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A emergência do Brasil no cenário mundial: como ficam os lácteos?

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 10/06/2009

6 MIN DE LEITURA

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A crise econômica mundial parece ter tido um efeito positivo para o Brasil. Mostrou a solidez do sistema bancário e reforçou a importância do sistema de suporte social governamental para manter viva a economia em épocas complicadas (Bolsa-Família + aumento real anual do salário mínimo desde 1996).

Dados compilados pelo Bradesco e apresentados no Seminário BM&F Bovespa, sobre Perspectivas para o Agronegócio em 2009 e 2010 indicam que o Brasil deverá estar entre os 10 países de maior crescimento econômico nestes dois anos. Para ser mais preciso, o Brasil deverá estar entre os países com menor queda no PIB, mas de qualquer forma está no pelotão da frente no quesito resistência à crise.

Segundo Octávio de Barros, diretor de estudos e pesquisas econômicas do banco, o Brasil já não disputa recursos: é visto como melhor alternativa para o longo prazo, junto da China, considerando risco e retorno.

É interessante que essa nova realidade (considerando que de fato são novos tempos) comprova o que dois estudos anteriores apontavam: o relatório da CIA (de 2004), sobre o Mundo em 2020, que colocava o país como um importante pivô regional, amplamente integrado com as principais economias mundiais; e o estudo do Goldman Sachs, de 2003, colocando o Brasil como a quinta maior economia do mundo (hoje, somos a décima), cunhando definitivamente o termo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), para definir as novas economias mundiais que polarizarão com os Estados Unidos, Europa e Japão.

O Brasil, logicamente, não é o único (nem o principal) país emergente que desfruta dessa posição de destaque. Na verdade, desde meados da década de 90, o PIB dos países emergentes vem crescendo bem mais do que o PIB dos países desenvolvidos. O gráfico abaixo, do FMI, mostra isso. Em vermelho, a variação do PIB das economias avançadas; em azul, das emergentes; em cinza, a média mundial.



Nesse novo contexto, o Brasil começa a se destacar. De acordo com Barros, a apreciação do real em 2009 reflete a percepção do mercado de que o Brasil tem trazido boas notícias para a economia mundial. Mesmo com a apreciação da moeda em um cenário de preços mais baixos para as commodities, o Bradesco prevê saldo positivo de mais de US$ 23 bilhões em 2009.

Tudo isso parece muito bom, e é. Mostra que o Brasil vem sendo visto de outra forma pelo capital. Mas há outro lado a se considerar. Parte significativa do crescimento dos países emergentes nas últimas décadas se deu pela migração da produção oriunda de países desenvolvidos, o chamado "outsourcing". Buscando custos de mão-de-obra mais baixos, ambiente regulatório mais favorável e incentivos, muitas empresas fecharam ou reduziram atividades nas economias avançadas e investiram em países como os Tigres Asiáticos, Índia, China, México e Brasil, entre outros. Ficava impossível competir com salários chineses de US$ 60 mensais, por exemplo. Hoje, as empresas que produzem em solo norte-americano, canadense, europeu ou japonês precisam se reinventar, trabalhar com alta tecnologia, alto valor agregado ou serviços diferenciados para reduzir o peso dos custos inerentemente mais altos e recompensar o uso de mão-de-obra qualificada.

Essa recente apreciação do real e a contínua melhoria da distribuição de renda, reduzindo o número de integrantes das classes D/E e aumentando a classe média, parecem colocar o Brasil a meio caminho entre o paraíso do baixo custo verificado em países em desenvolvimento e a sofisticação tecnológica do então primeiro mundo.

Talvez haja algum exagero nessa afirmação; afinal, estamos longe, ainda, de ter renda per capita próxima dos países desenvolvidos. Mas estamos também bem longe de China, Índia e companhia. Em 2008 nosso PIB nominal per capita ficou pouco acima de US$ 10.000 (na 45ª posição); o da China, US$ 1.411; o da Índia, US$ 1.068. No bloco dos desenvolvidos, a Nova Zelândia teve PIB per capita nominal de US$ 30.000, os Estados Unidos, de US$ 47.000 e a Noruega, de US$ 81.000.

O que isso tem a ver com o leite? Depois de 2003, quando o risco-Lula atingiu seu ponto máximo e o dólar chegou a valor quase R$ 4,00, temos verificado uma apreciação da moeda brasileira, em grau superior à maior parte das moedas. Com isso, a competitividade do leite brasileiro vem sendo corroída, atingindo seu ponto máximo nesse exato momento, em que o real valorizado encontrou preços muito baixos para o leite no mercado internacional. No ano passado, o real valeu menos de R$ 2,00, mas o mercado internacional remunerava o leite a US$ 4.000, US$ 4.500. Ainda dava para brigar.

Vale lembrar que, ao ranquearmos nossa competitividade relativa em diversas cadeias do agronegócio, o leite não é exatamente nosso produto mais competitivo. Carne bovina, soja e etanol, por exemplo, aguentam conjuntura externa mais desfavorável do que o leite aguenta.

E há dados mostrando isso. No levantamento anual do IFCN, que compara dados de custos de produção em fazendas localizadas em diversos países utilizando a mesma metodologia de custos, nossa posição em 2007 não foi muito confortável (tabela 1). Estamos na terceira faixa de custos, de um total de cinco. E, para 2008, a tendência é piorar.



A pergunta que se faz é: pois bem, se o Brasil está entrando em uma nova fase realmente, se começa a ser visto como economia segura, se não disputa mais recursos, como disse Octávio de Barros, será que teremos custos mais elevados a ponto de dificultar nossa expansão no mercado internacional de lácteos, considerando ainda que não temos as mesmas vantagens comparativas inatas que outras cadeias do agronegócio têm?

Analisando hoje (veja gráfico abaixo), nossos preços de leite estão cada vez mais próximos dos preços norte-americanos e mais distantes dos preços sul-americanos e neozelandeses. No caso argentino, por exemplo, a desvalorização do peso, refletindo a situação econômica complicada do país vizinho, traz competitividade para o leite. A Conaprole, principal cooperativa uruguaia, anunciou preços de US$ 0,22/litro. Nós já estamos acima dos US$ 0,33/litro.

Gráfico 1. Preços do leite ao produtor (obs: sem correção para o teor de sólidos).

Clique na imagem para ampliá-la.

Há, claro, algumas ressalvas. Primeiro, falar em custo médio de produção no Brasil é complicado. A variação em uma mesma região é grande e superior à variação entre regiões. René Machado, da DPA, apresentou dados no Interleite Sul 2009, em Chapecó, mostrando que os custos variaram de R$ 0,45 a quase R$ 1,00 por litro, sendo esse espectro semelhante em todas as regiões estudadas. Provavelmente, se cada produtor desses fosse colocado no quadro acima, teríamos ampla distribuição, indo dos mais competitivos aos menos competitivos.

Segundo, nem todos os países terão condições para aumentar a produção, coisa que o Brasil possui, e de sobra. Nova Zelândia e Austrália são dois exemplos claros: não basta ser competitivo; é preciso ter condições (área, água) para produzir, o que estes dois países não têm, ao menos em grande volume.

Terceiro, é possível que a situação atual do mercado externo seja transitória. Em 2010, com alguma retomada do crescimento mundial e com o desestímulo na oferta, é esperada uma recuperação de preços para os lácteos. Esse aspecto, aliado ao segundo item, coloca novamente o Brasil na briga. Mas, de qualquer forma, é desconfortável ter uma posição intermediária na tabela de competitividade, dependendo de fatores "extra-campo" para fortalecer sua presença no mercado externo.

Se tudo isso for verdade, nossa posição no mercado externo precisa ser revista. De um lado, temos de identificar os produtores e sistemas mais competitivos e buscar na expansão desses modelos a competitividade antes garantida pela nossa fragilidade econômica, que desvalorizava a moeda. De outro, teremos de agregar valor. Afinal, há a hipótese de não sermos o grande abastecedor mundial de commodities lácteas produzidas a baixo custo. O desafio, nesse caso, seria muito maior.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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JOSÉ MARIA SOLIS

VAZANTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/06/2009

Prezado Marcelo,
Muito oportuno e coerente o seu artigo. Na verdade, produzir leite demanda um planejamento dentro de politicas que não temos controle. Em parte isso é devido a nossa falta de união. Nesse sentido, acho que a CNA é um órgão que podia fazer alguma coisa. Mas parece que nosso eco nessa Confederação perde longe para o da soja, etc.
MARIUS CORNÉLIS BRONKHORST

ARAPOTI - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/06/2009

Parabens, Marcelo, pelo bom artigo.

No momento, o leite é vilão no mercado pelas suscessivas altas, por varios motivos. Faço-lhe uma pergunta, responda com um artigo seu: Como fica o mercado interno, com preços de assustar na gondola do supermercado, na midia, e o produtor como fica nesta situação? E nossos preços internos em comparação aos la de fora?

Um abraço,
Marius

<b>Resposta do autor:</b>

Caro Marius,

Obrigado pela mensagem. De forma curta e grossa: os preços aqui em dólar estão bem acima do mercado internacional. Isso tende a elevar as importações mesmo com a tarifa externa comum de 27%. No mercado interno, há um certo descompasso: enquanto o UHT atinge valores recordes, outros produtos não acompanham. O preço ao produtor vem subindo bem, mas certamente menos do que no atacado e varejo.

Abraço,

Marcelo
JOSÉ HUMBERTO ALVES DOS SANTOS

AREIÓPOLIS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/06/2009

Muito opotuno o trabalho.
Algumas considerações: o preço médio recebido pelo produtor tem que ser analisado pelo volume médio x preço médio. Não tenho os dados, mas acredito que o pico de preço não representa o pico de produção, pelo contrário, o que evidentemente não nos leva a segunda faixa de preço, próximo dos USA, mas sim, mais próximo da quarta faixa, se não na quarta.
Outra coisa: a situação atual da economia faz com que o dolar não esteja em uma situação estável a R$ 2,00. Não podemos considerar que esse seja o preço, pois como você mesmo ressalta, já estivemos em R$ 4,00 e hoje estamos discutindo R$ 1,90 ou R$ 1,98, dentro de uma situação inédita de entrada de recursos externos por uma performance da nossa defesa da economia, que diga-se de passagem foi muito desacreditada por respeitáveis economistas com ranço político de viúva.

Acho sua preocupação válida, mas temos que ter cautela com os prognósticos. Lembra-se da recessão brutal que iamos enfrentar? Lembra-se do caos que o governo do PT iria causar nos fundamentos economicos? A nossa realidade, como voce bem disse, é inédita em termos de parâmetros.
Vamos continuar trabalhando...
HELVECIO OLIVEIRA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 12/06/2009

Parabéns Marcelo, sua análise está muito coerente.
Forte abraço Helvécio.
ANTONIO AUGUSTO MOREIRA FAGGIONI

FRANCA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 11/06/2009

Bom, tudo muito estranho. Hoje o resfriamento ficou na costas do produtor, o salario mínimo subiu e muito, ainda bem, mas quem abocanha tudo isso é a industria.
Veja, meu filho recebeu o mês passado R$ 0,60 quando na padaria a industria está vendendo o leite de saquinho a R$ 1,83 o litro. A minha pergunta é a seguinte: será que a industria tem um custo de R$ 1,23, qual será esse custo real? Sendo que o leite é isento de todos os impostos ICMS, PIS, COFINS, restando apenas o IRPJ e CSLL, mas esses são sobre os lucros. Segundo as regras, como a industria produz em escala os seus custos caem. Mas não é isso que estamos vendo e sim a industria cada vez mais voraz e espoliando o coitado do produtor.
Veja eles entram, dominam o mercado e depois pagam o que quer. Tudo é acertado no apagar das luzes com as poucas industrias que temos em cada região é vergonhoso o que verificamos no Brasil.

Esse preço não deve durar muito, logo virá algo que derrubará esse preço de forma fraudulenta. Infelizmente, aguardem...
WALDIR JOSÉ CAMARA FURQUIM

CORDISLÂNDIA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/06/2009

Prezado Dr. Marcelo

Realmente temos neste site excelentes e oportunas análises. Não há dúvida da importância de melhorar o padrão de vida da nossa população, inclusive com a melhoria da distribuição de renda. Além do aumento real do salário mínimo é fundamental o aumento real no valor do leite. A renda do leite é a principal remuneração de uma infinidade de famílias interioranas.

A produção de leite é atomizada e é um produto que demanta significativa mão de obra. Além de interiorizar recursos principalmente em menores cidades, segura mão de obra no interior e no campo.
Lembro ainda que o custo de um habitante na cidade pequena é tremendamente inferior que o de uma cidade grande. O custo de um habitante na zona rural então é bem menor ainda.

Vale a pena definir uma política que atenda a melhoria de vida do produtor de leite. O retorno social é muito grande.

Obrigado pela atenção e parabens.
Waldir
MÁRCIO TEIXEIRA

URUANA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/06/2009

Prezado Marcelo,

Parabéns pelo artigo, as informações nos mostram as diversas possibilidades que poderão acontecer.
Trabalho diretamente com a produção de leite a mais de 12 anos e tenho acompanhado as discussões técnicas de maneira intensa durante todos esses anos. Nesse tempo foi possível perceber o quanto a produção de leite evoluiu da porteira pra dentro, resfriamento do leite na propriedade, ordenha mecânica, nutrição animal, treinamento e capacitação de mão-de-obra, genética, etc (muitos investimentos foram feitos pelos produtores e isso afeta seus custos de produção).

Porém, tanto as políticas públicas como as entidade representantes de classe não acompanharam essa evolução e enfrentamos problemas que, na minha opinião, não deveriam estar ocorrendo atualmente. A importação de leite da Argentina nos últimos meses, a quase inexistência de assistência técnica aos produtores, e o monopólio da indústria e da rede varegista podem servir como exemplo. Ontem mesmo observei em uma padaria o leite sendo vendido a R$ 2,60. O meu último pagamento foi de R$ 0,62 (com qualidade). Deve ter alguma coisa errada não é?

Acredito que o Brasil continuará como promessa de país com chances de ocupar posição que realmente merece no cenário mundial de lácteos, mas ficará no "banho maria" como até hoje está. Os produtores estão fazendo a sua parte e amargam prejuízos a um bom tempo, enquanto o restante da cadeia, a própria sociedade, que não reconhece a nossa importância, e aqueles que deveriam nos defender, continuam pensando somente neles próprios sem reconhecer e valorizar quem trabalha no campo.

Abraço
Márcio
JORGE ABENI DE CAMPOS

POMPÉU - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/06/2009

Parabens, Marcelo, pela sua excelente análise, hoje não consigo mais entender esse mercado doido; recebo 38 centavos de dolar por um bom leite e aqui na minha cidade a disputa por leite está acirra. A DPA e Itambe não estão conseguindo acompanhar os preços da Perdigão e Embaré, estão pagando até 86 centavos de reais, vai entender esse mercado louco!
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