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Associativismo e produção de leite caminham juntos

Entre os 10 condados ("counties") de maior produção de leite nos Estados Unidos, apenas 1 fica localizado a leste das Montanhas Rochosas. Todos os demais estão a oeste, mais especificamente na Califórnia, no Arizona e no Novo México, sendo caracterizados por rebanhos de grande porte, onde um rebanho de 1000 vacas em lactação chega a ser pequeno.

O condado em questão é Lancaster County, na Pennsylvania, e que figura na nona produção nos EUA, com mais de 900 milhões de kg anuais (seria o 6º maior Estado produtor de leite se estivesse no Brasil), produzidos a partir de 94.700 vacas, distribuídas em 1.938 rebanhos, ou seja, uma média de 49 vacas por fazenda, produzindo 1.270 kg de leite cada uma por dia. A média de mais de 9.500 kg/vaca/ano é superior à média do Estado e superior à média norte-americana.

Além dos solos ricos, do clima favorável e da tradição agrícola muito forte - é o condado de maior produtividade de agricultura não irrigada dos EUA - Lancaster County tem uma característica muito particular em relação à agricultura. Tem grande presença de comunidades Amish, grupo religioso originário da Europa e que procura manter intactos os valores e as características vigentes nas vilas rurais do século 17. Assim, não utilizam eletricidade, não têm carros, falam um antigo dialeto alemão (embora saibam inglês e se comuniquem nessa língua com as demais pessoas), normalmente não se casam com pessoas de fora (há inclusive um crescente problema de consangüinidade em suas comunidades), não tiram fotografias e se vestem em trajes típicos, entre outros aspectos. Os Amish têm um elevado senso de comunidade, até porque são praticamente isolados do restante do mundo, dados seus costumes.

A atividade leiteira está no sangue dos Amish. De cada 4 fazendas de leite de Lancaster, 3 são operadas por eles. Nesse sentido, pode-se dizer que são muito bem sucedidos. Ao contrário do que vem ocorrendo na pecuária de leite norte-americana, a taxa de redução do número de propriedades entre eles é surpreendentemente baixa. Enquanto nos últimos 10 anos o país perdeu nada menos do que 41% de suas fazendas de leite, entre os Amish a redução foi de apenas 5%. Os Amish preferem trabalhar com fazendas que possam ser manejadas por uma única família, sendo a mão-de-obra sempre familiar, o que ajuda a explicar o fato, mas não responde à questão de como conseguem manter pequenas fazendas competitivas frente à elevação de custos e à competitividade crescente de mercado às quais, como os demais produtores, os Amish estão sujeitos.

Beth Grove, produtora de leite que veio da Virginia, acredita que o segredo para a estabilidade está nos valores familiares e na cooperação entre os fazendeiros, que cria um tecido favorável para o desenvolvimento da atividade, mesmo em escalas de produção supostamente pouco viáveis.

Lorraine Merrill, produtora de leite e articulista da revista Hoard's Dairyman, tem a mesma opinião. Afirma que o motor da agricultura no condado de Lancaster está na dedicação da comunidade ao campo, às famílias e à cooperação mútua. Isso vale para a infra-estrutura agrícola de extensão rural e serviços.

Pode-se argumentar (suposição do autor) que, devido aos hábitos modestos, os Amish têm menos despesas e por isso não são produtores típicos, ou seja, têm custos de vida mais baixos. Também, o custo de oportunidade de seu trabalho tende a ser menor, visto que outros fatores que não apenas os econômicos pesam em decisões como abandonar a atividade rural e procurar trabalho nas grandes cidades, por exemplo.

Embora esses argumentos possam proceder, não deixa de ser intrigante o fato de, em meio aos 10 maiores municípios produtores de leite dos EUA, todos caracterizados pela alta tecnologia e pela produção em larga escala, haja uma improvável exceção, cujos integrantes permanecem presos em grande medida aos hábitos e costumes de mais de 300 anos atrás. Isso, vale frisar, no país da tecnificação, da profissionalização e do resultado econômico.

Uma primeira análise é que, apesar de paradoxal, os Amish são tecnificados. Valorizam a alta produtividade e o gerenciamento eficiente, muitas fazem controle leiteiro oficial, mantém as fazendas limpas e bem cuidadas, fazem plantio direto, rotação de culturas e têm preocupações ambientais, ou seja, o fato de serem pequenos ou mesmo de estarem com um pé no passado, são produtores familiares profissionais.

Além disso, outra possível explicação é que valores familiares e a cooperação entre famílias parecem ser características atreladas à produção de leite em qualquer lugar do mundo e, quando presentes, compensam em certo grau escalas de produção menores e outras desvantagens atreladas à pequena produção. Quando existem condições sociais e culturas para isso, o leite pode se desenvolver. No Paraguai, a comunidade Menonita, grupo religioso semelhante aos Amish, também é responsável por uma pecuária de leite bastante desenvolvida e distinta daquela verificada no restante do país.

No Brasil, embora não tenhamos estes grupos em larga escala a ponto de poder servir de exemplo, há situações onde cooperação, tradição e valores familiares se conjugam no campo, tendo como resultado o desenvolvimento da pecuária de leite. Basta acompanhar a tradição e o sucesso da atividade em colônias como as existentes no Paraná (Castro, Carambeí, Arapoti), ou o crescimento em regiões como o Oeste do Paraná, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, onde a colonização européia é forte e, com ela, o cooperativismo, os valores familiares e a própria tradição leiteira, mistura a atividade com seu o próprio modo de vida das pessoas e das famílias. Para Glenn Shirk, extensionista aposentado em Lancaster, "lá, a agricultura é um negócio, mas mais do que isso, é um modo de vida e um local para treinar e educar os jovens".

Indo a outro extremo, é fato sabido o crescimento da atividade leiteira em assentamentos da reforma agrária, seja em São Paulo ou no norte do Mato Grosso. O leite é intensivo em mão-de-obra, permite escala em áreas pequenas (o que explica também o crescimento da produção no sul do país), fixa o homem na terra e gera receitas mensais, características favoráveis ao desenvolvimento em assentamentos. Além disso, essas estruturas, à sua moda, carregam um pouco das características dos Amish: grande cooperação interna, capacidade de mobilização e provavelmente um certo sentimento de isolamento e exclusão.

No final das contas, fica a impressão de que, talvez mais do que em outras atividades agrícolas, tradição, valores familiares e cooperação mútua exercem um papel de grande importância para o desenvolvimento da atividade leiteira, explicando parte deste desenvolvimento em determinadas regiões e comunidades.

Por estes exemplos, cooperação e associativismo estão para a atividade leiteira assim como a produção em larga escala está para a moderna agricultura do cerrado. Essa característica parece transpor fronteiras e culturas, ajudando a explicar tanto a resistência de pequenos produtores no leste norte-americano, de certa forma perdidos no tempo, como as características do crescimento da atividade no Brasil, embora sob uma realidade claramente distinta.

Fotos de fazendas Amish:



MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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ALEXANDRE OLIVAL

ALTA FLORESTA - MATO GROSSO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/01/2005

Marcelo,

Parabéns pelo artigo.

A cada dia que passa cresce o interesse pelas características sociais e culturais como fatores formadores do chamado "capital social". Seu texto mostra mais um exemplo da importância da quantidade e qualidade do relacionamento entre produtores rurais como fator decisivo para a geração de renda.

A grande questão a ser respondida nestes tempo é que existe a possibilidade de fomentar este tipo de relacionamento (valores, reciprocidade, comunhão de idéias etc.) em regiões onde não há esta tradição. E mais, se existe como fomentar, quais os métodos a serem utilizados? O trabalho aqui no instituto Ouro Verde, seja pelas pesquisas ou pelos projetos que realizamos, caminha exatamente neste sentido.

Abraços
Alexandre Olival


RICHARD JAMES WALTER ROBERTSON

RIO VERDE DE MATO GROSSO - MATO GROSSO DO SUL

EM 16/01/2005

Como convencer o ser humano da importância do COOPERATIVISMO?

O próprio nome já diz: Cooperação entre os membros.

Cultivar este espírito é um calvário para os líderes, cada um com a sua cruz. Mesmo entre os assentados, existem grupos divergentes (a prova disso é o imenso número de "ramificações" - entenda-se dissidências - do MST por este Brasil afora).

Por que razão a maioria dos produtores brasileiros dá as costas ao cooperativismo? Por que desconfiam tanto de suas lideranças, reclamam de preços (sem levantar sequer seus custos) e vivem choramingando isolados em suas propriedades?

Infelizmente, em nosso país, ainda impera a lei do "ganha-perde", onde sempre alguém tem que levar a maior vantagem. Para agravar a situação, existe um enorme senso destrutivo na maioria das propriedades, onde tudo se tem que extrair, sem investimentos em sustentabilidade. Somam-se os sentimentos individualistas e hipócritas, crendices e analfabetismo.

Como não poderia deixar de ser, estas máculas são arrastadas também para algumas entidades de classe, associações e cooperativas.

O que está faltando mesmo é cada um olhar um pouco mais para dentro de si, para o cisco "de seu próprio olho", ignorando um pouco a "trave nos olhos dos outros". Falta pensar grande, pensar para a frente, deixando de lado os orgulhos, egoísmos e visões imediatistas.

É a velha história: EDUCAÇÃO (em todos os sentidos). Prá variar, a solução para isto vem a longo prazo (é bom lembrar que ainda temos atitudes mesquinhas que o mais primitivo dos macacos recriminaria).

Enfim, se cada um de nós fizer a sua parte SEM ESPERAR QUE OS OUTROS FAÇAM PRIMEIRO, o resto é conseqüência.

Richard J. W. Robertson, MVet
Consultor técnico do EDUCAMPO