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As mudanças na população brasileira e seus efeitos no mercado de leite

Na semana passada, o IBGE divulgou a Revisão 2004 da Projeção da População para o período 1980-2050. O material teve ampla repercussão na mídia - e com razão: afinal, ao projetar a população e a estrutura da pirâmide etária do país para os próximos 50 anos, o IBGE dá pistas importantes para que as empresas e setores se preparem para uma realidade em franca mudança e que, conforme veremos a seguir, mudará mais rapidamente ainda. Neste cenário de mudança, é possível que determinados produtos e serviços percam a importância e, ao mesmo tempo, outros surjam ou se fortaleçam, ao suprir a demanda de uma população com características distintas das atuais.

Sendo mais específico, o que a projeção da população brasileira e sua pirâmide etária têm a ver com o setor leiteiro? Para iniciar nossa conversa, apresento o resumo de um trabalho feito pela consultoria A.T. Kearney, que analisou quais os fatores afetam a atratividade para o investimento direto por parte das empresas. Em primeiro lugar, disparado, está o tamanho do mercado, muito à frente da estabilidade política, ambiente regulatório e estabilidade macroeconômica (gráfico 1).

Gráfico 1. Importância do tamanho do mercado - fatores de atratividade para empresas


Fonte: Prof. Roberto Macedo, FIA, 2004

Pode-se argumentar que o acesso ao mercado exportador é um item fundamental hoje em dia, uma vez que permite utilizar determinados países com vantagens comparativas para produção, utilizando-os como base exportadora. É provável que a importância desse item como fator de atratividade para empresas cresça, especialmente se houver efetivamente formação de blocos econômicos, como ALCA. Mesmo sem os blocos, no caso do Brasil, a participação crescente no mercado internacional é algo real. Porém, pelos dados do trabalho, o que importa mesmo para definir atratividade é o tamanho do mercado (a China que o diga!). Por isso, analisar a taxa de crescimento populacional nos próximos anos e o perfil da população é de suma importância para analisar a atratividade do mercado de um país ou região para os anos futuros.

Antes de analisar o futuro, vale a pena trazer algumas informações do passado. A evolução demográfica no Brasil, ao longo do século XX, foi das mais altas do mundo. Conforme pode ser visto na tabela 1, de 1900 a 2000, o mundo pulou de 1,575 bilhão de pessoas para 6,093, um aumento de 287%. A Europa, por sua vez, passou de 290 milhões para 510 milhões, aumento de 76% em 100 anos. Os Estados Unidos, de 76 milhões para 273 milhões, incremento significativo de 259%. Já o Brasil, passou de 17,3 milhões para 166,7 milhões, nada menos do que 864%! Percebe-se, analisando-se esses dados, que o Brasil foi, ao longo do século XX, um mercado em franco crescimento, sem esquecermos do fato de ter, em termos absolutos, uma grande população. Esse fator certamente tem sido atrativo para as empresas, além de nos fazer pensar que administrar um país cuja população cresce quase 1000% em 100 anos é muito diferente (bem mais complexo) de outro que cresce menos de 100%...

Tabela 1. Evolução demográfica do século XX (em milhões)


Vamos agora olhar para frente. Essa taxa de crescimento se manterá até 2050, com grandes incrementos de população? Embora o país continuará a crescer bem mais do que outros países em termos populacionais (veja a tabela 2), o ritmo será menor do que o verificado no século passado, fruto direto da redução da taxa de fecundidade, isto é, do número de filhos por mulher. Para ficar em um exemplo, enquanto em 1980 as mulheres tinham em média 4,06 filhos, hoje esse número é de apenas 2,31 filhos por mulher, podendo chegar a 1,85 filhos por mulher - valor inclusive inferior à quantidade que estabiliza a população.

Tabela 2. Variação da população de determinados países, de 2000 a 2025 (em milhões)


Esses dados mostram que, se por um lado o país continuará a crescer bastante em termos populacionais, o ritmo será menor do que o até então verificado.

Mas esse não é o único dado a ser obtido desse trabalho. Talvez o mais relevante para o setor leiteiro é que a pirâmide populacional do país está se alterando de forma bastante drástica. A expectativa de vida, hoje já em 71 anos, passará para 81,3 anos em 2050. A maior expectativa de vida, aliada à menor taxa de fecundidade, levará a um envelhecimento da população brasileira. Para se ter uma idéia da magnitude destas transformações: no início da década, tínhamos 18,3 idosos (pessoas de mais de 65 anos) para cada 100 indivíduos de 0 a 14 anos. Em 2050, esse número pode chegar a 105,6! Analisando o mesmo cenário por outro ângulo, enquanto em 2000 o grupo até 14 anos representava 30% da população, ante 5% acima de 65 anos, em 2050 ambos terão 18%.

Colocando em termos numéricos, em 2000 tínhamos cerca de 50 milhões de pessoas na faixa de 0-14 anos (30% de 166,7 milhões), ao passo que, em 2050, a previsão é que tenhamos menos: 46,8 milhões (18% de 260 milhões). As figuras abaixo dão uma idéia da brutal mudança na pirâmide etária brasileira, utilizando os valores de 1980, 2000 e a projeção para 2050.





Qual o impacto disso? Evidentemente, a já combalida previdência entrará em colapso caso não haja alguma alteração significativa, visto que a proporção de beneficiários aumentará muito em relação aos contribuintes. Mas, sendo mais objetivo e restrito ao setor lácteo, esse cenário deveria ser motivo de preocupação do setor, uma vez que, sabidamente, o maior consumo de lácteos se dá na infância, até os 10 anos de idade. Segundo informações do Latin Panel, cerca de 23% dos domicílios nacionais têm crianças e consomem 30% do total de leite fluido comercializado no país.

Dessa forma, caso estas previsões sejam concretizadas e, não havendo nenhuma grande mudança no hábito de consumo da população, a verdade é que teremos, em 2050, menos pessoas justamente na faixa de maior consumo de lácteos do que tivemos em 2000, algo a que não estamos acostumados. Pode-se argumentar que, com o desejável aumento (e melhor distribuição) da renda, o consumo per capita suba, gerando um mercado real maior. Ótimo, mas mesmo assim, não se pode fugir do fato por trás destas projeções - que o setor lácteo nacional terá de lidar com dois aspectos relativamente novos: menor taxa de crescimento populacional e crescimento menor ainda (ou decréscimo) nas faixas de maior consumo de lácteos. São desafios consideráveis.

A pergunta que devemos fazer hoje é o que o setor fará para não ser surpreendido pela mudança na pirâmide etária, que representa, sob o olhar de hoje, uma ameaça ao vigor do mercado interno de lácteos. Como uma primeira e óbvia análise, é válido considerar a necessidade de desenvolver cada vez mais produtos lácteos focados nas populações mais velhas, visto que essa categoria será a de maior crescimento, além de representar uma oportunidade real de mercado em função da incidência de osteoporose.Também, é fundamental que se trabalhe o posicionamento dos lácteos para outros segmentos que não apenas a infância. Há trabalhos da DMI (entidade que faz o marketing de lácteos nos EUA) que sugerem que, ao conseguir elevar o consumo de lácteos na adolescência, é muito provável que, quando adultos, esses adolescentes serão consumidores de quantidades consideráveis de lácteos. Portanto, focar produtos para o adolescente é também uma estratégia importante para garantir o tamanho do mercado nos anos seguintes.

As mudanças sempre geram ameaças, mas também trazem oportunidades para quem souber se antecipar e se posicionar. Felizmente, para o setor leiteiro, as mudanças que estão ocorrendo na pirâmide etária não são bruscas e imprevisíveis, de forma a dificultar que nos preparemos a elas. Pelo contrário, ocorrem lentamente e de forma previsível e conhecida. De posse destas informações e sabendo o que nos espera nos anos seguintes, fica o desafio de começar a pensar o futuro e criar as bases para o crescimento contínuo do mercado de lácteos, mesmo que sob enfoque distinto do atual.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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