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Aftosa no MS: la culpa es de la vaca!

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 31/10/2005

6 MIN DE LEITURA

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Analisando a competitividade da indústria do couro na Colômbia, os consultores Michael Fairbanks e Stace Lindsay, da consultoria Monitor, identificaram que um problema central era a baixa qualidade das bolsas de couro percebida pelos clientes norte-americanos, um dos principais mercados consumidores do produto. Se a qualidade pudesse ser aperfeiçoada, diziam os lojistas norte-americanos, o posicionamento da Colômbia nesse importante mercado poderia ser em muito melhorada.

Eles então procuraram compreender as razões para essa baixa qualidade. Começaram visitando as indústrias processadoras de couro, que prontamente disseram haver pouco a fazer - "la culpa es de los curtiembres", explicaram, ao dizer que os curtumes eram os responsáveis pelo problema, ao suprir a indústria com couros consistentemente abaixo do padrão. Ademais, não podiam importar o produto argentino, de melhor qualidade, em função das tarifas de importação mais elevadas.

Os curtumes, por sua vez, admitiram o problema, mas afirmaram haver pouco o que fazer: "no es nuestra culpa". Segundo eles, faziam um ótimo trabalho ao processar o couro, que já vinha com má qualidade dos frigoríficos que, conforme explicaram, se preocupavam unicamente com a carne. Não satisfeitos, os consultores entrevistaram os frigoríficos, que ouviram atentamente, concordaram com o problema e logo deram seu veredicto: "la culpa es de los rancheros". O problema, portanto, estava no início na cadeia, com os próprios fazendeiros.

Fairbanks e Lindsay foram, dessa forma, reportar a constatação aos produtores, entendendo que havia ali uma grande possibilidade de melhorar a competitividade da indústria colombiana através do maior cuidado na produção, criando, lá na frente, um produto de qualidade superior e com melhor precificação nos mercados importadores. Ao entrevistar diversos produtores, eles resumiram a opinião mais comum: "no es nuestra culpa - la culpa es de la vaca", que se esfregava freqüentemente no arame farpado, danificando o couro. O problema, por fim, estava identificado pelos consultores: as bolsas de couro colombianas eram de má qualidade porque as vacas colombianas eram estúpidas!

Esse episódio foi narrado no excelente livro Plowing the Sea: Nurturing the Hidden Sources of Growth in the Developing World ("Arando o Mar: Fortalecendo as Fontes Ocultas do Crescimento em Países em Desenvolvimento"). Os autores viveram durante vários anos em países andinos e, nesse período, prestaram consultoria a governos e cadeias produtivas, visando identificar as causas do subdesenvolvimento sob a ótica da competitividade, especialmente no que se refere aos mercados externos.

Fairbanks e Lindsay apontaram que, em muitos exemplos como esse relatado acima, os países em desenvolvimento apresentavam um padrão caracterizado pelos seguintes comportamentos:

1. Excessiva dependência de vantagens comparativas naturais: assume-se que as vantagens naturais e o baixo custo da mão-de-obra são e serão sempre suficientes para garantir uma posição competitiva sustentável no mercado exportador.

2. Baixa cooperação entre empresas: a má coordenação entre empresas interligadas, como no caso do couro colombiano, coloca toda a indústria em séria desvantagem competitiva.

3. Baixo conhecimento a respeito do comportamento do consumidor: as empresas tendem a produzir seus produtos e depois encontrar um mercado para vendê-los. Pouco tempo é dedicado para entender o que os consumidores realmente valorizam, assim como há pouco entendimento a respeito das implicações estratégicas de longo prazo de servir (ou não) determinados segmentos de consumidores.

4. Ausência de integração vertical: muitas empresas estão tipicamente à mercê de distribuidores que intermediam o setor e têm grande poder de barganha. Esses distribuidores possuem grande conhecimento do mercado e impedem que as empresas se aproximem dos consumidores. As firmas que conseguem integrar verticalmente, via de regra focam seus ganhos no curto prazo e raramente re-analisam ou re-inventam sua fonte de vantagem competitiva.

5. Paternalismo: o governo é sempre tido como o maior responsável pelo sucesso ou fracasso das cadeias produtivas e não tem sido eficaz na garantia ou provimento de vantagens sustentáveis. Como muitas empresas se acostumam a ter sempre o auxílio do governo, acabam não tendo grande pressão competitiva e acabam se alicerçando em vantagens facilmente imitáveis.

6. Baixo conhecimento da posição relativa: nem as empresas, nem os governos compreendem sua posição relativa frente a outros países ou outros competidores. Sem esse conhecimento, torna-se mais difícil prever e se posicionar para a competição futura.

7. Postura defensiva: quando há uma crise, os setores público e privado se colocam em posições antagônicas, cada qual colocando a culpa no outro. O setor público acusa o privado de má gerência estratégica, ao passo que o setor privado acusa o governo de não criar um clima macroeconômico necessário para que determinada crise não se estabelecesse. Os dois lados têm bons argumentos, parecem certos e, com isso, impede-se a busca de soluções que resolvam o problema.

Segundo os autores, esses sete padrões se repetem em países em desenvolvimento e impedem que se construa o desenvolvimento a partir de vantagens comparativas sustentáveis. É evidente que há outras razões que explicam o processo de desenvolvimento, mas a análise dos consultores da Monitor permite que se reflita a respeito da posição competitiva desses países.

O livro foi escrito em 1997 e os autores não moraram no Brasil, mas pode-se inferir que os padrões apresentados para a falta de competitividade servem, em maior ou menor grau, para explicar a atual crise envolvendo os focos de febre aftosa, bem como outros exemplos de diversas cadeias produtivas brasileiras.

A postura defensiva é a face mais evidente dessa semelhança. Assim que houve o problema, o governo, no caso representado pelo próprio presidente da república, se prontificou a colocar a culpa no setor privado, ao passo que este, na trincheira oposta, reclamou da falta de verbas que colocava em risco um mercado exportador de US$ 3 bilhões ao ano. Nesse episódio, parece que poucos, tanto do governo quanto do setor privado se ocuparam em analisar e se precaver dos possíveis efeitos que uma crise como a que envolve os surtos de aftosa no principal estado exportador brasileiro poderia trazer. Se houve essa análise, não foi suficiente para uma ação efetiva para redução dessa ameaça.

Nesse ponto, vêm à tona a baixa cooperação entre empresas e o próprio governo. Embora seja uma doença de erradicação conhecida e até certo ponto fácil, o processo é trabalhoso e envolve a estrita cooperação entre produtores e frigoríficos, com a participação dos governos estaduais e e federais. Não bastasse esse arranjo que ainda é raro no setor pecuário, há a necessidade de cooperação internacional, com os países de fronteira, que podem tornar inócuo um trabalho interno bem feito no que se refere à sanidade animal.

Sem dúvida, obter esse arranjo, de forma a erradicar a doença no maior rebanho do mundo dá trabalho, mas tudo aquilo que tem risco de ocorrência e que cujos efeitos podem ser desastrosos, exige uma ação preventiva. A cooperação entre empresas na questão sanitária funciona bem em outros setores, como no caso da citricultura, conforme apontou o editor do BeefPoint, Miguel da Rocha Cavalcanti (leia aqui). A inexistência de algo semelhante na cadeia da carne bovina pode ser creditada a maior complexidade da cadeia da carne bovina em comparação a cadeia da laranja (maior número de agentes envolvidos, maior abrangência da produção), mas também à falta de coordenação entre os elos, de forma a colocar em risco os expressivos números obtidos.

Falando em números, boa parte do tempo foi direcionada para comemorar os sucessivos recordes do setor, sem que se analisasse com profundidade as reais causas de sucesso (vantagens naturais comparativas) e a sustentabilidade das mesmas (duvidosa, caso ocorresse um possível ou mesmo provável problema sanitário). Aqui, surge mais um padrão recorrente em países em desenvolvimento: a excessiva dependência de vantagens naturais como fonte de vantagem competitiva.

O episódio dos focos de aftosa deve servir de alerta, ainda que dolorido, para que o setor deixe de repetir os padrões encontrados em países em desenvolvimento, que impedem que se tenha uma posição competitiva mais segura e mais rentável no mercado internacional. É preciso pensar no longo prazo, em um cenário no qual os ganhos são obtidos através de uma posição sustentável, dificilmente imitável e com o mínimo de riscos envolvidos.

A receita genérica está justamente na anulação dos padrões encontrados por Fairbanks e Lindsay: maior cooperação entre firmas, redução do paternalismo, posicionamento mais pró-ativo e menos defensivo dos elos e do governo, melhor entendimento do mercado consumidor e da posição competitiva, redução da dependência de vantagens naturais como fonte de vantagem competitiva (e que muitas vezes se mostram frágeis) e maior integração vertical.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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