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A vez do leite ?

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 10/11/2004

5 MIN DE LEITURA

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A produção de leite tem sido tradicionalmente associada ao baixo uso de tecnologia, à qualidade reduzida e à rentabilidade marginal, fadada, portanto, a se desenvolver em regiões e propriedades que não se prestam a atividades mais rentáveis. Com o crescimento do agronegócio de exportação, calcado na aplicação de tecnologia e na integração da cadeia de suprimentos, produção e processamento, intensificou-se essa visão do leite como "patinho feio" do agronegócio, que não gera receitas em dólares ao país, mas sim despesas, inclusive com importações significativas durante toda a década de 90.

De fato, se compararmos nossas médias de produtividade, seja por vaca, por área ou por qualquer outro parâmetro, veremos que o Brasil está muito atrás de outros países cuja pecuária leiteira está claramente mais avançada, situação muito diferente daquela verificada com a soja ou com a cana-de-açúcar, onde somos líderes mundiais e referência em produtividade. Uma forma mais positiva de analisar a atual situação tecnológica do setor é que, em todo o agronegócio, poucas atividades apresentam maior possibilidade de evolução do que o leite, havendo amplo estoque de conhecimento para tal.

A integração da cadeia, visando disponibilizar ao mercado produtos de alta qualidade e em custos compatíveis, além de reduzir os custos de transação e permitir o planejamento de longo prazo dos agentes, ainda é deficiente no setor leiteiro, bastando a comparação com a avicultura ou a produção profissional de grãos para que se possa situar o atual momento do setor leiteiro em relação a esse item.

Eis, no entanto, que algo de novo parece surgir no front do setor leiteiro. O mais evidente é o nascimento das exportações, como um processo gerado a partir do excedente da safra de 2001, que não encontrou (e ainda não encontra) um mercado interno com crescimento compatível, mas que vem ganhando contornos profissionais pelas mãos de tradings como a Serlac e empresas nacionais e multinacionais, como Itambé, DPA, Embaré e outras, que estão, de forma bem sucedida, abrindo seu espaço no mercado internacional. Contra boa parte dos prognósticos internacionais, o Brasil já está se tornando exportador e, entre os especialistas em mercado de lácteos, o país tem tudo para ser um dos grandes fornecedores mundiais do mercado de leite daqui a 10 ou 15 anos. As exportações, além de gerar divisas em moeda forte, atuam de forma muito benéfica quando há excesso momentâneo de oferta no mercado nacional, ao permitir o escoamento de lácteos para outros mercados e, assim, evitar ou minimizar quedas drásticas de preços.

No quesito qualidade do leite, temos também um cenário em evolução. Nota-se a intensificação na preparação do setor para a implantação das novas normas de qualidade a partir de julho de 2005, com envolvimento significativo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Agindo em outra frente, os principais laticínios preparam sistemas de pagamento por qualidade, visando atrelar a remuneração do produtor à remuneração do laticínio, coisa que, hoje, surpreendentemente não acontece, ou ao menos, não na intensidade desejada. Acredita-se que esses sistemas de pagamento, acompanhando a base legal das novas normas, terão condições efetivas de se traduzirem em avanços significativos e rápidos na qualidade do leite produzido no país. Mas o desafio é grande e o tempo é escasso.

A coordenação de cadeia, embora ainda aquém de outros segmentos do agronegócio brasileiro e do setor leiteiro de outros países, principalmente o da Nova Zelândia, dá mostras de avanços, como a criação bem sucedida do Conseleite, no Paraná, em 2003, que reúne produtores e indústrias e que gera balizadores de preços a partir de um mix de produtos, seus custos e preços de venda, ou pela constituição da Câmara Setorial do Leite, onde os principais agentes do setor se reúnem para discutir os problemas e caminhos do setor leiteiro no país.

Tudo isso permite ser otimista em relação ao setor leiteiro, em que pese ainda os enormes desafios e a noção realista de que muito ainda precisa ser feito; afinal, a agenda acumulada no setor é ainda extensa. Entre os itens constantes nessa agenda, pode-se destacar o fortalecimento das cooperativas bem gerenciadas e economicamente viáveis, equilibrando as forças na cadeia do leite, a intensificação do marketing do leite, que vem sendo, a duras penas, conduzido pela Láctea Brasil, a melhoria da qualidade do leite, a melhoria da relação entre produtores e indústrias, permitindo planejamento de longo prazo, calcado em uma relação de confiança mútua, a identificação de propriedades e práticas que geram eficiência econômica superior, o desenvolvimento de produtos, pela indústria, que permitam maior agregação de valor e o combate sistemático a fraudes, que prejudicam as indústrias sérias, que serão, acredita-se, as protagonistas do setor em um futuro desejado.

Não se pode também cometer o pecado do ufanismo. Apesar do inegável potencial para o Brasil se tornar um exportador de peso, muito precisa ser feito, inclusive em infra-estrutura. Segundo matéria publicada pelo MilkPoint, a infra-estrutura de secagem de leite é um gargalo e, se nada for feito, em 2006 provavelmente teremos problemas. É a escassez na abundância, como disse André Mesquita, da Serlac Trading, durante o excelente Congresso Internacional do Leite, realizado pela Embrapa Gado de Leite em Campo Grande, MS. Vale lembrar que, enquanto o Brasil exportará US$ 80 milhões nesse ano, o Uruguai fechará com mais de US$ 160 milhões e a Argentina deve alcançar US$ 500 milhões.

Tudo isso precisa ser feito para que o setor ganhe competitividade para atuar de forma consistente no mercado externo e interno, gerando valor para todos os elos e para o cliente. Os desafios de mercado serão consideráveis: as bebidas à base de soja, por exemplo, crescem a taxas consideráveis, embutindo uma percepção de saúde e com atrativos como sabor variado e agradável. Trata-se de uma ameaça que exige rápido posicionamento e ação efetiva do setor. Dentro do setor, à medida que o Brasil passe a ganhar espaço no mercado internacional, chamará a atenção de competidores, sendo prováveis não só barreiras tarifárias, mas principalmente as não-tarifárias, baseadas em aspectos ambientais, sanitários, trabalhistas e de manejo animal.

O Brasil tem todas as condições básicas para que o leite tenha o mesmo sucesso verificado em outras cadeias: custo de produção comparativamente competitivo e que pode ser melhorado; ampla disponibilidade de área agricultável nas várias regiões do país; mercado interno em crescimento e cujo consumo ainda pode ser em muito melhorado; vocação para o agronegócio de exportação. É preciso, no entanto, transformar essas vantagens comparativas em vantagens competitivas, atuando sobre a extensa agenda que ainda está por fazer. Isso feito - como já está sendo feito - a resposta à pergunta do título já está respondida: sim, será a vez do leite!

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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LEONARDO FRANCO LACHTERMACHER

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO

EM 17/11/2004

Adorei o artigo, concordo plenamente. Faltam ferramentas e força de vontade por parte dos nossos políticos...
PAULO FERNANDO ANDRADE CORREA DA SILVA

VALENÇA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/11/2004

Marcelo,

A sua visão otimista também é a nossa. Acabamos de assinar um inédito contrato de 12 meses para fornecimento de resíduo de cervejaria (cevada) que nos dará uma importante redução de custo com estabilidade na alimentação dos nossos rebanhos.

Um abraço.

Paulo Fernando (Poleca)
www.APLISI.com.br
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