja mais benéfico para - pelo menos - produtores e indústrias.

Por tudo isso, o exemplo australiano deve ser acompanhado. É um país que vem levando o leite a sério, sem a aplicação de subsídios e com o livre mercado funcionando. Há contratos de longo prazo (até 3 anos) de fornecimento de leite entre produtores, indústrias e varejo. Há um forte compromisso de capacitar a indústria láctea do país a operar em um mercado global possivelmente mais franco.

Temos agora uma oportunidade inédita de intercambiar conhecimentos com a Austrália, através da constituição da Aliança Láctea Global, cujos objetivos de combater os subsídios permitirão uma maior aproximação entre Austrália e Brasil. Conhecendo a fundo a Austrália, poderemos encurtar muitos dos caminhos que já começamos a trilhar.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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