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Importância da progesterona antes da inseminação artificial na eficiência reprodutiva de vacas leiteiras em lactação - parte 3/3

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 08/02/2011

9 MIN DE LEITURA

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Este texto é parte da palestra apresentada por Milo C. Wiltbank, no XIV Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2010.

Para ler a primeira parte, clique aqui.

Para ler a segunda parte, clique aqui.

Importância de progesterona na fertilidade

Há muitos anos já se sabe que as concentrações mais elevadas de progesterona (P4) antes ou depois da IA estão associadas com melhora na porcentagem de vacas que emprenham com aquela IA. Estudos recentes têm mostrado algumas melhoras (aumento de cerca de 5 a 7% na porcentagem de vacas prenhes) com o uso de um CIDR (libera P4) durante o programa Ovsynch antes da IA.

Num estudo foi testado os efeitos de P4 elevado sobre a fertilidade em uma IA em tempo fixo durante o programa Ovsynch Duplo (Cunha et al., 2008). As vacas (n = 564) foram aleatoriamente divididas entre o grupo com P4 alto ou baixo durante o protocolo Ovsynch. Como mencionado acima, as vacas com P4 baixo tiveram aumento da taxa de dupla ovulação, que poderia potencialmente aumentar a fertilidade destas vacas (ovulação de mais folículos deve resultar em maior probabilidade de prenhez).

Contudo, as vacas com P4 mais baixo antes da IA tiveram uma fertilidade menor (37,1% prenhes no diagnóstico de prenhez feito no dia 29) quando comparadas com as vacas com alto P4 (51,0%; P < 0,001). Isto indica que aumentar a P4 antes da IA em tempo fixo pode resultar em melhora substancial da fertilidade, sugerindo que a razão para a menor fertilidade durante a lactação pode, pelo menos em parte, ser devida às concentrações reduzidas de P4 durante o período de tempo anterior à IA. Foi produzido, obviamente, uma redução artificial na P4 durante este estudo, mas sob condições normais as concentrações de P4 podem ser reduzidas devido ao elevado consumo de ração e ao maior metabolismo de P4 em vacas leiteiras em lactação. No futuro, programas práticos poderão ser desenvolvidos tendo como alvo a elevação na P4 circulante, de forma a aumentar a fertilidade.

Outra observação deste estudo estava relacionada à perda de prenhez. A média de perda de prenhez em vacas leiteiras de alta produção é cerca de 20%, quando a perda é avaliada entre o dia 28 (por ultrassom) e o dia 60 após a IA. Este período de tempo é crítico para a implantação e desenvolvimento do embrião. Foi observado diminuição (P = 0,056) na perda de prenhez entre os dias 29 e 57, quando as vacas alto nível de P4 (6,8% perda) x baixo nível de P4 (14,3% perda).

Assim, o grupo com alto nível de P4 além de ter um número maior de gestações no dia 29, também tiveram menor susceptibilidade à perda de prenhez depois deste momento. Isto não foi devido ao P4 após a IA, porque as concentrações circulantes de P4 depois da IA foram na verdade um pouco mais elevadas nas vacas que tinham baixo nível de P4 antes da IA (2,88 ng/ml), quando comparadas com as vacas com P4 elevada (2,49 ng/mL). Assim sendo, haverá um efeito positivo da P4 elevada antes da IA sobre a manutenção subsequente da prenhez mesmo aos 29 dias depois da IA.

Este é um achado surpreendente, que esta sendo avaliando atualmente em estudos maiores para determinar sua repetibilidade. Se este for um resultado que pode ser repetido, parece que ao desenvolver programas com P4 elevado antes da IA em tempo fixo, pode-se aumentar a porcentagem de vacas que emprenham e diminuir a probabilidade de perder estas gestações.

Conclusões

Um grande volume das informações discutidas acima foram sintetizadas em um modelo que irá ajudar a explicar as alterações na reprodução devido à alta produção de leite (Figura 2). As vacas em lactação têm necessidades energéticas maiores do que as vacas que não estão em lactação (por exemplo, a vaca que produz 50 kg/d de leite vai exigir 53 Mcal/dia de energia x 12,5 Mcal/dia para a vaca que não está em lactação; NRC, 2001).

O alto consumo de ração necessário para atender estas necessidades energéticas leva a aumento dramático no sangue que flui para o trato digestivo para captar estes nutrientes. Todo o sangue que flui através do trato digestivo irá fluir através da veia porta para o fígado. Por isto, haverá alto volume de sangue fluindo para o fígado em vacas com alto consumo de ração (como as vacas leiteiras de alta produção). Isto pode parecer insignificante, mas o fígado é o órgão que livra o organismo de muitos compostos, incluindo hormônios como P4 e estrogênio.

Assim sendo, o alto consumo de ração, através desta via simples, irá resultar na metabolização de um alto teor de estrogênio e P4 do organismo (degradação) no fígado. O resultado seria níveis mais baixos de estrogênio e P4 no sangue, que poderiam provocar problemas em muitos aspectos diferentes da reprodução. Este trabalho discutiu como a redução em P4 circulante poderia causar aumento na dupla ovulação e ocorrência de gêmeos. Além disso, a redução de P4 antes da IA poderia reduzir a fertilidade e aumentar a perda de gestações. Um programa de suplementação de P4 poderia levar a melhoras na reprodução.



Figura 2. Esquema da via fisiológica potencial que pode produzir as alterações na fisiologia reprodutiva observadas em vacas leiteiras em lactação de alta produção

Este modelo e manuscrito não pretendem deixar de lado outros métodos potencialmente vantajosos para melhorar a fertilidade. Seria de se esperar que a redução de problemas sanitários, como mastite e infecção uterina, venha a melhorar a fertilidade. Além disso, a otimização das concentrações de estrogênio durante os programas reprodutivos pode levar a novos aumentos, acima do que encontramos para a melhora de P4 durante os programas. Há muitas intervenções nutricionais que podem potencialmente melhorar o ovócito, o ambiente uterino ou o desenvolvimento embrionário, aumentando assim a eficiência reprodutiva de vacas leiteiras.

A recente ampliação do entendimento sobre a relação entre P4 e o sistema imunológico também trouxe novas questões a esta área. Por exemplo, as melhorias observadas com P4 mais elevado estão relacionadas a alterações na função imune, possivelmente alterações na imunologia do útero? Além disso, as consequências de uma maior concentração de P4 sobre outras questões sanitárias, como mastite, metrite etc., não podem ser descartadas neste momento. Futuras análises precisam determinar se há efeitos positivos ou negativos de P4 elevado sobre a função imune e a saúde global das vacas leiteiras.

Há ainda, obviamente, muitas pesquisas que precisam ser realizadas para melhorar a eficiência reprodutiva de vacas leiteiras em lactação. Claramente, a pesquisa futura deve enfocar o desenvolvimento de programas práticos que otimizem as concentrações hormonais como as concentrações pré-ovulatórias de P4, dadas as alterações dramáticas na dupla ovulação e na fertilidade depois deste estudo inicial. Além disso, há necessidade de mais pesquisas para otimizar o sistema imunológico durante período de tempo em que ocorrem importantes mudanças nas concentrações de esteróide sexual circulante, como próximo da parição ou durante o ciclo estral normal.

Pode haver métodos que podem ser usados tanto para melhorar a eficiência reprodutiva como para melhorar a função do sistema imunológico pela otimização do ambiente hormonal. Contudo, grandes estudos de campo corretamente delineados são necessários pra determinar as consequências práticas destes programas de reprodução e saúde de vacas leiteiras em fazendas leiteiras comerciais.

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RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

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RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 08/03/2011

Prezado Michel Valter Kazanovski,
Obrigada pela participação!
O Ovsynch duplo foi desenvolvido exatamente para vacas de alta produção e em anestro, pois o outro método de pré-sincronização com duas doses de prostaglandina não funciona para vacas em anestro.
Até mais,
Ricarda.
MICHEL KAZANOWSKI

QUEDAS DO IGUAÇU - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/03/2011

Cara Ricarda,

Vacas em alta produção, acima de 40lts, que estiverem em anestro, responderam ao tratamento Ovsynch duplo?

Obrigado.
Michel
RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/02/2011

Prezado WILKERSON MARQUES FRANCO,
Obrigada pela participação!
No estudo de Cunha et al. (2008) não foi usado o CIDR eles manipularam a concentração de progesterona só com alteração no protocolo duplo Ovsynch.

Grupo curto (baixa progesterona): GnRH-7d-PGF-3d-GnRH - 7d -PGF - 56 horas - GnRH - 16 h - IATF

Grupo longo (alta progesterona): GnRH-7d-PGF-3d-GnRH - 7d - GnRH - 7d -PGF - 56 horas - GnRH - 16 h - IATF

A taxa de concepção do grupo longo foi de 48,2% contra 33,2% no grupo curto. A taxa de perda de gestação entre os dias 29 até 57 após a IATF foi de 4,3% no grupo longo contra 15,6% no grupo curto. Portanto mostrando o efeito positivo do aumento da concentração de progesterona.
Até mais,
Ricarda.
WILKERSON MARQUES FRANCO

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/02/2011

Bom dia,

Parabéns pela matéria.

Citação da matéria: "Estudos recentes têm mostrado algumas melhoras (aumento de cerca de 5 a 7% na porcentagem de vacas prenhes) com o uso de um CIDR (libera P4) durante o programa Ovsynch antes da IA. Num estudo foi testado os efeitos de P4 elevado sobre a fertilidade em uma IA em tempo fixo durante o programa Ovsynch Duplo (Cunha et al., 2008).".

Através da citação acima vemos que o CIDR foi inserido no protocolo Ovsynch duplo, gostaria de saber qual o período em que ele é inserido no protocolo?

obrigado,

wilkerson.
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