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Suplementação de Lipídeos-Ácidos Graxos e Implicações para Reprodução/Saúde Animal Parte - 2

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 05/08/2009

7 MIN DE LEITURA

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Este texto é parte da palestra apresentada por Charles R. Staples, da Universidade da Flórida, no XIII Curso de Novos Enfoques na Reprodução e Produção de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2009.

Como a suplementação de gordura pode ajudar a melhorar as taxas de concepção?

Folículos Ovarianos Maiores?

O diâmetro dos folículos dominantes passa de 3 mm para até 15 a 18 mm antes de sofrer regressão ou ovulação. Depois que o folículo dominante libera o ovócito no oviduto, forma uma estrutura amarelada denominada corpo lúteo, que passa a produzir o importante hormônio, a progesterona. A qual prepara o útero para a implantação do embrião, ajuda a coordenar a disponibilidade de nutrientes para o desenvolvimento embrionário e mantém a gestação até o parto. Vacas que apresentam concentração sérica mais elevada de progesterona depois da inseminação (durante os dias 4 a 15) têm maior possibilidade de emprenhar.

O que pode elevar os níveis de progesterona?

Uma possibilidade seria um grande corpo lúteo formado a partir de um grande folículo ovulatório. Assim, folículos dominantes maiores (até 20 mm) são frequentemente benéficos. A ovulação de folículos menores está associada a taxas mais baixas de concepção. O diâmetro do folículo dominante é geralmente maior em vacas leiteiras em lactação recebendo suplementação de gordura. Em média, o diâmetro do folículo dominante foi 3,2 mm maior (um aumento de 23%) em vacas recebendo suplementação de gordura se comparadas a vacas controle (Tabela 4). Como mostra a Tabela 4, várias fontes diferentes de gordura tiveram este efeito sobre os ovários das vacas.

Certas gorduras seriam mais eficazes que outras?

Alguns estudos compararam diferentes fontes de gordura. Em 2 estudos, o fornecimento de gorduras enriquecidas com ácidos graxos ômega-6 (ácido linoleico) ou ômega-3 (ácido linolênico ou EPA e DHA) (Staples et al., 2000; Bilby et al., 2006) estimulou a formação de folículos dominantes maiores que as gorduras enriquecidas com ácido oleico. Assim, as gorduras poli-insaturadas se mostraram mais eficazes para promover maior diâmetro folicular. Por fim, folículos maiores podem resultar de um período mais prolongado entre a regressão do CL e a ovulação, provavelmente devido ao maior tempo disponível para a síntese de estradiol, tendo um efeito de melhora da fertilidade (Peters e Pursley, 2003).

Produção de Embriões de Melhor Qualidade?

Como nem todos os embriões desenvolvem igualmente, estes são classificados como sendo de alta qualidade quando apresentam uma massa simétrica e esférica com células individuais de tamanho, cor e densidade uniformes. Os de melhor classificação têm grande possibilidade de se estabelecerem e resultarem em diagnóstico positivo de prenhez.
Na Califórnia, 154 vacas leiteiras receberam suplementação de uma mistura de sais de cálcio de ácido linoleico e trans C18:1 (EnerG I Transition Formula®) ou um sal de cálcio de óleo de palma (EnerG II®) (Virtus Nutrition) a partir de 25 dias antes do parto até os 60 dias de lactação, quando foram submetidas à IATF. Cinco dias depois da IATF, foi feita lavagem uterina para recuperação e avaliação das estruturas fertilizadas (Cerri et al., 2004). Uma maior proporção das vacas alimentadas com a mistura de ácido linoleico e ácidos graxos trans tendeu a apresentar estruturas fertilizadas, se comparadas às vacas alimentadas com a outra fonte de gordura (87 vs. 73%). Também apresentavam maior número de espermatozóides ligandos às estruturas coletadas (34 vs. 21) e houve tendência de maior número de embriões classificados como sendo de alta qualidade (73 vs. 51%).

Em um grupo maior de 397 vacas, a taxa de concepção à primeira IA foi superior no grupo suplementado com a mistura de ácido linoleico e trans (33,5 vs. 25,6%) (Juchem et al., 2004).

Não está claro se o benefício foi decorrente do ácido linoleico ou dos ácidos graxos trans contidos na mistura. Os ácidos graxos no suplemento provavelmente alteraram a composição de ácidos graxos das membranas celulares destas estruturas recuperadas do útero das vacas, melhorando sua qualidade.

Os embriões recuperados de vacas superovuladas alimentadas com semente integral de linhaça (10% da dieta) ou semente de girassol (10,5% da dieta) apresentavam maior número de células que os embriões produzidos por vacas superovuladas alimentadas com uma gordura saturada (Energy Booster 100 fornecido a 3,75% da dieta) (Thangavelu et al., 2007). O consumo de suplemento de gordura foi de 1,65 lb/dia (0,75 kg/dia). O fornecimento de gorduras poli-insaturadas parece ter impacto mais positivo sobre o desenvolvimento do embrião que os suplementos de gorduras mono-insaturadas ou saturadas.

Menor Perda Embrionária?

Cerca de 50% dos embriões morrem (~40% durante os primeiros 28 dias pós-IA e ~14% entre 28 e 45 dias pós-IA). As perdas embrionárias representam um significativo problema para a indústria leiteira. Os ácidos graxos ômega-3 têm tido sucesso consistente em reduzir as perdas embrionárias em vacas leiteiras em lactação.

Em um estudo canadense envolvendo 121 vacas holandesas (Ambrose et al., 2006b), aquelas alimentadas com linhaça amassada a 9% da dieta apresentaram melhores taxas de concepção ao primeiro serviço (P < 0,07) em comparação às vacas controle, alimentadas com sementes de girassol roladas a 8,7% da MS da dieta (48,4 vs. 32,2%). Embora as taxas finais de prenhez não tenham sido diferentes entre os grupos (67,7 vs. 59,3%), a proporção de vacas prenhes que levaram a gestação a termo favoreceu as alimentadas com linhaça (90,2 vs. 72,7%), indicando menores perdas em fase inicial e tardia nas vacas alimentadas com linhaça.

Em um segundo estudo no Canadá, conduzido em duas granjas leiteiras comerciais, as taxas de concepção de 110 vacas inseminadas foi igual para o grupo alimentado com semente integral de linhaça a 10,6% da dieta e para as alimentadas com sais de cálcio de óleo de palma (3,8% da MS da dieta) ou soja micronizada (18% da MS da dieta) a partir do parto (Petit e Twagiramungu, 2006). Entretanto, as vacas alimentadas com linhaça apresentaram menores perdas embrionárias (P<0,07).

Em 2 outros estudos, as perdas embrionárias foram numericamente, mas não estatisticamente inferiores em vacas alimentadas com linhaça (9 vs. 14% em Ambrose et al, 2006a; 8,3 vs. 16,3% em Ambrose et al., 2007). Em um estudo recentemente concluído envolvendo 1069 vacas holandesas em uma granja comercial na Flórida, vacas alimentadas com sal de cálcio de gordura enriquecida com óleo de peixe (1,5% da MS da dieta) a partir do 30 dias pós-parto apresentaram melhores taxas de prenhez aos 60 dias pós-IA que vacas alimentadas com um sal de cálcio de óleo de palma (53 vs. 46%), ajustadas para duas IATFs (Silvestre et al., 2008). As perdas embrionárias entre 32 e 60 dias pós-IA foram significativamente inferiores nas vacas alimentadas com óleo de peixe (6 vs. 12%).

Não se sabe se o efeito dos ácidos graxos ômega se manifesta via preservação da vida embrionária e produção de um embrião mais saudável ou se ocorre a supressão da produção de prostaglandinas. Vacas com concentrações mais elevadas de ácidos graxos ômega-3 no útero podem produzir menos prostaglandina F2α devido:

1) o ácido linolênico pode competir com o ácido linoleico pelas mesmas enzimas para reduzir a síntese de prostaglandina F2α.
2) os ácidos graxos ômega-3 podem substituir parcialmente os ácidos graxos ômega-6 armazenados no útero, reduzindo sua disponibilidade para a utilização para a síntese de prostaglandina F2α.

Este efeito foi demonstrado em 4 diferentes estudos, em que vacas alimentadas com ácidos graxos ômega-3 na forma de óleo de peixe, linhaça ou óleo de peixe mais linhaça apresentaram concentrações mais baixas de prostaglandina F2α na circulação quando o útero foi artificialmente estimulado através de uma injeção de ocitocina. Provalmente, os ácidos graxos ômega-6 não tem o mesmo efeito benéfico, pois são utilizados nas síntese de prostaglandina F2α.

A prova é que vacas leiteiras em lactação alimentadas com soja (Robinson et al., 2002) ou sementes de girassol (Petit et al., 2004), ambas boas fontes de ácido linoleico, o ácido graxo ômega-6, apresentaram elevação das concentrações de prostaglandina F2α na circulação quando o útero foi artificialmente estimulado através de uma injeção de ocitocina. Em resumo, a suplementação de ácidos graxos ômega-3 pode auxiliar para manter a prenhez (ou seja, evitando a morte embrionária precoce).

Satisfazer as Necessidades de Ácidos Graxos Essenciais?

O desempenho reprodutivo de animais não ruminantes, como suínos e aves apresenta melhora significativa quando se corrigem deficiências de ácidos graxos essenciais. Certamente, a vaca em lactação não demonstra sinais óbvios de deficiência de ácidos graxos, como descamação cutânea e seborréia. Os ácidos linoleico e linolenico são essenciais para a vaca, pois não podem ser sintetizados nem por seu organismo nem pelos microorganismos ruminais. Os teores dos ácidos linoleico e linolênico podem ser reduzidos em forragens durante armazenagem. Ao retirar nossas vacas leiteiras dos pastos e as levar para currais, onde são alimentadas com forragens armazenadas, reduzimos sua ingestão de ácido linolênico e possivelmente também de ácido linoleico. Embora atualmente se acredite que as ingestões de ácidos linoleico e linolenico sejam suficientes para atender as necessidades das vacas em lactação, o modelo recentemente desenvolvido, Cornell-Penn-Miner (CPM) Institute Dairy Ration Analyzer v3.0.7a (Moate et al., 2004) indica que as vacas modernas estão secretando mais ácido linoleico no leite que absorvem a partir da dieta; ou seja, elas estão em balanço negativo de ácido linoleico. Usando as informações deste modelo e a concentração típica de ácido linoleico na gordura do leite, vacas que produzem mais de 20 litros de leite estão em balanço negativo de ácido linoleico. O fornecimento de fontes de gordura ricas em ácido linoleico que possam atingir o intestino delgado pode reduzir este balanço negativo de ácido linoleico e melhorar o desempenho.

Tabela 4. Diâmetro do folículo ovariano dominante de vacas leiteiras em lactação alimentadas com suplementos de gordura maior que o de vacas alimentadas com a dieta controle (P < 0,10).

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

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TATIANA ARAÚJO

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO

EM 12/02/2010

Prezado Enilson
No Brasil temos dados de pesquisa usando Gordura Bypass rica em omegas 3 e 6 (Megalac-E) em receptoras de embrião, onde obtivemos aumento de 10 pontos percentuais nos resultados de prenhez. Nesse estudo usamos 100 g do Megalac-E durante 60 dias, sendo o início da suplementação no dia do suposto cio. Esse trabalho foi publicado recentemente no Journal of Animal Science. Se quiser saber mais informações entre no nosso site (www.qgn.com.br) ou no Mypoint (Arm & Hammer). Também estou à disposição para ajudá-lo com maiores informações.

Att

Tatiana Araujo
Gerente de Nutrição Animal
QGN - A Church & Dwight Company
RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 23/08/2009

Prezado Paulo Ortiz da Rocha,
Obrigada pela participação!
Infelizmente não sei te responder sobre a forma de utilização da semente da linhaça ou do subproduto. Entre em contato com o Alexandre Pedroso que escreve na seção de nutrição do site, ele provavelmente poderá te ajudar.
Até mais,
Ricarda.
ENILSON GERALDO RIBIERO

MOCOCA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 20/08/2009

Parabéns pelos artigos!!!
Vcs tem alguns dados do efeito destas fontes de ácidos graxos com animais em FIV e TE. Isto é, resultados mostrado o efeito da suplementação numa melhor efeiciência em FIV ou TE?
Atenciosamente,
Enilson
PAULO S ORTIZ DA ROCHA

BRAGANÇA PAULISTA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/08/2009

Gostaria de saber sobre a forma de utilização da semente de linhaça, e aonde poderia conseguir o produto. Vocês têm conhecimento sobre o uso da Borra de Linhaça, subproduto da prenssagem da linhaça para extração do óleo?
MICHEL DOS SANTOS ABRAHÃO

CORONEL VIVIDA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/08/2009

Parabéns aos autores
A associação de estudos relacionando áreas especificas da nutriçao com efeito benéfico na reprodução de vacas leiteiras é uma ótima ferramenta oferecida pelos formadores de opinião, e que, usamos diretamente em nossas atividades a campo
agregando resultados à nossa assistência técnica.
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