ESQUECI MINHA SENHA CONTINUAR COM O FACEBOOK SOU UM NOVO USUÁRIO
Buscar

Fatores a serem considerados visando elevar as taxas de concepção em vacas de leite - Parte 1

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 06/03/2008

7 MIN DE LEITURA

9
0
Este texto é parte da palestra apresentada por Jeffrey S. Stevenson, no XII Curso de Novos Enfoques na Reprodução e Produção de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2008.

Introdução

A indústria leiteira americana do século XXI continua a passar por mudanças, com redução do número de rebanhos leiteiros e aumento do número de vacas por fazenda (Lucy, 2001). O manejo de um número crescente de vacas por pessoa é comum e aumenta a pressão sobre os animais, à medida que são confinadas e deixam de viver em um ambiente natural de pastoreio. A detecção do estro em vacas em lactação é um desafio cada vez maior, dada a limitação de espaço para a interação entre os animais e pisos de concreto que dificultam sua movimentação.

A maior freqüência de ordenhas reduz o tempo disponível de cocho e nos free stalls, limitando o período disponível para descanso e alimentação. A combinação destes fatores afetou as taxas de concepção, que declinaram ao longo dos últimos 20 anos (Lucy, 2001), não só nos EUA, como também em outros países. Mesmo no Reino Unido, em que as vacas produzem menos leite, as taxas de concepção caíram cerca de 1% ao ano desde 1983 (Royal et al., 2000). O objetivo deste trabalho é identificar e descrever alguns destes fatores inter-relacionados que determinam as taxas de prenhez do rebanho.

Fatores que afetam as taxas de submissão à IA (taxa de serviço)

Detecção de estro

A relação entre secreção de estrógeno, manifestação do estro, onda de LH e ovulação é bem conhecida (Hansel e Convey, 1983). À medida que o folículo cresce, mais estrógeno é secretado pelas células do folículo, até que se atinja um pico de concentração sérica, que desencadeia o início do pico pré-ovulatório de secreção de LH, que inicia a fase final de maturação folicular e eventual ovulação. Este processo leva 27 horas a partir da elevação inicial os níveis séricos de LH até a ruptura do folículo e expulsão do ovócito no oviduto. O objetivo da elevação dos títulos de estrógeno é desencadear a cascata hormonal de eventos que inclui a onda de LH e uma série de alterações foliculares que promovem a ovulação, além de iniciar comportamentos sexuais associados à aceitação da monta.

O sinal característico do estro é a postura de imobilidade assumida pela vaca e aceitação da monta. A expressão do reflexo de imobilidade é função do número de outras fêmeas "receptivas" com as quais a vaca em estro interage. O número de eventos de imobilidade aumenta à medida que maior número de fêmeas manifesta estro (até 3 ou 4 vacas no mesmo curral; Hurnik et al., 1975). Mais de 90% das vacas que manifestam a imobilidade estão verdadeiramente em estro. Além disso, existe grande variação no número de eventos de imobilidade por vaca (1 a 179 por estro). Já foram observados até 179 eventos por vaca. A média individual de cada evento de imobilidade é de 2,5 segundos de duração (Stevenson, 2001a). Vacas de alta produção de leite manifestam estro de duração mais curta e de menor intensidade que vacas que produzem menos leite (Lopez et al., 2004).

A tendência de monta depende do estágio do ciclo (Helmer e Britt, 1985). Em outras palavras, as fêmeas em idade fértil que estão prenhes ou na fase lútea do ciclo (sob domínio da progesterona), apresentam menor tendência de montar outras fêmeas que estejam em estro. Quase 86% das fêmeas que montam outras fêmeas estão no pró-estro ou estro (sob domínio do estrógeno). Desta forma, é essencial que as fêmeas vazias sejam mantidas com outras fêmeas vazias para máximo nível de interações comportamentais sexuais.

O tipo de alojamento e piso desempenha um papel fundamental para a expressão do "desejo" de monta e imobilidade (Vailes e Britt, 1992). Quando têm a possibilidade de escolher o tipo de piso, vacas em estro passam 73% do tempo sobre terra e não sobre superfícies de concreto. A atividade de monta de vacas aumenta 3 a 15 vezes em piquetes de terra em relação a concreto. A duração do estro e o número de eventos individuais de imobilidade também aumentam em pisos de terra.

Diversos dispositivos de detecção de estro foram comparados à observação visual (Stevenson, 2001a). A precisão e eficiência destes dispositivos, além da mão de obra necessária para mantê-los, são variáveis (Heersche e Nebel, 1990). A precisão representa o diagnóstico correto de cio pelo dispositivo. A eficiência mede a proporção de toda atividade estral detectada pelo dispositivo. O custo das marcas de tinta ou giz na base da cauda é inferior ao dos detectores eletrônicos de pressão de monta, mas precisam ser monitorados diariamente.

A interpretação de marcas de giz ou dos dados dos sensores é o que os torna úteis em um programa de detecção de cio. Quando as marcas são removidas desde a última verificação, esta vaca provavelmente foi montada intensamente. A maior parte dos técnicos experientes em IA examinam a vaca para detecção de outros sinais de estro e palpam o útero para constatação da evidência de tônus e presença de muco para confirmar a possibilidade de estro.

Tecnologias mais dispendiosas e permanentes incluem pedômetros ou "tags" eletrônicos que registram atividade e os detectores eletrônicos de pressão HeatWatch (Stevenson, 2001a). Estas 2 tecnologias são mais eficientes para a detecção de atividade que normalmente passa despercebida aos dispositivos de menor custo acima descritos. Os pedômetros têm sido utilizados para medir atividade ou movimentação da vaca através de um chip microprocessador em miniatura e o dispositivo é fixo a uma coleira ou tornozeleira. Pesquisas demonstram que uma vaca em estro anda (se movimenta) 4 vezes mais que uma vaca que não esteja em cio.

Alguns destes dispositivos podem ser consultados manualmente ou automaticamente quando a vaca entra na sala de ordenha ou através de antenas receptoras montadas acima dos currais. As informações são enviadas a um computador e comparadas à atividade individual de linha basal desta mesma vaca ao longo de um intervalo semelhante de tempo nos 2 ou 3 dias anteriores. Caso a atividade desta vaca tenha aumentado significativamente, esta vaca é identificada através de um sinal luminoso que pisca na tornozeleira ou no programa de computador, gerando um relatório para alertar o responsável, indicando a necessidade de avaliar esta vaca para possíveis sinais de cio. Pesquisas com este tipo de dispositivo indicam que a fertilidade baseada em pedometria é comparável à de vacas em que se observa o reflexo de imobilidade.

Quando a vaca é montada, o detector eletrônico de pressão HeatWatch envia um sinal de radiotelemetria para uma antena localizada fora do curral e que é direcionado para o programa do computador. O sinal inclui a identificação da vaca, horário, data e duração do evento de monta e imobilidade. Usando estes dispositivos em novilhas, estes foram precisos para a identificação de animais com períodos curtos de estro e poucos eventos de imobilidade.

Na verdade, ao comparar a precisão de identificação de cio em 49 novilhas submetidas à sincronização de estro com a detecção pelo capataz da granja, houve 100% de concordância, mas o capataz deixou de observar estro em 13 das 49 novilhas (26%), enquanto o dispositivo eletrônico identificou todos os cios (Stevenson et al., 1996). Este tipo de dispositivo tem o potencial de elevar a eficiência de detecção de cio (identificando todos os possíveis cios) em comparação à simples observação das vacas através de métodos mais convencionais.

Todos os dispositivos de detecção de estro devem ser cuidadosamente usados e seus resultados interpretados por pessoas capacitadas. As pessoas são o componente mais importante em qualquer programa de detecção de estro e IA. Habilidade na observação das vacas e bom senso são críticos para uma detecção precisa. Independentemente da técnica utilizada, o sucesso dos programas de detecção de cio dependem da dedicação das pessoas envolvidas. Um bom programa de detecção eleva o número semanal de vacas candidatas à inseminação ou re-inseminação (ou seja, aumenta a taxa de serviço).

Aplicação de programas de IA em tempo fixo

O uso de protocolos de sincronização durante qualquer estação do ano permite que todas as vacas preparadas adequadamente pela correta seqüência hormonal sejam inseminadas. Mas é no verão que este programa se mostra mais útil, considerando as dificuldades de detecção de estro durante o calor.

Freqüência do diagnóstico de prenhez

O diagnóstico de prenhez deve ser realizado semanalmente e não a cada 2 semanas ou mensalmente. Caso a detecção de estro seja adequada, as vacas não prenhes serão identificadas no primeiro cio após a IA. Por exemplo, se a taxa de detecção de cio for 50%, 50% das vacas em estro devem ser identificadas 19 a 24 dias depois da IA. As demais vacas só serão avaliadas por ocasião do próximo diagnóstico de prenhez. Neste momento, as vacas abertas serão iniciadas no protocolo de sincronização. Esta técnica permite que vacas vazias sejam re-inseminadas 9 a 10 dias depois de diagnosticadas como não prenhes ou 45 a 50 dias depois da IA (dependendo da precocidade do diagnóstico).

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

9

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

ANTÔNIO CÉSAR FERNANDES

GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/03/2008

Parabéns,

Bélissimo texto. Ele nos mostra o quanto perdemos de cio e dinheiro. Quanto prejuízo! Mostra-nos a ferramenta: I.A.T.F.. Acho que não devemos confundir as coisas. Ele não fala sobre rufião, lembremos que o fato de o rufião ajudar a detectar o cio não significa necessariamente que as vacas serão inseminadas aumentando a taxa de prenhes.

Sempre necessitamos da mão-de-obra, qur no caso de propriedades leitreiras, complica muito, pois temos muito serviço com higiene, limpeza, trato e etc., ficando difícil encontrar tempo para observar o comportamento sexual das vacas!

Acho que devemos tirar alguns dias do ês para submeter nossas vacas a inseminação pré-determinada, facilitandoinclusive, a gestão da fazenda. Desta forma, certamente elas serão inseminadas. Então, por que não usar a ferramenta I.A.T.F.? Com ela seremos mais rápidos e eficientes do que os rufiões.
RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 18/03/2008

Prezada Elídia,
O monitoramento eletrônico do cio ainda tem instalção um pouco cara, e é pouco utilizado, mas cada vez mais empresas estão disponibilizando esses sistemas. Estudos mostram que essa tecnologia é bastante eficiente quando bem utilizada. No radar do dia 01/03/2007 (Avaliação da eficiência do sistema Pedômetro para detecção de cio) tem os resultados de um estudo feito aqui no Brasil, que apontam bons resultados.
RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 17/03/2008

Prezado Leandro José,
Uma das ferramentas mais importantes para a detecção eficiente de cio é a conscientização e o treinamento das pessoas responsáveis, junto com a utilização de listas de previsão de retorno. No radar do dia 18/10/2006 Dez prioridades de um programa de observação de cio bem sucedido, você encontra algumas dicas sobre observação de cio.
Quanto aos rufiões as fazendas tem utilizado mais os machos cirugicamente modificados.

ELÍDIA ZOTELLI DOS SANTOS

SÃO PAULO - SÃO PAULO - ESTUDANTE

EM 17/03/2008

Parabéns aos professores, o artigo está muito bom, e esclarecedor.

Infelizmente os índices reprodutivos estão caindo, conforme a produção aumenta, gostaria de saber se há limitação ao uso do monitoramento digital, sobre o ponto de vista custo/beneficio, e se esse sistema anda sendo utilizado por muitas propriedades.

Obrigado.
LEANDRO JOSÉ VANZ

GUARAPUAVA - PARANÁ - ESTUDANTE

EM 17/03/2008

O artigo é muito importante, pois trata de um tema relevante na pecuária leiteira. Pude perceber que há variações entre as propriedades no uso de diferentes tecnologias de detecção de estro. Pergunto aos professores, quais métodos de detecção de cio tem sido mais eficientes para detecção de cio, em suas experiências práticas? Há diferenças no uso de rufiões ou fêmeas androgenizadas?
MARCIO

MEDIANEIRA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/03/2008

A minha propriedade fica em Medianeira oeste do Paraná temos a temperatura bastante alta no verão e muitos problemas com detecção de cio e estamos adotando a utilização do rufião espero minimizar este problema.
ADILSON FERNANDES DA SILVA

CARATINGA - MINAS GERAIS

EM 11/03/2008

Na minha região, mesmo com propriedades e rebanhos pequenos, eu não dispenso o uso de rufiões. Eu os acho mais eficientes na detecção do cio que os inseminadores e que as vacas.
MARCELO RIBEIRO RODRIGUES

TEÓFILO OTONI - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/03/2008

Este artigo foi bom, mas sem maiores definições de que devemos fazer quanto a falta de cio na fazenda.
Eu tenho uma dieta monitorada por um bom nutricionista, no entanto, continua faltando cio em minha fazenda, e sou obrigado a fazer protocolo de no mínimo 30 vacas por mês no plantel de 180, o que fica muito caro desde que o preço por vaca (incluindo o sêmen ao preço de R$ 20,00) fica em torno de R$ 45,00, e na maior parte das vezes não consigo atingir os 50% de prenhez. O que nos dá o montante de quase R$100,00 por prenhez.

Hoje em dia ele é o ponto negativo crucial da fazenda e creio que mesmo adotando os tags eletrônicos não vejo como mudaria desde que no toque anterior ao protocolos raramente o veterinário detecta uma vaca que deu cio sem que o vaqueiro percebesse.

Resultado disto é que hoje estou com apenas 91 vacas no curral, e terei este ano apenas 125 partos (de janeiro a dezembro).

Se eu tivesse uma relação ideal de vacas paridas, em vez de 1.170 litros de leite hoje produzidos estaria bem perto dos 2.000 lts, ou mais.

Seria de imenso valor se pudessem me ajudar neste tocante porque é essencial que isto aconteça para que a fazenda pudesse ter um fluxo de caixa positivo.

Agradeço de ante-mão.
Marcelo
MATEUS MOREIRA DA SILVA

UBERABA - MINAS GERAIS

EM 08/03/2008

Parabéns aos professores.
De grande valia é este conteúdo publicado.
O trabalho buscando ferramentas para se obter um maior entendimento e monitoramento, dos fatores internos e externos, no condizente à reprodução bovina é de suma importância na busca constante de bons índices reprodutivos e conseguentemente melhorar os números em relação a produtividade da propriedade.
Atenciosamente.
Mateus Moreira.
MilkPoint AgriPoint